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Entrevista: Westrupp em busca da 'desjorgificação' (parte 1)

Alexandre Cossenza

05/03/2018 07h00

Durante o Rio Open, o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Rafael Westrupp e eu sentamos no Jockey Club Brasileiro para conversar sobre muita coisa. Falamos de gestão, contratos, transparência, desavenças da entidade com atletas, ex-atletas e jornalistas, COB, Copa Davis, Fed Cup, transição, infantojuvenil, salários, Centro Olímpico… Foi um papo longo.

Concordamos, discordamos, trocamos críticas – tudo de forma muito educada, é bom ressaltar – e o resultado é a a transcrição que começo a publicar nesta segunda-feira. No post de hoje, trago a parte sobre transparência e como o dirigente enfatiza que precisa de uma "desjorgificação" – separar a sua imagem da do ex-presidente da CBT, Jorge Lacerda, que foi quem levou Westrupp para a entidade. Amanhã, terça-feira, publico a segunda parte da conversa, junto com meus comentários sobre o papo – o que gostei e não gostei de ouvir. Rolem a página e leiam.

Você estava numa gestão que eu acho que fez mal para o tênis em alguns aspectos. Foi uma CBT que lidou muito mal com críticas, com discordâncias, que perseguiu uma promotora, que vetou a jornalista Diana Gabanyi de trabalhar nos Jogos Olímpicos, eu entrei em listas para ter credencial negada, enfim… Foi uma coisa ditatorial. "Ou está comigo ou não está." Era o jeito como o Jorge Lacerda tocava a coisa.

Por isso que eu sou chato. E eu vou continuar sendo chato porque as pessoas me ligam fazendo críticas, acusações, levantando hipóteses. Algumas eu apuro e vejo que tem coisa, algumas eu apuro e ninguém fala nada, aí eu não publico. A primeira questão que eu tenho para você é a seguinte. A gestão do Jorge fez muito pouco para deixar a CBT transparente. O que você fez nesse primeiro quase ano de gestão para deixar a entidade mais transparente?

Olha, Cossenza, na gestão do Jorge, eu participei como colaborador, como contratado da Confederação. Eu assumi a superintendência financeira, não tinha qualquer ingerência na parte técnica, que era coordenada por outro superintendente (Paulo Moriguti), e o Jorge assumiu com uma dívida lá atrás. Quando eu entrei, em 2013, ela não estava totalmente saneada, então foi um processo de reestruturação administrativa, onde a gente teve que fazer algumas readequações, uma engenharia mesmo – tanto que lá em São Paulo nós mudamos de sede – e o meu foco era zerar. Nós tínhamos 98 títulos protestados em 2013. Noventa e oito! Com valores pequenos e valores grandes. Isso não era culpa do Jorge, porque ele tinha prioridades para pagar de 2005 até lá, e o mais legal é que a gente tinha colocado como meta o fim da gestão do Jorge. A gente conseguiu entregar em janeiro de 2016 com nenhum título protestado e nenhuma dívida. Nem renegociação. Já tinha quitado tudo.

Na questão da transparência, eu entendo que o Jorge cumpriu tudo que estava regido no estatuto. Ele publicava os balanços, fazia as coisas que ele entendia que cumpriam o estatuto. Ok. E eu era mero colaborador. No período que estive lá, não vi nada de errado. OK, saneamos a CBT. Ocorreu a eleição, fui eleito por aclamação, só que acho que às vezes, pelo que eu escuto, o que parece é que querem jorgificar o Westrupp. E, cara, são duas pessoas completamente diferentes. Eu sou grato a ele pela oportunidade e tenho certeza que ele é grato pelo que eu auxiliei como colaborador. Concordando ou não com as coisas que, de repente, não foram tão boas na gestão dele… Lógico que sempre pode ser melhor. Tenho certeza que daqui a quatro anos eu vou olhar e ver que poderia ter sido melhor em algumas coisas, mas eu estou acreditando naquilo que eu estou fazendo. E acredito que o Jorge deu uma virada em vários aspectos, positivamente falando. Conseguiu trazer um patrocínio, conseguiu investir na parte de infantojuvenil, de alto rendimento, mas o mais claro é o seguinte: eu estou procurando dar uma continuidade no trabalho, logicamente com uma identidade minha, mas sem continuísmo.

