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Saque e Voleio

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Daniel Dutra da Silva: 40 finais de Future e muito orgulho de uma carreira reinventada

Alexandre Cossenza

22/11/2018 05h00

Algumas semanas atrás, em Mogi das Cruzes, Daniel Dutra da Silva alcançou sua 40ª final em um torneio da série Future. Marca tão impressionante quanto a de títulos nesse tipo de torneio: 23. Na história, Danielzinho é o 15º maior vencedor de eventos desse porte. Números relevantes, mas que podem ser questionados por fãs de tênis. Afinal, Futures são apenas o primeiro escalão profissional da modalidade. O paulista de 30 anos não teve sucesso parecido nos Challengers, eventos mais exigentes, com tenistas mais bem ranqueados.

Mas só há de questionar Daniel Dutra da Silva quem não conhece sua história. Com início no tênis tão duro quanto o de seu irmão, Rogerinho, Daniel sofreu uma lesão grave em 2009, quando vivia seu melhor momento na carreira, e nunca se recuperou totalmente. Além disso, sem dinheiro para viajar com técnico e fazer calendários ideais, o veterano sempre sacrificou o ranking para conseguir pagar suas contas.

Foi tudo isso – e mais um pouco – que Danielzinho contou quando conversamos durante o Future de Ribeirão Preto, onde estive a convite do Instituto Sports. Inclusive sobre como precisou sacrificar seu 2018 – caiu bastante no ranking e ocupa o posto de #588 do mundo – em nome de uma preparação melhor para a temporada de 2019. Falamos também de viagens, torneios, dinheiro e, especialmente, de como é possível – e muito possível! – um tenista se orgulhar de ter o 231º posto como o melhor de sua carreira. Rolem a página, leiam e conheçam a história de Daniel Dutra da Silva. Vocês vão gostar.

São 23 títulos e 40 finais de Future. É um número do qual você se orgulha? Ou, de repente, nem tanto porque você não teve tanto sucesso nos Challengers?

Eu me orgulho, sim. Querendo ou não, como você falou, é um número bem difícil de alcançar. Eu acho legal, independente de ser Future ou Challenger. Eu me orgulho bastante.

A primeira coisa que as pessoas perguntam quando veem isso é "se ele ganhou tanto Future, por que ele jogou pouco Challenger?", mas tem um motivo para isso, né? Fala das lesões…

Duas foram bem sérias. A primeira foi quando eu estava saindo do juvenil. Eu tive uma lesão na tíbia esquerda, Tive uma fratura por estresse e tive que ficar cinco meses sem jogar. Foi bem… Eu tinha começado a fazer meus primeiros pontos, estava subindo bem no ranking, e aí fiquei cinco meses sem jogar. Comecei a jogar os Futures com 19 para 20 anos ali. No primeiro ano, consegui terminar entre os 400. Fiz bastantes finais já, ganhei alguns torneios. Depois, em 2009, foi quando eu machuquei o ombro. Eu estava no meu melhor momento, foi quando eu tive o meu melhor ranking [#231, em maio de 2009] e com essa lesão, tive que ficar um ano sem jogar [de setembro de 2009 a abril de 2010]. Eu tinha passado o quali do Brasil Open, estava subindo muito bem e foi quando eu tive essa lesão.

Foi o que exatamente?

Foi no nervo supraescapular. Eu fiz algum movimento de uma bola muito longe que eu fui pegar e deu uma rompida no nervo. Não chegou a romper totalmente, mas o músculo, hoje em dia, funciona 20%-30% do que era antes. E aí, para não operar, porque eu não queria operar, tive que fazer muito fortalecimento em volta do ombro para conseguir jogar. E aí tive que mudar o saque, a empunhadura da direita. Eu batia mais virado. Para voltar, ganhar confiança. Com 22 anos, é difícil mudar a empunhadura, o jeito que você saca.

Essa lesão mudou sua carreira totalmente…

Com certeza. Foi bem difícil.

Afetou muito a potência do saque?

