Saque e Voleio

O preço da fama para Tennys Sandgren

Alexandre Cossenza

23/01/2018 20h55

Era o grande momento profissional de Tennys Sandgren. O americano de 26 anos, #97 do mundo e que até o início da semana passada tinha apenas duas vitórias em nível ATP (uma delas por desistência e a outra em cima do #138), avançou para as quartas de final do Australian Open. Um feito espetacular para um cidadão quase desconhecido de uma modalidade, apesar de praticamente levar o nome do esporte no RG.

Ao completar uma vitória cinderelesca sobre Dominic Thiem, #5 do planeta, Tennys Sandgren era para ser o americano mais celebrado em Melbourne Park, especialmente por causa da fraca participação masculina de seu país no torneio. Só que um jornalista, em busca de informações sobre o desconhecido quadrifinalista, resolveu olhar a conta de Sandgren no Twitter. Foi quando a fama rapidamente revelou seu preço para o tennysta.

Mas o que o Twitter tem a ver com coisa toda? É que o Sandgren segue um número considerável de personalidades ligadas à direita política americana. E não só à direita, mas à chamada alt-right, uma direita que tem pouco de “alternativa” e muito de extrema, radical e preconceituosa, composta (não só) por supremacistas brancos, neonazistas e neofascistas, entre outros grupos que odeiam minorias por esporte. E foi na coletiva, logo depois da vitória sobre Thiem, que o jornalista perguntou se Sandgren não tinha problema em parecer ligado a esses grupos.

O tenista se defendeu dizendo que seguir alguém não significa necessariamente pensar o mesmo que essas pessoas. Afirmou também que não apoia o movimento alt-right, embora ache parte do “conteúdo” interessante. Declarou que, como cristão, acredita em apoiar e seguir Cristo. Veja abaixo o vídeo do momento:

Sem entrar – por enquanto – no mérito político da coisa, a defesa de Sandgren é válida. Acho até que todo cidadão deveria seguir o maior número possível de políticos e se informar sobre o que pensam e fazem, mesmo que sejam os “seus” candidatos. E isso vale para qualquer área. Empresários querem saber os passos de seus concorrentes, agências de marketing querem acompanhar as campanhas rivais, jornalistas querem ver o que outros veículos estão noticiando, etc. e tal. “Seguir” alguém não significa realmente seguir-seguir.

Até aí, tudo bem. Só que o “novo famoso” Sandgren, percebendo a força dos holofotes em sua direção, decidiu apagar uma série de tweets. Tarde demais. “A internet” já havia vasculhado a conta do tenista e encontrado coisas do tipo “fui parar num bar gay e estou com os olhos sangrando até agora”; um “convite” a árbitros de tênis para uma corrida entre pessoas com problemas mentais; um agradecimento a Deus por ter sido bom e o impedido de matar um árbitro; e um RT em Nicholas J. Fuentes, uma figura que recentemente marchou junto com neonazistas e outros grupos da alt-right no triste episódio de Charlottesville, entre outos tweets agressivos e pouco educados.

Todos esses tweets já foram excluídos pelo próprio tenista, mas isso não resolve o problema. Longe disso. Afinal, agora todo mundo vai se perguntar por que Sandgren apagou seus comentários. Ele não disse que o Twitter não serve como prova de suas crenças e que não tem relação com a alt-right? Ele tinha algo a esconder, então? Parece coisa de juvenil que passa anos criticando um tenista profissional e, mais tarde, convidado a treinar com esse veterano, corre para apagar os ataques do passado. Não adianta. Tem sempre alguém que registrou e vai lembrar do que aconteceu.

A primeira reação ao caso vinda de um tenista saiu de John Isner, que defendeu o amigo. Além de condenar um blog que atacava o suposto racismo de Sandgren, Isner escreve que “acho que até Tennys gostaria de não ter tweetado algumas coisas, mas ele é um cara bom, posso garantir isso.” Os tweets de Sandgren teriam sido coisa de jovem que se arrependeu e mudou de ideia? Por isso ele deletou os comentários? Ou será que ele simplesmente não quer expor suas crenças verdadeiras diante dos holofotes que ganhou recentemente? Eis a questão. Quem disse que ser famoso era molezinha?