Se for verificar, já fiz várias mudanças. Uma delas é o Frick. Eu o coloquei como gerente esportivo – caiu o cargo de superintendente – um cara que entende muito de tênis. Erra, acerta, mas as intenções são as melhores e com conhecimento. É um cara que foi treinador, foi jogador, gosta de trabalhar, e eu me identifico muito com isso. Eu joguei tênis, fui professor de criança e adulto, fui chefe de equipe de Copa Davis, fui chefe do Pan-Americano, fui membro do departamento de capacitação, fui árbitro, fui presidente de federação, fui superintendente administrativo e hoje sou presidente. Passei por todas as pontas do tênis. E eu fiz essas alterações porque entedia que a gente tinha que dar uma nova cultura para a CBT em termos de trabalho.

Essa continuidade existe, tanto que o patrocínio é o mesmo – diminuiu demais, mas é o mesmo – a fonte de recursos do Comitê Olímpico é a mesma, são as coisas que o Jorge já trabalhava. Eu estou buscando outras coisas, mas sem continuísmo, isso é que é importante. Desjorgificar o Westrupp. Cara, eu tenho meu jeito de ser. Não sou melhor nem pior do que o Jorge, mas eu sou eu! Eu quero trabalhar na minha linha. Aquilo que às vezes as pessoas não concordam eu respeito demais. Tanto que eu escuto, tanto que tem o Conselho Consultivo. Eu não sou dono da razão. Estou buscando compartilhar com todo mundo para a gente tentar ser o mais assertivo possível. Fui conversar com o Fernando Meligeni no início do ano passado para se houvesse qualquer tipo de aresta, deixa no passado. Vamos fazer uma coisa nova.

Quando eu falo de transparência, só pra deixar um pouquinho mais claro, vou te dar um exemplo. Você falou que o Jorge cumpria e publicava os balanços. Só que balanço, cada confederação publica do jeito que quer. Se eu pegar o balanço de 2016 da CBT, o último, tem lá R$ 18 milhões em receitas. Desses 18, milhões, há R$ 7,8 milhões num item chamado "outros valores". Eu leio aquilo e quero saber de onde vem o dinheiro. O que são "outros"? Outro exemplo: o dinheiro da venda do WTA. Onde entrou? Em que balanço? Onde está? Não está especificado em lugar nenhum, e a gente sabe que é um valor relevante. É esse tipo de coisa que eu falo e acho que quando falta isso, cria uma dificuldade para você conseguir patrocinador. Ou você não acha que isso afeta a credibilidade da confederação?

Hoje, eu te falo com tranquilidade. A gente está tendo uma experiência muito bacana, que eu lembro até que tu escreveste a respeito do patrocínio da Peugeot…

Eu comentei. Quem publicou foi o Demétrio Vecchioli, do Blog Olhar Olímpico.

Alguém escreveu e tu escreveu em cima. Problema nenhum.

Só não quero roubar o crédito do Demétrio, que fez a matéria.

Aconteceu a matéria, e a Peugeot me ligou e disse "Rafael, hoje dá para ver que às vezes a imprensa escreve coisas distorcidas." Ali deu a conotação de que o Westrupp vai ganhar um carro.

Não foi a minha crítica, mas tudo bem.

Para quem lê, parece aquilo ali. Qual era a ideia da Peugeot? A Peugeot é uma patrocinadora do tênis, global, com Roland Garros e determinados jogadores. Já patrocinou alguns eventos, o Rio e o Brasil Open, mas ela queria reativar a marca no Brasil devagarinho. A partir do momento em que você coloca uma Peugeot dentro da CBT, ela não entraria numa confederação que não tivesse pelo menos um mínimo de dignidade. Essa é a primeira coisa que eu entendo. Uma marca como a Peugeot não vai entrar em um terreno duvidoso.

Mas eu acho que foi um negócio muito bom para eles.

Isso é um outro ponto, tá?

Sim. Foi essa a minha crítica, não foi a questão do seu carro, mas vamos lá.