Hoje em dia, eu já estou me sentindo jogando melhor e sacando melhor, mas mudou muito. Eu sacava com um movimento amplo, normal. Hoje em dia, já sai daqui de cima o movimento (gesticula, mostrando o braço esquerdo). É como eu falei: foi uma adaptação muito grande, muito difícil. E a direita, para mim, foi o mais difícil. Eu batia completamente diferente do que bato hoje. Mudar a empunhadura com 22 anos… Levei quase um ano e meio para começar a sentir de novo, a jogar bem de novo.

Você jogava de western? Full?

É. Hoje é assim [mostrando], quase eastern. Batia bastante parecido com o Thomaz [Bellucci]. Ele bate bem virado. No começo, eu virei bastante, ficou bem eastern. Com o tempo, você vai deixando cair um pouquinho mais.

Este ano, você conseguiu jogar alguns Challengers, né?

Joguei bastante. Fui para a Europa, fiquei três meses jogando torneios e Interclubes. Priorizei mais Challengers.

Isso já por causa do circuito de transição [o ranking de transição não vai considerar pontos das rodadas iniciais de Futures]?

Um pouco, mas um pouco porque eu estava com um ranking de 300 e pouquinho ali, então preferi jogar mais Challengers também. Eu joguei muito Future durante muito tempo com essas lesões e também questão de grana… Você vai fazer uma gira, por exemplo, essa de Challengers [na América do Sul] no fim do ano… Querendo ou não, você gasta de passagem R$ 9 mil!

Essa sequência é mais cara do que qualquer coisa que você faça na Europa.

E aí você acaba optando por jogar Future pela questão do dinheiro. Querendo ou não, você tem uma chance maior, uma confiança maior, você vai bem nos torneios. Então você fala "ali eu posso ganhar uma graninha e manter o fim do ano". Melhor do que arriscar Challengers, gastar muita grana e, putz, depois você não faz ponto. É complicado. Tem essa questão do dinheiro. Por isso que eu também joguei bastante Futures também.

Hoje em dia, se você vai arriscar Challenger, é mais fácil fazer isso estando na Europa. Eu tive essa conversa com o Romboli em Campinas, ele me contava que às vezes você gasta 50 euros de deslocamento de um torneio pro outro… Aqui na América do Sul, quem viajou até para Santo Domingo…

Por isso que eu fiz essa opção. E aí, quando fui para a Europa, joguei sete Challengers seguidos porque era tudo perto. É igual você falou: pegava ônibus, ia da França para a Itália de ônibus, aí pegava um trem… Meu irmão estava junto, às vezes jogava uma dupla com ele, já não gastava hotel. Acaba compensando bastante. Aqui, já é mais difícil.

Já que você entrou no assunto da grana, a gente sabe que viver jogando Challenger já é apertado. Como é que fecha essa conta jogando Future?

Cara, eu jogo muito torneio de grana [no meio de tênis, "torneio de grana" é como são conhecidos eventos regionais que dão premiação em dinheiro, mas que não fazem parte dos circuitos da ITF e da ATP e, portanto, não dão pontos no ranking]. Aqui no Brasil e na Europa também. Não é o ideal, eu acho, porque se você está jogando profissional você tem que concentrar ali. Muitas vezes eu perco aqui e semana que vem tem um torneio de grana, então acabo jogando no fim de semana, e na semana seguinte tem outro torneio Future. Então vai meio nessa. A gente vai sobrevivendo disso. Jogando Interclubes, jogo bastante torneio de grana, para fazer um caixa.

Quantos torneios de grana você joga por ano?

Este ano, já joguei uns 8-9 torneios. Na Europa, joguei três. Vou jogar mais três depois desse Future aqui.

E que tipo de coisa se faz para economizar? Coisas que, de repente, o cara que vê tênis na TV não faz nem ideia?

