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Saque e Voleio

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João Hinsching: conheça o jovem de 2,05m que largou o basquete pelo tênis de saque-e-voleio

Alexandre Cossenza

16/11/2018 05h00

Primeiro saque, pique para a rede, voleio vencedor. No ponto seguinte, a mesma coisa, mas no segundo serviço. Foram os dois primeiros pontos que vi no Future de São José do Rio Preto, em abril. Uma sequência nada comum no tênis moderno, muito menos no Brasil, com a maioria dos tenistas formados no saibro, onde o jogo de fundo reina soberano. Mas não há nada de comum na história do catarinense João Hinsching, um jovem de 21 anos, 2,05m de altura e 2,11m de envergadura, é fã de Andy Roddick e dá aulas de tênis todos os dias para pagar suas viagens aos torneios.

Foi isso que descobri nesta semana, durante o Future de Ribeirão Preto, onde estou a convite do Instituto Sports. Um dia depois de Hinsching furar o quali, sentamos no Ipê Golf Club, sede do torneio, e conversamos. João ainda tem pouca experiência como profissional (é o número 1828 do mundo) e quase sempre precisa disputar qualis para jogar Futures, os torneios "de entrada" no circuito mundial.

Talvez por isso, ainda tenha uma fala tranquila, sem os vícios de fala de garotos "treinados" para falarem pouco. Com o cantado sotaque catarinense e um sorriso fácil, conversa sobre seus resultados sem o estresse de quem se incomoda de lembrar das derrotas. No papo, falou sobre a decisão de largar o basquete e seguir no tênis e revelou que foi um técnico argentino que o convenceu a praticar saque-e-voleio no tênis. Também lembrou do época em que desistiu do esporte e de como passou a acreditar que tem futuro como tenista profissional. Role a página e conheça o João Hinsching.

Como você começou no tênis?

Eu comecei a jogar – brincar, no caso – com 4 anos. Meu pai joga tênis, jogava lá a quinta classe do clube, me levava, e eu ficava lá brincando com raquete e bolinha. Aos 7, eu comecei a fazer aula de tênis lá no clube mesmo. Com 10, entrei na academia onde estou até hoje, que é a PSP Sports, em Blumenau, e estou treinando lá.

Nunca quiseram te levar para vôlei ou basquete?

Eu sempre fui alto, sempre fui o mais alto da turma. Um professor da escola onde eu estudava me viu, quando eu tinha uns 7-8 anos, e falou "você não quer jogar basquete?" Eu me interessei. "Vamos jogar." Eu me destacava do pessoal da minha idade por causa da altura, era um pouco mais forte e tudo mais, e daí ele acabou me passando para a turma dos mais velhos. Fui pegando o ritmo, aí ele me botou para jogar pela cidade.

Junto com o tênis?

Eu fazia tênis segunda, quarta e sexta, e basquete terça, quinta e sábado. Jogava tênis e basquete pela cidade. Estadual, municipal, jogava os dois. Quando eu cheguei aos 12 anos, que precisava viajar mais e jogar campeonato brasileiro, eu tive que fazer uma escolha. Ou jogava tênis ou jogava basquete. Não estava mais dando para conciliar os dois. Aí eu preferi jogar tênis.

Por quê?

Gostava mais. Meu pai também já jogava, então isso deu um apego maior, eu e ele. E o basquete acabou ficando para trás.

Você chegou a 2m de altura com que idade?

Se não me engano, foi com 17 ou 18. Eu não cresço já faz um ano, um ano e meio.

Seus pais são altos? Ou você é meio que o esquisito da família – "esquisito" no bom sentido, claro.

Sim, sim (risos). Não, meus pais têm 1,70-1,72m no máximo. Meu irmão é alto, tem 1,90m. Eu estou ali com 2,05m, e meu vô por parte da minha mãe também tem 1,90m. Então eu e meu irmão, a gente saiu meio alto. Não sei se a gente puxou meu vô ou coisa assim.

Tem muito disso de você entrar num lugar e todo mundo ficar te olhando?

Aham. Isso é meio que normal já (risos). Você senta, o pessoal fica te olhando. Vai no shopping, o pessoal para, fica olhando, tem gente que pede pra bater foto… Em balada, então, nem se fala. Tu passa, fica todo mundo virando os olhinhos (risos). Virou costume.

Qual a pergunta que mais te fazem sobre a altura?

