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Saque e Voleio

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A primeira semifinal de slam da 'nova' e ainda encantadora Petra Kvitova

Alexandre Cossenza

22/01/2019 14h30

"Sim, com certeza [a sensação é diferente]. Eu estou chamando esta de minha segunda carreira, então é a primeira vez nesta segunda carreira. Levou algum tempo, com certeza. Nunca joguei tão bem nos slams e estou feliz de que desta vez seja diferente."

A frase acima é cortesia de Petra Kvitova, semifinalista do Australian Open, em sua entrevista coletiva depois da vitória sobre Ashleigh Barty. A tenista tcheca, atual #6 do mundo aos 28 anos, também é bicampeã de Wimbledon (2011 e 2014) e já foi vice-líder do ranking mundial. Tudo isso, no entanto, parece, tanto para os fãs de tênis quanto para a própria Petra, um passado muito distante.

Quando Kvitova classifica este período de "segunda carreira", é porque sua vida tenística pode, muito mais do que para a maioria de suas contemporâneas, ser dividida em duas partes. A primeira foi até o fim de 2016. Em dezembro daquele ano, a tenista foi assaltada em sua casa e ferida a faca por um assaltante.

Não foi um cortezinho qualquer. Kvitova, canhota, precisou passar por uma cirurgia na mão esquerda. Ela teve os cinco dedos lesionados – dois deles sofreram danos nos nervos. Havia riscos cirúrgicos, riscos de infecção, riscos na cicatrização e até o risco de ruptura de tendões nas primeiras oito semanas de fisioterapia. Obviamente, existia uma chance considerável de Petra nunca mais conseguir jogar tênis competitivo.

Só que tudo deu certo, e uma das figuras mais queridas da WTA voltou às quadras em maio de 2017, a tempo de Roland Garros. Foi uma temporada de retorno, com um título memorável em Birmingham, mas foi em 2018 que Kvitova mostrou que podia jogar o tênis de antes. Foi campeã em St. Petersburg, Doha, Praga, Madri e Birmingham. Não perdeu uma final. Havia, porém, uma pedra no sapato. Ou melhor, quatro rochas: os slams.

Se algo faltou para Petra em 2018 foi jogar bem nos slams. Caiu na estreia em Melbourne e Wimbledon. Ficou na terceira rodada em Paris e Nova York. Chegamos, então, a 2019. Antes do Australian Open, a tcheca foi campeã do WTA de Sydney e não perdeu mais. A "P3tra" irregular e que precisa de tantos terceiros sets sumiu. Petra apareceu mais magra, mais rápida e mais sólida. Nos dez jogos, perdeu apenas um set (para Barty, que também enfrentou na final de Sydney).

Faltam duas vitórias para um título que pode coroar um lindo retorno, mas não será fácil. Na semi, Kvitova encara a americana Danielle Collins (#35), que faz uma campanha surpreendente desde a primeira rodada e já eliminou Goerges (#13), Garcia (#19) e Kerber (#2). Kvitova e Collins, aliás, duelaram no primeiro dia do ano, na rodada inicial do WTA de Brisbane. Kvitova triunfou por 6/3 no terceiro set, depois de dois tie-breaks.

Caso avance, Petra vai encarar na final Serena Williams, Naomi Osaka, Karolina Pliskova ou Elina Svitolina. Nenhum cenário será fácil. De certeza, certeza mesmo, só uma: para quem gosta de tênis bem jogado, com agressividade e variações, a segunda carreira de Kvitova é um presentaço. Que todos saibam apreciar. Que Petra, esta nova e ainda encantadora Petra, siga jogando por muito tempo.

Coisas que eu acho que acho:

– Atual #6 do mundo, Kvitova pode sair de Melbourne como número 1 do mundo, e a chance disso acontecer nem é tão pequena. Antes da segunda metade das quartas de final, Petra é quem tem mais pontos. Veja as possibilidades no quadro abaixo.

– Collins, que vem do tênis universitário, tem 25 anos e nunca havia jogado a chave principal do Australian Open. Não lembro onde li (esqueci, peço perdão por não creditar o autor), mas alguém classificou a americana como "destemida", e isso me parece um bom adjetivo para seu tênis neste torneio. E faz sentido: a americana esteve a dois pontos da eliminação na primeira rodada, quando Julia Goerges sacou para a vitória e abriu 30/0 no game.

– Ainda sobre a chave feminina, Serena Williams vem jogando um tênis excelente. A vitória sobre Halep (que não vinha em grande forma, é verdade) teve um peso importante. Mostrou, entre outras coisas, que a consistência e a movimentação em quadra da americana parecem estar no nível necessário para ganhar um slam contra adversárias de peso.

– Para ser campeã em Melbourne, Serena precisará passar por um caminho muito mais duro do que aqueles que enfrentou em Wimbledon e no US Open do ano passado. Além de Halep nas oitavas e Pliskova nas quartas, a veterana vai encarar Osaka ou Svitolina na semi. E, quem sabe, Kvitova na decisão.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.