Saque e Voleio

As 7 chaves do sucesso da espetacular Laver Cup

Alexandre Cossenza

25/09/2017 11h31

Bjorn Borg sentado à mesa e discutindo a escalação do dia junto a Rafael Nadal, Roger Federer e Tomas Berdych. Isso tudo com câmera e microfones ligados para o público acompanhar, mais tarde, durante as partidas.

John McEnroe tentando, em seguidas viradas de lado, incentivar um lesionado Nick Kyrgios durante as viradas de lado e desenhando uma estratégia – que acabou se mostrando triunfal – para derrotar Tomas Berdych.

Jack Sock comemorando e gritando “that’s what I’m f****** talking about” para o John Isner que acabava de derrotar Rafael Nadal na penúltima partida do fim de semana.E nem foi o melhor momento dos americanos no fim de semana.

As estrelas nos bancos de reservas vibrando, lamentando ou brincando, mas sempre reagindo ao que acontecia em quadra. E sempre, claro, com uma câmera ligada e mostrando ao vivo – ou em imagem recuperada – o que rolava de melhor.

E, claro, Rafael Nadal e Roger Federer, números 1 e 2 do mundo, velhos rivais e atuando pelo mesmo time. Jogaram duplas juntos, a sério, com a plena noção da dimensão do momento que protagonizavam. Protagonizaram lances lindos, momentos engraçados, trapalhadas e, no fim, venceram.

Quem acompanhou pela TV ou pela transmissão oficial online viu ainda os dois decidindo como jogariam e desenhando um plano de jogo. Viu Federer vibrando com Nadal em quadra. Viu o espanhol gritando a cada ponto suado do suíço na partida final contra Nick Kyrgios. O número 1 até deu instruções ao suíço nesse jogão (veja no vídeo acima). E viu, no fim, Nadal correr para invadir a quadra e saltar aos braços de Federer para comemorar o título da Laver Cup. E que Laver Cup!

Foi, no balanço geral, um fim de semana memorável para o tênis e seus fãs. Não só pelas cenas acima, mas porque mesmo sem chancela de ITF ou pontos no ranking da ATP, todos os excelentes tenistas reunidos em Praga levaram a competição a sério, vibrando com os companheiros e brigando por cada pontinho. O nível do tênis apresentado também foi alto e não seria exagero dizer que os nove jogos de simples foram tão ou mais interessantes do que a maioria das partidas de Wimbledon e do US Open, os dois últimos slams de 2017.

Mas como uma competição que não dá pontos conseguiu reunir tanta gente e fazer um evento de tanto sucesso logo na primeira edição? Não é tão difícil assim enumerar os motivos. Vamos a eles:

1. A credibilidade de Roger Federer

O suíço é sinônimo de excelência. Com ele e sua Team8 no comando, ficou mais fácil atrair patrocinadores de peso e atletas de nome. Não por acaso, algumas das marcas que investiram no evento – vide Rolex e Mercedes – já eram parceiras de Federer. A própria participação do suíço em quadra teve seu efeito. Afinal, se uma competição é boa o bastante para ele, é boa para qualquer um.

2. Competitividade

Fazer um “torneio-exibição” interessante é a grande chave para o sucesso de qualquer evento que não dê pontos no ranking. A organização usou uma fórmula sagaz para abordar esse dilema de várias maneiras. Primeiro, colocou na mesa um cachê de US$ 250 mil para cada tenista do time vencedor (além de um prêmio fixo, com valor baseado no ranking, para todos participantes).

Além disso, os times foram colocados em hotéis diferentes para que os atletas rivais não batessem papo nem no café da manhã. Uma medida que parece boba, mas que contribuiu de uma forma ou de outra para ajudar a criar o clima de competição. Escalar capitães (Borg e McEnroe) que foram rivais 35 anos atrás também foi inteligente. Os jogadores entenderam o conceito. Ficou óbvio que todo mundo levou a sério, e foi isso que fez a Laver Cup tão especial.

3. Cenas de bastidores

Outro ponto essencial que a organização da Laver Cup entendeu é que o esporte hoje não vive só do que acontece em quadra. O consumidor quer mais. Quer ver os bastidores, quer acompanhar o que acontece antes e depois das partidas. Causas e consequências são tão importantes quanto o fato em si.

Logo, havia câmeras e microfones espalhados por toda parte, inclusive nas reuniões internas das equipes. Foi delicioso ver Borg discutir com Federer como “casar” as partidas do sábado. Foi espetacular ver Nadal e Federer conversando sobre como jogar a partida de duplas. Quem jogaria de que lado, quando focar atrás ou subir à rede, o que fazer em cada situação. E o áudio das viradas de lado com as instruções dos capitães? O público consumiu e adorou.

Tudo isso, claro, foi feito de forma isenta. A organização não divulgou nada que comprometesse um atleta ou a qualidade do evento. Tudo que foi gravado nos camarins só foi exibido quando os tenistas estavam em quadra. Ninguém da equipe adversária ficou sabendo de algo secreto. Ao que tudo indica, tudo correu como o planejado.

