Saque e Voleio

A ATP testou novas regras, mas quais podem (ou devem) ser aproveitadas?

Alexandre Cossenza

10/11/2017 14h08

A ATP usou o Next Gen Finals, torneio para os tenistas mais bem ranqueados com até 21 anos, para fazer uma série de testes com novas regras. A entidade se mostra preocupada em não perder público, em não deixar que o tênis se transforme num esporte defasado. A ideia é buscar um público mais jovem e que, segundo estatísticas, tem uma capacidade de atenção menor.

Segundo o CEO da ATP, Chris Kermode, não se trata (apenas) de deixar os jogos mais rápidos. A ATP quer eliminar o tempo morto – pequenos intervalos entre pontos, em viradas de lado, no aquecimento, etc. – e manter o tênis dinâmico por períodos mais longos. Por isso, o torneio de Milão foi a grande cobaia. Testou-se muita coisa diferente e tudo ao mesmo tempo. E agora, depois de 12 jogos, dá para tirar algumas conclusões. Abaixo, faço uma avaliação dos testes e dou minhas opiniões.

Aquecimento mais curto

Em Milão, o tempo entre a entrada dos jogadores e o início dos jogos foi limitado a cinco minutos. Isso significa um bate-bola mais curto e um começo de jogo mais rápido. Sabe quando você vê a programação de um torneio e imagina que a primeira partida sempre começa dez minutos depois? Isso não rolou em Milão.

É uma mudança pequena que pode facilmente ser aplicada no circuito. O lado negativo é que alguns jogos podem começar com as arquibancadas vazias, mas me parece uma questão de acostumar o público. Em pouco tempo, os espectadores vão perceber que precisam estar na quadra logo que os tenistas forem anunciados.

Let no saque

O Next Gen Finals não teve let no saque. Isso significa que quando uma bola tocou na fita e quicou dentro da área de saque, o ponto continuou (a não ser no dia que o árbitro brasileiro Carlos Bernardes, ainda desacostumado, chamou let e equivocadamente interrompeu o ponto).

Eu não gosto da regra. Primeiro porque acontece com tão pouca frequência que o tempo ganho é irrisório. Além disso, adiciona um elemento de sorte, o que, a meu ver, não deveria ser a intenção (nem mesmo consequência ocasional) de regra alguma.

Limite de tempos médicos

Neste Next Gen Finals, cada tenista só pôde pedir um tempo médico por jogo. Não vejo como isso altere muito a vida de ninguém. No circuito da ATP (que não inclui os slams), são raros os casos de atleta pedindo mais de um tempo por jogo. O que acontece com frequência – e pode continuar acontecendo com essa regra – é que tenistas pedirão um tempo médico e alguns outros atendimentos mais curtos nas viradas de lado.

Público liberado nas laterais

Não tem nada mais chato em um torneio de tênis do que ir ao banheiro no intervalo entre sets e ter que esperar o fim do terceiro game para voltar à arquibancada. Se for um torneio de saibro, essa espera pode passar de quinze minutos. Em Milão, a ATP liberou a movimentação de público nas arquibancadas laterais. Ou seja, não era preciso esperar virada de lado para entrar ou sair da arena.

Eu sou muito a favor e não vi nenhum jogo sendo atrapalhado pelo público no torneio. Porém, há uma ressalva importante a fazer aqui: o evento era indoor, daqueles com a quadra iluminada e o público no escuro (observe no vídeo acima). Assim é mais difícil mesmo que o tenista seja incomodado. Seria melhor um teste mais emplo, em torneios outdoor. Pessoalmente, já estive em torneios grandes e pequenos em que algumas quadras não tinham controle de acesso nas laterais (várias das quadras menores dos slams são assim) e raramente vi reclamações por parte de atletas.

Hawk-Eye Live

Chegamos, finalmente, às questões mais cabeludas do Next Gen Finals. Em Milão, a ATP testou o Hawk-Eye Live, que faz as chamadas de linha automaticamente, dispensando juízes de linha. Do ponto de vista de eliminar o erro humano, é algo sensacional. Funcionou brilhantemente. As bolas mais duvidosas apareceram rapidamente no telão, e o jogo deu uma pequena acelerada por conta disso.

No aspecto de entretenimento, porém, o tênis perde. É inegável que é mais divertido ver os atletas na dúvida, lidando com o dilema de quando pedir os desafios e administrando o limite de replays que podem ser solicitados por set.

Além disso, as chamadas de linha com vozes gravadas deram um clima estéril à coisa toda. É estranho não ouvir a variação de vozes e não ter um juiz de linha para olhar e ver a marcação (ver jogo com a TV no mute fica difícil). Árbitros de cadeira viram quase espectadores e contadores de placar.

Estou curioso para saber o que a ATP pretende fazer agora. Vai pesar mais a redução dos erros ou o entretenimento do público? E onde vão trabalhar os tantos juízes de linha empregados nos ATPs hoje em dia? Talvez seja a questão mais delicada de todas as empregadas nesse Next Gen Finals.

