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Saque e Voleio

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Marin Cilic: força interior e perfeccionismo na busca pelo número 1

Alexandre Cossenza

19/02/2018 08h00

O Rio Open começa nesta segunda-feira, e a atração principal é Marin Cilic, atual número 3 do mundo. Campeão do US Open de 2014 e vice-campeão em dois dos últimos três slams (Wimbledon 2017 e Australian Open 2018), o croata de 29 anos vai abrir sua participação na Cidade Maravilhosa contra Carlos Berlocq, que furou o qualifying. O jogo será na sessão noturna, com início previsto para as 19h locais.

Na sexta-feira, tive a chance de bater um papo com Cilic. Em cerca de 15 minutos, conversamos principalmente sobre força interior, a busca pela evolução em pequenos pontos percentuais e como aproveitar da melhor forma possível o tempo na procura por esse crescimento.

O croata passou longe das frases ensaiadas de muitas coletivas por aí, e quem ler as linhas abaixo vai logo entender como alguém como ele chega a #3 do planeta. Cilic, aliás, também disse abertamente que vai tentar chegar ao topo do ranking. E nosso papo tomou essa direção por causa de um livro de autoajuda que ele terminou no caminho para o Brasil…

Quando você estava vindo para o Rio, postou no Instagram uma imagem lendo o livro “Grit”, de Angela Lee Duckworth (o livro foi lançado em português com o título “Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança”). Conseguiu terminar? Gostou?

Sim, terminei. Gostei muito. Eu gosto bastante de livros de não-ficção, que são um pouco mais psicológicos. No último ano, ano e meio, li vários desses. Gostei de “Grit” porque fala de como todos nós podemos encontrar uma força interior e conseguir melhorar. Somos todos talentosos de algum modo, mas o que faz a diferença são alguns pontos percentuais que te levam ao limite e te fazem evoluir. Eu me vejo nesse tipo de situação porque como tenista você está sempre sendo desafiado. São muitos desafios durante um dia, durante uma semana, durante um ano. Nisso, essa força interior é extremamente importante. Por isso, para mim, foi um ótimo livro.

Eu perguntei sobre isso porque uma das coisas que a Angela Duckworth escreve é sobre como a vida deve ser vista como uma maratona e não como um sprint. E sua carreira é muito consistente. Você esteve praticamente o tempo inteiro no top 20 desde que tinha 20 anos, ganhou um slam aos 25 e continua melhorando. Não foi nem uma subida astronômica nem houve uma queda após o título do US Open. Você se identifica quando lê algo assim?

Com certeza. Grande parte de ser tenista é adquirir experiência. Você aprende sobre si mesmo, aprende sobre a competição, aprende a ter um desempenho melhor, como usar melhor o tempo durante o dia. Dei um grande passo adiante nos últimos anos. Minha vitória no US Open foi obviamente enorme, mas tudo me levou a um caminho de sempre pensar em como melhorar, como evoluir. E a força interior, esses pequenos pontos percentuais de você mesmo que são invisíveis, são uma energia que nunca acaba. Acho que você pode encontrar em cada dia essa pequena motivação que vai te dar um impulso enorme. Faz uma grande diferença. É por isso que olho para os próximos três ou quatro anos como um grande desafio. Quero usar todos os dias da melhor maneira possível. Quando terminar a carreira, quero olhar para trás e dizer que alcancei o maior nível que seria possível para mim. Esse é o objetivo para mim.

Você me recomenda algum outro livro desse tipo?

Eu recomendo “Power of Habit” (de Charles Duhigg, lançado em português como “O Poder do Hábito: Por que Fazemos o Que Fazemos na Vida e nos Negócios”) e um livro que me deu a base para a minha fundação (Marin Cilic Foundation, focada em educação para jovens) chamado “Outliers”, de Malcom Gladwell (lançado em português como “Fora de Série”), que também fala sobre talento e como e por que pessoas de sucesso têm sucesso. É também sobre como todos nós precisamos – todas pessoas de sucesso, eu inclusive, tivemos uma oportunidade. Quando eu era jovem,eu jogava tênis e não sabia o que seria do meu futuro, mas tive uma chance de jogar e, mais tarde, de evoluir. Com isso, tive a oportunidade de conhecer bons técnicos que me trouxeram até onde estou. Essa é uma das coisas que quero tentar criar, especialmente na Croácia. Tentar encontrar jovens de lugares pequenos ou com famílias que não podem dar um apoio grande e dar a esses jovens uma oportunidade.

Eu não li “Power of Habit”, mas li um texto do mesmo autor em que ele fala sobre como hábitos se desenvolvem sem que a gente perceba e como quebrar esse hábitos. Isso é algo que se aplica ao tênis? Pergunto porque tenistas costumam se descrever como “criaturas de hábito”…

Eu não apliquei muito disso ao tênis, mas apliquei uma coisa, que é para que meu time tenha uma comunicação melhor. O livro cita um caso interessante em que a comunicação transformou uma empresa inteira. Estamos falando de centenas de funcionários, e no meu pequeno time todos sabemos o quanto a comunicação é importante. Com isso, tentei me conectar melhor com a equipe porque sei a importância que eles têm para mim, e quando estamos nos comunicando, obviamente há menos problemas.

