Saque e Voleio

Nick Kyrgios, o Dia da Marmota e os problemas dos outros

Alexandre Cossenza

21/01/2018 12h47

Acontece todo ano em algum momento de janeiro. É quando nos repetimos quase que completamente ignorantes ao que aconteceu 52 semanas antes. Nick Kyrgios faz um belo Australian Open, mostrando talento, garra e um potencial enorme. Imediatamente, aparecem os comentários sobre um suposto “novo Kyrgios”, seguidos do bom e velho “agora vai”. E então, alguns meses depois, o australiano perde jogos mostrando pouco interesse, fala que prefere jogar basquete, e voltam as críticas e o papo sobre potencial desperdiçado.

O Dia da Marmota de Nick Kyrgios tem muito a ver com seu desempenho em casa. Em 2015, alcançou as quartas de final. Em 2016, parou na terceira rodada, eliminado por Tomas Berdych depois de superar Pablo Carreño Busta e Pablo Cuevas. Por fim, no ano passado, caiu na segunda fase e saiu vaiado, mas em um jogo dramático que terminou em 10/8 no quinto set para Andreas Seppi. O australiano falou bobagens, levou point penalty, mas também mostrou garra e saiu de quadra frustrado. Mas qual é o Kyrgios de verdade? E quais são os problemas? Aliás, talvez a melhor pergunta que devemos nos fazer seja outra: de quem são esses problemas?

Talvez a primeira parte desses “problemas” esteja com quem quer avaliar Nick Kyrgios se baseando pelo Australian Open. O cidadão joga em casa, com toda atenção do mundo, quadras lotadas e torcida a favor. Quem não se motivaria para jogar assim? A esta altura, todo mundo já sabe – ou deveria saber – que Kyrgios fica à vontade com um canhão de luz em cima. Ele adora. Assim sendo, é mais do que normal que o primeiro slam do calendário também seja o ponto alto de sua temporada. Qualquer comentário no sentido de “Kyrgios prometia no início do ano, mas… “ tem uma dose de injustiça.

Outra questão que me incomoda é que nos últimos anos Kyrgios dá deu uma quantidade considerável de entrevistas para que todo mundo soubesse que ele não é o maior “nerd” do tênis. Ele simplesmente não é aquele cara que vai se dedicar 24 horas por dia ao negócio. Não quer técnico. Prefere fazer fazer as coisas de seu jeito. Não vai curtir estar na Quadra 4, sem câmeras, ou jogando contra o #150 do mundo numa primeira rodada de ATP 250 (mesmo sabendo que precisa dessas vitórias para estar nas sessões nobres dos slams). Como ele mesmo disse na coletiva deste domingo, “Eu jogo do jeito que eu quero jogar. Eu não idolatro nem sigo ninguém. Apenas faço a minha coisa.” Logo, não faz sentido a crítica do “nunca vai ser #1 assim”. De novo: talvez o núcleo do dilema esteja mais na crítica do que no atleta.

Um sub-problema que quase sempre vem junto dessa crítica é a comparação com as exceções – e isso não vale só para Kyrgios. O fã de tênis tende a usar Federer, Nadal e Djokovic como parâmetros quando os três são grandes exceções. É como sugerir que o tênis não evoluiu com Zverev, Chung, Shapovalov, Tsitsipas, Khachanov, Rublev, De Miñaur e outros só porque Djokovic já jogava colado na linha de base dez anos atrás. Agassi jogava assim 30 (!!!) anos atrás, mas tanto ele quanto o sérvio de 2008 eram e continuaram a ser exceções por uma série de motivos.

Mas o que isso tem a ver com Kyrgios? A questão aqui é que sua postura ou seus resultados não devem ser comparados. Nick não será um fracasso se não vencer 15, dez, ou cinco slams. Cada tenista tem suas prioridades, seus desejos, seus objetivos. Se Federer quer vencer tudo e bater recordes, beleza. Safin preferia curtir mais seu tempo livre. Nalbandian queria seus asados. E quem pode dizer, com certeza, que o suíço foi mais feliz? E tudo bem também se Kyrgios quer jogar basquete, FIFA ou passar as noites se entupindo de Doritos e vendo a Margot Robbie em Golpe Duplo. Quem a gente acha que é, afinal, para dizer como alguém tem que levar sua carreira?

Enquanto Kyrgios não estiver xingando torcedor, destratando boleiros, sendo desrespeitoso com juízes de cadeira ou falando em público sobre as namoradas de outros tenistas, não vejo problema. E, sejamos justos, esse comportamento do australiano vem melhorando. Coisas de um garoto de 22 anos que vem crescendo e amadurecendo em público. Coisas que, no tênis, costumam marcar os atletas por anos. Muito mais do que em outros esportes. Discorda? Então puxe pela memória e responda, caro leitor: por quanto tempo são apedrejados publicamente jogadores de futebol que desrespeitam contratos ou até mandam o dedo médio para colegas de time? Fez gol, o povo esquece. O tênis demora a perdoar.

E quem se incomoda com as derrotas e a “falta de interesse” de Kyrgios deveria parar e pensar se não está mais incomodado do que o próprio australiano. Daqui a pouco ele pode ganhar um slam, encher os bolsos e ir tentar a sorte na G League da NBA, e os reclamões vão ficar aí, reclamando. Porque Nick Kyrgios pode levar o rótulo de “garoto-problema”, mas hoje em dia isso vale muito mais para os problemas dos outros do que para os dele.

Coisas que eu acho que acho:

– É óbvio que a gente (e eu me incluo, claro) que vê esporte e gosta de tênis bem jogado vai lamentar talentos desperdiçados e imaginar o quanto esta ou aquela pessoa faria se quisesse se dedicar mais, etc. e tal. Normal. Daí a condenar alguém acho que existe um salto grande e perigoso. Não curto. Se a pessoa não chegar numa coletiva mentindo e dizendo que está dando 100% enquanto todo mundo sabe que não é bem assim, não vejo problema.

– Sobre a derrota para Grigor Dimitrov, neste domingo, faltou especialmente a Kyrgios o mesmo que vem lhe derrubando em jogos grandes há algum tempo: uma devolução mais incisiva. O australiano até coloca um número bom de retornos em jogo, mas raramente anulando a vantagem do sacador. Dimitrov quase sempre teve a segunda bola à disposição para comandar os pontos. Com o saque monstruoso que tem, Kyrgios teria sua vida extremamente facilitada com uma devolução mais eficaz.

– Dimitrov, por sua vez, fez um jogo taticamente perfeito. Sem assumir uma postura excessivamente defensiva, procurou sempre fazer com que Kyrgios precisasse de bolas de difícil execução para vencer os pontos. Tirando a engasgada do quarto set, quando sacou para o jogo e cometeu seguidos erros, o búlgaro foi extremamente eficiente do começo ao fim.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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