Saque e Voleio

O pai dele bateu Guga. Vinte anos depois, Casper Ruud brilha no Rio Open

Alexandre Cossenza

25/02/2017 08h00

É só uma coincidência. Ou nem isso. Mas é, certamente, uma daquelas ligações deliciosas e inexplicáveis entre países e famílias. Em agosto de 1996, um jovem norueguês de 23 anos chamado Christian Ruud enfrentava Gustavo Kuerten no ATP de Umag, no saibro, na Croácia. O europeu, mais experiente e de melhor ranking – era o #68 do mundo, enquanto Guga, então com 19 anos e em franca ascensão, era o #115 – venceu por 7/5 e 6/4.

Fast foward para 20 anos e seis meses depois. Outro tenista chamado Ruud derrubou um brasileiro em ascensão. Foi Casper Ruud, filho de Christian, quem superou Thiago Monteiro nas quartas de final do Rio Open por 6/2 e 7/6(2). Hoje com 18 anos e atual #208 do mundo, Casper já havia eliminado outro tenista da casa no torneio. Na estreia, bateu Rogerinho por 6/3 e 6/4.

Em um país sem tradição ou ídolos no tênis, é óbvio que Christian (o tenista da imagem abaixo) foi a grande inspiração para que Ruud fizesse carreira no tênis. O filho nasceu quando o pai tinha 26 anos e ainda estava no circuito. Quando podia, Christian levava o garoto para praticar todo tipo de esporte. Casper jogou tênis, futebol, hóquei no gelo e golfe. Em algum momento entre os 11 e 12 anos, largou todos os outros e decidiu investir no tênis. Pelo visto, investiu bem.

A federação pequena que ajudou muito

Não que seja fácil crescer jogando tênis na Noruega. Os torneios são poucos. A federação não é rica. Casper, no entanto, aproveitou o que podia. “Por esse lado [poucos torneios e dinheiro], é difícil, mas por outro lado, isso foi bom para mim porque eu sempre fui um dos melhores do país. A federação sempre cuidou bem de mim, com técnicos e tudo mais. Por esse ângulo, é ótimo em comparação com uma federação grande, com tantos jogadores, onde é difícil dar atenção a todos”, disse em rápido papo comigo após a coletiva desta sexta-feira.

A ascensão de Casper Ruud vem sendo espantosa. Um ano atrás, ocupava o 1.148º posto no ranking mundial. A temporada 2016 lhe deu bons resultados, inclusive um surpreendente título no Challenger de Sevilha, na Espanha, em setembro. Naquela semana, pulou do 450º lugar para o 274º. Agenciado pela IMG, que também controla o Rio Open e lhe ofereceu um convite para o evento carioca, Ruud aproveitou a chance e dará mais um salto. Graças à campanha que o levou até as semifinais, pulará do #208 para (pelo menos!) o #133. A explicação para isso? Nem ele crava o motivo. No entanto, quando lhe perguntaram na coletiva, aproveitou a chance para um momento jabá. Disse que trocou de marca de raquete há exatamente um ano e aproveitou para citar a Yonex, sua atual patrocinadora.

Mas e o jogo de seu pai com Guga? Será que Casper sabe da história? Quando perguntei, o garotão não lembrou. Disse que não sabia se seu pai tinha vencido ou perdido. “Ganhou”, eu disse. Casper riu e falou sobre o pai: “Ganhou!? Fico surpreso de ele não ter me contado, mas de repente vai me falar sobre isso nos próximos dias (mais risos). Ele adora histórias sobre quando ganhou partidas duras contra um ou outro jogador. Mas é divertido que meu pai tenha jogado também. Sei que Kuerten é enorme aqui no Brasil. Ganhou Roland Garros três vezes. Pelo que vi e ouvi, ele era um cara duríssimo de enfrentar.”

Variações e aprendizado vendo Nadal na TV

Nos três jogos que fez no Rio Open (superou Rogerinho, o espanhol Roberto Carballés Baena e Thiago Monteiro), Casper Ruud mostrou um tênis cheio de recursos e variações. Tem uma direita pesada, com muito top spin, que empurra os adversários para trás, varia bem com a esquerda e tem um ótimo saque. Além de tudo isso, provou ter bom preparo físico e nervos invejáveis. Nem contra Monteiro, com a quadra cheia e muito barulho, deixou-se abalar. Perguntei se isso era consequência do tênis da Espanha, já que Casper treina bastante em Alicante há alguns anos. Ele minimizou a influência espanhola.

“Não diria que isso vem de treinar na Espanha, mas pode ser. Honestamente, eu sempre gostei de ver tênis na TV e sempre tentei aprender o máximo. Sempre tento ver como os melhores jogam e aprender golpes diferentes. Golpes mais chapados, alguns com mais spin, e aprender quando usar cada um deles. Talvez num 30/30, no forehand, jogar com um pouco mais de spin pode ser mais inteligente. Nunca se sabe, mas eu sempre vi os melhores na TV e eles são ótimos em variar os golpes. Estou tentando ser sólido, mas também variar.”

Ruud disse passar muito tempo vendo tênis na TV e online. E que seu preferido é Rafael Nadal. Vejam por quê:

“Meu ídolo é Rafael Nadal. Talvez ele não jogue o tênis ideal em comparação com Andy [Murray] e Novak [Djokovic], que fazem tudo parecer muito fácil, mas gosto de vê-lo porque é um grande lutador e, embora muita gente não ache, ele também tem muito talento. Seu tênis é extremamente inteligente e sempre tento aprender um pouco com ele.”

Casper Ruud parece bem encaminhado, não?

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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