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Saque e Voleio

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Por que o Hawk-Eye não é utilizado no saibro

Alexandre Cossenza

25/02/2018 07h43

A cena é comum, e o debate é igualmente manjado. Basta um tenista reclamar com um árbitro sobre uma marcação de linha no saibro que alguém ressuscita o tema: “Por que não usam o Hawk-Eye no saibro? Acabaria com essas discussões.” A resposta não é tão simples, mas quem acompanhou o Rio Open pela TV teve um aperitivo de um problema que poderia ser muito maior.

No vídeo abaixo, que mostra um trecho da semifinal entre Diego Schwartzman e Nicolas Jarry, é possível ver um saque angulado do argentino que deixou todo mundo com dúvidas. Jarry vai até perto da marca e pede que Carlos Bernardes, o árbitro de cadeira, decida. O brasileiro vê a marca e chama bola fora, indicando a Schwartzman que ela saiu por pouco. Em seguida, a transmissão de TV mostra a imagem do Hawk-Eye, que foi instalado no Rio de Janeiro não para uso oficial, mas como fator de entretenimento para quem está vendo em casa. E o que o sistema apontou? Bola boa, tocando de leve a linha.

Não foi a única vez que o Hawk-Eye mostrou algo diferente do apontado pelos árbitros de cadeira no ATP 500 carioca. Longe disso. Foram vários os casos. Será que tantos árbitros estão enxergando e julgando mal? Nada disso. A resposta é simples: o sistema de replay não é 100% preciso, e seu uso no saibro deixa óbvias algumas de suas falhas mais graves.

O primeiro obstáculo é a margem de erro do Hawk-Eye. Não, o fabricante não promete 100% de precisão. E essa margem, ainda que mínima, é o suficiente para cometer erros como o do vídeo acima. Logo, se a visão humana ainda é mais confiável do que a tecnologia, não há por que substituí-la.

Mas não é só isso. Em um texto publicado recentemente pelo New York Times (que eu já citei em um Cossenza Responde, mas achei interessante repetir aqui), o diretor de tênis da Hawk-Eye, Peter Irwin, explica que o sistema é calibrado medindo a quadra e as ondulações do solo. Como o chão está mudando sempre numa quadra de saibro (mais pó/menos pó), o Hawk-Eye precisaria ser calibrado e recalibrado constantemente ao longo de um dia de jogos. Levaria meia hora após cada jogo, sem contar que em partidas longas o sistema não estaria 100% calibrado durante o jogo inteiro.

A mesma reportagem lembra que a marca da bola varia de acordo com as condições do dia. Em uma reportagem do New York Times, o vice-presidente de regras e competições da ATP, Gayle Bradshaw, explica que quando a quadra tem mais pó, por exemplo, a a bola deixa uma marca maior do que seu contato real com o solo. Por outro lado, quando há pouco pó, a marca da bola é menor do que seu contato com o solo.

Por tudo isso, é mais simples, honesto e preciso manter o olho humano como o fator de decisão em jogos no saibro. Não parece que o Hawk-Eye vai ganhar essa batalha – pelo menos por enquanto.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.