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Saque e Voleio

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Rafael Nadal e o maior feito da terra

Alexandre Cossenza

11/06/2017 15h21

Marcelo Ríos, ex-número 1 do mundo, disputou a chave principal de Roland Garros nove vezes. Andy Roddick, outro ex-líder do ranking, jogou em dez edições. Gustavo Kuerten, tricampeão, soma 11 participações. É preciso ser privilegiado para pisar por dez anos em uma quadra do complexo parisiense estando entre os 128 inscritos. Só para ter o direito de estar lá e competir, é preciso ser muito bom e por muito tempo. É preciso evitar lesões. É preciso muita coisa.

Rafael Nadal venceu Roland Garros dez vezes. Venceu. Em bold e itálico, por favor. E se o parágrafo acima não deu o contexto necessário para que se dimensione o feito desse espanhol de 31 anos, levemos em conta que nessas dez campanhas ele bateu Roger Federer cinco vezes, Novak Djokovic outras seis, David Ferrer quatro, Andy Murray duas, Stan Wawrinka duas, Dominic Thiem duas…

Ou talvez devamos lembrar que dos dez títulos, Nadal conquistou três sem perder sets (2008, 2010 e 2017). Ou que Rafa só precisou jogar cinco sets em duas oportunidades – e triunfou em ambas. Ou que ele conseguiu "La Décima" em apenas 13 tentativas, com duas derrotas e um abandono por lesão. Ou larguemos de vez os números e vejamos as fotos, os vídeos, os rostos dos adversários e constatemos que nunca um tenista foi tão dominante na terra batida, o piso no qual ninguém consegue esconder suas deficiências.

Não que a conclusão fosse diferente houvesse Nadal pendurado a raquete em 2014. O Rafa de hoje, porém, é mais forte. Passou pelo momento ruim de 2015, superou as lesões de 2016, ouviu críticas duras – inclusive de seu tio, que pediu uma mudança de postura – e voltou enorme em 2017. Fez uma final em Melbourne, outra em Miami e, quando pisou no saibro, cresceu. Venceu três de quatro torneios antes de voltar a Paris, pronto para reinar soberano outra vez.

Com toda justiça, ganhar Roland Garros dez vezes – o maior feito da terra, uma conquista épica e histórica nos raros sentidos plenos dos adjetivos – rendeu a Nadal um bandeirão na quadra Philippe Chatrier, um pódio com o número 10 e uma rara homenagem do torneio francês. A organização colocou Toni Nadal, tio e técnico, para entregar ao decacampeão uma réplica do troféu original. Uma do mesmo tamanho, não como aquelas miniaturas que os campeões "normais" levam para casa.

Porque Rafa e "normal" não combinam na mesma frase. Como Guga sempre sugere, o espanhol é um alien que estacionou a nave em algum lugar e se infiltrou no meio dos mortais. Hoje, o rapaz que dominava o planeta com 22 anos e ouvia que, naquele ritmo, estaria esgotado e arrebentado aos 25 (depois aos 27, depois aos 29, etc.) está aí, mais vivo do que nunca. Mais campeão do que nunca. Mais imortal do que nunca.

A final

Sabe o esperado roteiro com Wawrinka agredindo e Nadal se defendendo com bolas altas e tentando esticar os pontos? Se alguém escreveu esse texto, ninguém leu. Durante a maior parte das 2h05min de jogo, o espanhol foi o agressor, anulando o serviço do suíço, agredindo a direita do rival com um afiadíssimo backhand cruzado e angulado, e forçando Stan a executar o backhand dois metros atrás da linha de base, quase impedindo que o oponente atacasse.

Era mesmo o plano de jogo perfeito para enfrentar Wawrinka. A grande dificuldade estava na execução. Quem, afinal, consegue evitar os backhands matadores do suíço? Ou a direita angulada que tanto desloca os rivais? E se a estratégia foi bem bolada por Toni Nadal e Carlos Moyá, Nadal a colocou em prática gloriosamente. O eneacampeão fez seu próprio rolo de highlights, autografando winners de todas as partes da quadra, mirando em alvos minúsculos e desenhando ângulos improváveis.

