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Laslo Djere: no resultado menos provável, a lição mais bonita do Rio Open

Alexandre Cossenza

25/02/2019 05h00

Quando avançou por WO à final do Rio Open, o sérvio Laslo Djere, 23 anos, apareceu na sala de coletivas para um encontro meio despretensioso com os jornalistas. Ninguém tinha muita informação sobre ele. Seu perfil no site da ATP diz, entre outras coisas, que seu pai é um empresário, e sua mãe, professora. Não dava para esperar o que vinha em seguida.

Ao ouvir uma pergunta sobre sua vida pessoal, explicou que sua mãe morreu há sete anos, vítima de câncer. O pai morreu dois meses atrás, também após uma luta contra câncer. "Estou sentado aqui aos 23 anos sem meus pais." Pegou de surpresa quem estava na sala.

Neste domingo, o mesmo Laslo Djere, atual #90 do mundo, derrotou o canadense Félix Auger-Aliassime (18 anos, #104) por 6/3 e 7/5 e conquistou seu primeiro título de ATP na carreira. O discurso de agradecimento do sérvio foi, de longe, o momento do torneio. Vejam abaixo:

Depois da dar os parabéns ao rival deste domingo, aos funcionários da organização e a sua equipe, Djere afirmou: "Quero dedicar este troféu aos meus pais. Eu perdi minha mãe 7 anos atrás, então quero dedicar este a ela. E também ao meu pai. Eu perdi ele dois meses atrás. Meus pais tiveram um enorme impacto sobre mim e por causa deles eu ganhei hoje, então quero agradecer a eles e espero que eles estejam me olhando agora."

O público entendeu e se emocionou junto com o sérvio. Foi uma cena que vai ser difícil de esquecer e que veio no mais imprevisível dos cenários. Djere foi sorteado para estrear contra o cabeça 1, Dominic Thiem, #8 do mundo, campeão no Rio em 2017, alguém que gosta de jogar no calor carioca e um dos melhores tenistas da atualidade no saibro. Só que o austríaco não chegou à cidade nas condições físicas ideais e pagou o preço diante de um competente sérvio. Djere aproveitou o embalo e bateu Daniel, Ruud e Auger-Aliassime, premiando os espectadores (e, por que não, o mundo) com uma cena incrível e uma lição deixada na entrevista coletiva pós-título:

"A vida continua, não importa o que aconteça. O tempo está passando para mim também, então só quero, enquanto estiver aqui [vivo], fazer as coisas certas e dar meu melhor na quadra e na vida. Continuar a viver, tendo o maior sucesso e a maior alegria que puder. Às vezes, quando eu pensava sobre coisas muito difíceis de alcançar e pareciam impossíveis, eu olhava para alguém que tinha conseguido. Neste caso, eu não conheço muitos tenistas que passaram por isso [mortes dos pais], então quero ser esse cara que inspira os outros e mostra que ainda é possível. Não importa o que aconteça, você pode ter sucesso e ser grande no que faz, mesmo quando nem tudo na sua vida pessoal vai bem."

Coisas que eu acho que acho:

– Do ponto de vista de organização, o Rio Open de 2019 não foi muito diferente das edições anteriores. Praça de alimentação e shows funcionaram muito bem. Na orientação a torcedores e jornalistas, houve as falhas de sempre (na minha primeira vez na quadra central, me mandaram entrar por um portão do lado oposto ao do setor da área de imprensa).

– O nível de tênis ficou abaixo do esperado. Os principais nomes (Thiem, Fognini, Schwartzman e Cecchinato) estiveram longe de jogar seu melhor tênis – por motivos diferentes – e caíram cedo. Marcelo Melo e Bruno Soares também decepcionaram. Para piorar, o torneio ainda ficou sem uma semifinal de simples (Bedene abandonou), e a final, jogada em condições duras, com muito calor e umidade, e por dois tenistas nervosos, foi cheia de erros (74 falhas não forçadas e 25 winners).

– O público foi muito bom nos últimos três dias, com a quadra central sempre cheia nas sessões noturnas. Isso não significa, porém, que a venda de ingressos foi fabulosa. O torneio acertou ao ceder um grande número de cortesias para encher a arquibancada. Criou um belo ambiente para as partidas mais interessantes do torneio.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.