Ou é perguntar qual a minha altura ou se tá frio aí em cima (risos). As duas, assim, que mais fazem.

E o que são as datas tatuadas no seu braço esquerdo (vide foto abaixo)?

A primeira é [aniversário] do meu pai. Depois tem a minha mãe, meu irmão, meu sobrinho e o primeiro ponto que eu fiz na ATP este ano [24 de julho de 2018].

Que característica do tênis te atraiu mais?

Eu gosto bastante do tênis porque é individual. É muito de você. Se você está perdendo ou ganhando, só depende de ti. Não depende do time. Muitas vezes, você vai jogar esporte coletivo, tem dois caras que não estão jogando bem, acabou o time. Você não consegue ganhar. Tênis é só você. É mais puxado? É, mas também, quando você consegue as coisas, é mais gratificante.

Seu primeiro torneio profissional foi um Challenger em 2012, se eu me lembro bem. Você tinha 15 anos?

Eu tinha 15 anos (risos de ambos). Lá onde eu moro [Blumenau] tinha um Challenger, e sempre sobrava vaga. Ninguém ia pra lá jogar quali. Sempre sobrava, o pessoal do clube assinava. Naquele ano, a gente falou com os organizadores que a gente conhecia, e o pessoal falou: "pode até assinar, mas acho que este ano vai vir mais gente." Aí eu falei "tá, não dá um convite?" Falaram que não tinha ninguém do clube que jogava, então deram convite para quem era da cidade. E eu acabei jogando, acabei pegando um outro [jogador que recebeu um] convite, um cara que estava aposentado, tinha quase 40 anos. Ganhei dele, fui para a segunda do quali e acabei pegando o Zé Pereira. Aí, não deu. Até o 2/2, estava jogando super bem, depois foi 6/2, 6/0. Meu ritmo não aguentou mais (risos).

E de lá para o torneio profissional seguinte foram "só" cinco anos.

É, foi ano passado, quando eu fui para a Bolívia.

O que aconteceu durante esse tempo todo?

É que, vamos dizer, até meus 17 anos, eu treinava. Treinava bastante, direto. Com 17, eu meio que enchi o saco. A cabeça pirou, eu briguei com meu treinador, fiquei um ano parado, sem jogar torneio. Ia treinar quando dava vontade. Quando não dava, eu não ia treinar. Tinha acabado o terceirão, ia para festa, coisa de adolescente.

Namorada também?

Namorada também (risos). Ia pra festa, normal. Uma hora, eu comecei a sentir falta. Falta de viajar. Meus amigos iam viajar, e eu não jogava. Daí falei "vou voltar a treinar." Com 18, voltei e fiquei treinando bastante. Naquela época, o Circuito Correios tinha Sub-23, aí voltei a jogar alguns Sub-23, tive uns resultados bons até, e isso foi me animando cada vez mais. E como eu voltei ali com 18 e não sabia – vai que não dá certo – eu comecei a fazer faculdade de educação física para poder dar aula de tênis. E desde os 18 anos eu estudo de manhã, treino à tarde e dou aula de noite. Até hoje.

Você dá aula pra que nível?

Aula social. De lazer. Isso ajuda a pagar as viagens também.

E depois dessa volta do tênis, qual foi o momento em que você decidiu, tipo, "quero ser profissional"?

Olha, foi quando… Eu me lembro de um jogo de que me marcou bastante. Foi quando eu joguei o Brasileirão. Se não me engano, eu tinha 19. Eu peguei um menino que tinha feito quartas de Future. Eu fui com esperança meio que zero. Fui lá "vamos jogar, ver no que dá". E eu consegui jogar muito bem. Perdi, 7/5 no terceiro set, mas fiquei feliz com meu jogo e, ali, pensei: se ele fez umas quartas, ele está jogando bem, e eu consegui jogar, é possível. Ali, comecei a me dedicar mais ainda para jogar os torneios.

E como vem sendo seu trabalho em quadra agora?

Em relação aos treinos, eles estão mais específicos. Até meus 18-19, se não me engano, eu jogava bastante de fundo. Não jogava muito na rede. Também não estava com o corpo totalmente formado, então não tinha tanta força, não sacava tão forte, não era tão alto, uma série de coisas. Aos pouquinhos, um treinador falou "você deveria ir para a rede, ser mais agressivo."

Quem foi esse treinador que te levou para o saque-e-voleio?