Ponto atrás de ponto, Nadal minou o físico, a estratégia e até a fé de Wawrinka. O suíço tentou de tudo e conseguiu muito pouco. Venceu seis games. Um a menos do que Thiem na semifinal de sexta-feira. Um a mais do que Federer na final de 2008. Hoje, restou a Stan bater palmas, dar risos irônicos e descrentes do poder de fogo do campeão, morder uma bola e tentar chamar o público para seu lado nos raros momentos em que ganhou um ponto longo. No fim das contas, quebrou mais raquetes do que serviços. E que ninguém o condene. Não havia muito mais que um ser humano pudesse fazer neste domingo.

Os winners

As estatísticas refletem o domínio de Nadal. Mais aces, mais winners, mais pontos vencidos com os dois serviços, mais subidas à rede, mais sucesso nos pontos decididos ali. Wawrinka, por sua vez, errou mais e precisou correr mais.

No ranking

O resultado faz Rafael Nadal subir para o segundo posto, cerca de 2.700 pontos atrás de Andy Murray. Wawrinka fica em terceiro, seguido por Djokovic, Federer, Raonic, Cilic, Thiem, Nishikori e Zverev.

Na Corrida, o ranking que leva em conta apenas os pontos somados em 2017, Rafael Nadal dispara na frente, com 6.915 pontos. Federer, que optou por descansar durante a temporada europeia de saibro, é o segundo, com 4.045. Thiem (3.165) é o terceiro, seguido por Wawrinka (3.140) e Zverev (2.140). Djokovic (1.975) é o sexto, enquanto Murray (1.930) fica em sétimo. Goffin, Carreño Busta e Tsonga completam o top 10.

Os números

Nadal é o tenista que mais venceu jogos em 2017 e soma 43 triunfos (seis derrotas). O segundo da lista é o incansável Dominic Thiem, com 34, seguido por David Goffin, com 31. Wawrinka é o sexto da lista, com 26.

O espanhol é também quem conquistou mais títulos na temporada. Já são quatro: Monte Carlo, Barcelona, Madri e Roland Garros. A segunda posição é dividida por três tenistas: Federer (Australian Open, Indian Wells e Miami), Tsonga (Roterdã, Marselha e Lyon) e Alexander Zverev (Montpellier, Munique e Roma).

Os recordes

Com seu 15º título em um torneio do grand slam, Nadal se tornou o primeiro tenista da Era Aberta (a partir de 1968) a vencer o mesmo slam dez vezes. Na história, apenas a australiana Margaret Court conseguiu o feito. Ela venceu o Australian Open 11 vezes: 1960-66, 1969-71 e 1973.

Nadal, com 31 anos e 8 dias, também se tornou o tenista mais velho a vencer seu 15º slam. A marca anterior era de Serena Williams, com 30 anos e 348 dias no US Open de 2012. Entre os homens, Federer era o mais velho. O suíço tinha 27 anos e 331 dias quando triunfou em Wimbledon/2009.

A campanha de 2017 também foi a melhor da vida de Nadal em Paris. Nos sete jogos que disputou, cedeu apenas 35 games. Até hoje, 2008 havia sido o torneio mais "fácil", com 41 games cedidos. Este ano, porém, Nadal venceu um jogo por desistência de Pablo Carreño Busta no segundo set. A melhor marca da história é de Bjorn Borg, campeão em 1978 cedendo só 32 games.

Questão de idade

Desde 1969, uma final de Roland Garros não era disputada por dois tenistas com mais de 30 anos. Naquele ano, Rod Laver, 30, derrotou Ken Rosewall, 34.

O ponto do dia

Um forehand ilustra melhor do que vinte parágrafos o nível que Rafael Nadal mostrou na decisão deste domingo.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.