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Saque e Voleio

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No mesmo lugar onde seu reinado começou a ruir, Djokovic volta a vencer um slam

Alexandre Cossenza

15/07/2018 14h02

Dois anos atrás, Novak Djokovic entrava no All England Club numa posição rara: número 1 do mundo e campeão dos quatro slams anteriores: Wimbledon/2015, US Open/2015, Australian Open/2016 e Roland Garros/2016 – nem Roger Federer e Rafael Nadal, em suas brilhantes carreiras, foram detentores dos quatro títulos ao mesmo tempo. O servio era senhor absoluto do circuito. E foi naquele Wimbledon de 2016 que seu mundo começou a se desfazer.

Eliminado de forma surpreendente por Sam Querrey na terceira rodada, Nole já sentia ali as dores que o afastariam do circuito. Jogou até o fim da temporada no sacrifício. Foi vice-campeão do US Open e do ATP Finals, mas, aos poucos, os resultados pararam de vir. Em 2017, novamente em Wimbledon, Nole teve de abandonar nas quartas de final contra Tomas Berdych. Foi a gota d'água. As dores no cotovelo direito não lhe deixavam jogar. O sérvio, então, abortou a temporada e resolveu descansar.

A ideia era deixar o cotovelo curar e voltar cheio de energia em 2018. O plano passou longe do ideal. A parceria com os novos técnicos Andre Agassi e Radek Stepanek não deu certo. O americano, mais tarde, revelou que nunca teve o tempo ideal para trabalhar com Nole. Djokovic se recusava a passar por uma cirurgia, o que Agassi recomendava. Houve também o trabalho com o "guru" Pepe Imaz que, para muitos, tirou o instinto assassino de Djokovic em quadra. Veio o Australian Open de 2018 e, com ele, as dores voltaram.

Enfim, depois de muito tempo jogando com cores e de seis meses de descanso que não trouxeram o resultado desejado, Djokovic passou por uma cirurgia em fevereiro. Fim do drama? Nem tanto. Nole errou ao jogar em Indian Wells e Miami. Entrou em quadra descalibrado, mal fisicamente e sem mostrar a costumeira garra. Sofreu duas derrotas decepcionantes – para Taro Daniel e Benoit Paire – e parecia perdido.

Foi só na temporada de saibro que as peças de seu quebra-cabeça voltaram a se encaixar (e isso inclui a renovação da parceria com o técnico Marian Vajda). Aos poucos, Djokovic foi reencontrando um tênis mais sólido. Sua movimentação melhorou e, em Roland Garros, Nole parecia até um candidato a algo maior até cair diante de Marco Cecchinato nas quartas. Veio a grama, e faltou um ponto para o título de Queen's. Faltava uma vitória grande, e ela finalmente veio no titânico encontro com Rafael Nadal.

Quando entrou na Quadra Central neste domingo, calibradíssimo e super concentrado, Novak Djokovic transformou a final contra Kevin Anderson em pouco mais do que uma mera formalidade. Quebrou o saque do rival logo no primeiro game do jogo. Fez o mesmo no segundo set. Na devolução, praticamente anulou os saques de Anderson. Nos ralis, fez o grandão se deslocar e se abaixar. Defendeu-se como sempre e foi brilhante quando precisou salvar seis break points (cinco set points) em três games diferentes da terceira parcial. Triunfou por 6/2, 6/2 e 7/6(3) e, no mesmo lugar onde viu seu reinado começar a ruir, agora finca a bandeira de seu retorno aos grandes títulos. Bem-vindo de volta, campeão.

Curiosidades

– Apesar de ter seis títulos do Australian Open e "apenas" quatro em Wimbledon, Djokovic tem, na carreira, mais vitórias no All England Club (64) do que em Melbourne Park (61). Ele também venceu mais em Roland Garros (63) e no US Open (62).

– Foi a terceira final masculina seguida entre um integrante do Big Four e alguém fazendo sua primeira decisão em Wimbledon. Em 2016, Andy Murray bateu Milos Raonic por 3 a 0. Em 2017, Roger Federer superou Marin Cilic pelo mesmo placar.

– Foi a primeira final de Wimbledon na Era Aberta com dois tenistas com mais de 30 anos. Levando em conta os outros slams, foi a oitava vez. Foi também a quarta final entre dois "trintões" nos últimos sete slams. Dá para constatar facilmente o envelhecimento da elite.

– Atual número 21 do mundo, Djokovic é o tenista de menor ranking a conquistar Wimbledon desde Goran Ivanisevic, em 2001. Na época, o croata ocupava o 125º posto na lista da ATP.

– Com 13 títulos em torneios do grand slam, Djokovic é o quarto colocado na lista de maiores campeões do tênis. Ele fica atrás apenas de Federer (20), Nadal (17) e Sampras (14).

Coisas que eu acho que acho

– Difícil condenar Anderson por não aproveitar nenhum dos cinco set points no terceiro set. Djokovic lhe deu poucas chances. Mesmo no game em que cometeu três duplas faltas, o sérvio ainda contou com a sorte de errar um forehand e ver a bola quicar em cima da linha de fundo, quando o público já se preparava para comemorar o set vencido pelo sul-africano.

– Os 45% de acerto de primeiro saque no set inicial foram fatais para Anderson. Sua melhor arma lhe deixou na mão no jogo mais importante. Djokovic, que ganhou uma quebra com uma dupla falta no primeiro game, jogou menos pressionado e conseguiu se impor na primeira hora de partida.

– Não consigo jogar na conta do cansaço acumulado a atuação de Anderson nos dois primeiros sets. Seria tirar mérito de um Djokovic que exigiu um bocado do adversário. O sul-africano, aliás, fez um grande terceiro set e me parecia o melhor tenista em quadra. Infelizmente – para ele – não se sabe o que teria acontecido se Nole tivesse vacilado em um dos set points, e a partida tivesse se esticado para um quarto set.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.