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Saque e Voleio

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Por que Federer cita Serena como melhor da história (incluindo homens)

Alexandre Cossenza

23/05/2018 13h03

A discussão sobre quem é ou foi o/a maior tenista de todos os tempos é eterna. Atualmente, muita gente aponta Roger Federer como o melhor da história. O australiano Rod Laver, único a completar dois Grand Slams, vencendo os quatro slams em 1962 e 1969, é outro nome forte na briga. Também há quem aponte Rafael Nadal ou Novak Djokovic. Todos têm sua parcela de razão, dependendo dos critérios que consideram mais importantes.

Mas e Roger Federer, o que acha disso tudo? Em uma entrevista recente, publicada nesta quarta-feira no "Wall Street Journal", o primeiro nome citado pelo suíço foi o de Serena Williams. "Maior mulher de todos os tempos ou maior de todos os tempos de modo geral?", indagou o jornalista. Federer respondeu "overall", incluindo os dois gêneros.

O atual número 2 do mundo, vencedor de 20 títulos de slam, explica sua resposta com uma declaração bastante … suíça. Depois de citar números de Serena e Graf, diz que "não é justo comparar" e segue afirmando que "sabemos que Serena está lá no alto. Eu provavelmente estou lá junto com alguém, de algum modo. Talvez haja um grupo, os cinco melhores – e se você está nesse grupo, deve ficar feliz."

Mas por que Federer citou logo Serena? Porque no cenário atual, Serena seria sua versão feminina – e, sejamos sinceros, superior. A americana de 36 anos (mesma idade do suíço) tem 23 títulos de slams em simples (Federer tem 20), outros 14 em duplas e mais dois em duplas mistas (Federer não tem nenhum). Serena ainda supera o suíço em medalhas de ouro olímpicas (4 a 1).

Mais do que títulos e números, Serena tem um argumento ainda mais forte a seu favor nessa conversa. A americana foi incrivelmente superior a suas maiores rivais. Sua última grande oponente foi Martina Hingis, mas só até 2002. A irmã Venus também foi uma adversária à altura durante um tempo. Nos últimos dez anos, porém, Serena reinou soberana sempre que esteve fisicamente bem. Bateu Sharapova em 19 de 21 jogos. Contra Azarenka, são 17 vitórias e quatro derrotas. Dá para considerar ainda 11 a 1 contra Na Li, 9 a 1 sobre Ivanovic, 7 a 2 diante de Clijsters, 10 a 4 em cima de Jankovic, 10 a 1 em Wozniacki e 6 a 1 em Safina. Contra Henin, o histórico ficou em 8 a 6. A belga, lembremos, se aposentou em 2008 e não bateu Serena quando voltou ao circuito mais tarde, em 2010.

Quanto a Federer, não dá para dizer que o suíço dominou seus principais rivais. Sim, o suíço conquistou mais títulos que Nadal e Djokovic e passou mais tempo como número 1 do mundo, mas não dá para dizer que Federer dominou nem um nem outro. Foi superior em uns momentos, inferior em outros. Soma 22 vitórias e 23 derrotas contra Nole, 15 triunfos e 23 reveses diante de Rafa. Além disso, a maioria dos slams do suíço veio antes de 2008. De 2008 até hoje, Federer conquistou oito slams. Nadal venceu 12. Djokovic, outros 12. No circuito feminino, desde que deixou sua irmã para trás, Serena nunca dividiu holofotes.

Coisas que eu acho que acho:

– A conversa sobre o melhor de todos é ótima para um bar (de preferência, com uma Franziskaner na mesa), e cada um vai eleger um favorito dependendo de seus critérios. Objetivamente, contudo, é impossível fazer comparações justas. Seja medindo Federer com Serena ou Nadal com Laver, estaremos falando de adversários diferentes e circuitos com obstáculos particulares. Sem falar nas diferenças de material de jogo, piso, técnicas de preparo físico e reabilitação, prêmio em dinheiro, etc. A lista é longa. Quem me encontrar num torneio pode puxar o papo. Será divertido.

– Ainda sobre essa discussão, que tal incluir a australiana Margaret Court, vencedora de 24 slams em simples, 19 em duplas e 21 em mistas? Court também venceu 91,68% de suas partidas (1.180v e 107d) e levantou 192 títulos em simples. E Steffi Graf, que ganhou 22 slams em simples e conquistou o Golden Slam em 1988, vencendo os quatro slams e o ouro olímpico? A alemã também é a recordista de semanas (377) como #1 do mundo. O debate pode ficar melhor ainda…

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.