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Saque e Voleio

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Nova quadra, velho campeão: uma retrospectiva de Roland Garros em 31 curtinhas

Alexandre Cossenza

11/06/2019 05h00

Chegamos ao fim de duas semanas intensas de tênis, com dois torneios bastante distintos. Enquanto os principais nomes da chave feminina foram caindo rodada a rodada e dando um ar de imprevisibilidade ao torneio, a chave masculina viu os favoritos avançando, e as semifinais tiveram os quatro primeiros colocados do ranking. No fim, Roland Garros coroou os talentos de Ashleigh Barty e Rafael Nadal. A australiana conquistou seu primeiro slam. O espanhol, seu 12º apenas no saibro francês.

Há muita coisa a dizer sobre o que aconteceu nos 15 dias de torneio, então publico aqui as tradicionais curtinhas pós-slam. Aproveito desde já para agradecer a companhia nas redes sociais, audiência e o carinho dos leitores que, como sempre, registraram números impressionantes por aqui. Agora é com vocês. Rolem a página, leiam e, no fim, deixem suas opiniões.

1. Rafael Nadal fez mais uma campanha brilhante em Paris. Perdeu só um set antes da final (para Goffin, que fez uma bela apresentação) e foi novamente brilhante em uma decisão. Exigiu o máximo de Dominic Thiem, que tentou ser consistente e, depois, ser mais agressivo. Não obteve sucesso com nenhum dos planos de jogo.

2. Nadal se tornou o primeiro tenista a vencer 12 vezes o mesmo slam. Até o sábado, ele dividia o recorde com a australiana Margaret Court, que venceu o Australian Open 11 vezes (a primeira, em 1960, e a última, em 1973).

3. Dominic Thiem fez mais um torneio excelente. Foi sua segunda final seguida e a quarta vez consecutiva alcançando pelo menos as semifinais de Roland Garros. Só foi parado por Rafa e Djokovic (2016) nos últimos três anos. O austríaco de 25 anos, atual número 4 do mundo, é mais um para a lista do "já teria vencido um slam não fosse por Nadal."

4. Roger Federer também merece destaque. Teve uma chave fácil, mas alcançou as semifinais após uma brilhante vitória sobre Stan Wawrinka, outro que fazia um lindo torneio e bateu Garín, Dimitrov e Tsitsipas. Poderia ter tido mais sorte contra Nadal, mas viu o espanhol fazer uma belíssima apresentação em condições duríssimas de jogo (muito vento).

5. Novak Djokovic fazia um belo torneio até as semifinais, mas deixou muito a desejar no duelo com Thiem. Reclamou demais do vento, queixou-se do árbitro e fez um quinto set ruim, sem aproveitar as chances dadas pelo austríaco na parcial decisiva.

6. Ashleigh Barty é uma história deliciosa de contar. Uma menina que foi campeã juvenil de Wimbledon aos 15 anos e largou o tênis aos 18 para viver algum tempo como uma adolescente normal. Virou jogadora de críquete profissional, voltou ao tênis aos 20 e agora, aos 23, é campeã de slam. E fez isso logo no saibro, onde menos esperava.

7. Barty, que é a nova #2 do mundo, admitiu que os planetas se alinharam para ela nestas duas semanas. É verdade. Ela poderia ter enfrentado Serena Williams nas oitavas, mas a americana caiu uma rodada antes. Poderia ter encarado Naomi Osaka nas quartas, mas foi Madison Keys quem avançou naquela parte da chave. A rival da semi era para ser Simona Halep, atual campeã, mas a romena tombou diante da talentosas, mas inexperiente Amanda Anisimova. Logo, Barty chegou às semis com a moral de uma veterana e bateu Anisimova e Marketa Vondrousova, duas adolescentes, para conquistar merecidamente o título.

8. A desistência mais doída da chave feminina foi a de Kiki Bertens, motivada por uma virose. Ela abandonou ainda na segunda rodada, perdendo o primeiro set por 3/1 para Viktoria Kuzmova. A holandesa de 27 anos chegou a Paris no melhor momento de sua carreira, como número 4 do mundo e vindo de um título em Madri e uma semi em Roma. Era, talvez, sua melhor chance na carreira de vencer um slam (por enquanto).

9. Foi impressionante a atuação da jovem Sofia Kenin, 20 anos, na vitória sobre Serena Williams por 6/2 e 7/5. Mostrou peso de bola, coragem e personalidade. Não se intimidou com os gritos da veterana nem com as vaias do público. Gritou em todos pontos importantes, sem se importar com o tamanho da adversária, e não tremeu na hora de fechar a partida.

