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Saque e Voleio

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Paulo André Saraiva cinco meses depois: a diferença que um ponto faz

Alexandre Cossenza

25/10/2018 05h00

Em maio, quando cobri o Future de Brasília, contei a história de Paulo André Saraiva dos Santos, um garoto de 17 anos, filho de diarista e pedreiro, que começou a jogar tênis em um projeto social. Naquele torneio, graças a um wild card que caiu do céu (o convite era de Gilbert Klier Jr, que se lesionou), o adolescente conquistou seu primeiro ponto no ranking mundial.

Até aquele pontinho conquistado no Distrito Federal, Paulo André jamais havia disputado uma chave principal em um torneio profissional. Com pouco dinheiro, não podia viajar muito. Sem estar no ranking, mal conseguia entrar nos qualifyings. Pois nesta terça-feira, cobrindo o Future de Curitiba a convite do Instituto Sports, reencontrei Paulo André e batemos um papo sobre como aquele convite e aquele ponto mudaram sua vida.

Não foi um papo com revelações bombásticas, mas foi uma conversa que vai ensinar um bocado a muita gente. Um pontinho, no fim das contas, faz muita diferença. Para Paulo André, agora com 18 anos e número 1727 do ranking mundial, fez mais ainda. Permitiu sua primeira sequência de torneios da vida, a primeira viagem ao exterior (à Bolívia), novas experiências, mais aprendizado, etc. Rolem a página e confiram.

Vamos começar pelo que mudou na sua vida nesses cinco meses… Você agora tem um filho (Gabriel, com um mês de idade)…

Acho que muda o jeito de ver a vida porque é mais uma pessoa para me dar motivação. Eu tenho ajuda da minha mãe, que é o que me possibilita jogar,mas tenho mais um motivo para querer mais, para dar mais ainda de mim dentro da quadra. Por exemplo: no jogo de hoje [Paulo André foi derrotado pelo argentino Francisco Comesana por 6/0 e 6/1], era muito difícil de ganhar pelo nível que ele estava jogando. Ele conseguia me anular de todas as formas. Nessas horas, eu tenho que pensar "não posso entregar aqui porque, mesmo perdendo, tenho que aprender algo da partida e usar futuramente". Tenho que conseguir dar um passinho a mais e ir seguindo.

E na carreira, o que aquele pontinho mudou?

Depois que eu pontuei, foi uma motivação extra para continuar. Como eu falei daquela vez, era praticamente minha única chance para conseguir. Dificilmente, eu ia conseguir um convite. Estava muito difícil de entrar [nos torneios] por causa de ranking e porque eu não viajava muito. Não tinha chance de entrar nos Futures. [O ponto] Abriu muitas portas. Agora eu consigo entrar nos qualis, consigo aprender mais rápido. A maior dificuldade que eu encontro em jogar os qualis é não ter experiência para passar de caras que muitas vezes estão abaixo tecnicamente, só que me ganham com experiência.

São caras com mais tempo de quadra, de competição, né?

Sim. E me ajuda bastante agora [estar nos torneios] para poder sugar mais coisas. Eu sou uma pessoa que aprende bem rápido a forma de fazer as coisas. O que é certo e o que é errado, digamos. Isso me ajudou bastante. Mudamos um pouco a rotina [Paulo André é treinado pelo argentino Gastón Raposo]. A gente tinha focado não em resultado, mas em me igualar fisicamente e mentalmente [aos adversários] com essas experiências para ir tentando chegar no pessoal aos poucos.

Vocês fizeram, pouco depois daquela vitória em Brasília, uma campanha no Kickante para te ajudar [a campanha arrecadou cerca de R$ 18 mil]. O quanto isso fez diferença?

Essa gira [sequência de torneios da série Future em Mogi das Cruzes, Curitiba, São Carlos, São Paulo e Ribeirão Preto] estou fazendo com o dinheiro do Kickante. Joguei as três semanas da Bolívia também com esse dinheiro, então foi de grande ajuda.

E como foi esse período na Bolívia? Foi a primeira vez que você jogou fora do país, né?

