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5 coisas que você precisa saber sobre Roger Federer, Nike e Uniqlo

Alexandre Cossenza

14/06/2018 10h37

Desde o último domingo, o grande assunto fora de quadra no tênis vem sendo o fim do contrato de Roger Federer com a Nike. A imprensa suíça noticiou que o tenista estaria perto de fechar acordo com a japonesa Uniqlo por incríveis US$ 30 milhões anuais, num contrato de dez anos. Em Stuttgart, antes de estrear no torneio desta semana, o atual número 2 do mundo confirmou o fim do acerto com a Nike, mas disse que o resto é boato e que ainda conversa com a empresa americana.

Mesmo com o suíço falando sobre o assunto, ficou muita coisa no ar. Federer, que é praticamente um duty free ambulante (Rolex, Mercedes, Moet & Chandon, Credit Suisse e Lindt estão entre seus patrocinadores), trocaria a badalada Nike por uma marca que é muito mais conhecida por suas roupas casuais e baratas do que por sofisticação e desempenho? O famoso logo RF ficaria perdido com a Nike? Não há interesse da Nike em manter o maior vencedor de slams em simples da história?

Antes de ir mais longe nas perguntas e especulações, deixo aqui cinco pontos que todo mundo precisa saber sobre negociações desse tipo e que ajudarão a entender as posições de Federer e das interessadas (ou não) em tê-lo como atleta parceiro/embaixador nos próximos anos. Sabendo isso, vai ficar mais fácil entender os próximos passos da negociação.

1. Patrocínio no tênis é institucional

Para quem corre até uma Bayard ou navega furiosamente pela Tennis Warehouse porque quer comprar e vestir exatamente o que seu tenista usa em quadra, é difícil entender, mas é verdade: você é minoria. O volume de vendas no tênis é pequeno. Futebol, basquete, corrida, beisebol, futebol americano… Tudo isso vende muito mais.

Quando a Nike assina com Federer, Nadal, Serena e Sharapova, é para se posicionar. É patrocínio institucional. Não pense você que alguém vai faturar milhões vendendo bandanas de Nadal ou vestidos de Sharapova, muito menos um traje de mulher-gato de Serena Williams. Ou você realmente acredita que a Lacoste contratou Djokovic porque precisava de um aumento nas vendas de suas camisas pólo?

A maior prova disso? Procure uma loja da adidas ou da Nike numa grande capital (pode ser São Paulo, Paris ou Londres) e veja a quantidade de material de tênis à venda. Normalmente, é um espaço minúsculo – quando ele existe – com uma opção bem limitada de produtos. É mais fácil você encontrar um cartaz enorme de um tenista na vitrine do que o produto que ele veste.

Dito isso, que ninguém ache que a Nike manteria Federer em sua lista de atletas baseada em números. O suíço não tem mais muitas temporadas pela frente no circuito, então, dependendo dos valores que os empresários do tenista estiverem pedindo, pode não valer a pena para a empresa. É um impasse bastante compreensível. O atleta quer ser recompensado por um currículo vitorioso, enquanto a empresa pensa no futuro.

2. Agassi e Sampras: renovações complicadas

Obviamente, Federer tornou-se um ícone mundial com maior alcance que qualquer outro tenista do passado recente. Ainda assim, vale lembrar os casos de Pete Sampras e Andre Agassi, maiores expoentes de uma geração e ambos atletas da Nike. Os dois tiveram contratos de longa duração e encararam uma dura negociação na hora de renovar.

Sampras, inclusive, ficou sem contrato durante algum tempo. Jogou um Australian Open com uma bandeira dos Estados Unidos cobrindo a marca da Nike no peito. Foi ruim para todo mundo. No fim das contas, o ex-número 1 acabou renovando com a empresa em 2002, mas comenta-se no meio que isso só aconteceu porque o próprio Phil Knight, fundador da Nike, intrometeu-se da negociação a favor de Sampras. O tenista, aliás, encerrou a carreira naquele mesmo ano.

