Saque e Voleio

Thiem, o último dos especialistas

Alexandre Cossenza

19/05/2017 07h00

Em 2016, Novak Djokovic e Andy Murray decidiram o título de Roland Garros. Um ano antes, Stan Wawrinka dividiu o momento com o sérvio. Antes, Nadal. Já faz algum tempo que o slam francês não é palco de uma grande campanha de um especialista no saibro. A exceção, talvez, seja David Ferrer, vice em 2013, mas o espanhol tem tantos títulos em quadra dura quanto na terra batida.

Chegamos, então, a 2017. Um ano marcado por enquanto por campanhas decepcionantes de Novak Djokovic, Andy Murray e Stan Wawrinka. Roger Federer preferiu nem sujar as meias. E sem o brilho dos fora-de-série, Dominic Thiem surge como nome de destaque no saibro. Um jovem especialista no piso. Talvez o último dos especialistas (pelo menos por enquanto). Certamente, o melhor saibrista entre aqueles que a ATP coloca sob o guarda-chuva da hashtag #NextGen.

O austríaco chegou ao top 10 impulsionado pela semifinal de Roland Garros no ano passado, mas o resultado foi mais consequência de uma chave esburacada do que de um tênis espetacular. Após a desistência de Nadal, Thiem só precisou passar por Granollers nas oitavas e, depois, bateu Goffin nas quartas. Foi dominado por Djokovic na semi, mas era “aquele” Djokovic. Não dava para exigir muito além dos sete games conquistados naqueles três sets.

Este ano, a janela para Thiem está aberta. Foi campeão no Rio, o primeiro evento de saibro de seu calendário este ano, e caiu nas oitavas em Monte Carlo, diante de Goffin. Ainda lhe faltava um grande resultado num Masters, mas ele veio em Madri. Embalado por um vice em Barcelona, o austríaco passou por Donaldson, Dimitrov (salvando cinco match points), Coric, Cuevas e fez outra final. Novamente, não conseguiu superar Rafael Nadal, que ainda reina soberano no piso.

A chave de Roma não lhe foi tão favorável, mas Thiem terá uma terceira tentativa contra Nadal. Será já nas quartas de final, nesta sexta-feira, e ela vem após três match points salvos contra Sam Querrey. Será que o tenista de 23 anos terá mais sorte desta vez?

Os porquês

E por que o tênis de Thiem funciona tão bem no saibro? Por que, aliás, é tão mais eficiente na terra do que em outros pisos? As explicações não são muito diferentes dos motivos que fazem de Rafael Nadal um mestre do piso – embora sejam estilos de jogo um tanto diferentes.

1. Spin e ralis inteligentes

Thiem joga com mais spin do que a maioria dos tenistas de hoje. Isso significa maior margem de segurança, com a bola passando com mais folga sobre a rede. Não seria uma vantagem tão grande, mas o austríaco consegue fazer isso gerando rara potência, que vem de seus forehands e backhands de preparação longa. O saibro ajuda essa preparação, mas não é só isso. Thiem tem a inteligência de jogar a bola ainda mais alta quando precisa se defender (já, já falo mais sobre isso) e não se incomoda em esticar pontos até que encontre uma posição melhor para atacar.

Como não é todo mundo que consegue gerar tanto spin, não são muitos que se sentem confortáveis entrando em pontos longos contra Thiem. Quanto mais trocas, maior a chance de o ponto acabar a favor do garotão, já que ele geralmente corre menos riscos. No jogo desta quinta, por exemplo, Querrey tentou ser agressivo e transformar a partida em um duelo de quadra dura, com pontos curtos. Deu certo. Thiem até precisou devolver saques mais próximo à linha de base. O problema é que fazer isso exige precisão ao extremo. São poucos que conseguem jogar tão reto e tão agressivo durante dois sets inteiros. Querrey conseguiu. Ainda assim, faltou um pontinho.

2. Devoluções

Não, Thiem não é um grande devolvedor de saques. Longe disso. A questão aqui é que o saibro permite ao austríaco um pouquinho de tempo a mais para fazer a longa armação de seus golpes e colocar a bola em jogo. Mesmo assim, Thiem ainda usa a quadra inteira para isso. Não raro, as câmeras mostram ele pertinho dos juízes de linha na hora da devolução. No saibro, Thiem se contenta em devolver bolas altas e com spin. Quando elas são fundas o bastante, anulam o ataque do sacador. É como se o ponto começasse do zero, numa disputa de fundo de quadra. E aí acontece o que já foi descrito no parágrafo anterior. Em outros pisos, a estratégia não funciona tão bem. O tempo para devolução é menor, e os retornos precisam ser muito precisos.

3. Defesa e contra-ataque

Não é exatamente a característica mais exaltada de Thiem, mas é a que lhe permite inverter muitos ralis, fazendo a transição defesa-ataque como poucos. O atual #7 usa bem o slice quando precisa e, repito, sabe quando adotar mais spin para ganhar tempo e se recolocar bem na quadra.

Aí o adversário vê os slices defensivos e começa a acreditar que pode subir à rede. É quando Thiem saca da cartola uma bola improvável acelerando com o backhand. Sim, porque é no saibro que ele tem um tempinho extra para preparar e executar esses goles. E é como Thiem aproveita esses milésimos ou décimos de segundo que faz dele um especialista no saibro.

Coisas que eu acho que acho:

– Thiem não tem o maior talento natural nem é o tenista mais completo da chamada #NextGen. Nick Kyrgios faz o que quer com a bolinha – e sem fazer força. Alexander Zverev tem todos os golpes. Ambos têm saques gigantes, o que Thiem não tem (outra explicação para seu sucesso no saibro). Só que entre os tenistas mais novos, o austríaco é o único que mostra um diferencial no saibro.

– Até semana passada, Thiem nunca havia alcançado a semifinal de um Masters. Somava apenas quatro quartas de final. Pouco para um top 10. Em Madri, veio a primeira final. Fará isso com mais frequência de agora em diante? E, principalmente, conseguirá ir mais longe em quadras duras? Vale lembrar: embora com pouco mais de três anos jogando nesse nível (é pouco mesmo!), em piso sintético o austríaco nunca passou das oitavas em um slam.

– A rodada desta sexta-feira em Roma é especial. O torneio da ATP tem Nadal x Thiem e Djokovic x Del Potro, além de Zverev x Raonic e Isner x Cilic. O evento da WTA tem como destaque Venus x Muguruza.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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