Estou precisando de uma marca forte da iniciativa privada, porque estatal já tem Correios. A nossa ideia, no primeiro momento, era trazer a marca para até servir de cartão de visitas para que outras marcas se interessassem. "A Peugeot está lá, vamos tentar entrar também." E no primeiro momento pode parecer um patrocínio que é muito melhor para eles, mas com esse raciocínio, de pensar médio e longo prazo, acho interessante para a confederação ter uma marca forte do lado. E mais: este ano, eliminou quase R$ 100 mil de custos operacionais tendo os carros. Um exemplo: no Banana Bowl, o transporte de estafe, cursos de capacitação, a gente leva os carros, faz o transporte com os carros. O aluguel dos vans, você sabe como é evento. Isso vai minimizando custos. Não que a Peugeot botou dinheiro na CBT. No próximo passo, é o que a gente vai tentar. Normal. Mas a gente foi maturando o contrato a quatro mãos: Peugeot e CBT. A Peugeot está aberta para a gente tentar evoluir esse contrato. As entregas foram boas, agora vamos pedir um pouco mais. Que diminua carro, que entre mais aporte financeiro, mas foi um primeiro passo. Sair do sofá, quebrar a inércia. E 2017 foi muito isso. A Wilson é uma das maiores fabricantes de bola e material esportivo do mundo. A gente conseguiu um patrocínio que, ao meu ver, foi maravilhoso para a CBT. "Mas é só material?" Se for avaliar o volume de material, é quase R$ 1,080 milhão em bolas. Começa a minimizar custos e hoje em dia, com a crise que a gente está para trazer um dinheiro novo de patrocínio, tirar custos não deixa de ser uma forma de patrocínio. Então eu vejo, respeito, não tem problema nenhum, mas é uma semente plantada.

Você disse que a Peugeot agrega um certo status. Eu entendo o raciocínio disso, mas se o raciocínio é esse, por que assinar com a Companion [fornecedor de uniformes da CBT]?

Nós tentamos renovar com a Asics, mas a Asics tirou todo o investimento do tênis na América do Sul e ficou só com o Bruno Soares. Eles direcionaram os investimentos todos para a plataforma do vôlei. Segundo eles, foi uma decisão do Japão. Buscamos outros, fomos para a mesa de negociação com outros e não conseguimos. A Companion já tinha sido parceira da CBT, se propôs a cobrir a necessidade de material que a gente precisar e está atendendo. É um patrocinador que atende as necessidades que a gente tem de confecção. na mesa de negociações, foi quem cobriu a proposta de atender com materiais.

Vocês não conseguiram uma marca de mais nome, mesmo que não entrasse com dinheiro?

Veja bem, Cossenza. Nós não pedimos dinheiro para ninguém.

Só material?

Só material. Hoje, se nós formos avaliar o custo de material, dá mais de R$ 250 mil por ano de uniforme para atender todas as seleções, os árbitros, os infantojuvenis…

Você não acha que seja porque a CBT tem imagem danificada?

Não. Acho que as Olimpíadas, o pós-olímpico, a dor de barriga que deu na turma…

Você não acha que as investigações envolvendo o Jorge afetam?

As denúncias contra o Jorge saíram há um bom tempo. O contrato da Asics foi feito na gestão dele. Se fosse um problema…

Não continua afetando?

Não, de forma alguma. Acho que é um direcionamento de investimento, uma prioridade das marcas investir em outras plataformas e acredito muito na recessão, na crise do pós-olímpico do esporte nacional. Nós fomos para a mesa de negociação com todas empresas que mostraram interesse, e a que atendeu foi a Companion, e estamos satisfeitos com o que a gente tem.

A CBT teve R$ 18 milhões em receitas em 2016. Esse balanço que vocês vão publicar agora [com os valores de 2017] traz quanto em receita? É o primeiro balanço depois da mudança do contrato dos Correios…

Quase R$ 10 milhões. Não chega a dez.

O que se faz para aumentar isso?

O que se faz, a gente sabe. Como fazer, a gente sabe. O problema é que a gente está passando por um momento em que está todo mundo com o freio de mão puxado. Essa é que é a verdade. Você tenta questionar a questão da credibilidade… Eu sou recebido por todo mundo. Se você tem problema de credibilidade, você não entra. Você é um leproso.

