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Saque e Voleio

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Obrigado, David, pelos exemplos

Alexandre Cossenza

2009-05-20T19:10:36

09/05/2019 10h36

"Obrigado, David Ferrer, por defender e representar os terráqueos durante tantos anos contra os Avengers." O tweet de Juan Ignacio Chela, de seu jeito descontraído, talvez tenha resumido da melhor maneira possível a carreira do espanhol que se aposentou nesta quarta-feira, aos 37 anos, após a derrota para Alexander Zverev por 6/4 e 6/1 na segunda rodada do Masters de Madri.

Roger Federer e seu técnico, Ivan Ljubicic, foram igualmente brilhantes. "Se eu disser a algum juvenil sobre alguém para idolatrar e copiar, sempre vou dizer David Ferrer porque ele trabalhou duro, é uma pessoa super legal e fez muito sucesso", disse o suíço. "Quando você deseja que seus próprios filhos sejam iguais a ele, você sabe que é uma pessoa especial. Obrigado por inspirar tantos a trabalhar duro", escreveu o croata.

E Rafael Nadal, também bem a seu modo, foi igualmente preciso quando ressaltou que David Ferrer "é um grande exemplo para todos de superação, de esforço, e sempre fez as coisas certas de maneira adequada, com os valores que são necessários."

Valores. Trabalho. Caráter. Superação. Palavras que foram repetidas nas homenagens que David Ferrer recebeu em sua turnê de despedida. Foi assim em Auckland, Buenos Aires, Acapulco e Barcelona. O mundo inteiro reconheceu e respeitou um tenista que nunca teve um golpe dominante e, mesmo assim, compensou seu 1,70m de altura (a ATP diz 1,75m) com uma ética de trabalho inigualável.

Em 19 anos de carreira, venceu 734 jogos, conquistou 27 títulos de nível ATP, fez dez quartas de final seguidas em slams e somou US$ 31 milhões em prêmio. Passou 590 semanas no top 20 (mais do que qualquer outro tenista, à exceção do Big Four) e 292 semanas consecutivas no top 10 (358 no total), foi número 3 do mundo, ganhou três Copas Davis, disputou uma final de Roland Garros. Desafiou as porcentagens e foi vitorioso na maior parte do tempo.

Madri, ponto final da jornada, onde o veterano deixou sua última bandana – um gladiador deixando sua espada no campo de batalha (ou um dothraki descendo de seu cavalo, você escolhe a analogia) – fez jus à carreira do tenista espanhol. Dois enormes banners desfraldados na Caja Mágica, um match point iniciado com parte do público aplaudindo Ferrer de pé (nunca vi isso antes!), o tradicional vídeo de mensagens no telão, a presença de Manolo Santana e, principalmente, todo tempo do mundo para Ferrer agradecer aos colegas, ex-treinadores, família e amigos. Foi carregado, jogado para o alto e reverenciado como merecia. Uma linda sequência de cenas.

Há tenistas com talento natural, para quem as coisas vêm mais facilmente. Outros, como Ferrer, precisam trilhar um caminho mais longo. E o lindo discurso do espanhol, mostrando gratidão aos que lhe ajudaram em toda a carreira, dentro e fora da quadra, novamente deixou algo cristalino: David Ferrer foi um grande tenista porque é uma grande pessoa.

O fim da fala não poderia ter sido mais típico. Com o microfone nas mãos, declarou para toda a Caja Mágica: "Dei tudo por este esporte. Não posso dar mais. Consegui 27 títulos, três Copas Davis, nunca pude ser campeão em Madri, nunca consegui ganhar um grand slam. Gostaria de ter vencido mais, mas consegui algo que levo no coração. Os troféus estão em casa e são só troféus. É algo material. O que levo, de verdade, é o carinho de vocês. Obrigado. Até sempre."

Obrigado a você, David. Obrigado por provar que dá para ser grande em seu trabalho sem puxar saco, sem mentir no currículo, sem tomar atalhos antiéticos. Obrigado por mostrar que é possível construir uma carreira brilhante ancorado em valores corretos. Obrigado pela constante humildade nas vitórias – e foram muitas delas! Obrigado por cada gota de suor nas derrotas. Obrigado pela sinceridade nas entrevistas, Obrigado pela gratidão. Obrigado, David, pelos exemplos.

Gracias, Ferru.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.