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Saque e Voleio

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Daria Kasatkina foi campeã em Moscou, mas foi seu técnico que deu o show

Alexandre Cossenza

20/10/2018 18h03

A russa Daria Kasatkina, de 21 anos, conquistou o título do WTA de Moscou neste sábado ao derrotar, de virada, a tunisiana Ons Jabeur: 2/6, 7/6(3) e 6/4. O feito, que colocará Dasha no top 10 pela primeira vez na carreira, teve dois momentos curiosos, em que seu técnico, Philippe Dehaes, roubou a cena.

O primeiro aconteceu na segunda rodada, quando Kasatkina enfrentava a francesa Alizé Cornet. A russa perdeu o primeiro set e estava uma quebra de saque atrás na segunda parcial. Foi aí que Dehaes entrou em quadra para o tempo técnico e disse, entre outras coisas, que "vamos fazer isso [de um jeito] bem simples. Você conhece a Muralha da China? Você vai ser a Muralha da Rússia. É nova no mercado. Sabe o que é? É solidez, solidez extrema, não dar nenhum ponto de graça. O objetivo é não dar ponto de graça." Cornet chegou a sacar para a vitória, mas, no fim, Kasatkina saiu de quadra com um triunfo por 3/6, 7/5 e 6/4.

Dehaes brilhou novamente neste sábado, na final. Jabeur liderava por 6/2 e 4/1 quando o treinador entrou para conversar com Kasatkina e conseguiu motivar sua atleta a uma incrível reação.

"Dasha, essa partida não está terminada. Se você acha que acabou, mudamos o emprego, você e eu. Entende o que eu quero dizer? E eu não quero mudar de emprego. Quero ficar aqui e quero ganhar esse título com você. E vamos fazê-lo porque você vai jogar todos os pontos do mesmo jeito. Você conseguiu contra a Cornet. Você pode. Prove para você que pode lutar até o fim. Pare de pensar que você pode perder e blablabla. Isso é só blablabla."

O resto da história você já leu no primeiro parágrafo. Kasatkina conseguiu a virada sobre (uma esgotada) Jabeur e levantou o troféu. Depois do jogo, a russa disse: "Consegui voltar na partida por causa do meu técnico. Ele entrou na quadra e me colocou no chão novamente. Não sei como ele está fazendo isso, mas ele foi incrível hoje também."

Coisas que eu acho que acho:

– O valor de entretenimento dos tempos técnicos na WTA é incontestável. Mantenho, contudo, minha opinião: sou contra a entrada de treinadores em quadra. Já escrevi o motivo principal aqui muitas vezes, mas repito (só o principal) porque pode haver "leitores de primeira viagem" neste post. O técnico em quadra muda a essência do esporte. Uma das coisas que diferencia o tênis dos outros esportes é exigir que o atleta encontre soluções sozinho dentro de quadra. É o que separa jogadores mentalmente fortes dos demais. É o que mostra quem tem mais capacidade de leitura de jogo.

– Argumentar que o tênis deveria liberar treinadores em quadra "porque todos outros esportes já permitem" é não entender uma das características fundamentais da modalidade.

– Também para quem não tem tanta intimidade assim com o tênis: os tempos técnicos são permitidos apenas nos torneios da WTA. No circuito masculino e nos torneios do grand slam, instruções não são permitidas (vide Serena Williams na final do US Open).

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.