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Saque e Voleio

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AO 2019: chaves, favoritos, azarões, cotações, o que ver e como acompanhar (versão ATP)

Alexandre Cossenza

10/01/2019 16h19

Chegou a hora. Depois de duas semanas de torneios, o circuito mergulha no primeiro slam de 2019. O Australian Open revelou as chaves nesta quinta-feira, então é hora de lembrar quem é quem em Melbourne. Quem chega quente, quem pode surpreender, quem se deu bem na chave, quem ver nas primeiras rodadas, onde acompanhar pela TV e quem são os mais cotados nas casas de apostas. Sejam bem-vindos ao tradicional "guiazão" do Saque e Voleio. Rolem a página e fiquem por dentro.

Os quatro cabeças: quem "ganhou" o sorteio?

Difícil dizer quem foi o "campeão" desse sorteio. As seções de Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer – cabeças 1, 2 e 3, respectivamente – estão mais ou menos equilibradas. A do sérvio talvez seja um pouco mais dura no início do torneio, mas tende a ser menos complicada do que as dos outros dois mais à frente. Espanhol e suíço, afinal, estão em rota de colisão na chave de baixo e podem se encontrar nas semifinais. Vejamos, com calma, um por um.

O dilema para Novak Djokovic começa cedo, na segunda rodada. Se passar pelo qualifier na estreia, vai encarar Klizan ou o "renovado" Tsonga. O francês, lembremos, pouco fez ano passado após uma cirurgia de joelho. Este ano, foi à semifinal em Brisbane após bater Kokkinakis, Daniel e De Minaur. Na terceira rodada, Nole ainda pode encarar o potencial de Denis Shapovalov, tão imprevisível quanto perigoso. O caminho do #1 do mundo ainda prevê oitavas contra a seção encabeçada por Medvedev e Goffin e quartas contra quem sair do grupo liderado por Nishikori, Fognini, Carreño Busta e Kohlschreiber.

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A parte de cima da chave também tem o cabeça 4, Alexander Zverev, que esteve na Copa Hopman e saiu de lá com três vitórias (Ferrer, Pouille e Ebden) e uma derrota (Federer). Não foi brilhante, mas não deixou tanto a desejar a ponto de alguém prever um AO desastroso para ele. Com Bedene na estreia, Humbert ou Chardy na segunda rodada e Bolt/Sock/Q/Simon na terceira, fica até difícil para o alemão não fazer a melhor campanha da carreira em Melbourne, onde ele nunca chegou às oitavas. Porém, se chegar ao grupo dos 16, Sascha deve pegar alguém do "quarteto insano" (falo mais sobre isso abaixo) que tem Wawrinka, Gulbis, Kyrgios e Raonic. Nas quartas, o rival sai do grupo que tem Thiem/Coric/Cecchinato/Pouille. Por fim, a semifinal mais provável seria contra Djokovic.

Roger Federer, que já era candidatíssimo ao título, terá uma primeira semana ótima para se poupar. Vindo de atuações impecáveis na Copa Hopman, estreia contra Istomin, pega um qualifier na segunda rodada e Monfils/Dzumhur/Norrie/Fritz na terceira. O favorito para enfrentá-lo nas oitavas é Tsitsipas – os dois fizeram jogo duro na Copa Hopman, mas não parece justo esperar o mesmo equilíbrio em Melbourne. A coisa pode ficar mais dura para o #3 nas quartas, onde pode aparecer Marin Cilic (Khachanov, Bautista Agut e Verdasco correm por fora, junto com Andy Murray, que também está nessa seção).

Rafael Nadal chega a Melbourne com um ponto de interrogação. Primeiro porque jogou pouco. Fez um jogo-exibição em Abu Dhabi e abandonou Brisbane por causa de uma pequena lesão. Provavelmente, não estará 100% no começo do torneio. A questão é saber se vai chegar à segunda semana e, se chegar, em que condições. Sua trilha tem Duckworth na estreia, Ebden/Struff na sequência e possivelmente De Minaur na terceira. Nas oitavas, o rival sai do grupo com Edmund, Schwartzman e Berdych. Nas quartas, o oponente será o vencedor da seção com Anderson, Isner, Dimitrov e Johnson. Em condições normais, Nadal seria muito favorito para fazer a semi com Federer. Só o primeiro jogo vai começar a apagar (ou não) as dúvidas sobre o tênis que o espanhol pode mostrar em Melbourne este ano.

O azar de Andy Murray

Não é segredo que Andy Murray não está (e possivelmente nunca mais vai estar) em condições físicas para brigar pelo título. No entanto, o britânico está em Melbourne e vai tentar alguma coisa. O sorteio, contudo, foi cruel. Murray vai estrear contra Roberto Bautista Agut, #23, que acaba de conquistar o título do ATP 250 de Doha, onde superou Berdych, Wawrinka e Djokovic. Não dá para ter resultados muito melhores antes de um slam.

E não é só isso. Além do sólido espanhol, a seção de Murray tem Karen Khachanov (#11) em um possível encontro de terceira rodada. Quem avançar desse pedaço vai encarar nas oitavas quem sair do grupo encabeçado por Marin Cilic. Muito possivelmente, teremos seguidos encontros intrigantes para acompanhar nessa parte da chave.