Pontuação

Como experiência, interessante. A possibilidade de implantação, porém, é quase zero. O Next Gen Finals está sendo jogado em melhor de cinco sets, mas com cada set indo a quatro games. No caso de 3/3, joga-se um tie-break. Além disso, todos games de saque têm no-ad, com o sacador escolhendo o lado do ponto decisivo. Quem acompanha tênis há mais tempo sabe que esse formato já foi testado em torneios diferentes – inclusive na antiga Copa Ericsson, jogada no Rio de Janeiro em dezembro de 2000 (com uma pequena diferença: jogava-se o tie-break no 4/4).

Aqui, é importante notar duas consequências. Uma é que o tempo de jogo não diminui tanto a ponto de justificar uma mudança tão radical. Na sexta-feira, com todo mundo já habituado ao placar, dois jogos passaram das 2h de duração. Os outros também passaram de 1h30min. A outra grande consequência foi um aumento no número de tie-breaks, o que é perfeitamente normal, levando em conta que cada jogador só precisa confirmar o saque três vezes para chegar ao game de desempate.

O problema é que esse número de tie-breaks afeta – de novo – a essência do esporte. O tênis nunca foi pensado para ser resolvido em tie-breaks, mas no duelo entre a capacidade do sacador de fazer sua vantagem e a habilidade do devolvedor de roubar (ou, como dizemos, “quebrar”) essa vantagem. O game de desempate surgiu como solução para encurtar sets longuíssimos, o que não é o caso do circuito da ATP atual.

Ilustro isso com números. Em 2017, Wimbledon, o torneio do grand slam com mais tie-breaks (porque na grama o saque tem maior peso), teve 86 tie-breaks ao longo de 451 sets disputados em um torneio com 127 jogos programados. Isso significa 0,67 tie-break por jogo e 0,19 tie-break por set. Traduzindo, isso quer dizer que um tie-break é jogado, aproximadamente, a cada cinco sets. Em Milão, nos três primeiros dias de competição, foram disputados 21 tie-breaks em 12 partidas e 49 sets disputados. Isso dá, em média, 1,75 tie-break por jogo e 0,42 tie-break por set.

O regulamento do Next Gen Finals transforma a exceção (0,67 tie-break por jogo em Wimbledon) em regra (1,75 em Milão). E isso provoca uma mudança gigante para a dinâmica e, repito, a essência do tênis.

Fora a questão dos tie-breaks, os tenistas relataram que o jogo fica muito mais intenso, com menos margem para erro. Isso pode ser visto como aspecto positivo. O contraponto que se faz – e parece ser a opinião predominante entre os jogadores – é que os sets perdem o chamado buildup, o processo em que vai se criando um ambiente e uma expectativa para aqueles games decisivos lá pelo 4/4 e 5/5.

Shot clock de 25 segundos

Um relógio marca, no fundo de quadra, em contagem regressiva, quanto tempo o tenista tem para sacar. A ideia é boa por alguns motivos: mostra ao jogador e ao público o tempo e diminui a polêmica na hora de uma eventual advertência ou point penalty quando o atleta estourar o limite dos 25 segundos.

Não houve polêmica em Milão, mas se a regra for levada ao circuito, é questão de tempo (perdão pelo trocadilho) para dar problema, apenas mudando a origem da polêmica. Eu explico. Quem prestou atenção no ATP Finals NextGen viu que nem sempre o relógio começa a correr no mesmo momento após os pontos.

No jogo entre Quinzi e Shapovalov, o árbitro brasileiro Carlos Bernardes levava, de 5 a 6 segundos para disparar o relógio ao fim de cada ponto. No dia seguinte, na partida entre Quinze e Chung, o árbitro francês Cédric Mourier iniciava a contagem regressiva sempre entre um e dois segundos após o fim dos pontos (e demorava um pouco mais para fazê-lo ao fim de um ponto com muitas trocas de bola).

Deu para entender o drama, né? Logo, os tenistas vão reclamar, e a ATP vai precisar dar seu jeito para padronizar a aplicação por parte dos árbitros. É o tipo da coisa que ninguém repara hoje em dia porque não existe relógio para o público ver, mas o fato é que árbitros diferentes contam os 25 segundos a partir de momentos diferentes. Isso contribui para a quase sempre polêmica aplicação da regra.

Tempo técnico

Por definição, não gosto da regra. Como já escrevi várias vezes aqui no Saque e Voleio, acho que ela altera uma das essências do tênis, que é o princípio de que um tenista deve resolver seus problemas e encontrar soluções em quadra por conta própria. Dito isso, o tempo técnico tem seu valor de entretenimento e foi bem executado em Milão. Os técnicos não saíam de seus lugares na arquibancada, mas colocavam fones e eram filmados. O áudio da conversa ia direto para a transmissão de TV.

É melhor do que na WTA em alguns aspectos. Primeiro porque impede que algum treinador (vide Sam Sumyk) abafe o microfone. Além disso, sob um ponto de vista corporativo, protege a imagem da ATP e de seu produto, evitando aquelas cenas constrangedoras em que tenistas ouvem com cara de paisagem, mal prestando atenção ao que o técnico diz. Se acontecer no masculino, basta a ATP Media fechar a imagem no treinador. Na WTA, com técnico e atleta juntos, não dá para fazer.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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