Andre Agassi era um ícone ainda maior da Nike. O representante do "image is everything", o cara que já entrou em quadra de bermudas jeans, camisas estampadas, bandanas cobrindo a careca, etc. No entanto, depois dos 30 anos, chegou a um impasse com a empresa. Acabou assinando com a adidas.

O que tudo isso diz? Mais ou menos o mesmo que o primeiro item deste post. Fabricantes de material esportivo querem fazer contratos de longa duração com jovens talentosos, mas hesitam na hora de prometer grandes valores a veteranos. Faz parte do mundo dos negócios.

3. Os planos da Uniqlo

A Fast Retailing, empresa que controla a Uniqlo, tem planos sérios de expansão tanto no mercado chinês quanto no sudeste asiático, na Oceania e na Europa. É aí que uma figura como Roger Federer, mesmo aposentado, pode ser essencial. A Uniqlo já teve Novak Djokovic entre seus patrocinados, mas o sérvio não parece ter alterado muito o alcance da empresa.

Parece estar aí a aposta em Federer, e também não faria nada mal ter o suíço vestindo sua marca durante os Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio. O suíço usou Nike tanto nas partidas de Pequim 2008 quanto nas de Londres 2012. E não importa que a delegação suíça vista outra marca. Ou alguém aí lembra que os casacos helvéticos de Pequim foram feitos pela Switcher? A lembrança relevante é que Federer jogou de Nike. Simples assim.

"Ah, mas as roupas da Uniqlo no tênis são horrorosas." Paciência. Enquanto o mundo do tênis continua a fazer piadas com os trajes nada elegantes que Djokovic vestiu e que Kei Nishikori usa no momento, a Uniqlo vai continuar mais preocupada com suas vendas de roupas casuais, de boa qualidade e, principalmente, baratas.

4. Federer mudar não significa uma queda de status

Isso me parece mais uma preocupação dos fãs do que de qualquer empresário. Federer deixaria de ser um duty free ambulante? Duvido. As marcas premium que o patrocinam hoje se afastariam por causa da Uniqlo? Improvável. Além disso, tudo depende de como um negócio é estruturado.

Ninguém sabe, no momento, se a Uniqlo está planejando uma linha de roupas mais sofisticadas. E se Federer passar a vestir paletós e roupas sociais da Uniqlo em cerimônias e outras ocasiões? Ainda está tudo muito no ar. Não dá para fazer um grande julgamento aqui. O que me parece certo, contudo, é que US$ 30 milhões por ano não reduzem o status de ninguém. Nem se o cara resolver se vestir na 25 de Março.

5. Federer pode faturar muito mais do que US$ 30 milhões

Sair da Nike significa mais do que simplesmente assinar com a Uniqlo. Não é só o possível contrato com os japonesas que vai engordar a paquidérmica conta bancária de Federer. Ao se separar da empresa americana, o suíço abre duas possibilidades: um contrato de calçados e outros para as camisas. Seriam quatro contratos a mais.

Um exemplo. John Isner, campeão do Masters de Miami, levantou o troféu vestindo Ebix na manga esquerda, Wheels Up e Tamko na manga direita. Uma empresa de software, uma de voos privados e outra de materiais de construção. São três fontes de renda além do fabricante de material esportivo. É fácil imaginar que Federer atrairia empresas dispostas a pagar pequenas fortunas por esses espaços e, claro, também para calçá-lo. Então não estamos mais falando em US$ 30 milhões por ano, mas, quem sabe US$ 40 milhões.

Coisas que eu acho que acho:

– Há muito dinheiro na mesa, e as possibilidades são muitas. Sem saber os valores reais, não dá para cravar o que vai acontecer. Porém, recebi uma mensagem de uma pessoa próxima ao suíço, e ela disse que há "boas chances" de se fechar negócio com a Uniqlo.

– Existe sempre a possibilidade de a oferta da Uniqlo ter sido vazada por alguma parte interessada. É uma tática de negociação. Soltar algo assim para a imprensa é uma forma de pressionar uma das partes (no caso, a Nike) a melhorar sua oferta. Os próximos dias certamente trarão novidades.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.