Cara, a gente normalmente fica em hostel ou hotel muito barato. Hoje em dia, tem Airbnb, que ajudou muito. Quando vou para a Europa e viajo sozinho, alugo só o quarto da pessoa, fico com a família, então acaba saindo muito mais barato do que hotel de torneio. Eu acho muito bom. Eu fiquei uma vez num albergue com o [Augusto] Laranja, era um Future em Viña del Mar. A gente comprava aquelas lasanhas prontas, pedia emprestado o microondas do cara para esquentar à noite. A gente jantava isso a semana inteira pra economizar.

Você teve patrocinador durante a carreira?

Tive a EGA, que me ajudou bastante desde os 18 até os 24-25. Me ajudou muito na carreira. Hoje em dia, não tenho, mas a gente vai se virando assim. Com Interclubes, torneio de grana… Vai na raça.

Raquete e camisa, você teve?

Tive nesse momento que eu estava na EGA, mas hoje em dia, não tenho mais. Eu que compro as coisas.

Se quebrar raquete…

Eu nem quebro mais. Já aprendi, né? (risos). Se quebrar, custa caro. A última que eu quebrei faz uns dois, três anos.

Quanto custou?

R$ 600! Quebrei e já falei "meu, vamos mudar a atitude porque não tem jeito." Você começa a dar valor a essas coisas.

Acho que aqui no Brasil nem é o caso, mas tem muito Future ruim? Ruim de estrutura, eu digo…

Putz, cara, tem. Já peguei alguns…

Me dá uns exemplos? Se não quiser falar onde foi, não precisa.

Eu joguei um que… Para você ter uma noção – o Lindell estava junto comigo nesse torneio – não tinha nem água na quadra. Não davam nem água. Tinha que comprar. Quadras bem ruins… Lugar para almoçar no clube que você fica com medo de comer e passar mal… Hotel do torneio muito ruim… Só a bola que era boa. E eu não sou fresco com essas coisas, não, mas já passamos uns apertos.

Mas não é muito comum isso, né?

Não, não. Os torneios que eu joguei na Europa, os Futures são muito bons normalmente. Você vai jogar na Itália, na Espanha… Aqui no Brasil mesmo, os torneios do Danilo [Marcelino, diretor dos Futures de Rio Preto, São Paulo (2), Brasília, Curitiba e Ribeirão Preto] são muito bons. Este torneio [Ribeirão Preto], para mim, tem estrutura de Challenger. A estrutura é muito boa. As quadras, bola, essas coisas… Muda muito pouca coisa para um Challenger. Na Argentina, é mais precário. Normalmente, é mais simples.

Qual foi o pior lugar para chegar?

Cazaquistão. Quando eu fui jogar um Challenger no Cazaquistão. Eu fui porque estava #280-290, era um torneio de US$ 100 mil em quadra dura, e depois eu ia já ficar na Europa jogando uns Challengers também. Então optei por ir para conhecer, ver como era, algumas pessoas falaram que era muito bom o torneio. Foi muito difícil de chegar. Eu fiz São Paulo-Milão, Milão-Bélgica e Bélgica-Cazaquistão, mas levei uns dois dias e meio para chegar. Tive problema com o fuso horário, que lá eram 10h para a frente, e para comer. Era só o básico: pizza e macarrão. Só (risos). Mas foi bem legal porque o torneio era muito bom, tinha uma bela estrutura. Foi bem legal.

Você falou no Rogerinho… O que ele teve de influência no seu tênis? Ele já jogava quando você começou, imagino…

Ele é quatro anos mais velho que eu. Eu comecei a jogar por influência dos meus pais, meus tios, meus primos… A família inteira joga tênis, então vai indo um atrás do outro, né? É difícil a gente conviver muito porque eu joguei muito mais Future, ele joga mais Challenger. Teve dois, três anos que ele estava jogando bastante ATP, então acaba que você nem vê direito ele. Nesses três ou quatro torneios, a gente ficou mais junto.

E como é jogar jogar dupla com ele?

Ah, é legal. Hoje em dia, já acostumei. É mais difícil jogar contra, né?

