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Que sempre lembremos dos feitos, mas também da garra de Maria Esther Bueno

Alexandre Cossenza

08/06/2018 20h43

Imagine, caro leitor, o seguinte cenário: a pessoa inicia num esporte praticado por meia dúzia de conhecidos, joga basicamente com os pais e o irmão e, sem técnico, decide tentar fazer alguns movimentos iguais ao que viu na foto de um homem num livro sobre aquele esporte. Por algum motivo, essa pessoa se torna um fenômeno e, ainda adolescente, deixa o país com uma passagem só de ida para disputar torneios em outro continente, onde o esporte é desenvolvido e com eventos importantes. Em pouco tempo, ela se torna campeã de quase tudo. Baseado em sete linhas, você, leitor, pode achar que estou citando um conto de Hans Christian Andersen. Falo de Maria Esther Bueno.

A maior atleta da história do Brasil morreu hoje, 8 de junho, aos 78 anos, vítima de um câncer. Campeã de sete torneios do Grand Slam em simples, dona de outros 11 troféus em duplas e mais um em duplas mistas, foi número 1 do mundo no ranking mundial e derrotou nomes que também estão entre os maiores da história, como Margaret Court e Billie Jean King. E não me importa agora se o país não "aproveitou seu legado" – a gente sabe como são as coisas no Brasil. A intenção deste post é só registrar o lugar que Maria Esther Bueno vai ocupar para sempre na longa história do tênis.

Os sete títulos de slam a colocam em 12º na lista de maiores ganhadoras da história – incluindo as eras amadora e profissional. Em tempos de Serena Williams, vencedora de 23 títulos desse nível, pode até parecer pouco. Não é. E mais: Maria Esther perdeu três finais para Margaret Court (Australian Open em 1965, Roland Garros em 1964 e Wimbledon em 1965), a maior vencedora da história, com 24 slams. Não fosse Court, a brasileira não só poderia ter 10 títulos como seria dona de um "career slam" – teria vencido os quatro maiores torneios do circuito, ainda que em temporadas diferentes.

O que dizer, então, dos 11 títulos de duplas e mistas? Talvez seja difícil entender hoje em dia, mas Maria Esther vivia uma época em que todo mundo jogava duplas e mistas. E ela foi a primeira mulher a completar o Grand Slam em duplas, conquistando os quatro títulos em 1960. Um deles contra a própria Margaret Court na final. A australiana, aliás, ganhou 19 slams em duplas.

Maria Esther Bueno jogava tanto – e ganhava tanto – que precisou disputar 120 games em um só dia num daqueles verões chuvosos britânicos. O torneio era Wimbledon/1965, e foi ali que o cotovelo da brasileira acusou o golpe, o que me leva a outro dos grandes feitos da tenista. Era a época do amadorismo, sem prêmios em dinheiro. Wimbledon, por exemplo, dava um voucher de 15 libras que os campeões trocavam por produtos. Tampouco havia cordas macias, banhos de gelo, técnicas avançadas de fisioterapia e cirurgias milagrosas. Maria Esther conviveu com a dor durante muito tempo até uma aposentadoria em 1969.

Mas não foi ali que acabou a trajetória tenística de Maria Esther. Mesmo após receber diagnósticos de que não poderia voltar a jogar, ela não desistiu e se submeteu a várias cirurgias no cotovelo e no ombro direitos. Retornou em 1974, já com 35 anos e sem a forma de antes. Ainda assim, foi campeã do Aberto do Japão em 1974. Ganhou US$ 6 mil, o maior prêmio em dinheiro que recebeu na carreira.

Voltou a Wimbledon em 1976 e 1977 (ano em que foi feita a foto do alto deste post). Nessa época, Maria Esther treinava pouquíssimo para poupar o braço. No máximo, 1h na quadra. Ainda assim, foi às oitavas de final em 76 e à terceira rodada no ano seguinte, quando perdeu para Billie Jean King. Uma trajetória que teve títulos, sacrifício, dor, recuperação… Tudo isso mais de 50 anos atrás, sem técnico, nutricionista, fisioterapeuta ou encordoador particular. E, claro, sem dinheiro. Tudo por amor ao esporte, por amor aos torneios, pelo amor por vencer.

Que seus feitos como atleta sejam sempre reverenciados. Que não deixemos nunca – nunca mesmo – de olhar para trás e reconheçamos o tamanho de Maria Esther Bueno. Que ela descanse em paz.

Mais sobre uma lenda:

– Maria Esther fez mais do que vencer. Jogou com um estilo próprio, pelo qual foi chamada de bailarina. Também foi ícone da moda no tênis e gerou polêmica em Wimbledon com um par de trajes. É, até hoje, reverenciada fora do país, especialmente na Inglaterra e nos EUA. Sobre isso e outras histórias, a redação do UOL Esporte preparou um especial (colaborei com a apuração). O produto final é bonito, tanto visualmente quanto em conteúdo. Vejam aqui.

– Com todas pessoas que conversei desde que seu estado de saúde se agravou, ouvi histórias de seu amor ao tênis, de sua vontade de vencer. Também fui muito bem atendido sempre que mencionei o nome de Maria Esther Bueno. Acredito que muita gente importante vá se pronunciar e dizer coisas bacanas nos próximos dias.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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