(parágrafos e vídeo abaixo incluídos em 24/04 com a reação de Serena Williams e a resposta de Sandgren aos jornalistas)

A coisa esquentou ainda mais nesta quarta-feira, quando Serena Williams abordou o assunto no Twitter, exigindo um pedido de desculpas. A ex-número 1 do mundo postou uma imagem com a seguinte frase: “Maturidade é poder pedir desculpas e admitir quando você está errado porque você sabe que erros não te definem.” Além disso, Serena escreveu: “Eu não quero nem preciso de uma, mas existe um grupo inteiro de pessoas que merecem um pedido de desculpas. Não posso olhar para minha filha e dizer a ela que fiquei quieta. Não! Ela vai saber se defender e defender os outros – pelo meu exemplo.”

Serena era assunto de algumas das postagens que Sandgren apagou. Em uma delas – a que mais circulou, o atleta escreveu “nojento” para comentar um vídeo em que a ex-número 1 aparecia gritando um palavrão durante uma partida contra Roberta Vinci no US Open. Até a hora da postagem desta atualização, Sandgren não havia respondido publicamente ao post de Serena.

Em quadra, Sandgren foi derrotado pelo sul-coreano Hyeon Chung em três sets: 6/4, 7/6(5) e 6/3. Após a partida, o americano leu uma mensagem aos jornalistas e se recusou a responder perguntas sobre o assunto. A mensagem, preparada em seu smartphone, dizia, entre outras coisas, que a imprensa “busca colocar pessoas em pequenas caixas para que o mundo fique organizado dentro de ideias pré-concebidas” e que com um punhado de follows e likes no Twitter, seu destino estava selado nas mentes dos jornalistas. “Vocês preferem perpetuar máquinas de propaganda em vez de pesquisar informação por vários ângulos e perspectivas estando dispostos a aprender, mudar e crescer.” Veja aqui a íntegra do discurso.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale a curiosidade: Sandgren já explicou em uma das coletivas em Melbourne, mas caso alguém não saiba, Tennys era o nome de seu avô. Nenhuma relação com o esporte. O tenista costuma usar outro nome quando pede algo no Starbucks.

– Como Sandgren chegou às quartas? Primeiro, eliminando Jeremy Chardy. Depois, aproveitando-se de um debilitado Stan Wawrinka na segunda rodada. Em seguida, bateu Maximilian Marterer e Dominic Thiem (mais um resultado decepcionante para o jovem austríaco em um slam).

– Sandgren se achou no direito de condenar e discursar atacando a imprensa, mas não teve coragem para continuar no assunto e engajar em um debate que poderia ter sido saudável na mesma coletiva. Foi uma péssima maneira de (não) conduzir o diálogo que ele mesmo pedia em seu discurso. Vale aqui o que eu sempre digo – e recente escrevi num post sobre Thomaz Bellucci. Se um atleta profissional acha que seu trabalho é só entrar em quadra e jogar, está muito enganado. Esse tempo ficou no passado.

– Para mim, o efeito mais nefasto da popularização de algumas redes sociais foi a criação de bolhas. Quando a pessoa consome um conteúdo que lhe é entregue por meio de algoritmos, é possível que ela passe a ler apenas aquilo que vai ao encontro de suas ideias. Não é o único causador, mas contribui enormemente para a disseminação de notícias falsas, para polarização de pensamentos e, pior ainda, para gerar mais intolerância.

– Um sub-problema interessante é que algumas pessoas, já acostumadas com essa bolha em uma rede social específica, passam a fazer o mesmo nas outras. Não gostam de uma opinião? Unfollow. Não quer ler um elogio a um rival? Unfollow. E seguimos criando pequenos casulos de “parças”, acreditando que estamos nos protegendo de algo quando estamos pouco a pouco desaprendendo a conviver com diferenças. Onde essa estrada vai dar?

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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