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Saque e Voleio

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Victor, o Estrella Guia

Alexandre Cossenza

10/10/2019 04h00

Numa conversa em Campinas com Patricio Arnold, o renomado treinador argentino me falava sobre a importância de ficar. Para ele, "ficar" é aguentar, resistir, continuar trabalhando e acreditar, mesmo durante os momentos ruins, que os resultados virão. O técnico de João Menezes prega que antes de cada subida de nível, é preciso saber ficar. E não são todos que nascem com esse dom ou aprendem isso durante a carreira.

Victor Estrella Burgos, dominicano de 39 anos que encerrou a carreira esta semana, no Challenger de Santo Domingo, soube, mais do ninguém, ficar. Até os 27 anos, não conhecia a experiência de disputar um torneio ATP. Só "estreou" nesse nível quando furou o quali do Masters de Cincinnati, em 2008. Perdeu na primeira rodada. Paciência. Estrella Burgos ficou.

Jogar um ATP só aconteceu de novo para o dominicano em 2013, quando novamente passou pelo torneio qualificatório – desta vez, em Bogotá. Nessa época, ele já tinha 32 anos e ainda não sabia o que era figurar no top 100. Não importava. Ele não desistiria. Estrela Burgos ficou.

Foi só em 3 de março de 2014 que a entrada na "elite" aconteceu. Naquele dia, depois de conquistar um Challenger em Quito, outro Bogotá, mais um em Morelos e um quarto em Salinas, Estrella Burgos apareceu como número 99 no ranking da ATP. Pouco depois, aos 33, estreou em Roland Garros. Foi seu primeiro slam. Perdeu na primeira rodada, mas saiu festejado.

Para muitos, chegar aos 100 e disputar um slam significaria coroar uma carreira bela, de um tenista determinado e que, depois dos 30, poderia estar olhando para a reta final de seus dias como profissional. Ora, para muitos (a maioria, ouso dizer) chegar aos 30 sem estar no top 100 seria um aviso para pendurar as raquetes. Não para ele. Estrella Burgos ficou.

Ficou no top 100, jogou a chave principal de cada slam pelo menos três vezes, alcançou uma terceira rodada em Nova York e chega ao fim da carreira com mais de US$ 2 milhões conquistados em prêmios. Sua melhor posição no ranking foi o 43º posto, em 2015, com 34 anos. Isso tudo com um tênis longe de espetacular. Seu saque nunca foi uma arma de verdade no nível ATP e seu backhand de uma mão limitava-se a slices em 90% dos pontos. Sua direita, sim, andava bem, mas nem era tão consistente assim para a elite.

Tudo isso porque Estrella Burgos ficou. Ficou e descobriu uma maneira de ser competitivo com suas armas. Conquistou o ATP de Quito, na altitude, três vezes seguidas (2015-17). Foram suas "únicas" três finais no circuito. Hoje, a "Estrella" finalmente se apaga. Sai das quadras para entrar nos livros e nas estatísticas – e, por que não, na história (pelo menos em seu país).

Victor Estrella Burgos deixa, acima de tudo, um exemplo. Um modelo de determinação, de ética de trabalho e persistência. Uma história para olhar, analisar e passar adiante até o fim dos tempos. Uma "Estrella Guia" que merece de todos o comportamento sugerido pelo narrador:

"Pónganse de pie y aplaudan."

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.