Saque e Voleio

O corajoso e divertido tênis de Denis Shapovalov

Alexandre Cossenza

11/08/2017 02h16

A sequência de eventos é daquelas que fazem a gente pensar se existe algo conspirando para certos cenários. Primeiro porque Rogerinho tinha voltado ao Brasil quando descobriu que herdou uma vaga na chave principal em Montreal. Pegou um voo para o Canadá, fez uma bela estreia e teve quatro match points para despachar em dois sets o jovem Denis Shapovalov. Só que o tenista da casa escapou, forçou o terceiro set e ganhou de virada: 4/6, 7/6(8) e 6/4.

Com 18 anos e número 143 do mundo, o mais provável era que Shapovalov sucumbisse nas oitavas de final contra Juan Martín del Potro. Quem achou isso (quase todo mundo!) errou feio. Por 6/3 e 7/6(4), com mais um tie-break a favor na conta, o canadense deu outro grande passo para se aproximar do top 100. Seu talento é inquestionável. Ninguém ganha a Copa Davis e Wimbledon como juvenil por acaso. Até esta semana, no entanto, fora os especialistas, Shapovalov era mais conhecido como o rapaz que deu uma bolada no olho de um árbitro.

Faltava um grande resultado para que Shapovalov fosse reconhecido como o belo tenista que é, e a situação se apresentou nesta quinta-feira, na sessão noturna, com a quadra lotada para vê-lo contra Rafael Nadal. O espanhol, que vinha de uma atuação impecável contra Borna Coric, estava a duas vitórias de retomar o posto de número 1 do mundo. O grande Nadal não deixaria a chance escapar, certo?

Errado. Muito errado. Logo de cara, ficou óbvio que Nadal não estava em um grande dia. Quando isso acontece, o espanhol joga um tênis mais cauteloso, dando a seus adversários mais chances de tomar o controle dos pontos. Shapovalov viu a deixa e aproveitou. Agrediu de forehand, de backhand, de todos os jeitos. Ainda assim, Nadal foi mais consistente e venceu o primeiro set por 6/3. Até então, não parecia muito diferente de tantos triunfos do espanhol contra oponentes mais jovens e ousados.

Só que Nadal perdeu o saque no começo do segundo set, Shapovalov ganhou confiança, e a coisa mudou. A partida ficou equilibrada e, mesmo com Nadal devolvendo a quebra e esfriando o momento do canadense, não parecia definida. O tenista da casa se viu acuado sacando em 4/4 e 0/30, mas safou-se brilhantemente com dois aces seguidos e terminou quebrando Nadal em sequência.

O brilho de Shapovalov em momentos delicados continuou no terceiro set. Ele salvou seis break points e seguiu exigindo mais de Nadal. O espanhol também teve seu serviço pressionado em alguns games, mas não cedeu break point algum até o tie-break. E era de se imaginar que a experiência de Nadal fosse pesar no game de desempate, certo? Errado de novo. Mesmo depois de abrir 3/0.

Bastou uma dupla falta do número 2 do mundo para que Shapovalov devolvesse a mini-quebra e virasse para 4/3. O espanhol, que depois disse ter feito seu pior jogo em 2017, estava inseguro, o que ficou claro no forehand curto que deu a Shapovalov a chance de matar o jogo. O canadense nem pensou duas vezes. Enfiou a mão na paralela, fechou o jogo e ficou muito perto do top 100: 3/6, 6/4 e 7/6(4).

Ótimos saques, um excelente forehand de canhoto, um backhand de uma mão perigoso e um tênis corajoso e delicioso de ver. Denis Shapovalov pode até não terminar a semana entre os 100 do mundo (ele é o 100º provisoriamente, mas pode ser ultrapassado), mas já está no radar do mundo inteiro. Se Federer e Nadal ainda dominam o ranking, o esporte vai vendo cada vez mais jovens com jogos vistosos e legais de ver. É seguro dizer que entre Zverevs, Kyrgios, Thiems, Shapovalovs e outros, o futuro do tênis vai estar em ótimas mãos – só não se sabe quando.

Coisas que eu acho que acho:

– Curto muito acompanhar meninos talentosos crescendo e começando a ganhar jogos grandes. Também me divirto buscando vídeos antigos, como este, de 2016, depois do primeiro jogo de Shapovalov em nível ATP. Ele havia acabado de perder para Lukas Lacko, mas saiu de quadra sentindo que jogou melhor que o adversário. Em entrevista para a jornalista canadense Stephanie Myles, Shapovalov afirma que não se considerava um garoto de 17 anos e que se achava muito mais maduro. Na ocasião, gostava de seu nível de tênis e ressaltava que precisava ser mentalmente mais forte nos pontos grandes. Pelo que mostrou nesta sexta, parece que está acontecendo, não?

– Ainda sobre a força mental de Shapovalov, vale lembrar dos seis break points que ele salvou no terceiro set. Dos seis, Nadal teve uma chance em um rali no primeiro game, mas atacou com um forehand longo. Nos outros cinco, o canadense dominou, executando três winners e forçando um erro do espanhol. O campeão de Roland Garros conseguiu muito pouco. Mérito enorme de Shapovalov e de sua coragem sob pressão.

– Nadal perde a chance de voltar ao topo e, do jeito que a chave se apresenta para Roger Federer, a aposta mais segura a esta altura parece ser no título do suíço em Montreal. Se isso acontecer, ele chegará a Cincinnati favoritíssimo para assumir a liderança do ranking. E se você não viu a chave, as quartas em Montreal têm: Shapovalov x Mannarino, Alexander Zverev x Anderson, Haase x Schwartzman e Federer x Bautista Agut.

– A quem interessar, a pronúncia do sobrenome do canadense filho de um russo ortodoxo com uma judia, nascido em Tel Aviv e atual morador de Nassau, nas Bahamas, é paroxítona. Soa como “Shapoválov”. Ouça aqui.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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