Saque e Voleio

Empresário capta R$ 250 mil só para Orlandinho via Lei de Incentivo

Alexandre Cossenza

23/05/2018 07h00

A Lei de Incentivo ao Esporte mudou radicalmente o cenário esportivo do Brasil. Ao determinar que toda empresa pode usar para patrocínio esportivo até 1% do que deveria pagar de imposto de renda à União, a legislação criou uma nova maneira de captar patrocínios e fazer eventos no país. Em tese, foi um avanço inquestionável (e que pode ser maior ainda se for aprovada a ampliação de 1 para 3%).

Na prática, porém, o que seria uma nova maneira tornou-se a única maneira da fazer eventos esportivos no país. Afinal, toda empresa passou a dar preferência a eventos incentivados. Afinal, por que pagar por patrocínio de é possível aproveitar o valor que seria pago de impostos de qualquer maneira?

O grande problema é que só podem captar patrocínios via Lei de Icentivo entidades que não possuem finalidade lucrativa. Ou seja, as grandes promotoras, com know-how para realização de grandes eventos e parcerias já estabelecidas com marcas de peso, sofreram um baque enorme. A solução foi a criação de ONGs. No tênis, por exemplo, o Rio Open tem o Instituto Carioca de Tênis, o Brasil Open tem o Instituto Cades, a Copa Gerdau tem o Instituto Gaúcho do Esporte, os Futures de Rio Preto, São Paulo e Brasília tiveram o Instituto Sports e por aí em diante.

Só que o dilema que foi inicialmente observado na promoção e na realização de eventos chegou a uma área mais preocupante: o patrocínio de atletas. O raciocínio é o mesmo: por que uma empresa vai pagar para mostrar sua marca na camisa de um atleta se pode patrocinar um evento incentivado? Não preciso dizer que é um problema mais grave ainda para atletas com pouca exposição de mídia – no caso, aqui, tenistas em ascensão no circuito. Como obter um grande aporte de verba que ajude na carreira diante desse obstáculo criado acidentalmente pela Lei de Incentivo?

Gilmar Machado, manager da carreira de Orlandinho, parece ter encontrado a solução. Usou a própria Lei de Incentivo para captar patrocínio ao jovem de 20 anos, atual número 662 do ranking mundial. Machado fez um projeto por conta própria e conseguiu captar cerca de R$ 250 mil junto ao Banrisul. Dinheiro que o banco pagaria de impostos à União, mas que aproveitou para investir em um tenista. Na modalidade, é a primeira vez que um atleta consegue verba individual pela Lei de Incentivo.

Machado esteve em Brasília e visitou o Future organizado pelo Instituto Sports. Eu estava lá (a convite do Instituto) e aproveitei para bater um papo com o empresário. Sem mistério, ele explicou como foi o processo, e trago aqui nosso curto papo, que pode servir de ajuda para quem estiver interessado em fazer algo parecido por um outro atleta, de qualquer modalidade.

Como é o procedimento? Você criou uma ONG para apresentar o projeto?

Essa pode ser uma linha. Eu estou envolvido com a Lei de Incentivo Federal desde 2008. Eu erra diretor do Grêmio na época, e a gente começou a usar a Lei de Incentivo para as categorias de base, então fui pegando o processo, via a Brasília várias vezes, etc. e tal. Com o tempo, você aprende a encurtar caminhos. Os projetos de Lei de Incentivo têm várias ramificações. Existe massificação do esporte, infraestrutura – quando, por exemplo, uma prefeitura quer construir um ginásio – etc. e tal, e tem um, que é o que nos interessa, que é o de alto rendimento, que é o caso do Orlandinho. É um processo um pouco demorado e trabalhoso. Não só para fazer e aprovar, mas depois, na execução, tem que ficar em cima. Mas no nosso caso, era a alternativa que tinha. O patrocínio direto do atleta e pro evento hoje… Pode ver! Não tem mais evento sem Lei de Incentivo. Ninguém mais faz, então você tem que ir para essa linha. Mas sobre a entidade, todos projetos têm que ser apresentados por uma entidade sem fins lucrativos. Essa entidade tem que estar em operação há mais de dois anos, tem que ser entidade reconhecida… Eles [Ministério do Esporte] pedem várias comprovações, como a capacidade de execução do projeto. Tem muita gente criando entidades, mas a gente foi atrás de uma associação que já existia [Associação de Esportes de Raquete], já fazia eventos, já tinha aprovado outros projetos em Santa Catarina, e com isso a gente já pegou alguém que tinha um pouco de caminho andado.

E tudo é apresentado pela associação, certo?

Tudo é feito através da associação. É um projeto da associação para o Orlandinho. Dentro do projeto, nós temos várias coisas. Daí tu vai fazer licitação para ver quem vai fazer a parte disso, a parte daquilo…

Eu não sabia que era possível fazer isso para um atleta só.

