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Saque e Voleio

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Federer traria de volta os cinco sets na ATP. Veja onde eles se encaixariam no circuito de hoje

Alexandre Cossenza

16/08/2018 05h00

Em uma aparição recente no Tennis Channel, após sua vitória na estreia no Masters 1.000 de Cincinnati, Roger Federer ouviu uma pergunta incomum: se ele fosse o comissário do tênis – função existente nas ligas profissionais americanas – o que mudaria no esporte? O suíço nem hesitou e respondeu na lata: traria de volta as partidas em melhor de cinco sets para a ATP.

Antes de ir adiante, vale lembrar: hoje em dia, só há jogos em melhor de cinco nos slams, na Copa Davis e na final olímpica. Todos esses eventos são organizados pela Federação Internacional de Tênis (ITF). No circuito da ATP, os jogos em melhor de cinco foram abolidos em 2007. Curiosamente, a gota d'água foi uma partida com o próprio Federer. O suíço perdeu a final do Masters de Roma para Rafael Nadal em uma partida que durou 5h05min. Logo depois, os dois tenistas desistiram de disputar o Masters 1.000 de Hamburgo, que começava no dia seguinte. Era o que faltava para dar "razão" aos críticos do formato. Em 2007, os cinco sets foram abolidos nos Masters.

Vejamos, agora, o que Federer declarou:

"Eu provavelmente colocaria mais partidas em melhor de cinco nas finais. Nos Masters 1.000, acho que temos a oportunidade de jogar cinco sets nas finais e, definitivamente, no ATP Finals. Porque acho uma pena que no circuito da ATP não tenhamos nenhum jogo em melhor de cinco sets. Eles são todas nos slams, na Copa Davis e na final olímpica. Acho que é uma chance desperdiçada. É também para a proteção dos jogadores, para [evitar] lesões… Eu comecei quando havia muito mais jogos de cinco sets nas finais, e eles desapareceram completamente. Acho uma pena, mas entendo as razões." Confira no vídeo abaixo a partir de 1'40".

É muito improvável que algo mude um futuro próximo em relação a isso, mas é interessante imaginar como seria. O próprio Federer deu a dica. Daria para fazê-lo nas finais de Masters 1.000 e na decisão do ATP Finals. Sugiro ir mais longe. Onde, especificamente, seria possível encaixar finais em melhor de cinco sem mexer no calendário?

Indian Wells e Miami são as opções óbvias. São torneios jogados ao longo de duas semanas, em melhor de três. Os jogadores chegam fisicamente inteiros nas finais e, com a programação do torneio bem feita, seria fácil colocar finais mais longas. Outro ponto que pesa a favor é que Indian Wells termina no domingo, e Miami só começa no meio da semana seguinte. Haveria tempo para que campeão e vice se recuperassem fisicamente.

Nos Masters do saibro – todos jogados em uma semana – já seria mais complicado. Com as quartas na sexta e as semis no sábado, seria um tanto puxado fazer a final em melhor de cinco. Pior ainda na sequência Madri-Roma, dois torneios em semanas consecutivas. No entanto, existe a proposta para que alguns desses eventos passem a ser jogados em uma semana e meia. Se a a ideia for adiante, seria possível, sim, encaixar finais mais longas.

O mesmo vale para os Masters pré-US Open, com Canadá-Cincinnati em datas coladas, e para Xangai e Paris, jogados em sete dias. O torneio francês, então, já é historicamente cheio de desfalques por conta do desgaste acumulado da temporada. Haveria o risco de alguém abandonar a decisão lesionado.

Maaaaas Federer tem razão quando diz que seria bacana ver a volta da decisão em melhor de cinco no ATP Finals. O torneio dos oito melhores foi, aliás, o que mais resistiu com o formato, que durou até a edição de 2007. Mas por quê? É o último evento do ano, ninguém precisa se poupar para a semana seguinte. Seria bacana voltar a ver um duelo longo e com várias alternativas como o de Federer e Nalbandian em 2005.

Coisas que eu acho que acho:

– Embora seja um bom assunto para mesa de bar imaginar como seria um circuito com os cinco sets de volta ou como teriam sido diferentes os últimos dez anos com esse formato, é bastante improvável que os chefões do tênis se sensibilizem com a opinião de Federer. Há muito dinheiro envolvido em decisões assim, e o bolso pesa um bocado.

– Em 2006, Hamburgo distribuía US$ 2.450.000 em prêmios. Era bastante dinheiro para a época, e quem paga isso não quer correr o risco de perder suas duas maiores estrelas por causa de cinco sets no domingo imediatamente anterior. Os Masters de hoje pagam mais do que US$ 5 milhões, e a ATP só consegue exigir esses valores altíssimos dando certas garantias. Uma delas foi a extinção dos cinco sets nos Masters.

– O Tennis Channel fez a mesma pergunta a Djokovic, e o sérvio foi rápido ao pedir o fim do shot clock. Nole também mencionou os cinco sets e foi radicalmente contrário à vontade de Federer. Por ele, os jogos em melhor de cinco seriam banidos até dos slams. Djokovic alega que os fãs de hoje – ele disse "millennials" com todas as letras – querem tudo mais rápido e não têm paciência para duelos tão longos. Veja sua argumentação no vídeo acima.

– Aproveitando a deixa sobre formatos mais curtos e cinco sets, será nesta quinta-feira, em Orlando, a votação sobre o formato proposto pela ITF para mudar a Copa Davis. Vale ficar olho para ver o resultado e saber quem votou no quê. Também há muito dinheiro na mesa.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.