10. Aos 37 anos, Serena Williams já não mostra a forma de antes – nem física nem técnica – e dá a entender que só continua no circuito porque quer igualar e, quem sabe, superar a marca de 24 títulos de slams em simples. O recorde é da australiana Margaret Court. Se Serena acredita que esse recorde lhe dará algum tipo de validação extra, tendo a achar que a insistência pela marca só enfraquece seu significado. Falarei com mais calma sobre isso em um post durante a próxima semana.

11. A americana Anna Tatishvili foi multada em US$ 51.520 – valor equivalente ao prêmio em dinheiro para quem perde na primeira rodada. Ela foi derrotada por 6/0 e 6/1 pela grega Maria Sakkari em 55 minutos, e oficiais de Roland Garros reviram o vídeo do jogo e julgaram que Tatishvili não se esforçou o bastante. A americana, que não jogava há 18 meses, período no qual passou por três cirurgias no tornozelo. O relato da partida no site da WTA aponta para uma atuação dominante de Sakkari e não menciona problemas da americana.

12. Difícil escolher o melhor jogo do torneio, Um sério candidato foi o encontro de segunda rodada entre Benoit Paire e Pierre-Hugues Herbert. Os franceses fizeram um memorável duelo de cinco sets, que acabou depois das 21h em Paris, com o placar mostrando 6/2, 6/2, 5/7, 6/7(6) e 11/9 para Paire. Um fim de jogo dramático, com nível de tênis altíssimo, numa quadra Suzanne Lenglen cheia, com o público de pé, participando intensamente de um duelo entre amigos e compatriotas. Tudo conspirou para um raro momento, inclusive o quinto set longo, sem tie-break, que resiste bravamente em Roland Garros.

13. A história do jogo também contribuiu para o fim dramático. Paire sacou para o jogo no terceiro set e foi quebrado. Sacou para o jogo no quarto set e foi quebrado. Teve match point no tie-break e não converteu. Ainda começou o quinto set perdendo o serviço, mas não desistiu. Esteve em desvantagem duas vezes e correu atrás. Foi recompensado após 4h33min de jogo. É claro que o quinto set longo não foi o único responsável pelo momento glorioso daquela quarta-feira, mas se tudo conspira a favor e o regulamento colabora, o tênis só tem a ganhar. Há quem acredite que as partidas precisam ser mais curtas para atrair mais fãs. Pois vejam o público em êxtase no fim da partida. Eu apostaria um punhado de euros (se os tivesse) que ninguém na Lenglen – NINGUÉM – saiu preocupado com a duração do espetáculo.

14. Ainda falando em franceses, foi linda a história de Nicolas Mahut, que não chegava à terceira rodada em Roland Garros desde 2015. E o fez graças a um wild card, com triunfos memoráveis. Primeiro, protagonizou uma zebraça batendo Daniil Medvedev de virada: 4/6, 4/6, 6/3, 6/2 e 7/5. Depois, eliminou Philipp Kohlschreiber por triplo 6/3. Aos 37 anos, Mahut entrou no torneio como apenas o #252 em simples e, na coletiva de quarta-feira, contou que pensou em devolver o wild card. Revelou também que cresceu vendo pela TV franceses fazendo ótimas partidas e imaginou, depois de 20 anos de carreira, se isso nunca aconteceria com ele na vida. Pois é, aconteceu.

15. O melhor jogo do torneio, melhor mesmo, do começo ao fim, foi a vitória de Stan Wawrinka sobre Stefanos Tsitsipas. Os dois jogaram um tênis de altíssimo nível durante 5h09min, e a partida terminou com uma passada de slice na paralela do suíço. Um final memorável para um duelo inesquecível. No tweet abaixo, meu texto sobre os méritos de Stan.

16. Aquele. Slice.

17. Tsitsipas fez dois belos posts sobre a partida. Em um deles, reproduziu os dizeres da tatuagem que Wawrinka leva em um dos braços. Um gesto bacana. Muito mais bacana do que apontar bola fora no match point, viu?

18. Interessante notar como a organização do torneio decidiu interromper o jogo de quartas de final entre Federer e Wawrinka por causa de uma ameaça de tempestade. Não, não havia começado a chover ainda, mas a medida provou-se acertada porque houve tempo para que todos deixassem a Lenglen e procurassem abrigo antes da forte chuva – que, de fato, caiu.

19. Além disso, como escrevi no Twitter naquele dia, acho que se trata de uma medida extremamente interessante para torneios que não têm equipes devidamente treinadas para cobrir as quadras com rapidez. Parando o jogo mais cedo, é possível dar tempo extra e evitar trapalhadas.