Eu digo isso pelo seguinte: eu converso com gente do rugby, em Santos eu fiz uma entrevista muito legal com o francês Patrick Mendes, CEO da Accor na América Latina, e ele me falava… Você entra no site da Confederação Brasileira de Rugby, eles têm um portal de governança. Você olha lá e vê todas licitações, contratos, atas de assembleia, valores… Eu sei que os caras gastaram R$ 100 mil em cintos, R$ 30 mil em bolas, R$ 60 mil em passagens. Está tudo lá, discriminadinho. E aí você chega no fim da página e vê os patrocinadores: Heineken, Accor, Bradesco… São marcas grandes e de iniciativa privada. Não é um caminho? O que precisa para a CBT disponibilizar uma ata de assembleia? Para eu conseguir uma cópia de uma ata aqui, preciso falar com fulano, que pede pra outro… Parece que estou cometendo um crime! É difícil! Por que não se publica essas coisas? Por que o balanço não pode ser mais detalhado?

A gente apresenta os números. O balancete, toda a discriminação é apresentada em assembleia, para as votações. Acho que até para ficar de forma mais objetiva, a gente publica aquilo que o estatuto rege, mas a gente é super aberto porque todas confederações podem consultar não só o balancete, mas todos os documentos contábeis dos movimentos ficam disponibilizados na CBT. Se tem uma federação que esteja em dúvida, é um direito dela – ninguém também busca isso, mas é um direito das afiliadas. A comissão de atletas também tem o mesmo direito de uma federação.

E eu não tenho…

Não tem. Não tem porque é estatutário. Agora, tu pode pedir para uma federação. É bem tranquilo. Agora, tudo é publicado. Balanço, parecer da auditoria, que é externa, não sei nem quem é o auditor. Eu vejo ele na assembleia. E aquilo é publicado, o parecer do conselho fiscal. Agora tem o conselho consultivo. É uma prova de como está se mudando a questão da continuidade/continuismo. É uma coisa inédita. Querendo ou não, são pessoas importantes no mundo esportivo. Marcelo Melo, Rafael Kuerten, o próprio [Rogério] Melzi, um cara que investe no tênis como pessoa física há muito tempo. Isso, na minha opinião, dá uma notoriedade de transparência e de governança, sabe? E está ali, tudo documentado, tudo exposto.

Por que as pessoas questionam o seu salário? Não sei quanto você ganha, mas a matéria da Folha diz que é R$ 22 mil, e três dirigentes me disseram que você tem um auxílio-representação que joga isso para perto dos R$ 30 mil. Procede isso?

Eu tenho o meu salário, que aí… Por isso que às vezes é complicado falar do que se escreve. "Westrupp, na crise, aumenta o seu salário." É a maior mentira que existe. Mentira! Por quê? Porque o meu salário é exatamente idêntico ao do Jorge, e ele já ganhava esse salário desde 2015. Eu era superintendente e tinha uma remuneração. Como presidente, eu tenho outra remuneração.

Foi essa a comparação que a Folha fez?

Não sei. Falaram "Westrupp aumenta seu salário." Mentira. O salário aumentou porque eu saí de superintendente e fui para presidente. Como presidente, não aumentei. E já te falo: R$ 22 mil. Poderia ganhar mais. Meu teto de vencimentos é 70% do mais alto cargo federal. Eu poderia ganhar quase R$ 24 mil. Não quis aumentar. E vou te falar uma coisa: a gente vai ter a assembleia semana que vem [foi realizada no sábado, dia 3 de março]. A gente vai ter que fazer outro redimensionamento da CBT porque a gente não está tendo novas receitas. Eu vou reduzir meu salário em 20%. Começar comigo. Não que eu não precise de dinheiro. Eu preciso como tu precisa. É trabalho. Meu trabalho com a CBT é dedicação exclusiva. Viajo pra burro, fora de casa, todo mundo acha que é um glamour. Trabalhando mesmo, bastante. Estou feliz! Então vou reduzir R$ 4.400 do meu salário. Se A ou B acha que é demais, que ache, mas eu trabalho honestamente. Nunca vai ter uma vírgula para dizer "Westrupp ganha indevidamente." Eu não ganho mais do que o teto, trabalho bastante, e a remuneração…

Não existe auxílio que joga seus vencimentos pra perto de R$ 30 mil?

