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De Bellucci a Bouchard: um brasileiro na elite da preparação física

Alexandre Cossenza

15/02/2017 08h00

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Cerca de seis anos atrás, Cassiano Costa deixou de ser preparador físico de Thomaz Bellucci. Foi pouco antes disso que conversamos pela última vez – em fevereiro de 2011, quando o tenista queria ganhar massa muscular. A chegada do técnico Larri Passos, no entanto, fez a carreira de Costa tomar outro rumo.

Hoje, o paulista de 40 anos é um dos profissionais da preparação física mais conceituados do mundo. Depois de três anos a serviço da IMG, empresa que gerencia a carreira de vários tenistas de elite, Costa agora é preparador particular de Eugenie Bouchard, ex-top 5 e considerada um dos maiores talentos do tênis atual – são os dois na foto acima, a propósito. A canadense teve lesões em 2015 e 2016, ocupa hoje o 44º posto na lista da WTA e agora busca dar um fim aos problemas físicos para voltar a subir no ranking.

O brasileiro é peça fundamental nessa engrenagem. Cassiano Costa ajudou a desenvolver uma bebida especial para “Genie” se hidratar e vem fazendo a atleta ganhar massa muscular. A canadense confia tanto em seu trabalho que paga excesso de bagagem em todas viagens só para que Costa leve todo seu equipamento especial.

Batemos um papo por Skype sobre um pouco de tudo. Continuamos de onde “terminamos”, com o fim da parceria com Bellucci, falamos de sua passagem pela IMG e do atual período com Bouchard, mas também falamos de tênis em geral. Do que faz gente como Federer, Djokovic e Nadal se distanciar do resto, de como montar calendários e de quanto as exibições de fim de ano pesam (ou não) na integridade física de atletas da elite. A íntegra está abaixo:

Vamos começar por onde terminou a nossa última conversa, que foi no Brasil Open, quando o Larri estava começando o trabalho com o Thomaz. Naquela época, muita gente dizia que o Larri preferia trabalhar sozinho e você não ficaria na equipe. A sua saída (em abril) pegou de surpresa?

O pessoal falava isso já. O Larri é uma pessoa legal pra caramba, uma pessoa fantástica e um profissional que teve um resultado brilhante com o Guga, criou o sistema e metodologia dele e tinha dificuldade de deixar outras pessoas penetrarem. Não foi novidade isso. Só que eu também tinha minha metodologia, meus resultados e, para nada atingir o Thomaz, nós acabamos decidindo que era melhor cada um seguir seu caminho. Isso acontece muito no tênis. Não é exclusividade do Larri. O pessoal fica massacrando ele, mas isso é do tênis. É difícil às vezes a comunicação entre o preparador físico e o treinador. Às vezes, quem paga o preço é o atleta, mas no nosso caso, a gente detectou rápido, e era mais fácil era mais fácil eu ver outras coisas que já estavam acontecendo e eles continuarem.

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Nenhum problema na relação, então?

Continua tudo bem com todo mundo. Encontrei com o Larri agora no Australian Open, foi super gentil. Com o Thomaz nós jantamos várias vezes em Sydney. O João [Zwetsch] também é um cara com quem me dou super bem, então não foi tanta surpresa. É um pouco praxe isso no tênis. Está melhorando isso agora.

Esse rompimento foi em abril de 2011. Você foi contratado pela IMG em 2012. Como foi esse processo?

A história é longa. Em 2006, quando eu tive um pequeno intervalo com o Saretta, eu trabalhei com a [americana] Jamea Jackson. O treinador dela é um brasileiro que está nos EUA há muito tempo, o Rodrigo Nascimento, e a gente fez uns três, quatro meses juntos. Ela era agenciada pelo Ben Crandell, que é da IMG. Em 2009, o Rodrigo era treinador do [tenista português] Gastão Elias, e ele teve que se afastar do tênis por quase um ano. Ele teve uma lesão bem séria na coluna, e o Rodrigo me procurou. Foi um projeto exitoso porque alguns médicos tinham falado que ele não ia poder mais jogar. O Ben Crandell era o agente dele também. Em 2010, o Ben me recomendou para a [Vera] Zvonareva, e também foi um bom ano. Ela foi número 2 do mundo, então eu tinha uma boa imagem para o Ben. A IMG decidiu contratar alguém específico para o tênis, e ele me recomendou.

Entendi.

E foi uma coisa de timing. Eu teria que ir aos EUA para fazer o processo seletivo. Na época, eu estava ajudando um garoto chamado Roberto Afonso, e ele estava indo para a IMG fazer um semestre lá. Ele falou “você não quer vir comigo as duas primeiras semanas?” E calhou que o processo seletivo era na semana que nós chegávamos. Então foi um baita timing. Tudo estava encaminhado para acontecer. Já no voo de volta, eu tinha a mensagem de voz deles, dizendo que eu tinha sido selecionado. No dia 3 de setembro de 2012, eu fiz meu primeiro dia lá como preparador geral do tênis.

E esse trabalho era com todos os tenistas da IMG que não tinham preparador particular? Como funcionava?

