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Saque e Voleio

Em duas noites, o melhor e o pior de Thiago Wild

Alexandre Cossenza

28/02/2019 05h00

Thiago Wild se despediu do Brasil Open na noite desta quarta-feira, derrotado pelo argentino Marco Trungelliti, #121 do mundo, por 6/4 e 7/5. Tecnicamente falando, foi uma participação positiva para o paranaense de 18 anos, #449 do ranking, que conquistou a primeira vitória da carreira em nível ATP e somou 20 pontos que devem colocá-lo perto do 390º posto. A subida de mais de 50 posições no ranking significará o melhor ranking da carreira.

A ascensão e o triunfo inédito não significam, contudo, que foi uma participação sem falhas. Pelo contrário. Nas duas noites em que atuou no Ibirapuera, Thiago Wild mostrou seu melhor e seu pior. Às vezes, com um intervalo de apenas 20 segundos entre picos e vales. Na terça-feira, quando bateu o sueco Elias Ymer (#117) por 6/3, 4/6 e 6/2, jogou um tênis incrível em alguns momentos. Em outros, mostrou-se afobado, insistindo em distribuir pancadas mesmo quando seus golpes não andavam tão calibrados. Colocou-se em posições ruins com jogadas pouco inteligentes e saiu delas com o enorme talento que tem com a raquete nas mãos.

Na coletiva pós-vitória, não foi muito diferente. Falou com consciência sobre a importância de "manter a cabeça no lugar para conseguir manter o nível de jogo", mas também mostrou pouca paciência com jornalistas. A uma repórter, perguntou se ela jogava tênis. A outro, sugeriu que a pergunta deveria ter sido mais bem formulada. Duas situações que poderiam ter sido evitadas com um assessoramento melhor (ou apenas um pouco mais de educação), mas que mostram que Wild não está pronto para o sucesso que planeja alcançar.

Na noite de quarta-feira, contra Trungelliti, mostrou mais do mesmo. Paciência e ótimo processo de construção de ponto em alguns instantes, golpes afobados e de baixa porcentagem em outros. Wild tem tênis para superar um rival do calibre do argentino. Falta-lhe, porém, consistência técnica e mental. O 11º game do segundo set, do começo ao fim, foi um bom exemplo. O brasileiro perde o primeiro ponto ao lidar mal com um slice do adversário. Em seguida, manda uma esquerda longa. Desconta a raiva na bolinha.

Sacando um set abaixo e com 5/5 e 0/30, arriscou uma bola de baixíssima porcentagem. Uma paralela disparada um metro atrás da linha de base, com Wild desequilibrado. Bola fora. Break point. Outro erro não forçado – uma direita na rede, na primeira bola do ponto – deu a quebra e a vantagem a Trungelliti, que sacou e fechou o jogo. Na hora mais importante, o paranaense perdeu 11 pontos em sequência. É difícil vencer assim.

Há quem acredite que são oscilações normais para um garoto de 18 anos. De fato, são poucos os adolescentes competindo na elite. Gente como De Minaur, Shapovalov, Tsitsipas e Auger-Aliassime são exceções. Mas não dá para achar que isso é normal e vai desaparecer naturalmente, com o tempo. Que Wild não se acomode. Para jogar no nível que ele quer e acredita que pode chegar, é preciso encontrar esse equilíbrio.

Coisas que eu acho que acho:

– Depois da polêmica do wild card, Thomaz Bellucci e Rogério Dutra Silva fazem outra boa campanha juntos. Nesta semana, em São Paulo, os paulistas já venceram dois jogos e estão nas semifinais de duplas. A vaga veio com triunfo de virada sobre Marcelo Arévalo e James Cerretani por 4/6, 6/4 e 10/6. Eles enfrentarão os britânicos Luke Bambridge e Jony O'Mara na disputa por uma vaga na final.

– A partida de hoje de Bellucci e Rogerinho foi na modesta Quadra 1 do torneio. Um ambiente ótimo, mas só para quem conseguiu entrar. Muita gente ficou fora, reclamando, mesmo enquanto havia lugares vazios nas arquibancadas. Faltou organização à equipe que controlava o acesso à quadra, e o público pagou por isso. Pena.

– Depois de dois dias de público muito fraco no Ibirapuera, o Brasil Open viu uma torcida muito maior nesta quarta-feira. Depois do jogo de duplas na Quadra 1, todo mundo foi para a Central ver Cuevas x Auger-Aliassime. Foi muito bom de ver.

– Não vi por estar no Ibirapuera, mas é preciso registrar a grande vitória de Bia Haddad Maia, que bateu a #4 do mundo, Sloane Stephens, no WTA International de Acapulco: 6/3 e 6/3. A americana era a cabeça 1 do torneio, e Bia agora está nas quartas de final. Tudo é possível.

Coisas que eu acho que acho desde novembro do ano passado:

– Já escrevi no Twitter, mas vale ressaltar aqui. Depois da eliminação de Thiago Monteiro na primeira rodada do Brasil Open, vale lembrar seu histórico no Ibirapuera e como acreditaram que seria uma boa ideia ter o número 1 do Brasil jogando a Copa Davis com altitude e numa quadra de saibro indoor.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.