Saque e Voleio

A sabedoria e os 15 anos de Marta Kostyuk

Alexandre Cossenza

17/01/2018 10h36

Ninguém nasce sábio. E ninguém compra sabedoria. Ela não vem numa caixa, não está na estampa daquela camisa vendida pela celebridade oportunista e certamente não habita aquela figura-temperamental-de-longo-cavanhaque-branco-que-vai-te-mandar-subir-uma-escadaria-carregando-baldes-d’água-nos-ombros. É preciso viver, experimentar, acertar, errar, falar, ouvir… Sabedoria é algo que, cedo ou tarde, você adquire. E se você consegue isso aos 15 anos, antes de estar na terceira fase do Australian Open, melhor ainda.

Falo, claro, de Marta Kostyuk, a ucraniana de 15 anos, #521 do mundo, que furou o qualifying, eliminou Shuai Peng (#27) na primeira rodada e, nesta quarta, derrubou a australiana Olivia Rogowska (#168) por 6/3 e 7/5 para avançar mais um degrau no torneio. Kostyuk é a atual campeã juvenil do Australian Open, é a primeira menina de 15 anos a passar o qualifying de um slam desde 2005 e agora é a mais jovem classificada para a terceira fase de um slam desde 1997 (Lucic-Baroni no US Open).

O que mais me impressionou nesta quarta, porém, não foi seu tênis, mas a maturidade de um comentário específico na entrevista após a vitória. A pergunta era sobre se Kostyuk se descrevia como uma perfeccionista, e ela respondeu assim, falando de seu tênis: “Isso mudou. Você não pode ser perfeccionista no tênis. Você comete um erro a cada ponto, a cada golpe, então você tem que [aprender a] passar por isso. Caso contrário, você vai parar num hospício.” Veja no vídeo abaixo.

A resposta provocou gargalhadas na plateia, mas Kostyuk falava de algo que atormenta tenistas por carreiras inteiras: a busca pela perfeição. Embora louvável – todos querem evoluir, crescer e pegar lindamente na bola o tempo inteiro – o erro faz parte da natureza do ser humano e, lógico, do tênis.

Aprender a lidar com falhas é essencial. No tênis, mais ainda. Como Kostyuk bem disse, erra-se a cada ponto, a cada golpe. É o forehand que sai mais curto do que o desejado, é o slice que flutua por mais tempo, é aquele passinho de ajuste que não sai bem executado antes do golpe… Como em tudo na vida, o tênis é sobre errar, aprender e ajustar. E quando você tem só um segundo entre um erro e o próximo golpe, quem sabe lidar com isso já está muito à frente de muita gente.

Quantas vezes você já viu um tenista, em um jogo parelho, cometer um erro bobo e se afundar depois daquilo? Quantos tenistas já se perderam em games, sets e até temporadas porque não souberam lidar com alguma falha em um determinado momento? Embora colocar em prática seja muito menos simples do que dizer em uma entrevista, e é muito possível que Kostyuk vá encontrar problemas com isso de vez em quando, ela já sabe o que precisa ser feito. E isso é mais – muito mais – do que a maioria de meninos e meninas de 15 anos, jogando circuito juvenis por aí, já aprenderam.

A sobrevivente

A intenção aqui não é fazer um resumo do dia (e já escrevi isto no post anterior), mas não há como publicar algo nesta manhã de quarta-feira sem citar a insana virada de Caroline Wozniacki sobre Jana Fett. A croata de21 anos, (#119) abriu 5/1 e 40/15 no terceiro set e disparou um saque chapado no meio. A bola saiu por muito, muito pouco (parte do público chegou a aplaudir um suposto ace) e tudo mudou depois disso.

Wozniacki, que fazia uma partida muito abaixo de seu normal, venceu nove pontos seguidos e iniciou uma reação furiosa, quase sem errar, enquanto Fett sentia os nervos normais de quem estava perto de eliminar a número 2 do mundo em um slam. A dinamarquesa acabou vencendo seis games seguidos e triunfando por 3/6, 6/2 e 7/5.

Coisas que eu acho que acho:

– Denis Shapovalov vai passar algumas noites sem dormir bem depois de sacar para o jogo no quinto set e perder quatro games seguidos, terminando eliminado por Jo-Wilfried Tsonga. E nem foi só isso. O canadense teve até break point para abrir 4/0 na parcial, mas não conseguiu converter. No fim, o francês devolveu a derrota sofrida no US Open.

– Em 4h33min, Ivo Karlovic disparou 53 aces para derrotar Yuicho Sugita. O placar final, com direito a quinto set longo, mostrou 7/6(3), 6/7(3), 7/5, 4/6 e 12/10. Derrota dura para o japonês, que teve quatro break points no quinto set (todos no segundo game), mas não conseguiu converter nenhum.

(parágrafo atualizado após a derrota de Gavrilova) Com as derrotas de Julia Goerges, que vinha de 15 triunfos consecutivos, e Daria Gavrilova, não restou nenhuma cabeça de chave no caminho de Svitolina até as quartas (inclusive). Assustador como a chave da ucraniana se abriu em apenas duas rodadas. Venus, Makarova, Goerges, Stephens, Kasatkina, Peng e Gavrilova (e Bencic, que seria uma “cabeça de chave moral”) já deram adeus.

– Svitolina ainda é a mais cotada ao título na maioria das casas de apostas, mas sua atuação nesta quarta, contra Katerina Siniakova (4/6, 6/2 e 6/1), não foi lá nada brilhante. A ucraniana sofreu com o calor e errou mais do que o normal. Na coletiva pós-jogo, admitiu que vem tendo problemas físicos e considerou nem disputar o Australian Open. Para sua sorte, Siniakova também se mostrou em condições físicas ruins desde o segundo set.

– A próxima adversária de Svitolina é justamente a jovem Marta Kostyuk, que venceu seus últimos 11 jogos em Melbourne (seis no ano passado, quando foi campeã juvenil, três no quali deste ano e dois na chave principal).

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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