Não existe nada. Existe que seu eu gasto em viagem e despesas, eu não vou tirar do meu bolso. Inclusive aqui [a viagem para o Rio Open] é do meu bolso, tá? Passagem de milhas pessoais. Mas se eu gastar em alimentação a trabalho… São despesas de representação, o que eu vou fazer? Se tu trabalha para a Folha, a Folha te manda cobrir o Rio Open, vai tirar do teu salário para cobrir? É normal [o auxílio].

Tem um limite esse auxílio?

Tem um limite. Tem um limite de… Se não me engano, R$ 5 mil por mês, R$ 7 mil por mês. Isso é o normal. Te falo tranquilamente. Se eu vou a trabalho, tenho as despesas de representação.

Voltando para a questão da "desjorgificação" – adorei essa expressão, você reatou relações com Fernando Meligeni, Thomaz Koch…

Posso fazer um parêntese? A CBT reatou. Pessoa jurídica.

Perfeito. Aí vem uma série de perguntas relacionadas a isso… Thomaz Koch vai finalmente receber o Commitment Award da Copa Davis? [segundo apurei, Westrupp, junto com Lacerda, foi contra premiar Koch]

Foi uma injustiça que tu fez comigo.

Por quê? Você não vetou? Eu sempre soube que você foi contra.

Nunca vetei ninguém. Nunca vetei a Laura Pigossi [Westrupp se refere à reportagem em que a ex-capitã da Davis, Carla Tiene, e o ex-superintendente Paulo Moriguti confirmaram que a atleta Laura Pigossi foi excluída de uma convocação para a Fed Cup por ordem do então presidente da CBT, Jorge Lacerda. A mesma reportagem menciona que o atual técnico de Pigossi diz ter enviado mensagens a Westrupp, que não teria respondido. A reportagem também traz a resposta da CBT na íntegra. Leia aqui.]

Eu não falei que você vetou a Laura.

Falou que eu vetei, que recebi mensagem que não respondi…

Sim. Eles falaram que você não respondeu.

Então me mostra a mensagem. Cossenza, olha a responsabilidade!

Mas espera aí. Eu coloquei os dois lados, não coloquei?

Você ouviu, você veio checar com a CBT e mandamos a resposta.

Sim.

Você foi checar? "Me manda as mensagens!"

Eu não sou tribunal, Westrupp. É a acusação dela e a sua defesa.

Então não pode publicar, cara.

Posso. A pessoa está fazendo uma acusação.

Mas é uma inverdade.

E eu publiquei que você disse isso.

Tudo bem, eu sou vidraça. Mas aquilo foi uma inverdade. E a votação no COB, não sei se você ia perguntar ou não, mas por que você acha que eu votei contra? [Westrupp se refere à votação para aumentar o poder de voto dos atletas nas assembleias do Comitê Olímpico Brasileiro. Na ocasião, o dirigente do tênis votou por uma representação menor do que a proposta pela Comissão de Reavaliação Estatutária. Seu nome foi citado por ex-atletas de nome como integrante de um "Bando dos 15". Entenda aqui.]

Porque você votou pela menor participação de atletas. Contra os atletas.

Por que você acha isso?

Porque você – você, não, vocês todos que votaram contra acharam que 12 era muito e pensaram "não quero votar no 12, mas também não quero votar no zero."

Zero, não. Era um.

Sim, um, que era manter o que existia. Então, para não ficar politicamente mal, "vamos criar um '5' aqui para ser um meio-termo que politicamente fica bonito para nós."

Eu votei porque o artigo 8 do regulamento da comissão de atletas do Comitê Olímpico do Brasil é impeditivo para que Guga Kuerten, Jaime Oncins, Fernando Meligeni façam parte dessa comissão porque o atleta tem que ter participado de no mínimo uma das duas últimas edições dos Jogos Olímpicos. Eu, votando desse jeito, estou indo contra a minha modalidade.

