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Anoitecer na Terra de Tell

Alexandre Cossenza

30/12/2019 04h00

No sign of life did flicker
In floods of tears she cried
"All hope's lost it can't be undone
They're wasted and gone"

Este é o conto de um soldado que mais de mil batalhas venceu. Mais de 100 territórios conquistou. Da terra da Rainha Calafia até a Terra da Longa Nuvem Branca. Na floresta, na lama e no cascalho ele lutou. Mil e quinhentas suas batalhas, mil e duzentas suas vitórias. Planejou, guerreou e avançou até formar um império extenso de léguas tantas e impossíveis de demarcar.

Figura nobre da linhagem da Terra de Tell, era exímio no uso da besta. Sua precisão assombrava súditos e rivais com igual convicção. Contra guerreiros rivais, foi soberano. De incontáveis posses foi dono. Até que aos alquimistas do império, encomendou um assento forjado no tecido mais raro do condado. E assim, no trono de Luxilon sentou e reinou.

"Save me your speeches
I know (They blinded us all)
What you want
You will take it away from me
Take it and I know for sure
The light she once brought in
Is gone forevermore"

Rei de uma Terra de Tell cada vez mais vasta, regente ele seguiu por décadas. Incontestável e imperturbável, um envolvente encanto provocava nos povos. Conta a História, contudo, que soberania alguma é eterna. Desafiantes donos de armas modernas e manobras mirabolantes eventualmente despontaram nas fronteiras do império.

Primeiro a ameaçar o monarca, o Esquerdista das Astúrias, primeiro de seu nome, mostrou sua aptidão para a batalha no barro, mas derrotas doídas na floresta do reino sofreu. Resiliente, o asturiano estudou, aperfeiçoou a arte militar na mata até que, em um anoitecer na Terra de Tell, fez tombar o tirano. Os súditos, insatisfeitos, tiveram de tolerar o jovem e rústico rei.

Totalmente terminado não era, contudo, o tempo do descendente de Tell. O rei deposto manobrou magistral remontada. Diante de um asturiano falseando com um ferimento de batalha, massacrante foi o mestre da besta. No barro, triunfou sob a tormenta. Na mata, retomou o que lhe havia sido mutilado.

Like sorrowful seaguls they sang
"(We're) lost in the deep shades
The misty cloud brought
(A wailing when beauty was gone
Come take a look at the sky)
Monstrous it covered the shore
Fearful into the unknown"
Quietly it crept in new horror
Insanity reigned
And spilled the first blood
When the old king was slain

Uma nova e turbulenta era nascia. Novas forças surgiam, e o trono trocaria de mãos seguidas vezes em reinados curtos. Primeiro, com o asturiano retomando o reinado no verão seguinte. Mais tarde, com a ascensão do Esguio Eslavo e suas manobras espartanas no campo de batalha.

O novo monarca expandiu as fronteiras e tomou para si os Quatro Condados, os locais mais abastados da Terra de Tell. A última conquista, um triunfo a galope na Gália, não veio sem extenuante esforço. Era o último desejo do Eslavo. Naquela província de campos barrentos e alaranjados, duras e inesperadas derrotas ele sofrera.

Repousar, então, o lorde eslavo decidiu. Do trono, desceu e galopou mais uma vez. A um retiro, consultar-se com um xamã, ele rumou. Amor e paz pregava o eremita, cujas palavras tornaram o Esguio velozmente vulnerável. O palácio, portanto, foi tomado pelo Bruço Bretão, filho de Judy, a Sábia. O jovem de saias foi o primeiro de sua linhagem a ocupar um trono em mais de 70 verões.

Nightfall
Quietly crept in and changed us all
Nightfall
Quietly crept in and changed us all
Nightfall
Immortal land lies down in agony

O caos, então, reinou na terra. O poder trocava de mãos, a desordem se propagava. Sedição surgiu. Uma nova geração de desafiantes ousou contestar o sistema. De toda parte, apareciam. No Reino do Leste, um soldado mostrava aptidão em combate no lodo. Na Germânia, o Gigante da Grande Glande angariava glórias. Na Terra Gelada, um magnífico e maquiavélico menino maquinava uma virada de mesa.