Foi o primeiro aprovado no país. Já houve vários outros que tentaram e não foram aprovados. O nosso foi o primeiro aprovado.

O que você fez de diferente?

Na realidade, não tem muito segredo. Tem tempo de execução, experiência e os caminhos para andar ali dentro, várias coisas que você tem que tomar muito cuidado. As pessoas normalmente tem aquela coisa de “ah, isso não precisa”, “vou fazer assim, e os caras lá nem vão olhar.” Não tem! Eles olham tudo. As coisas têm que estar comprovadas. As coisas têm que ter um porquê. Se tu quer comprar esse prato que nós estamos olhando [a conversa foi durante um almoço no Clube do Exército], tem que dizer por que você quer, como vai usar, então tem um processinho um pouco moroso para fazer.

Quando você apresentou o projeto, já conversou antes com o patrocinador?

Sim. Pode as duas coisas [apresentar projeto com ou sem um patrocinador previamente acertado], mas há caminhos que ajudam. Um dos que ajuda muito e acelera o processo é protocolar já com uma carta de intenção de patrocínio. Então você já tem lá o patrocínio assegurado. Nós fizemos isso com 100% do projeto. Entramos com o Banrisul e um pedacinho que faltou com a empresa Stara, de equipamentos agrícolas. Quando o Ministério olha, fala “esse aqui vai ter que ir para o mercado, não sei o quê…” ou “esse aqui já está pronto. É aprovar e já tenho a captação.”

Quanto tempo leva para fazer e aprovar um projeto desses?

Levou seis meses.

Isso formulando, apresentando e até aprovar, né?

Isso.

E o valor?

Tu entra no site do Ministério, tu vai ver. Tem R$ 249.770,98. É público. Não tem nada escondido, nada errado. Se a pessoa entrar ali, vai ver quanto a gente vai gastar com bola, com viagem, com treinador, com suplementos, que são um dos itens importantes que nós fomos atrás. Quando a gente foi fazer [o projeto], cheguei para o treinador dele na época e perguntei “o que ele precisa?”. O projeto era maior, mas tive que tirar várias coisas fora porque não tínhamos capacidade de captação. Uma das coisas que as pessoas fazem e cometem erros é crescer o olho. Normal. O primeiro projeto que eu fiz para o Orlandinho dava um milhão e pouco. Eu disse “quem vai [pagar]?” Primeiro que o pessoal do Ministério vai olhar com um olho deste tamanho! Ah, se gasta um milhão com um jogador? Pode se gastar! Mas é que o pessoal está falando em alto rendimento pagando R$ 5 mil para o Bernardinho treinar uma seleção. Tênis é mais caro, então tu tem que tomar cuidado. Tudo tem que estar comprovado. Tem que mandar já com três orçamentos. Vamos olhar sites, passagens, Viajanet, não sei o quê, Skyscanner e Decolar. Pega os três, vê o menor valor e coloca. E suplementos, eu estava te falando… Esses guris aqui [no Future de Brasília], eu perguntei pra quatro: “você está fazendo suplementação alimentar?” “Não, é muito caro.” Então foi um item importante. Os itens são muito básicos. A maior parte é hotel, alimentação, corda e passagens, que são os itens mais difíceis porque o preço varia muito.

E isso vai dar uma dor de cabeça na prestação de contas, imagino…

Estamos trabalhando até agora. Estou vindo encontrar uma pessoa do Ministério que vai visitar o torneio, então vou tirar umas dúvidas de prestação.

Você aprovou R$ 249 mil. No projeto, você tem que dizer em quanto tempo vai usar esse dinheiro?

Sim! Seis meses.

E se você quiser renovar o patrocínio, tem que apresentar outro projeto?

Outro projeto, sim. É isso que já estamos fazendo. Já estamos com a fase 2 pronta. Obviamente, nós vamos fazer por um ano agora. Fizemos por seis meses primeiro porque o dinheiro que o banco tinha nos prometido era um valor X. Eu sou muito pé no chão. Agora vou tentar para um ano, até para dar um descanso para a gente. Mas o projeto é simples: a CBT nos dá uma mão na BTT [academia de Barcelona onde Orlandinho treina]. Ela nos dá 50% e a gente tem que cobrir. A gente vai atrás disso, de despesas de viagens, de treinador, porque treinador cobra para fazer acompanhamento. Basicamente, essas coisas. Não tem nada de mágico.

Sem mordomia?

Mordomia zero. Se você bota mordomia num projeto para o Ministério, a primeira coisa que o cara faz é cortar. E quando começam a cortar, começam a ficar com maus olhos… O nosso [projeto] foi aprovado sem ressalvas. Isso é bom porque quando formos apresentar o segundo, o cara vai olhar e dizer “eles fizeram o primeiro, prestaram conta direitinho.” Tem que ir nessa linha.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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