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Saque e Voleio

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Rio Open: quatro minutos atrapalhados e sua pior 'tradição'

Alexandre Cossenza

22/02/2018 10h00

Uma das “tradições'' do Rio Open é a discussão em torno da necessidade e da capacidade de sua equipe de cobrir a quadra central com eficiência nas noites chuvosas do Rio de Janeiro. O debate existe desde a primeira edição, em 2014, quando o time operacional do evento já se mostrava atrapalhado na execução. Houve também o naufrágio da Quadra Guga Kuerten em 2016, num episódio memorável. Em 2017, houve aquele desastre que a organização chamou de teste no dia da final. Sete das oito partes de uma lona foram aplicadas sobre o saibro enquanto chovia fraco.

A primeira chuva forte de 2018 chegou trazendo mais uma trapalhada que não deveria acontecer em um ATP 500. Primeiro, houve demora para levar a lona até a quadra. Depois optaram por colocá-la mesmo com o piso já encharcado, contra todas as recomendações de especialistas no assunto. E, como se não bastasse, levaram quatro minutos – uma eternidade em se tratando de lonas – para executar (e mal!) a tarefa. Uma ação vergonhosa para o “maior torneio da América do Sul”, o “maior evento esportivo anual do Rio de Janeiro” e “um dos 22 mais importantes do calendário da ATP”, como a organização faz questão de lembrar nos emails enviados à imprensa. Vejam no vídeo acima.

Não cobriram a quadra inteira (as laterais ficaram desprotegidas), deixaram a rede descoberta, e o resultado foi a triste cena registrada no tweet abaixo, quando o resto da rodada já estava cancelado.

Para a sorte do torneio, a incompetência da equipe foi premiada com uma chuva forte e demorada. Durou tanto que, no fim das contas, com ou sem lona, seria inevitável adiar os jogos da quadra central. Fosse uma chuva forte e rápida, a organização teria de lidar com as consequências da lona mal aplicada e se virar para explicar para os jogadores a demora em recolocar a quadra em condições de jogo. Felizmente, não foi o caso.

Na parte esportiva, o lamentável foi a chuva cair logo quando Marin Cilic e Gael Monfils estavam no meio de um dramático tie-break de segundo set, com o croata, número 3 do mundo e cabeça #1 do torneio, jogava pela sua sobrevivência no Rio Open. Cilic chegou a ter dois set points e sacou em 6/5, mas errou o smash que lhe daria a vitória na parcial. Veja abaixo.

Quando o duelo foi interrompido, o placar mostrava 7/7 no game de desempate, e Cilic tinha acabado de salvar um match point. O primeiro set foi vencido por Monfils por 6/3.

Coisas que eu acho que acho:

– Ainda sobre a questão da lona, o Rio Open parece estar andando para trás. Em 2014, quando executou a operação pela primeira vez, a equipe do torneio completou a tarefa em pouco mais de dois minutos e meio. Já é um tempo altíssimo para o padrão mundial, mas aquele time foi mais eficiente do que o de 2018. Lembremos:

– Para que não digam que é implicância, mais um vídeo. Este é de 2017, quando a equipe se atrapalhou demais para retirar a colcha de retalhos que eles chamaram de lona. Levaram 20 minutos para descobrir metade da quadra. Sim, apenas metade. De novo, lembremos:

– O mais difícil de entender é que tudo que aconteceu nesta quinta foi contra várias das declarações que o diretor do torneio, Lui Carvalho, deu nas edições anteriores. Em mais de uma ocasião, para justificar a ausência de lona, ele elogiou tremendamente a drenagem da quadra central. O executivo também já ressaltou mais de uma vez que não se deve colocar a lona com o piso já encharcado. Sua equipe, aparentemente, não prestou muita atenção. A posição do torneio sobre o que aconteceu foi solicitada e será incluída aqui quando for divulgada.

– Aqui, o torneio acertou: quem tinha ingressos para a sessão noturna que foi interrompida poderá assistir à sessão diurna desta quinta. É nela que Cilic e Monfils completarão seu duelo. Veja aqui a programação.

– Apenas por curiosidade, já que comparar não me parece justo. Em Wimbledon, o processo de colocação da lona leva cerca de 30 segundos. Isso inclui a entrada dos boleiros na quadra, a retirada dos postes da rede, a retirada da cadeira do árbitro, a retirada das cadeiras dos jogadores e, por fim, a corrida para arrastar a lona sobre a quadra. E Wimbledon faz isso em uma dúzia de quadras ao mesmo tempo. Nada como uma equipe bem treinada.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.