Saque e Voleio

O imortal, o jogo do torneio e a melhor do ano

Alexandre Cossenza

20/01/2018 09h03

O sabadão australiano foi um dia memorável para o tênis. Não é sempre que, na mesma jornada, alguém tem a oportunidade de ver uma apresentação “vintage” de Leander Paes, a melhor partida da temporada e um duelo cheio de expectativa entre Angelique Kerber e Maria Sharapova. Foram esses três momentos que escolhi para relatar no texto de hoje.

O imortal

Primeiro, Leander Paes. O dono de oito títulos de grand slam em duplas (e mais dez em mistas) e sete participações em Jogos Olímpicos tem hoje 44 anos. Está longe de seu auge e entrou na Quadra 2 neste sábado como um veterano que ocupa “apenas” o 61º lugar no ranking mundial. Ele e o compatriota indiano Purav Raja (#68 em duplas) eram azarões diante de Bruno Soares e Jamie Murray, mas o que aconteceu desde o primeiro game desta segunda rodada de Australian Open foi insano.

Com uma vibração incrível, um lance fantástico após o outro e uma velocidade de reação que não sugere sua idade, Leander Paes fez de tudo. Defendeu smashes, deu lobs e fez curtinhas matadoras. Riu, sorriu e se divertiu. Levantou o público e, principalmente, o parceiro. Raja esteve no nível do compatriota, fazendo do jogo uma batalha para Soares e Murray.

Brasileiro e britânico, é bom que se diga, não ficaram muito atrás. Bruno fez winners inacreditáveis (inclusive um smash por fora da rede lá quase da grade). Jamie fez pequenos milagres para manter seu serviço no terceiro set.

Ponto após ponto, a torcida que lotou a Quadra 2 vibrou com os quatro até que um tie-break, o coito interrompido do tênis, abreviou o duelo. Depois de salvarem um match point, Paes e Raja fecharam: 7/6(3), 5/7 e 7/6(6).

Foi, seguramente, um daqueles confrontos que nenhum texto é capaz de descrever com justiça. Uma tarde (ou madrugada) mágica que fez o espectador viajar no tempo com um tenista que parece tão imortal quanto Davy Jones, Dorian Grey e Jason Voorhees juntos. Leander Paes, seu carisma e seu talento são indeléveis na história do esporte.

O jogo do ano

Enquanto isso tudo acontecia, Lauren Davis, #76, desafiava bravamente a número 1 do mundo, Simona Halep, na Rod Laver Arena. E que ameaça se revelou a americana de 24 anos. Venceu o primeiro set e resistiu de forma impressionante quando tudo parecia contra na terceira parcial.

Halep sacou para o jogo em 5/4. Foi quebrada. Sacou para o jogo em 6/5. Quebrada. Sacou para o jogo em 8/7. Quebrada. Sempre sob pressão, agredindo ou sendo agredida, Davis encontrava uma saída. Até que o jogo, não bastasse a emoção de um terceiro set longo – sem tie-break – ganhou contornos dramáticos no 22º game do terceiro set.

Foi quando Davis conseguiu três match points, com Halep sacando em 10/11 e 0/40. Quando a romena salvou o primeiro desses pontos, a americana sentiu algo. Foi uma unha de seu pé que se descolou. A número 1 escapou da derrota, e Davis foi receber atendimento médico quando o game acabou.

O jogo se alongava, e as duas se apegavam ao jogo com tudo que podiam. Foi só no 28º game, depois de 3h44min, que Halep finalmente conseguiu comemorar: 4/6, 6/4 e 15/13. E a entrevista não podia ser melhor, com a romena usando frases do tipo “estou quase morta”, “meus músculos se foram” e “meu tornozelo está… eu nem sei como está porque não estou sentindo mais ele.” Assistam abaixo:

Se não bateu recordes de duração, a partida foi uma belíssima demonstração de determinação e, claro, de bom tênis. Foi, facilmente, o melhor duelo do Australian Open (e do ano, que ainda está em janeiro) até agora.

A melhor da temporada

O jogo mais esperado do dia, no entanto, era Angelique Kerber x Maria Sharapova, marcado para abrir a sessão noturna na Rod Laver Arena. Um encontro precoce – terceira rodada de um slam – de duas ex-líderes do ranking vivendo bons momentos.

Quando a partida começou, porém, Angelique Kerber dominou. Atacou, defendeu, contra-atacou, usou ângulos, spin, paralelas e cruzadas. Sharapova, por sua vez, tentou o de sempre: levar vantagem com sua potência em golpes da linha de base. Contra a veloz alemã, não rolou.

Kerber fez 6/1 em um primeiro set rapidíssimo e ameaçou disparar quando abriu 2/0 na segunda parcial. Foi aí que Sharapova teve seu melhor momento. Devolveu a quebra, equilibrou as ações por dez minutos e teve até um break point para abrir 4/3 e saque. Não converteu e não ganhou mais nada depois dali. Perdeu o game, perdeu o saque, perdeu o jogo: 6/1 e 6/3.

No fim das contas, foi uma aula de como aplicar variações e recursos. A russa espancou a bola do começo ao fim. Kerber jogou tênis e somou sua oitava vitória seguida em 2018 (sem contar a Copa Hopman). Já derrubou gente como Safarova, Venus, Barty, Cibulkova e, agora, Sharapova. Embora as casas de apostas ainda não apontem isso, não é exagero colocar a alemã como favorita ao título em Melbourne…

Coisas que eu acho que acho:

– Outro momento glorioso do sabadão em Melbourne foi a vitória dos ex-(e futuros)-aposentados Lleyton Hewitt e Sam Groth (ou Groth ainda não aposentou? Difícil saber com esses australianos…). Eles aproveitaram uma torcida insana e um ambiente fantástico na Quadra 2 para derrotarem Horia Tecau e Jean-Julien Rojer, cabeças 3 do torneio: 7/6(2), 4/6 e 7/5. Os australianos estão nas oitavas de final e vão enfrentar Pablo Andújar e Albert Ramos-Viñolas na sequência.

– O sábado foi tão especial que jogos excelentes acabaram em segundo plano. Foi o caso de Karolina Pliskova x Lucie Safarova, partida de altíssimo nível e com apenas uma quebra de saque. Pliskova, que fez sua melhor apresentação em Melbourne até agora, venceu por 7/6(6) e 7/5. Ela vai enfrentar outra tcheca Barbora Strycova nas oitavas.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Blog Saque e Voleio
Topo