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Saque e Voleio

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Homenagem do Rio Open a Maria Esther foi elitista e alimenta preconceito

Alexandre Cossenza

26/11/2018 05h00

Toda homenagem a Maria Esther Bueno é válida. Ou melhor, necessária. A maior tenista da história do Brasil precisa ter sua trajetória contada, reconhecida, divulgada e reverenciada. Não foi exatamente o que aconteceu em São Paulo, quando o Rio Open fez um torneio chamado Maria Esther Bueno Cup, usando o nome da tenista em um evento que decidiria o ganhador de um wild card para o torneio carioca em 2019. Um torneio fechado para "gente de fora", como disse Lui Carvalho, diretor do ATP 500 carioca. Um evento elitista e que só reforçou preconceitos relacionados ao tênis.

Importante não confundir as coisas. A lembrança foi justa. O Rio Open quis fazer a Maria Esther Bueno Cup no clube Sociedade Harmonia de Tênis porque era o clube que a campeã frequentava. A família de Maria Esther até aproveitou a ocasião para instalar no clube uma estátua da atleta. Houve também exposição de troféus e de um vestido usado pela vencedora de 19 títulos de slam (também iniciativa dos sobrinhos de Maria Esther). Ótimo. Pena que tudo isso aconteceu dentro do clube, apenas para sócios.

Os fãs de tênis de São Paulo não puderam nem ver a estátua e os troféus, nem acompanhar as quatro atuações de Thiago Wild, atual campeão juvenil do US Open e maior promessa do tênis brasileiro na atualidade. O jovem de 18 anos, atual #513 do mundo, derrotou Orlandinho, João Lucas Reis, Gilbert Klier Jr. e Rafael Matos e conquistou o direito de disputar a chave principal do Rio Open em 2019. Só que pouca gente viu. Pena. Só alimenta o preconceito de que tênis é coisa de gente rica e esnobe. Ou "esporte de burguesia", como um dia disse um presidente da república.

Em entrevista ao Tenisbrasil, o diretor do Rio Open, Lui Carvalho, admitiu que foi uma opção do torneio – e não do clube – fazer o evento fechado para não-sócios, mas explicou que a estrutura do Harmonia "não comporta gente de fora. É um clube privado, provavelmente um dos mais exclusivos do Brasil" e que a copa foi realizada lá porque foi onde Maria Esther Bueno cresceu jogando. Carvalho declarou também que "não esperava a repercussão tão boa do evento" e que "temos visto uma repercussão enorme de público querendo ver essa meninada jogar."

Jura? Ninguém na grande IMM esperava que em São Paulo, a capital tenística do país, haveria bastante público interessado em ver os melhores jovens tenistas do país? Nem o próprio Carvalho, com sua experiência de anos trabalhando dentro da ATP e em promotoras como Koch Tavares e IMG-IMX-IMM? É realmente difícil de acreditar.

Para a maioria, a única maneira de ver alguns flashes do que aconteceu no Harmonia foi por meio de posts de jornalistas e sócios do clube – ou pelas redes sociais do próprio Rio Open, que, por sua vez, também poderia ter caprichado mais. Alguns dos vídeos tinham qualidade baixíssima para os padrões atuais, o que é difícil de entender vindo de um torneio que com patrocinadores como Samsung e Claro e que tem o orçamento que tem. Após cinco edições – a última teria custado até R$ 14,5 milhões aos cofres públicos – era de se esperar que a IMM, ou melhor, o Instituto Carioca de Tênis tivesse adquirido equipamentos mais modernos.

Mas eu divago. Em alguns desses vídeos, dava para ver partidas com menos de 30 espectadores. Um público pífio. Uma pena porque são jovens com talento e potencial se apresentando justamente em São Paulo. Privar o público de vê-los em quadra é dar razão a quem chama o tênis de elitista e se apega a preconceitos para criticar a modalidade. É entristecedor que o maior torneio da América do Sul, que tanto se orgulha de suas ações sociais, dê margem para isso. Que Carvalho não se incomode de usar as palavras "gente de fora" e "um dos [clubes] mais exclusivos do Brasil" é constrangedor.

Que o Rio Open aproveite seu orçamento e o ótimo espaço no Jockey Club Brasileiro para reproduzir as homenagens a Maria Esther Bueno. Que os troféus e o vestido da maior tenista da história do Brasil sejam exibidos também no Rio de Janeiro, em todos os dias de torneio – especialmente durante o qualifying, que tem entrada gratuita. Que consigam mostrar que o tênis, esporte que formou Teliana Pereira, Rogerinho, Júlio Goes, Givaldo Barbosa, Júlio Silva, Edvaldo Oliveira, Fabiano de Paula e tantos outros de origem nada privilegiada, não é uma modalidade tão elitista quanto o Rio Open fez parecer nesta semana.

Coisas que eu acho que acho:

– Importante lembrar: o Harmonia já sediou eventos de porte maior, como Challengers, abertos ao público. Eu mesmo acompanhei um torneio lá com Thomaz Bellucci, em 2010, quando o paulista era top 30 e todo mundo queria vê-lo jogando. O torneio, muito bem organizado pela Koch Tavares, não teve problemas. Marcos Daniel foi o campeão, derrotando o paulista na final.

– O Country Club do Rio de Janeiro, outro clube "elitista", realizará um "torneio de grana" a partir do dia 29 deste mês. A chave tem cinco dos jovens que jogaram no Harmonia (Wild, Meligeni, Matos, Luz e Klier), além de Sakamoto, Severino, Sorgi, Danielzinho, Lindell e outros bons tenistas. Será aberto ao público.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.