20. Não foi tão popular assim a decisão de interromper a semi entre Djokovic e Thiem. O torneio acreditou na previsão de chuva – que não veio – e dispensou os atletas quando ainda havia muita luz natural e a partida poderia ter seguido em frente. No fim das contas, os dois voltaram à quadra no sábado e foram ao quinto set, atrasando a final feminina.

21. Ainda sobre os méritos dos organizadores: a reconstrução da Quadra Philippe Chatrier, que terá teto retrátil a partir de 2020, foi elogiadíssima por quem esteve lá. A nova quadra Simonne-Mathieu também foi um sucesso. Do tamanho perfeito para ser a terceira quadra principal do complexo, com boa capacidade e com o público perto da quadra – isso tudo sem quebrar a beleza do jardim botânico vizinho onde foi erguida – ou melhor, escavada.

22. Em questões fashion, Roland Garros não foi o mais memorável dos torneios. Do badalado (além de levemente arrogante e esquisito) modelito Nike+Virgil Abloh para Serena Williams (que vinha com as palavras mãe, campeã, rainha e deusa), até o pijamão da Uniqlo para Roger Federer, incluindo uma linha de camisas super folgadas, não foram muitos os elogios dos fãs, não…

23. Thiago Monteiro, único brasileiro na chave de simples, foi eliminado na primeira rodada por Dusan Lajovic: 6/3, 6/4 e 6/4. Não foi diferente de muitas partidas do atual número 1 do Brasil. O cearense busca impor seu forehand cruzado e controlar trocas do fundo a partir disso. Nada errado com isso. Os problemas de Monteiro ficam nítidos quando seus adversários saem do basicão de fundo de quadra, e Lajovic fez muito bem isso. Chamou Monteiro à rede, usou slices, variou o jogo. O brasileiro ainda tem muito a melhorar nisso.

24. Bia Haddad Maia, única brasileira no qualifying, perdeu na primeira rodada do torneio classificatório. Ela vencia a ucraniana Katarina Zavatska (19 anos, #205) por 6/3, 5/7 e 3/0 quando começou a sentir dores e se movimentar mal em quadra. Depois de perder a quebra de saque que tinha de vantagem na parcial, Bia sequer podia dar um par de passos sem reclamar de dor. Ela abandonou quando o placar ainda mostrava 3/2 para ela no terceiro set. Após o jogo, disse que foi uma contratura leve na coxa e que deixou o jogo por "receio de continuar e complicar para uma lesão mais grave." A explicação de Bia briga com as imagens. Em quadra, após abandonar, ela mal conseguiu caminhar até seu banco. Isso não é receio, é impossibilidade.

25. Luisa Stefani disputou o primeiro slam de sua carreira ao entrar na chave de duplas como alternate. Número 116 do mundo na modalidade, ela fez parceria com a australiana Astra Sharma e perdeu na primeira rodada para Mónica Puig e Shelby Rogers: 6/4, 6/7(3) e 7/6(5).

26. Matheus Pucinelli, único brasileiro a entrar direto na chave juvenil de simples, foi campeão na chave de duplas. Ele formou parceria com o argentino Thiago Tirante. É preciso moderar expectativas, já que se trata de uma chave de duplas – e nenhum juvenil que eu conheça treina para ser duplista -, mas o troféu certamente será um motivador para Pucinelli.

27. David Ferrer foi homenageado no primeiro dia das quartas de final, pouco antes do jogo entre Rafael Nadal e Kei Nishikori. Um belo reconhecimento a um tenista que muito fez pelo tênis e que se aposentou há pouco, durante o Masters 1000 de Madri. O troféu recebido em Roland Garros é bem parecido com o que Guga levou para casa quando deixou as quadras, em 2008. Isso, a meu ver, manda um lindo recado: carreiras não são feitas só de títulos. Ferrer não tem um slam no currículo, não venceu em Paris. Ainda assim, teve o devido reconhecimento do slam do saibro. Parabéns a todos.

28. O ponto do torneio, cortesia de Dominic Thiem

29. O momento mais emocionante: tente não chorar ao ver a cena de Nicolas Mahut ganhando um abraço do filho ainda em quadra, após ser eliminado na terceira rodada pelo argentino Leo Mayer.

30. Palmas para Roland Garros pelo app "RG Ao Vivo", que exibiu todas as partidas do torneio (profissionais, juvenis, cadeirantes, lendas, tudo mesmo!) para o Brasil por R$ 29,99. Um excelente serviço com ótimo custo-benefício que deu direito inclusive a entrevistas coletivas legendadas, clipes de melhores momentos, clipes de jogos históricos e muito mais.

31. Aqui no Brasil, a transmissão do Bandsports foi mais do mesmo, com seus erros e acertos. Não há muito a comentar além do que já escrevi no blog e falei no podcast Quadra 18 em anos anteriores.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.