Da Terra de Zeus, zarpou Stefanos, o sofista. A Grande Cidade Latina também teve seu centurião tentando restaurar a glória de outros tempos. A Vila do Norte produziu um loiro de longas madeixas, e a Terra Australis, famosa por fomentar fanfarrões, também fez uma fornada fascinante de desafiantes. Logo, o que um dia foi a antiga Terra de Tell tornou-se território de todo tipo de tribos e costumes diferentes em conflito.

How long shall we
Mourn in the dark
the bliss and the beauty
Will not return

Diante de diligentes desafiantes, porém determinado a finalmente conquistar os Cinco Anéis, para o Oriente rumou o Helvético. Quando à Terra do Sol Nascente chegou, uma divindade desejou decifrar. À floresta, buscou o Grande Espírito, dotado de imortalidade e invulnerabilidade, senhor da vida e da morte. Sábio e súdito em sintonia entraram. Com Shishigami, surgia uma simbiose sem similar que superpoderes ao Suíço servia.

"Oh I'm heir of the high lord!"
"You better don't trust him"
The enemy of mine
Isn't he of your kind and
Finally you may follow me
Farewell
He said

Feroz foi a Batalha dos Cinco Anéis. Fascinante e aterrorizador, o guerreiro da Terra de Tell fez tremer a terra. Sob o último sol, para si tomou a esfera solitária de ouro. Soberano e sagaz, ciente dos poderes que não suportaria sustentar além do Sol Nascente, ali mesmo decidiu sair de cena pela última vez. Do sucesso ao sagrado. Anoiteceu na Terra de Tell.

Nightfall
Quietly crept in and changed us all
Nightfall
Quietly crept in and changed us all
Nightfall
Immortal land lies down in agony

Da vitória para a história para o divino. Daquele dia em diante, descendente de Tell e Grande Espírito vistos nunca mais foram. Sabe-se, somente, que de xoguns e samurais há relatos de aparições e sussurros de um ser superpoderoso no silêncio que antecede batalhas. Metade homem, metade espírito. Um Andarilho Noturno capaz de ver passado, presente e futuro.

Uma única crônica curiosamente contemporânea veio à tona via um aflito ancião. Com longo pelo cinza escorrendo de sua cabeça e paletó negro a protegê-lo, caminhava carregando escritos e pregando o que chamava de tempo subsequente. Detido, trancafiado e silenciado foi o velho. O documento, um colóquio chamado Augúrios do Andarilho, apreendido a apodrecer nos arquivos do novo monarca. "O tempo é o que é", declarava o Asturiano do alto do Trono de Luxilon.

Não contava o déspota, contudo, que da masmorra, em uma noite de tormenta, desaparecesse o ancião. Da Terra de Tell, foi-se para não mais retornar. À boca pequena, os supostos Augúrios se alastravam. Sobre mais um recorde asturiano eles tratavam. Mais sofrimento do Bretão eles sublinhavam. Do Esguio Eslavo, exacerbavam excelência longeva. Um novo e jovem campeão surgiria na Região das Rainhas.

Pouco restou após a Era Aberta de Terra de Tell, os Augúrios também descreviam. Um só governante os Quatro Condados jamais teriam novamente. E o que viria depois desta terra arrasada? Um domínio de Dominic, do Reino do Leste, o Primeiro Depois dos Quatro, o Devastador de Devoluções, a Besta dos Backhands, a Divindade do Doce de Leite.

Como aconteceu o assalto de Dominic ao posto de déspota? Incompletos e imprecisos eram os relatos. Dizia um escrito sobre um encontro entre o jovem monarca e o ancião, que por duas iniciais Jota atenderia. O documento descrevia o diálogo em que o longevo sábio citava um antigo duque, ancestral do austríaco, como segredo para o sucesso. Em Otto o monarca havia de se inspirar. Otto Patamar.

Para quem não lê o Saque e Voleio há muito tempo, a explicação: eu tinha o hábito de escrever textos fantasiosos todo fim de ano, sempre com alguma espécie de previsão do futuro. Decidi retomar o costume este ano e publico aqui o conto deste ano antes de reproduzir no blog. Os trechos em itálico são da canção Nightfall in Middle-Earth, da banda alemã Blind Guardian, de onde saiu parte da inspiração para o texto deste ano. A ilustração que abre o post é retirada da capa do álbum de mesmo nome.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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