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Saque e Voleio

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Wozniacki: número 1 com slam, mas sem classe

Alexandre Cossenza

16/02/2018 07h00

Aconteceu nesta quinta-feira, no WTA de Doha. Caroline Wozniacki, atual campeã do Australian Open e número 1 do mundo, disparou na frente contra Monica Niculescu. Abriu 4/1 e teve break point para fazer 5/1. Não conseguiu a quebra, e o jogo virou. Poucos minutos depois, enquanto a dinamarquesa demonstrava impaciência, a romena já tinha empatado o jogo: 4/4.

Foi aí que Wozniacki apelou para um recurso bastante comum de seu arsenal. Uma discussão acalorada com o árbitro. Desta vez, reclamou dos gemidos de Niculescu. Segundo a número 1, a romena gemia propositalmente para atrapalhá-la. O árbitro de cadeira não comprou a briga de Wozniacki e mandou a partida continuar, mas não sem antes ouvir um argumento da dinamarquesa: “É a única maneira de ela vencer.” O nível baixou. Veja:

Que Wozniacki é esquentada quando as coisas não estão dando certo, não é segredo nenhum. As brigas com árbitros e tempos médicos costumam acontecer quando ela está perdendo ou em dificuldades. Foi assim na segunda rodada do Australian Open, quando perdia para a croata Jana Fett (foi o jogo que Wozniacki virou depois de estar perdendo por 5/1 e 40/15 no terceiro set). Também foi assim na rodada seguinte, contra Kiki Bertens, quando a dinamarquesa sacou para o set, foi quebrada e partiu para bater boca com o árbitro. E teve também, lembremos, um atendimento médico providencial quando Simona Halep vencia o terceiro set da final.

Não é justo dizer que Wozniacki teria perdido um desses jogos – ou de tantos outros na carreira – não fossem as paralisações forçadas. Ela, aliás, derrotou Niculescu por 7/5 e 6/1, perdendo apenas dois games depois da reclamação. O que não é muito bacana é que essas interrupções estejam se tornando tão frequentes. E o que parece feio mesmo é que uma número 1 tenha a audácia e o desrespeito de dizer que gemer (ou provocar, catimbar, etc.) “é a única maneira” de alguém derrotá-la. O que será que Wozniacki diria se Halep afirmasse que o último atendimento médico decidiu a final do Australian Open? Que aquela paralisação foi a única causa de sua derrota? Imagino que a dinamarquesa não teria digerido muito bem as declarações.

Caroline Wozniacki não é dominante como Serena Williams. E mesmo que fosse, soaria igualmente arrogante. Não foram os gemidos de Niculescu que fizeram a dinamarquesa espirrar dois smashes fáceis ou perder a vantagem na parcial. A romena só venceu dois games depois do que ouviu. Ouviu e não gostou nada. Depois da partida, disse que nunca ouviu uma número 1 falar assim e que Wozniacki se acha importante demais. Vejam no vídeo acima.

O episódio repercutiu. As cenas estão nas redes sociais. Certamente, estão nos smartphones das adversárias e nos vestiários circuito afora. A reputação de Wozniacki só piora. Uma pena. Quem tem um jogo tão inteligente e eficiente não deveria precisar desse tipo de recurso com tanta frequência e não poderia, jamais, dizer o que disse de Niculescu. E se deixou para trás o rótulo de número-1-sem-slam, Wozniacki tende a ser agora a número-1-sem-classe.

Coisas que eu acho que acho:

– Obviamente, não foi o primeiro jogo da carreira de Wozniacki contra uma tenista que geme ao bater na bola. Será que ela faria a mesma reclamação contra, digamos, Venus Williams? A americana, a propósito, venceu sete dos oito confrontos contra a atual número 1.

– Maria Sharapova tem seis vitórias em dez duelos com Wozniacki. Victoria Azarenka tem sete triunfos em 11 partidas. Não me lembro de a dinamarquesa ir a um árbitro de cadeira reclamar de gemidos da russa ou da bielorrussa. Por que será? O título de slam fez tanta diferença assim? Subiu à cabeça? Ou foi simplesmente arrogância por se considerar muito superior a Niculescu?

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.