O quadrante insano

É a parte mais comentada da chave masculina e faz parte da seção de Zverev. Primeiro, Wawrinka x Gulbis. Depois, Kyrgios x Raonic. Dois duelos bombásticos, já assim, de cara, na primeira rodada. E o mais legal? Os vencedores se enfrentam na segunda fase. E o "campeão" ainda pode pegar Chung ou Querrey na terceira. E Zverev nas oitavas. Insano!

Tem muita coisa interessante aí além dos jogos. Vamos por partes, começando pelo campeão do torneio em 2014. Stan Wawrinka apareceu em 2019 mais rápido e afiado do que no fim do ano passado. Está se movimentando melhor, e isso faz uma diferença enorme em seu jogo. Com outro sorteio, talvez estivesse mais cotado ao título. Maaaas que ninguém duvide da capacidade do suíço de emendar uma sequência de vitórias memoráveis este ano.

O que dizer de Nick Kyrgios, então? Depois de perder na segunda rodada para Chardy em Brisbane, jogou uma exibição no sistema Fast 4 e bateu Nadal. Depois, perdeu para Tomic no Kooyong, tradicional torneio-exibição pré-AO. O mistério aqui é aquele mesmo que acompanha Kyrgios aonde quer que ele vá: será que a chave dura é o bastante para empolgar o australiano e tirar dele grandes atuações? É esperar para ver.

Seu primeiro obstáculo será Raonic, contra quem o H2H é apertado: três vitórias para cada. Difícil prever alguma coisa que não seja um par de tie-breaks. Todos seus encontros tiveram ao menos um. Quem sabe não pinta aqui o primeiro match tie-break de um jogo masculino de simples em Melbourne?

Quem corre por fora

Atual vice-campeão do torneio, Marin Cilic é o nome mais óbvio aqui. O croata não jogou o ATP de Pune alegando dores no joelho e experimentou atuar no Kooyong Classic, onde derrotou Anderson e Verdasco. Disse ainda não estar 100% e admitiu um pouco de ferrugem. Mesmo assim – e apesar da dura estreia contra Tomic – não dá para descartar o croata. Ele, no entanto, entra menos cotado do que poderia.

Outro nome que precisa sempre ser considerado hoje em dia é o de Kevin Anderson. Além de jogar bem no Mubadala World Tennis Championship, o Abudhabão, o sul-africano foi campeão do ATP 250 de Pune. Sua chave em Melbourne não é das piores. Ele é o favorito para encontrar Nadal nas quartas. E se o espanhol não chegar com o tênis bem afiado lá…

Kei Nishikori, o cabeça 8, foi campeão do ATP 250 de Brisbane, onde derrotou Dimitrov, Chardy e Medvedev. É a primeira vez que o japonês chega a Melbourne após um título. Também joga a seu favor uma chave que não é nenhum pesadelo (pode encarar Karlovic, Kohlschreiber e Carreño Busta ou Fognini) até as quartas, onde encontraria Djokovic.

Onde entra Dominic Thiem nessa história toda? Difícil dizer. Em condições normais, o austríaco chegaria mais cotado – até por causa de sua bela apresentação no US Open do ano passado, que parecia ter apagado o histórico ruim fora do saibro. Só que virou o ano, e Thiem não ganhou nada. Perdeu as três partidas que fez no Abudhabão (Khachanov 2x e Chung) e caiu na estreia no ATP de Doha (Herbert). Somando isso a uma estreia contra o traiçoeiro Benoit Paire, pode ser que a passagem do #8 do mundo por Melbourne seja curtinha. Mas quem sabe? Vai que Thiem supera a estreia e ganha ritmo… Não ouso cravar nada aqui.

Obviamente, corre por fora também o campeão do "quadrante insano". Afinal, é justo imaginar que o vencedor desses dois jogos avançará com muita moral e pode muito bem desbancar o cabeça 4, Zverev, nas oitavas. Se isso acontecer, Djokovic que abra o olho nas semifinais…

Correndo mais por fora, mas nem tanto

Existe também uma espécie de segundo escalão das zebras em potencial. Soa até injusto fazer essa divisão, mas parte disso acontece por causa do sorteio. É o caso, por exemplo, de Karen Khachanov, #11 do mundo, que vai encontrar o perigoso Bautista Agut na terceira rodada e pode pegar Cilic nas oitavas. Difícil, mas não impossível. O que dá para esperar é que o vencedor dessa terceira fase chegue fortíssimo para encarar Cilic. E se o croata não estiver 100% e com seu jogo ofensivo bem calibrado, Khachanov se defende bem o bastante para forçar muitos erros do atual vice-campeão.

O panorama para Stefanos Tsitsipas é mais ou menos semelhante. O grego de 20 anos é perigoso e está em ascensão, mas deve encontrar Federer nas oitavas, e é difícil calcular boas chances para qualquer tenista que tenha o suíço no caminho.