Um treinador argentino. Diego Manrique. Desde os 14 anos que a gente conhece ele, eu e meu treinador. Ele começou a ir na academia. Todo ano ele passa uma semana lá e faz um intensivo com todos os alunos. E ele falou "você não vai conseguir jogar de fundo, se locomovendo, contra um cara de 1,80m. Não tem condições." Dali, eu comecei a fazer mais saque-e-voleio, vir mais para a rede. No início, era meio estranho porque eu não era acostumado. Era acostumado àquela adrenalina de ficar no fundo, trocar 15-20 bolas. Daqui a pouco, acabava um game e eu só sacava. É totalmente diferente a sensação. Aos poucos, fui conseguindo me sentir melhor jogando dessa forma. Nos treinos também. Hoje em dia, é 10% no fundo e os outros 90% sacando e voleando e devolvendo saque. Mais nada.

Eu vi uma entrevista em que você dizia que "o" cara que você gostava ver jogando era o Andy Roddick. Por quê?

Eu sempre gostei do Roddick… O fator principal: ele tinha o saque mais rápido do mundo na época. Tanto que a minha primeira raquete profissional, normal, que eu tive, foi a do Roddick.

Aquela Babolat Pure Drive?

A Pure Drive. Eu era fissurado! Daí, com o tempo, eu tive que trocar. Ainda gosto muito dela, mas já tentei jogar com ela de novo e não deu muito certo.

Você joga com qual hoje?

Estou com uma Speed. A do Djokovic. Mas o que me mais me chamava a atenção era o saque dele. Era ridículo! Ele não é alto, não tinha nem 1,90m [Roddick tem 1,88m], e sacava a 240 km/h. Eu falava "pô, quero sacar que nem o cara!"

Você já mediu o seu saque?

Não, nunca medi. Dizem que passa de 200 km/h, mas eu nunca medi para saber.

E você quer fazer carreira jogando simples? Ou acha que vai chegar um momento que vai ser melhor especializar em duplas?

Assim… Eu gosto bastante de jogar simples, mas ultimamente eu vejo que falta bastante coisa no meu jogo para conseguir engrenar mesmo, então dupla acaba me puxando mais. No momento, eu prefiro jogar dupla. O que mais eu sinto falta na dupla é ter aquela adrenalina, de estar lá correndo. Na dupla, é mais calmo, mais parado, não dá tanta troca de bola.

O que eu estranho é que às vezes você joga um game e não toca na bola.

É! Dá quatro saques, acaba o game. Daqui a pouco, não estou muito bem, boto três devoluções para fora e perco o game de saque do cara. Mas uma hora a gente consegue engrenar e levar.

E como é seu treino para melhorar a movimentação?

É muita movimentação curta, muita explosão e muito salto. É mais ou menos o que eu preciso. São tiros curtos e salto-e-tiro, que é mais ou menos o saque-e-voleio, você caiu do saque e vai ter que acelerar para a frente. Odeio correr! Sempre odiei correr longas distâncias. Posso fazer 30 tiros de 100 metros, mas não me pede pra correr três quilômetros. É a mesma distância, mas eu não tenho paciência para isso. Qualquer coisa que demore demais fazendo a mesma coisa enche o saco. Não tenho paciência.

Você não gosta de ler, né?

Também não (risos). Já tentei!

O que você gosta como passatempo?

Eu jogo videogame. Ultimamente, estou jogando bem pouco.

Que jogo?

Rainbow Six. Adoro Assassin's Creed também. Sempre que sai um novo, eu compro. Estou esperando voltar para casa para comprar o novo. É em Roma. Adoro surfar, mas só surfo no verão, quase não consigo ir para a praia direito. E faço crossfit! (risos)

Faz crossfit? (risos)

Faço. Para mim, é parecido com o tênis. Você evolui, só depende de você completar as coisas, e é muito por tempo. Você tem que fazer várias coisas no menor tempo possível ou num tempo X, então é mais ou menos como no tênis: se você não conseguir fazer bem, você não vai completar o objetivo.

O que a altura afeta no surfe?

O que eu mais sinto dificuldade é para subir na onda e fazer o drop. Se eu pego uma onda muito rápida, muito cavada, às vezes não consigo dropar ou dropo atrasado. Se é uma onda um pouquinho mais lenta, dá para dropar.

Porque é um movimento em que você precisa ser rápido, né?

Tem que dar o salto e subir na prancha. Muitas vezes eu me atraso, sou muito grande, aí demoooora…

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.