Saque e Voleio

Thiago Wild: ambição, agressividade e apreço pela pressão: 'Tem que gostar'

Alexandre Cossenza

24/11/2017 10h30

Dezessete anos, uma direita plana e agressiva, um belo saque e uma devolução de dentro da quadra. Não é a descrição padrão de um juvenil brasileiro, mas Thiago Seyboth Wild não tem nada de “padrão”. É ambicioso – quer estar entre os 200 com 18 anos – diz que não tem medo de pressão e que não vai ter paciência para ficar a vida inteira jogando Futures e Challengers.

Nesta semana, vindo de um título em um Future em Antália, na Turquia, Wild teve um convite para o Challenger do Rio de Janeiro e foi uma das atrações dos primeiros dias de torneio. Jogou duas vezes na Quadra 1, enquanto Rogerinho, número 1 do Brasil, se apresentava na escondida Quadra 3, de onde o público geral nem podia se aproximar.

Wild – cujo sobrenome originalmente se pronuncia “víld”, mas a família já se habituou a ouvir tanto “uíld” que nem corrige mais – deixou ótimas impressões pelo clube. Atual #637 do mundo, derrotou na estreia o cabeça 3, Nicolas Jarry (#99), que vinha de um título no Challenger de Santiago, e parou na segunda rodada, quando teve problemas físicos e abandonou diante do dominicano Jose Hernandez-Fernandez (#348).

Conversei com Wild na terça-feira, antes de sua estreia, e gostei de muito do que ouvi, principalmente sobre seu jeito de encarar o circuito juvenil e sobre a postura em relação às expectativas em cima de sua carreira. Leiam e, quando puderem, vejam o garoto jogar.

Você acaba de vir de um título em Antália. Como anda a confiança?

Ah, não é tanto um título que importa para a minha confiança ou para a confiança de um tenista em geral. É como eu me sinto na quadra, e vem de um tempo já que eu estou me sentindo muito bem, então minha confiança está bem alta.

Ano passado, você jogou dois Challengers (perdeu os dois jogos que fez, em Santos e São Paulo). Está mais preparado para um torneio deste nível agora?

Eu me sinto muito mais maduro hoje numa quadra de tênis do que me sentia no ano passado, com 15 anos, tinha recém-feito 16. Acho que hoje eu vou encarar a situação de jogar um jogo importante, num torneio maior, melhor do que no ano passado.

Essa maior maturidade se reflete de que maneira na quadra para você?

Em entender melhor como o jogo tem que ser jogado. Em entender o que eu tenho que fazer em cada momento. Saber quando eu tenho que dosar mais a energia, quando tenho que ser mais agressivo… Eu gastava muita energia com coisas desnecessárias. Ficava pensando demais, ficava muito acelerado, muito nervoso… Não nervoso de tenso, mas nervoso de bravo mesmo.

Ainda quebra raquete?

Ainda quebro bastante raquete, mas acontece.

Hoje, você é #21 do mundo no ranking juvenil. Já foi #12. Eu li uma entrevista sua no blog do Daniel Castro em que você dizia que não se importa tanto com isso. Tem muita gente que quer jogar mais torneio juvenil para ter ranking melhor, chamar atenção, e atrair patrocinador. Qual é a filosofia da sua equipe em relação a essa transição para o tênis profissional?

Eu não joguei tantos torneios juvenis este ano, não dei tanta importância. Devo ter ganhado dois ou três. Tive bons resultados no juvenil, mas não foi uma coisa que… O juvenil não é meu foco, então essa colocação de que as pessoas buscam patrocínio, buscam ranking bom… Tudo vai depender do foco da pessoa no futuro. Eu não penso no juvenil, penso no profissional. Penso em virar top 100, em ganhar torneio, penso em ser um bom jogador profissional. Lógico que o juvenil ajuda, mas não vai te dar a mesma confiança.

O que você pensa para os próximos anos da carreira? Vocês estabelecem metas do tipo “quero estar aqui com X anos”?

Acho que o ranking e metas de torneios vão vir com trabalho, dedicação, mas é um processo. Cada um tem seu tempo de amadurecimento na quadra e no tênis. Tudo vai depender. Não sei falar como eu vou estar daqui a seis meses ou daqui a um ano.

Mas onde você gostaria de estar?

Terminar 2018 entre os 200.

A maioria não gosta de falar disso, de ranking, porque acha que é colocar pressão. Também nessa entrevista para o Daniel Castro você fala que gosta de pressão.

Eu sempre gostei de ter um desafio a mais.

Mas como isso se mostra na quadra? Você se diverte jogando um 4/5, 30/40? (risos)

Ah, jogar um 4/5, 30/40 é pressão – lógico que tem a tensão – mas é uma coisa que vai acontecer muito, que sempre acontece. É uma coisa que o jogador de tênis que quer ser um bom jogador de tênis tem que aprender a lidar. Tem que gostar.

Isso é na quadra. E fora da quadra? Vamos supor que você termine entre os 200 com 18 anos. Vai chamar a atenção de muita gente. E tem gente que acha isso ruim, cria pressão, coloca expectativa… Esse é o tipo de pressão que não vai te incomodar, pelo que você está dizendo…

Não.

Você quer isso, né?

Querendo ou não querendo, é uma coisa que vai acontecer. Gostando ou gostando, vai acontecer. Então é melhor aprender a lidar com isso.

Hoje, você gostaria de melhorar o que no seu jogo?

Bolas em movimentação. Bater bola se mexendo, executar o golpe na corrida.

O Fabrizio (Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route) disse que você teve um problema de saúde no Egito, no ano passado. O que foi exatamente?

Eu tive tuberculose com 15. Foi dois anos atrás. Desde que eu parei até voltar a jogar, foram três meses e meio, quase quatro. Tomei remédio por seis meses. Eu tive bastante febre e sudorese noturna. Começava a suar dormindo. Muito. De ter que trocar lençol, de cama, tomar banho. Tive bastante febre e sentia dor no pulmão. Para respirar, eu sentia dor.

Mas ninguém chegou a te dizer que você precisaria parar de jogar?

Não.

Quem você gosta de ver jogar hoje?

Nadal. Sempre Nadal. Sempre gostei do Nadal.

Por quê?

Não sei apontar uma coisa. Quando eu comecei a jogar, ele estava começando a ganhar tudo. Era ele, o Federer, e ele ganhando do Federer.

Tem um cara que você olha no circuito e diz “quero ser como ele”? Não digo nem pelo tênis, mas por personalidade, sabe?

Nadal é um deles. O Federer também, ele fala muito bem, mas acho que ali no top 20, 30, até mesmo 40 todos eles falam muito bem. Já se acostumaram com isso.

Um golpe de alguém do circuito que faria uma diferença enorme no seu jogo:

(pausa para pensar) As bolas na corrida do Djokovic. Eu contra-ataco bem, mas não é uma coisa tão sólida no meu jogo.

Um tenista que você não quer ser de jeito nenhum:

Ficar jogando Future e Challenger como 300, 400 do mundo até, sei lá, 28 ou 29 anos. Se eu realmente não estiver satisfeito com meu desempenho, ou eu vou tentar mudar alguma coisa muito grande ou simplesmente parar.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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