A primeira vez que eu saí do país (risos). Tudo foi novidade. A primeira semana e a segunda semana foram, assim, em termos de resultado, bem negativas. Aprendizado duríssimo. A terceira semana [em La Paz] foi onde joguei melhor. Eram condições bem difíceis. Até agora, para mim, foi o maior desafio em jogar tênis. Foi bom porque foi onde eu voltei a me sentir competitivo. Porque depois de Brasília [em maio], eu só fui jogar na Bolívia [setembro]. Foi um espaço de tempo muito grande. Na primeira semana, eu me senti muito incomodado com falta de ritmo. Eu perdi uma oportunidade boa porque perdi de um americano que, assim, igual eu falei, perdi na experiência. Não era jogo para perder. Na segunda semana [em Santa Cruz], também tive uma experiência muito difícil com o vento. Cara… Eu nunca joguei num lugar que ventava tanto! Perdi de um argentino. Essa foi muito dolorosa porque acho que era mais tranquilo que o americano. E na terceira semana, eu perdi do [Lorenzo] Gagliardo, que eu ganhei em Brasília. Era um lugar difícil de jogar, qualquer um poderia ganhar. Lá foi onde eu senti que poderia voltar a ser competitivo.

E na volta ao Brasil?

Ficamos uma semana em Brasília, fomos para Mogi. Na chave, eu joguei mal. Bem abaixo do que eu poderia render, mas, ainda assim, me sentindo voltando aos poucos para a competitividade. Aqui em Curitiba, no quali, já me senti bem melhor na primeira partida. Ontem, na final do quali, também tive um jogo difícil, mas durante a partida eu tinha a certeza de que iria ganhar. Estava me sentindo muito bem. E hoje já foi mais complicado. Estava confiante e queria jogar. Me diverti bastante também, apesar de ter sido um dia bastante complicado. Tomar um 6/0 e 6/1 é difícil, mas eu fiz de tudo que era possível, mudei bastante o jogo, mas ele tinha resposta para tudo. Acho que jogou uma das melhores partidas da vida dele.

O bom é que você está sentindo uma evolução…

Sim. Aos poucos, eu vou me sentindo mais competitivo. Esse me "sentir competitivo" é por estar começando a jogar mais [torneios], de estar vivendo mais experiência de torneio, conhecendo as pessoas, fazendo amizade com o pessoal…

E pode até não ser um período de grande evolução técnica porque você acaba não treinando nada específico, mas são experiências novas para você… Estar no dia a dia de um torneio, ver jogos, saber a hora de treinar, de comer… São coisas que não dá pra aprender sem viver, né?

Sim. Aprendi a ter uma rotina de profissional, como os caras da chave, como quem quer viver disso. Aprendi bastante sobre a rotina do profissionalismo. Aqui é seu trabalho e você tem que dar tudo que tiver.

Você também jogou alguns dos chamados "torneios de grana" [torneios que dão premiação em dinheiro, mas que não são chancelados por ITF/ATP, portanto não valem pontos para o ranking mundial] , né?

Sim.

É muito diferente do ambiente de um torneio profissional?

É, eu joguei os dos torneios de grana da CBT que foram em Brasília. O primeiro foi no SESC e estava bem forte. Eu perdi acho que na semi do Gilbert, o Juninho, que é meu amigo. Ah, é um pouco diferente nas rodadas iniciais. É mais o nível de primeira rodada de quali. Mas chega na semi, é como se fosse um jogo de primeira rodada de Future. Ali na semi ou na final, você pega um jogo mais difícil.

Mas é algo que te ajuda tecnicamente para chegar a um Future mais preparado ou é mais pelo lado financeiro mesmo?

Muito mais financeiramente. Esses de Brasília até que me ajudaram bastante como experiência, por ter jogado com pessoas que já jogavam. Então as duas coisas me ajudaram: o financeiro e a experiência.

E o que você tem planejado para o fim do ano? Essa sequência de Futures que tem São Carlos, São Paulo e Ribeirão?

Sim. Esses três, depois voltar para casa e fazer uma pré-temporada muito boa com o Gastón.

Para terminar… Eu lembro que você me contou em Brasília que encordoava raquete para ganhar um dinheirinho e era algo que te ajudava. Você ainda faz isso ou o dinheiro da campanha do Kickante vem te mantendo numa boa?

Acho que o dinheiro do Kickante me sustenta este ano ainda, nessa gira, mas eu continuo encordoando para fazer extra, né? Se eu pego esse dinheiro, um número X de raquetes por dia para fazer, ajuda. Ou agora, como estou hospedado na casa do Zé Pereira, adianta bastante na questão de almoçar. Não estou tirando o dinheiro do Kickante. Estou pagando meu almoço e as outras coisas.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.