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Saque e Voleio

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Com Taylor Townsend, o saque-e-voleio resiste

Alexandre Cossenza

30/08/2019 04h00

Raquetes mais leves, cordas mais modernas, bolas mais pesadas, atletas mais rápidos, pisos mais lentos, devoluções mais potentes… Há um zilhão de explicações para o desaparecimento do saque-e-voleio como modo de vida no tênis mundial. São cada vez mais escassos os atletas que jogam assim dia sim, outro também. São cada vez mais raras as vitórias sobre tenistas da elite em que alguém saca e voleia o tempo inteiro. Só que de vez em quando, apenas de vez em quando, o saque-e-voleio brilha em uma quadra central. E é sempre especial quando isso acontece.

No caso desta quinta-feira, o mérito é da americana Taylor Townsend, 23 anos, alguns quilos além do ideal atlético, número 1 do mundo como juvenil, excluída anos atrás da lista de tenistas auxiliados financeiramente pela USTA, a federação americana, por causa de seu peso. Hoje, no Estádio Arthur Ashe, ela abateu Simona Halep, campeã de Wimbledon, por 2/6, 6/3 e 7/6(4). O número chave para esse triunfo? Anotem aí: 106 idas à rede.

Dessas 106 idas à rede, 61 foram no saque-e-voleio, que se mostrou o elemento crucial da virada. Sim, enquanto ficou mais atrás, no fundo de quadra, Townsend deixou Simona Halep em sua zona de conforto. A romena, uma das tenistas mais consistentes do mundo jogando na linha de base, podia jogar seus ralis, construir os pontos e movimentar de um lado para o outro uma adversária mais pesada e menos ágil. Fez 6/2, quebrando o saque da americana duas vezes e salvando os dois break points que cedeu.

Atual #116 do mundo, Townsend viu que seu US Open acabaria rápido se não fizesse algo de diferente – a não ser que Halep caísse de rendimento, o que não parecia muito provável naquele momento. A americana, então, decidiu: dona de um belo saque e um voleio invejável para os padrões da WTA atual, era o momento de partir para o ataque. Halep sentiu. A partida mudou.

A americana colocou a ex-número 1 do mundo sob pressão constante. Halep passou a precisar de devoluções mais precisas. Além disso, perdeu o "conforto" dos ralis. Não era mais possível construir pontos. Era preciso destrui-los com uma bola. Duas, no máximo. Townsend voleava bem, exigia mais da número 1. Foi assim que registrou duas quebras e venceu o segundo set.

Na frieza dos números, Taylor venceu 60% dos pontos quando foi à rede. Não é um aproveitamento tão alto, mas que vale a pena em consequências que não aparecem nas linhas estatísticas. Halep já não tinha a vantagem de jogar a rival para um lado e para o outro. E mais: a romena não está acostumada com esse tipo de jogo. Na hora de jogar um break point, faz diferença. Como acabou fazendo. Halep teve um match point no 12º game e não conseguiu fazer uma devolução de direita quando Townsend subia à rede.

Na coletiva, a americana falou sobre seu plano de jogo: "Muitas das vezes eu estava jogando para não perder. E contra uma jogadora assim, tão sólida e com tanta experiência, isso não vai funcionar. Então eu pensei 'O que você tem a perder? Vou fazer o que faço melhor', onde fico mais à vontade, que é junto à rede. Eu ganhei muitos pontos, perdi pontos – perdi pontos grandes – mas fui recompensada no fim. Isso foi o que me deu mais satisfação." Townsend também afirmou que "foi uma confirmação de que esse estilo de jogo funciona e que posso continuar a executá-lo."

Não vai acontecer sempre. Halep poderia ter jogado melhor e, lembremos, a romena esteve a um ponto da vitória. Uma devolução certa a mais da romena, e em vez de celebrar o jogo ofensivo de Townsend, as avaliações estariam pendendo mais para "kamikaze" do que para "inteligente". O que importa, no entanto, é que Townsend teve recursos para mudar o jogo e sair com a vitória. E, como escrevi lá no alto, quando funciona, é lindo de ver.

Obrigado, Taylor.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.