4. Tratamento visual e instalações

A quadra preta foi outro diferencial do evento. Deu um toque meio “elite” à coisa toda. Inclusive porque as placas publicitárias também eram pretas, apenas com os nomes dos patrocinadores em branco. Aliás, fica uma lição aos donos de torneios que acham que as placas precisam ter a cor dos patrocinadores para destacar as marcas. Os nomes Rolex, Mercedes e JP Morgan estavam super visíveis na Laver Cup, e ninguém precisou montar a quadra como um pacote de Skittles para isso acontecer.

Mas não foi só a quadra que criou um ambiente especial para o evento. Segundo relatos de jornalistas que estavam em Praga, a organização da Laver Cup “roubou” muitas das ideias utilizadas pelo ATP Finals. Iluminação, camarins, sala de imprensa… A Arena O2 da capital tcheca não foi escolhida por acaso. Realizar algo assim exige que o local ofereça as melhores condições possíveis.

5. Pontuação e regras

O que quer que acontecesse na sexta e no sábado, o domingo teria pelo menos um jogo valendo. Foi assim porque no primeiro dia cada partida valia um ponto. No segundo, dois pontos. No terceiro, três. O regulamento manteve o interesse e criou uma expectativa por jogos cada vez mais valiosos, o que culminou em um dramático 12º jogo entre Federer e Kyrgios, no qual o australiano esteve a um ponto de empatar o duelo. Sim, mesmo depois de o Time Europa parecer soberano durante sexta e sábado.

Outro elemento interessante do regulamento estava em deixar que um capitão “case” os jogos, já sabendo a escalação da outra equipe. Isso funcionou melhor ainda porque, como já citado aqui, o espectador ficou sabendo o que um time debateu na hora de montar o matchup que considerava mais favorável. Segredo não funcionaria tão bem. Repito: causas (escalações) e consequências (reações) são tão importantes quanto o fato (o que acontece na partida).

6. Calendário

A data de setembro foi estrategicamente interessante para a Laver Cup. Uma semana depois da Copa Davis e junto com apenas dois ATPs 250 (Metz e São Petersburgo). Todas as estrelas compareceram, a não ser pelos lesionados e Juan Martín del Potro. Deu tempo suficiente para todo mundo se recuperar do US Open e chegar a Praga mostrando um belo nível de tênis – embora Nadal e Federer não estivessem tão afiados assim. A qualidade faz diferença.

Vale ressaltar que a Laver Cup será realizada em todos anos não-olímpicos. Evitar o calendário entupido de 2020, 2024, 2028 e etc. parece uma medida inteligente. De que adianta ter a competição todos os anos se existe o risco de desfalques e jogos de qualidade inferior com tenistas desgastados a cada quatro anos? Melhor não fazer algo do que um produto de padrão inferior (lição que muita gente por aí deveria aprender). Assim, a Laver Cup manterá sua reputação de evento de altíssimo nível.

7. O tributo a Rod Laver

Poderia existir algo mais apropriado do que nomear algo tão de alto nível em homenagem a Rod Laver, o único homem da história a fechar o Grand Slam de fato duas vezes? A presença do australiano em Praga deu ainda mais status à competição, e a homenagem antes da entrega do troféu foi belíssima. Vida longa a Rod Laver.

Outro toque especial foi o troféu da Laver Cup. A taça foi construída usando metal derretido de um dos primeiros troféus profissionais conquistados pelo próprio Rod Laver. Além disso, há 200 talhos perto da borda da taça. Eles significam os 200 títulos conquistados por Laver – com os quatro anéis duplicados na base representando os Grand Slams de 1962 e 1969.

Coisas que eu acho que acho:

– Não estou tão convencido (ainda) de que o sucesso da Laver afeta diretamente a Copa Davis. Essencialmente, são eventos com características bem diferentes e, mesmo que a ITF leve adiante a ideia de fazer as finais da Davis em sede única com quatro países jogando, é quase impossível reunir a quantidade de estrelas que a Laver Cup põe em quadra/no banco ao mesmo tempo. É óbvio que há elementos em comum, e a ITF pode tirar uma ou outra lição, mas é injusto comparar os dois eventos como se não houvesse tantas diferenças.

– Os promotores dos ATPs de Metz e São Petersburgo não devem estar lá muito felizes. Nem tanto porque a Laver Cup concentrou os nomes de maior peso do circuito (os dois torneios nunca tiveram chaves lá tão fortes), mas porque a competição de Praga roubou toda a atenção do tênis mundial.

– Preciso registrar a belíssima campanha de Bia Haddad Maia, que fez em Seul sua primeira final de WTA na carreira. A paulista só perdeu para Jelena Ostapenko, a campeã de Roland Garros. Bia subiu para o 58º posto no ranking, sua melhor posição até agora. Não posso dizer muito porque, em função de compromissos no fim de semana, não vi as últimas partidas da brasileira. Pelo que li dos relatos, Seul foi mais um exemplo de que Bia tem potencial para fazer muito no circuito. Sem lesões, vem subindo no ranking e mostrando um tênis cada vez mais sólido. Que ninguém se espante se ela alcançar coisas grandes em breve.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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