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Saque e Voleio

Diego Schwartzman, o enorme tapa na cara dos acomodados

Alexandre Cossenza

03/09/2017 21h56

Diego Sebastián Schwartzman é o estereótipo do cidadão que não chama atenção de ninguém em um torneio de tênis. Não tem um saque dominante, não tem nenhum golpe que se destaque individualmente, não é galã nem anda com uma entourage. Não fosse sua estatura diminuta – a ATP diz que ele tem 1,70m, mas quem o conhece sabe que é menos do que isso – ninguém apontaria para ele num clube.

Digo isso por observação própria. Schwartzman passou um bom tempo jogando no circuito Challenger. Esteve bastante no Brasil, também nos ATPs. Posso afirmar que não havia muita gente colocando tanta fé no argentino. Também posso garantir que ouvi a frase "esse anão corre muito, mas só devolve" e suas variações mais de uma vez.

Só que Dieguito – ou Peque, seu apelido mais conhecido – é o tipo do cara que trabalha quieto. Fala pouco e escuta muito. Treina, treina e quando está cansado treina mais um pouco. Há três anos, passou por Blumenau, São Paulo, Santos, Porto Alegre, entre muitos outros Challengers. Foi nesse ano, 2014, que entrou no top 100. Em setembro, depois de perder na estreia no US Open, salvou match point contra André Ghem antes de ser campeão em Campinas. No mês seguinte, derrotou Feijão numa final em San Juan. Na época, pareciam grandes feitos para quem jogava contra rivais mais altos e mais fortes. Só que Schwartzman nunca parou. Enquanto uns desmarcam treinos, curtem festas e se deslumbram com uma entradinha rápida no top 100, o argentino sempre está trabalhando quieto.

Agora, em 2017, Schwartzman segue "surpreendendo". Até Roland Garros, não tinha no currículo uma vitória sobre um top 10. Levou Djokovic a cinco sets, mas saiu derrotado. Deixou a quadra aplaudido de pé pelo público e pelo rival. Uma cena emocionante de reconhecimento por alguém que fez tudo que podia.

Só que Schwartzman não deixou tudo ali. Não se deslumbrou. Tinha mais. Em Montreal, abateu seu primeiro top 10 (Dominic Thiem). Agora, em Nova York, derrubou Marin Cilic. E não parou, não se acomodou. Dois dias depois, neste domingo, eliminou o francês Lucas Pouille. Agora está garantido nas quartas de final do US Open. Quando deixar a cidade, o fará como top 30 (pelo menos) pela primeira vez.

Schwartzman é um enorme exemplo. De dedicação, por estar sempre treinando e buscando mais; de inteligência, por saber ouvir técnicos (é treinado atualmente por Juan Ignacio Chela) e por entender que qualquer evolução, por menor que seja, vai acrescentar a seu tênis e aumentar suas chances; e de coragem, por nunca ter se intimidado com as piadas sobre seu tamanho. Hoje, fala com orgulho disso:

"Espero que as pessoas possam entender que o tênis é para todo mundo, não só para os altos. Há momentos em que ser alto ajuda bastante, porque você pode sacar muito rápido e pegar forte do fundo porque tem braços mais longos que os meus. Mas tudo bem. Sempre foi assim e sempre procuro melhorar meu tênis sem pensar nisso."

Por causa do tamanho, Schwartzman desenvolveu um de seus melhores fundamentos: a devolução de saque. Não, Peque provavelmente nunca vai disparar winners como Agassi ou Djokovic no primeiro golpe, mas nem precisa. Nas últimas 52 semanas, o argentino tem o segundo melhor índice de devoluções do circuito, de acordo com a ATP, vencendo 33,5% dos pontos de primeiro saque do adversário e 56,3% no segundo serviço. Além disso, tem 45% de aproveitamento em break points. É mais do que Nadal (43,1%), Djokovic (44,8%) e Federer (40,8%).

Na terça-feira, Schwartzman vai enfrentar Pablo Carreño Busta por uma vaga na semifinal do US Open. Que mais uma vitória do argentino não surpreenda ninguém.

Coisas que eu acho que acho:

– Para saber um pouco mais sobre a personalidade e a história de Diego Schwartzman, recomendo os três vídeos do site argentino Segundo Saque. O primeiro está logo acima, é só clicar e ver.

– Chegou ao fim o polêmico retorno de Maria Sharapova ao mundo dos slams. A ex-número 1 do mundo voltou a fazer uma partida de altos e baixos e com muitos erros. Neste domingo, foram 51 falhas não forçadas. A letã Anastasija Sevastova, mais inteligente e consistente, variou golpes, usou slices, curtinhas, lobs e venceu de virada por 5/7, 7/4 e 6/2. Ela vai encarar Sloane Stephens nas quartas de final.

– Stephens, aliás, faz um semestre de recuperação memorável. Ausente desde os Jogos Rio 2016, voltou em Wimbledon e na última semana de julho ocupava o 957º posto no ranking. Fez uma semi em Toronto, outra em Cincinnati e agora está nas quartas em Nova York, já pertinho de entrar novamente no top 50.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.