Isso me parece um voto egoísta, Westrupp.

Não. Eu não posso restringir. Foi a proposta que eu fiz. "Vamos mudar para 5?", vamos fazer uma reforma nesse regimento e abrir. Não querem abrir? Compara o meu voto específico nisso e meu voto em relação à mudança no processo de elegibilidade do COB. Eu votei a favor! Hoje, Cossenza, com três assinaturas, você pode se candidatar a presidente do COB. E eu votei a favor! Estou abrindo para a participação de todo mundo.

Sim, ótimo. Mas por que não 12?

Por que não faz uma reforma no regulamento?

Mas pode fazer. Pode fazer depois.

Como é que vão aceitar reformar depois que mudou? E outra: eu não votei para ficar em um. "Vamos aumentar de 1 para 5, faz a reforma e depois passa para 12".

E por que não pode votar 12 logo e fazer a reforma depois?

Porque eu acredito, a minha convicção é essa: o regulamento é restritivo e injusto com algumas modalidades, incluindo a modalidade que eu amo e que eu defendo. Sou a favor do esporte, mas estou trabalhando pelo tênis. A partir do momento que o maior expoente do tênis da América do é engessado para participar. Eu não posso aceitar que o Meligeni não pode ser, que o Jaime não pode ser, que o Thomaz [Koch] não pode ser, que a Maria Esther não pode ser…

Mas isso existe porque existe muito ex-atleta que passa um tempo, vira dirigente, e começa a enxergar as coisas não com a visão do atleta.

Sim, mas aí tu tá falando pelos outros.

Não, estou falando de modo geral. Quando você mantém algo próximo do atleta em atividade, é mais representativo do atleta que está ali, no momento, competindo e infelizmente dependendo do COB.

Mas aí eu vou te perguntar: é uma comissão de atletas ou de ex-atletas?

Tanto faz.

O atleta em atividade geralmente é jovem, tem foco todo na competição, todo no treinamento. Esse cara está mais ou menos preparado que o ex-atleta que passou por um processo de transição de carreira, que foi estudar?

Pode estar ou pode não estar.

Isso vale para tudo na vida.

E cada caso é um caso.

Hoje você é um jornalista melhor do que 10 anos atrás ou não?

Espero que sim.

Claro que tu és.

Mas nem todo jornalista é melhor do que dez anos atrás.

Mas aí é exceção.

Não sei.

De dez jornalistas, quantos você acha que melhoraram nos últimos dez anos? A maioria melhora. Pelo amor de deus.

Eu não estou falando isso por defender o meu argumento. Eu realmente acredito. Você pode pegar três atletas preparados e três ex-atletas igualmente preparados. Ou você pode pegar três ex-atletas que não fizeram nada, como o Jardel, que foi eleito. Ele está mais preparado hoje do que dez anos atrás?

O [João] Derly está mostrando que está trabalhando.

Mas é isso que eu estou dizendo. São casos e casos. Um, sim. O outro, não.

Mas, de maneira geral, eu entendo que tempo traz maturidade, traz preparação, competência, e eu entendo isso. Na minha cabeça, eu tenho que votar para que a minha modalidade tenha voz. Tenho certeza que o meu voto foi fundamentado nisso. Eu sou a favor de todos os atletas, cara. De nível baixo, mas fui atleta também. Eu vim da meia suja de saibro. Não sou contra ninguém, mas tenho as minhas convicções. Não aceito alijar os meus principais expoentes de participar de uma comissão dessas. Atletas em atividade, se forem participar da comissão, os caras não têm tempo para participar. Vão chegar em uma assembleia "opa", sem saber o que está acontecendo. Precisa ter tempo para acompanhar, para dialogar, divergir, discutir, evoluir. É mais nesse sentido, sabe? Então votei contra pela restrição do artigo 8. Só por isso.

E por que não houve representante da CBT na segunda votação do COB? Eu sei que você tinha um compromisso no Rio Grande do Sul, mas a CBT poderia ter enviado um vice-presidente.

Não ia mudar porque eu já vi que havia um movimento [para a aprovação de 12 atletas na comissão]. Não tinha por que… Se eu pudesse ir, eu iria.

— Continua no próximo post —

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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