Quem é o mais chato da dupla?

Não, os dois são bem tranquilos. A gente é bem tranquilo. (risos)

Em Rio Preto, eu te perguntei, e você me contou que ele não gosta do "da" do nome de vocês. Enquanto seu nome aparece na ATP como Daniel Dutra da Silva, o dele aparece como Rogério Dutra Silva. Vocês já tiveram essa conversa (risos)?

Não, nunca (risos). Ele que nunca gostou de ter o "da" ali. Aí todo mundo pergunta nos torneios para mim. Se alguém não conhece a gente, fala "você é irmão do Rogério?" "Sou." E perguntam a mesma coisa. Por que seu irmão não tem o "da"? (risos).

Pra terminar, você ficou satisfeito com o que conseguiu nesta sequência final de Futures em 2018?

Acho que este ano não foi um ano bom para mim de torneios. Tive que jogar poucos torneios por motivo de grana também. Viajei muito tempo sozinho, e isso também atrapalhou bastante na evolução. É difícil jogar sozinho, treinar sozinho o ano inteiro. Na verdade, não tem como, né? E até optei por jogar mais torneios de grana para juntar um dinheiro e, ano que vem, começar com estrutura melhor, fazer uma boa pré-temporada, tentar viajar com alguém. Porque, realmente, sozinho é muito duro. Você aprende com alguns erros, alguns erros de calendário, mas foi mais por estar sozinho mesmo, não ter uma pessoa para estar te guiando. É muito difícil você fazer tudo sozinho.

Dá para dizer que você sacrifica uma temporada para fazer outra melhor?

Exatamente. É bem isso mesmo.

E você já tem planejado o ano que vem?

Começo a pré-temporada dia 7 de janeiro. Vou fazer quatro semanas na Argentina, com o [Hernan] Gumy. Até março-abril, já tenho tudo programado ali. Aí, depois, vamos ver como vou sair nesses torneios de grana. Se for bem, dá para injetar mais. Depende mais da grana. Não tem jeito. Às vezes, não dá para viajar com técnico. Aí precisa jogar mais Future, não dá para arriscar tanto nos Challengers.

E do que você se orgulha mais na carreira até agora? Os títulos? A raça de jogar depois daquela lesão mais séria?

Primeiramente, eu gosto muito de tênis. Eu amo muito! Para mim, mesmo tendo bastante dificuldade, sobreviver do tênis é muito legal. É um esporte que eu amo. Putz, eu amo vir aqui treinar o dia inteiro, estar aqui jogando. Acho que me orgulho disso. De onde a gente saiu. Eu, meu irmão, a minha família. E poder chegar aonde a gente chegou, putz, é muito gratificante. Eu fico até emocionado porque é muito legal.

Quando eu falo com isso sobre o Rogerinho, ele sempre diz que não quer fazer drama, fazer parecer sofrido demais, mas vocês não eram uma família de classe média alta…

Nunca fomos. Na semana passada, eu estava lembrando… Eu treinei no Paineiras dos 14 anos até os 16-17. Eu ia de ônibus. Quartas e sextas eu treinava no clube. Eu moro em Parelheiros. Sabe onde é o autódromo de Interlagos? Passando o autódromo, é 40-50 minutos de carro. É looonge (risos). Eu lembro que minha mãe levava almoço pra mim na escola, eu terminava a escola, comia e pegava o ônibus. Ela me dava cinco reais! Pegava o ônibus, ia até o Paineiras. Dava duas horas, duas horas e meia para ir de ônibus. Treinava e voltava. Mais duas horas. É igual meu irmão fala: a gente não quer parecer sofrido, né? A gente sabe que todo mundo… Cada um tem a sua guerra interior, mas acho muito gratificante da onde a gente saiu até aonde a gente chegou. Putz, eu acho do caralho ter chegado a 230 [do mundo]. É óbvio que a gente quer chegar mais longe, mas foi muito legal ter chegado aonde a gente chegou, com todas dificuldades.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

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Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.