Você ganhou pelo menos um título de ATP por ano desde 2008, conquistou um slam (US Open 2014), jogou a final em outros dois (Wimbledon 2017 e Australian Open 2018) e agora é o número 3 do mundo. Que parte desta lista te deixa mais orgulhoso?

Obviamente, do ponto de vista de resultados, jogar três finais de slam e vencer uma. Também joguei final de Copa Davis, ganhei Masters, ATP 500, 250, mas de todos feitos, o que realmente gosto e verdadeiramente gosto em mim é que a cada semana, a cada ano, até nos treinos eu sou muito dedicado a melhorar. Era esse o objetivo quando comecei a jogar e é o mesmo hoje. Não importa o resultado. Eu estive em duas das últimas três finais de slam, jogando um ótimo tênis e estou no melhor ranking da carreira, mas isso não muda. Eu tento simplificar as coisas, viver um dia após o outro e tentar usar o tempo que eu tenho da melhor maneira possível.

Uma das coisas que você disse em Melbourne este ano é que analisou seu jogo e que há detalhes técnicos que você gostaria de melhorar no seu saque. Todos mundo sabe o quanto seu serviço é eficiente. Que parte você quer melhorar? De que maneiras?

Em tudo, é possível evoluir (sorrisos).

Sim. Mas você fala de velocidade, colocação, porcentagem? Algo assim?

Quando eu estava analisando com meu técnico e meu time, estávamos observando situações. Os dias em que eu estava sacando muito bem e os dias em que não estava. Tentamos encontrar relações e ver o que estava ou não estava funcionando. Durante esse período, descobrimos que em alguns casos meu ritmo não é o ideal de um modo técnico. É claro que tecnicamente, o saque é mais ou menos o mesmo sempre, mas o ritmo, que é conectar minhas pernas com o toss e a parte superior do corpo e a velocidade do meu braço… No fim, isso pode mudar. Tênis é um esporte de precisão, então um detalhezinho, 1% pode fazer uma diferença enorme. Então estávamos muito concentrados nisso, e na Austrália eu senti que a consistência do meu saque foi melhor. Eu sei que posso sacar de forma incrível, mas meu objetivo é ter meu serviço sempre em um nível muito bom ou ótimo, evitando que eu tenha dias medíocres.

Durante algum tempo, foi difícil entrar no grupo dos quatro primeiros do ranking por causa de Federer, Nadal, Djokovic e Murray. Uma impressão que tenho como jornalista é que muitos dos fãs de tênis – por causa do Big Four – deram menos valor do que o devido ao resto do grupo. Gente que ficou no top 10 ou no top 20 por muito tempo como você, Berdych…

Ferrer, por exemplo.

Sim! Exatamente. Você concorda com isso? Já se sentiu menos valorizado do que deveria, jogando no seu nível por tanto tempo?

Não sei. Não sei o que dizer. Acho que isso é parecido em esportes diferentes. No basquete, você tem LeBron James, Stephen Curry e Kevin Durant. Todo mundo está ali para ver esses e não os outros caras. O futebol é parecido. No atletismo, também. É normal porque eles tiveram muito sucesso, e as pessoas realmente curtem ver as rivalidades. O que eu acho é que as pessoas, de modo geral, não entendem o quanto é preciso se esforçar para estar nesse nível ano após ano. O tênis é muito específico porque você precisa se dedicar ano após ano e cada temporada é diferente. Você não assina um contrato e está seguro por três ou quatro anos no top 10. Você sempre tem que fazer por merecer, e a concorrência é grande. Eu sempre soube que os caras como Novak, Rafa e Roger, eles transformaram o tênis e trouxeram o esporte a um novo nível. Por causa deles, eu também melhorei, me forcei a ser mais forte. Sinto que agora tenho a minha chance de chegar ao topo, por isso é o meu grande foco agora tentar aproveitar essa chance.

Você tem uma grande fã brasileira, que é a Aliny Calejon. Eu lembro que nas Olimpíadas vocês se encontraram, e você tirou um monte de coisas da sua raqueteira para dar a ela (risos). Você pode falar um sobre essa relação com ela e com seus fãs?

Sim. Ela é minha fã há muitos anos, sempre vejo seus posts, suas belas mensagens de apoio e parabéns. Ela me “segue” onde quer que eu jogue. Foi uma parte do meu reconhecimento aos fãs por me apoiarem e estarem comigo nos momentos bons e ruins, e ela é uma ótima menina. É muito bom ter essa conexão especial com os fãs e também mostrar que eu agradeço o apoio dessa maneira legal.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.