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Tênis: tecnologia dupla causa confusão em torneio 'inovador'

Alexandre Cossenza

07/11/2019 16h11

Desde 2006, o tênis usa a tecnologia como auxílio para a arbitragem. O mais popular desses sistemas é o Hawk-Eye, em que uma série de câmeras rastreia a bola e, com um margem milimétrica de erro, mostra se o quique foi dentro ou fora da quadra. O mecanismo ficou popularmente conhecido como "replay", mas não se trata de uma repetição da imagem. É, na verdade, uma projeção do movimento da bola e, por isso, existe, sim, uma pequena margem de erro.

Desde o ano passado, a ATP decidiu testar um sistema de "video review", em que o árbitro de cadeira pode analisar imagens – replays de verdade – para tirar dúvidas. Pode acontecer em casos de dois quiques, quando não há certeza se houve um segundo pique da bola no chão antes do golpe do tenista ou, como aconteceu ontem, pela primeira vez, quando o árbitro usou o replay para constatar que a bola tocou no telão no alto do ginásio.

Nesta quinta-feira, porém, ficou claro que nem toda a tecnologia do mundo vai impedir que haja falhas ou confusão na arbitragem. Mesmo com o uso do Hawk-Eye e do Video Review, houve dúvida e muito tempo perdido até que a arbitragem tomasse a decisão correta – sim, felizmente houve acerto e a justiça foi feita.

Aconteceu em Milão, no Next Gen ATP Finals, torneio que reúne oito dos melhores tenistas do mundo com até 21 anos. É um evento que a ATP chama de "inovador" porque, apesar de não contar pontos para o ranking, é usado para testar novidades. Uma delas é o Hawk-Eye automático, em que todas as marcações de linha são feitas de forma computadorizada. Outra delas, por exemplo, é que este ano os tenistas podem usar tecnologia wearable em quadra, registrando informações como velocidade, direção, aceleração e força usadas pelo atleta. Mas eu divago.

O sérvio Miomir Kecmanovic (20 anos, #60 do mundo) enfrentava o espanhol Alejandro Davidovich Fokina (20 anos, #87) quando, ainda no primeiro set, Fokina devolveu uma bola aparentemente longa. O Hawk-Eye automático não marcou nada, o que significaria bola boa e ponto do espanhol, mas Kecmanovic contestou com a árbitra de cadeira, a francesa Aurélie Tourte. E aí ficou claro que haveria uma confusão. A oficial consultou alguém pelo rádio e recebeu a seguinte resposta: a bola tocou na raquete do sérvio antes de quicar no chão, por isso não houve marcação por parte do Hawk-Eye.

Kecmanovic sabia que a bola havia tocado no chão antes de resvalar em sua raquete e, por isso, pediu o "video review" – ou seja, que a árbitra visse o replay do lance para constatar que houve o quique antes do toque na raquete. Houve uma pequena demora antes que a imagem fosse mostrada no telão e, mesmo quando isso aconteceu, Tourte pergunta no rádio: "Tocou na raquete antes, certo?" A resposta, do outro lado, veio assim: "A decisão é sua."

A árbitra volta-se para Kecmanovic e diz o mesmo que antes: "eles não têm o quique". O tenista rebate: "Mas dá para ver." É aí que a árbitra diz "Eu posso ver o quique, mas não sei se…" Ela interrompe a frase no meio e pergunta novamente pelo rádio: "Podemos chamar a bola fora ou não?" A resposta é inconclusiva: "O sistema não chamou a bola fora."

Tourte, então, vira-se para quem eu suponho que seja o supervisor do torneio, perguntando se ela pode passar por cima do Hawk-Eye, que claramente falhou. Aparentemente, ninguém estava pronto para o caso de uma tecnologia (video review) invalidar a outra (Hawk-Eye), mas foi isso que aconteceu. Depois desse vaivém e de receber uma resposta afirmativa, Aurélie Tourte finalmente explica a situação aos dois tenistas e confirma que foi possível ver no vídeo que a bola quicou fora antes de tocar na raquete de Kecmanovic. E, no fim, o sérvio ficou merecidamente com o ponto, e o público aplaudiu o bom senso da árbitra.

Coisas que eu acho que acho:

– Moral da história? A falha feia foi do Hawk-Eye automático, que não registrou a bola fora – apesar de o quique ter acontecido antes que a bola tocasse na raquete de Kecmanovic. O Video Review, no fim das contas, impede o erro, o que é ótimo. Não-tão-ótimo, porém, foi o processo. Ninguém entendeu por que o Hawk-Eye não funcionou, e a árbitra de cadeira não sabia o que fazer quando a situação fora do comum se apresentou. É algo que precisa ser trabalhado. E que fique bem claro para todo mundo que o Hawk-Eye não é esse sistema infalível que é vendido (e comprado!) por muita gente, inclusive por quem pede seu uso no saibro.

– Em um torneio "normal", o problema possivelmente não teria acontecido. Ou, na pior das hipóteses, não teria sido tão complicado e demorado de solucionar. Afinal, todos eventos da elite ainda contam com juízes de linha, e o Hawk-Eye só entra em ação quando há dúvida. E qualquer juiz de linha chamaria aquela bola fora. Caberia à árbitra decidir apenas se a bola tocou ou não na raquete de Kecmanovic antes do quique. Vida longa aos árbitros humanos.

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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