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Saque e Voleio

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Dopings de Bellucci e Demoliner deixaram 'herança' para Marcondes

Alexandre Cossenza

13/09/2018 05h00

Numa das entrevista que fiz recentemente pela série de Futures pelo Brasil no primeiro semestre, conversei com Igor Marcondes. Entre muitos dos assuntos que abordamos, o paulista de 21 anos disse que Thomaz Bellucci era um de seus ídolos. Hoje, Marcondes cumpre suspensão por doping e ficará sem jogar até 7 de dezembro. Sua punição poderia ter sido mais branda, mas não o foi por causa de casos anteriores de doping como o de Thomaz Bellucci.

A violação de Marcondes foi constatada após o Future de Loulé, em Portugal. A análise da amostra de urina do paulista apontou a presença da substância proibida hidroclorotiazida, um diurético. Foi a mesma substância constatada em um exame de Bellucci, que levou um gancho de cinco meses no ano passado. Na ocasião, o ex-número 1 do Brasil alegou contaminação cruzada em sua defesa. Disse – e teve a defesa aceita – que a culpa era da farmácia de manipulação que produzia seu complexo multivitamínico.

Marcondes fez defesa parecida. Culpou uma farmácia – que não quis se manifestar diante de pedido de esclarecimento da ITF, teve o argumento aceito (enviou amostras do suplemento contaminado, assim como Bellucci) e pegou nove meses de suspensão. Por que, então, a diferença de quatro meses na punição? Justamente por causa de casos anteriores envolvendo brasileiros. Em sua decisão, a ITF citou especialmente os dopings recentes de Thomaz Bellucci e Marcelo Demoliner e mencionou até o caso de Cesar Cielo.

Na decisão, a ITF lembra que a Corte Arbitral do Esporte (CAS) já declarou que qualquer atleta que tome um suplemento assume o risco de que ele possua substâncias proibidas, e que isso vale tanto para produtos feitos em larga escala, comprados em prateleiras, quanto para suplementos produzidos por farmácias. É aí que o texto cita Cielo, Bellucci e Demoliner.

"Além disso [Cielo], dois outros tenistas brasileiros (Marcelo Demoliner e Thomaz Bellucci) testaram positivo recentemente para HCT, pelo que colocaram a culpa na contaminação de comprimidos vitamínicos produzidos por laboratórios brasileiros. Esses jogadores receberam suspensões de três e cinco meses, respectivamente. O Jogador [Marcondes] estava ciente desses casos, e eles foram (de qualquer modo) relatados no site da ITF e na imprensa. Portanto, se o Jogador estivesse adotando 'máxima cautela', quando soube dos outros casos, ele deveria ter tomado precauções para garantir que não sofreria o mesmo destino. Em vez disso, ele tomou os suplementos por seu próprio risco."

O documento da ITF ainda diz que "a ITF tem a visão de que as circunstâncias deste caso justificam uma punição maior do que a do Sr. Demoliner (seis meses reduzidos a três) e a do Sr. Bellucci (oito meses reduzidos a cinco), considerando que o Jogador [Marcondes] tem necessariamente mais culpa do que ambos esses jogadores (porque teve aviso maior), e porque as punições anteriores a esses jogadores claramente não impediram outros jogadores de assumirem riscos similares."

O "combate" às contaminações

Não são raros os casos recentes de defesa de doping que alegam contaminação cruzada. Aliás, os exemplos recentes de Bellucci e Demoliner provocaram a ira de Sadi Perini, proprietário da Body Lab, farmácia que fez os suplementos para Bellucci. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele fez uma declaração forte:

"Há mais de 30 anos trabalho com manipulação. Trabalhei com a Seleção Brasileira de 1998, trabalho com o Botafogo e nunca tivemos nem sequer um caso de contaminação. É muito estranho que aconteça com esta turminha do tênis. Todo mundo está careca de saber que todos os atletas usam a contaminação cruzada como desculpa quando são pegos em doping por substâncias específicas e não drogas sociais. Partem para isso porque não tem outra justificativa."

Na mesma reportagem, Ademir Valério, presidente do conselho de administração da Anfarmag (Associação Nacional dos Farmacêuticos Magistrais), disse que é improvável a contaminação cruzada de diurético em suplementos alimentares ou vitamínicos. Um estudo enviado pela associação ao jornal "com cerca de cerca de 27 mil fichas que registram os medicamentos entregues pelas farmácias a cada paciente, mostrou que menos de 2% das receitas médicas aviadas traziam prescrição de diuréticos."

Tendo isso em mente, a ITF faz parecer que a punição mais severa a Marcondes (ainda que, lembremos, nove meses não sejam tanto tempo assim para um doping positivo) é uma forma de combater esse argumento de defesa e um recado aos demais tenistas que estiverem dispostos a correr esse risco. É bem possível que o próximo caso de contaminação seja punido com pelo menos um ano de suspensão. Que todos prestem muita atenção.

Coisas que eu acho que acho:

– O caso de Marcondes tem outras peculiaridades que, por sorte, não pesaram contra o atleta (que também não teve resultados relevantes no período). Uma delas foi Marcondes não declarar todas substâncias de suas vitaminas no formulário da ITF. A justificativa do paulista foi de que o rótulo do frasco estava gasto e não era mais legível. A ITF aceitou essa explicação.

– A defesa do tenista apresentou uma prescrição datada de antes da punição e que mostrava todas substâncias do suplemento. É curioso, pelo menos para mim, que Marcondes não se incomodasse de não lembrar o que estava tomando exatamente e nem consultasse a prescrição para preencher o formulário da ITF.

– Não é a primeira vez que incluo em um post a lista compilada pelo jornalista Rubens Lisboa, ex-assessor de imprensa da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). São muitos os casos de doping no tênis brasileiro. Com tanta gente punida, talvez seja a hora de a CBT pensar em um programa de educação e prevenção para seus atletas. Que tal fazer isso no encontro nacional de fim de ano? Basta levar um especialista que relate casos recentes, seus desdobramentos e o risco que cada atleta corre. Veteranos como Marcelo Melo e Bruno Soares podem explicar como é feita a coleta e como funciona o sistema Adams da WADA.

– Aproveitando o embalo, não serve para isentar ninguém, mas o site da CBT não ajuda. A última lista de substâncias proibidas pela WADA publicada lá é a de 2017.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.