O russo Daniil Medvedev, #16, chega a Melbourne em bom momento. Eliminou Murray, Raonic e Tsonga em sequência no ATP de Brisbane (perdeu a final para Nishikori). Seu problema é um provável confronto contra Djokovic nas oitavas. O potencial do russo de 22 anos é grande, mas esperar uma vitória sobre o sérvio num slam, hoje, talvez seja querer demais.

Jo-Wilfried Tsonga é mais um que tem Djokovic no GPS. O francês, que em Brisbane já se mostrou bem melhor do que no ano passado, estreia contra Klizan e, se vencer, deve duelar com o sérvio. Já faz tempo, mas vale lembrar que os dois fizeram a final do Australian Open de 2008. Aquele jogo terminou com o primeiro título de slam da carreira de Nole.

Ainda na série tenistas-perigosos-soltos-na-chave-e-com-estreias-duras, é preciso encaixar Tomas Berdych, outro que volta após uma longa ausência. O tcheco fez um ótimo torneio em Doha, onde foi vice-campeão, e agora vai estrear contra Kyle Edmund, #14, no Australian Open. Vale ficar de olho. Quem vencer terá boas chances de avançar até as oitavas para testar Nadal.

Talvez a falta de resultados em slam seja a responsável, mas Borna Coric raramente é comentado como candidato a algo grande. Só que o croata de 22 anos, #13, tem uma chance de finalmente passar das oitavas num dos quatro majors. Ele é o favorito para encontrar Thiem na fase de 16, e o austríaco ainda não chegou perto de mostrar seu melhor tênis em 2019. Além disso, trata-se do quadrante de Zverev, outro que coleciona decepções em slams. Alguém se arrisca a apostar em quem vai chegar na semifinal nessa seção? Eu, não.

Eu não pretendia incluir Jack Sock aqui, mas também não quis descartar um cenário que pode ser dos mais intrigantes. Depois de uma temporada desastrosa, o americano saiu do top 100 (é o atual #105) e precisou de um convite para jogar a chave principal do Australian Open. Se tiver um pouco de orgulho e amor próprio – só um pouquinho – , Sock deve ter entendido que já passou da hora de voltar a jogar o que pode. Melbourne precisa ser o primeiro passo para isso. Ele pode muito bem derrotar o wild card Bolt na estreia e passar por Simon (ou um quali) na sequência. Se isso acontecer, podemos ver Sock x Zverev e, num slam, o alemão pode sentir o momento.

Os brasileiros

Escrevo antes do fim do qualifying, quando apenas Thiago Monteiro segue com chances. Thomaz Bellucci, Rogerinho e Guilherme Clezar foram eliminados na primeira rodada. Monteiro, por sua vez, derrotou Aleksandar Vukic (#340, WC) e Gregoire Barrere (#158). A vaga na chave principal será decidida contra Miomir Kecmanovic (#126).

Os melhores jogos nos primeiros dias

Provavelmente, esses jogos todos já foram mencionados nos parágrafos anteriores. Para facilitar, deixo aqui todos juntinhos, para você, leitor, marcar no seu calendário aí:

– Cilic x Tomic
– Murray x Bautista Agut
– Dimitrov x Tipsarevic
– Edmund x Berdych
– Tsonga x Klizan
– Wawrinka x Gulbis
– Kyrgios x Raonic
– Pair x Thiem

A nova regra

Acabaram os jogos sem fim no Australian Open. A partir deste ano, o torneio vai adotar o match tie-break (aquele igual ao das duplas, que vai até 10) no caso de sets decisivos empatados em 6/6. Isso vale para o quinto set masculino nas simples, assim como para o terceiro set das simples femininas. No qualifying, o match tie-break já foi utilizado no terceiro set – tanto para homens quanto para mulheres.

Onde ver

A ESPN tem os direitos exclusivos de transmissão e promete mais de 200 horas de programação ao vivo – incluindo jogos e o programa diário Pelas Quadras, sempre entre 21h e 22h (de Brasília). A equipe de comentaristas, que não tem mais Fernando Meligeni (entenda aqui), será formada por Fernando Roese, André Ghem, Airton Cunha e Teliana Pereira. Os narradores escalados são Fernando Nardini, Renan do Couto, Ari Aguiar e Cledi Oliveira (que, após anos de transmissões de tênis, ainda erra na hora de narrar os placares).

As transmissões serão nos canais ESPN e ESPN2. Também será possível ver o torneio pelo WatchESPN, no site do canal ou em app para iOS e Android. O Watch exibirá todas partidas – basta abrir e escolher a quadra.

Nas casas de apostas

Nenhuma grande surpresa no favoritismo de Novak Djokovic. Além do histórico de seis títulos em Melbourne, o sérvio venceu os últimos dois slams. Federer, atual campeão, vem logo atrás, com Rafael Nadal em terceiro. Wawrinka, pagando 40:1 em algumas casas, pode ser uma boa aposta, mas o suíço está "naquele" quadrante, o que explica a cotação lá embaixo.

Avisos

– Este texto foi escrito antes do posicionamento dos qualifiers na chave. Logo, algo pode mudar radicalmente após o fim do torneio classificatório.

– Como sempre, o guia da chave feminina vem no dia seguinte. Aguardem!

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.