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Medvedev: insinuante, incansável e acumulando números invejáveis

Alexandre Cossenza

24/09/2019 08h00

Entra semana, sai semana, entra semana, e Daniil Medvedev segue desafiando as estatísticas e os céticos. Da final em Washington, ainda no começo de agosto, ao título de São Petersburgo, conquistado no último domingo, o russo de 23 anos continua acumulando números impressionantes e uma lista invejável de vítimas. Além disso, chega à espetacular marca de cinco finais consecutivas – algo raro até para os "imortais" Federer, Nadal e Djokovic, ainda mais porque a série de Medvedev inclui um slam, dois Masters 1000, um ATP 500 e apenas um ATP 250.

Tão raro, repito, que Federer não faz algo assim há mais de uma década. Sua última série de cinco decisões foi na temporada 2007, quando ainda reinava soberano, antes da consolidação do Big Four, quando Nadal, Djokovic e Murray passaram a brigar por títulos em todos torneios. Rafa, por sua vez, não repete cinco decisões seguidas desde o primeiro semestre de 2013, quando voltava de mais uma lesão no joelho. Novak Djokovic, atual número 1 do mundo, foi o último antes de Medvedev e decidiu cinco torneios de forma consecutiva no ano passado, de Cincy ao ATP Finals.

E não é só isso. O russo, atual #4 do mundo, supera o trio de ferro em vitórias totais na temporada, vitórias na quadra dura e número de finais disputadas (veja o gráfico abaixo). É claro que nem todo jogo vale o mesmo, e as cinco finais perdidas em 2019 (para Nishikori, Thiem, Kyrgios e Nadal 2x) têm peso considerável em sua atual posição na ATP. Em todo caso, o conjunto da obra impressiona e explica os atuais 5.305 pontos na conta de Medvedev, que ainda é obrigado a descartar 780 pontos de cinco torneios que não entram na lista de seus 18 melhores resultados, respeitando as regras da ATP (quatro slams, nove Masters, três 500 e dois 250).

O que explica o sucesso do russo? Tecnicamente falando, a resposta passa necessariamente por seu jogo nada ortodoxo, cheio de recursos que não são tão fáceis assim de perceber. Medvedev sabe controlar a velocidade das trocas de bola, possui um belo saque e sabe o que fazer junto à rede. Além disso, defende-se como poucos, aproveitando uma velocidade lateral impressionante, que não é tão óbvia assim por causa de suas pernas compridas e passadas largas (alguém o classificou como o tenista lento mais veloz da história – vejam o vídeo abaixo e entendam!). É um pacote raro no tênis e que quase sempre deixa oponentes confusos durante as partidas. Gosto de rotulá-lo como "insinuante" porque atrai o rival para um tipo de jogo que lhe facilita a vida.

O desafio geralmente começa com suas bolas chapadas e sem tanto peso, que desafiam o adversário a gerar potência e arriscar em busca de winners. Como Medvedev aparentemente consegue passar 874 horas sem errar uma bola dessas, o cidadão do outro lado da rede vê sua chance de ganhar o ponto diminuir a cada rebatida. Há quem prefira tentar "igualar" o russo e devolver bolas sem peso. Isso quase sempre significa cair na armadilha de Daniil, que tem bolas pesadas para agredir quando quer. E se o rival não se defender tão bem quanto o russo, a balança já mostra uma diferença considerável aí.

Grigor Dimitrov caiu nesta arapuca nas semifinais do US Open. Jogou dois sets atacando menos do que o normal, apostando em um tênis mais paciente. Perdeu ambas parciais e viu-se sem saída no terceiro set. Neste domingo, a história não foi muito diferente para Borna Coric, o outro finalista de São Petersburgo. Diante de um rival afiado e consistente, o croata decidiu mudar após perder o primeiro set por 6/3. Em seu primeiro game de saque no segundo set, Coric tentou subir à rede (levou uma passada); jogar um rali mais longo (cometeu um erro não forçado); e tentou mais slices.

As bolas fatiadas, que também funcionaram para Nadal na final do US Open, salvaram três break points para Coric, mas não era um jogo que o croata se sentiria à vontade fazendo até o fim. E quando, apesar dos slices, perdeu o saque no segundo game do terceiro set, a virada ficou impraticável.

Só que os méritos de Medvedev não são só técnicos. São também físicos. Quantos tenistas resistiriam à sequência insana de torneios até a final do US Open? Do dia 30 de julho, quando estreou em Washington, até 8 de setembro, data da decisão do US Open, Daniil fez 23 partidas, terminando a série com o duelo de 4h51min com Rafa Nadal no Arthur Ashe Stadium.

Medvedev também tem (enorme!) mérito mental. Primeiro porque não se deslumbrou ao abater Djokovic em Cincinnati e foi campeão superando Goffin no dia seguinte. Chegou ao US Open com status de quarto maior candidato ao título e não decepcionou. Lidou bem com a pressão e não deixou as vaias do público afetarem sua concentração. Lutou até o fim contra Nadal quando muitos teriam se dado por satisfeitos perdendo a decisão por 2 sets a 0 e voltariam felizes para casa com uma final de slam.

E, por fim, chegou a São Petersburgo badalado, cabeça de chave 1 em um torneio no seu país. Poderia ter subido à cabeça. Longe disso. Medvedev fez quatro jogos e não perdeu um set sequer, derrotando Donskoy, Rublev, Gerasimov e Coric. O que ele é capaz de fazer ainda este ano? Difícil prever, mas será muito interessante acompanhar…

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Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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