Na verdade, eu era beeeeem ocupado. A IMG tem a academia normal, para crianças que vão desde o iniciante até o nível avançado, então são crianças de 7 até 18 anos de idade. São grupos grandes, 300 alunos por semestre. Eu tomava conta de todos esses – claro que tinha pessoas que me ajudavam, mas eu era o coordenador desse trabalho. Junto, tem os “campers”, que são as pessoas que vão fazer de uma a três meses, que é outro grupo grande, que tinha que toar conta. E os atletas que elas chamam de “junior elite”, que na época eram o Michael Mmoh, Yoshihito Nishioka, a Fanny Stollar, a Natalia Vikhlyantseva, todo mundo que aí está agora figurando entre os 100, cento e pouquinho. Esse grupo já era bem específico, cheguei a fazer algumas viagens com eles. E a gente tomava conta dos profissionais que ou não tinham preparador ou que tinham preparador que não viajava com tanta frequência, além de gente que vinha só fazer pré-temporada.

Então era bastante coisa mesmo.

Essa era a parte do tênis. Eu tinha que cuidar da parte de velocidade do futebol, uma parte específica que a gente desenvolveu lá. Quando eu saí da IMG, era assistente geral da preparação física de todos os esportes. Estava bem ocupado lá (risos). Fiquei de setembro de 2012 a 31 de dezembro de 2015.

E se somar esse período todo, então você trabalhou com mais de 30 jogadores que estiveram nos Jogos Olímpicos do Rio?

Mas não é que todos fizeram tratamento integral comigo. Alguns fizeram avaliação, alguns fizeram dois treinos, alguns fizeram dois meses, mas tivemos 34 ou 36 na chave da Olimpíada, estou sem o número preciso aqui, mas de alguma forma nós auxiliamos. É que aqui nos EUA eles contam muito o “trabalhei com atleta olímpico”, então a IMG deu um número para mim com “X jogadores que estiveram aqui no seu período.”

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Hoje, dentro do circuito, como você vê a importância que o os tenistas de elite dão ao aspecto físico? Ainda tem muita gente jogando além do que deve ou já existe uma consciência geral de que não dá para “entupir” o calendário?

Acho que o Dominic Thiem [foto acima] está sendo um pouquinho a exceção da regra agora.

(risos) Se você não falasse, eu ia perguntar sobre ele.

Acho que ele é um cara que é novo, quis se meter no top 10 e, enfim, sai um pouco da regra. A maioria dos atletas bem ranqueados ficam na casa dos 20 a 24 torneios por ano, não muito mais do que isso – o que ainda pode ser considerado alto, mas eles têm a obrigação de jogar 18 torneios de qualquer forma. Eu vejo que os atletas europeus, na maioria, e os americanos estão começando a reduzir o número de jogos e torneios, estão começando a selecionar melhor. Para nós, sul-americanos, e para os asiáticos, é muito mais complicado. Boa parte do tour é nos EUA/Canadá ou na Europa, então quem perde volta para casa, tem uma situação melhor para treino. Nós, não. Você vai para jogar na Europa, tem que jogar tudo. Se você perder, vai ter que pagar quadra de treino, hotel e tudo. É melhor você estar num torneio, que te salva dois, três dias desses custos, do que ir só treinar por conta própria. Então nós acabamos jogando um pouco mais por uma logística complicada. Com a Bouchard, se a gente vai jogar Washington… Deus que me livre, mas se ela perde a primeira rodada, volta para casa. Volta para treinar, para descansar. Um brasileiro tem que colocar um torneio na segunda semana, tem que entrar na dupla, tem que fazer um samba para não ficar tão caro.

Além do custo, o quanto essa viagem de 10h, 11h, 12h atrapalha fisicamente?

Essa é outra parte porque… O que vai acontecer? O europeu perde um torneio, viaja de trem uma hora e está em casa. Imagina nós, 11h, 14, 16h, jet lag, tem que voltar em menos de uma semana. Tem custo, logística, a parte física e a parte mental também. As viagens longas não são algo que todo mundo faz com bom humor, né?

Exibição no fim do ano atrapalha muito fisicamente? Os diretores de torneio reclamam que fizeram um calendário mais enxuto porque os tenistas queriam mais férias. Só que eles pegam as férias e vão jogar IPTL ou exibição em algum lugar qualquer. E aí os diretores ficam putos porque é dinheiro que circula fora do circuito. Mas e fisicamente?

Ah, eu, particularmente, não gosto muito da ideia. Entretanto, você às vezes tem que respeitar as decisões da equipe toda. Você tem a expectativa de várias pessoas dentro de uma equipe. Você tem, primeiro, o trabalho do agente, que vai tentar explorar a imagem do atleta dele e captar recursos financeiros em troca disso. Muitas vezes, nos torneios, por os atletas estarem muito envolvidos com a competição, não se tem muita chance de fazer isso. Nas exibições, você tem uma oportunidade melhor. Junto com isso, o appearance fee [cachê], em geral é altíssimo, então chama atenção do atleta. Para nós, preparadores, claro que preferiríamos que o atleta investisse esse tempo em repouso ou treinamento. O que tem sido feito agora é que os atletas fazem uma pausa anterior ou você tem mais transições durante o ano para já incluir no calendário as exibições.

Entendi.

Se você pergunta “o atleta gosta de jogar?”, ele gosta de jogar. A verdade é essa. Eu ia ficar surpreso se o cara chegasse e dissesse “eu adoro fazer agachamento, ficar dando sprint”. Mas eles estão entendendo também a necessidade de se preparar melhor para o ano, então já não jogam todas as vezes. A liga asiática [IPTL], a maioria do pessoal que está indo acaba não jogando tantos torneios antes de Melbourne ou tiram fevereiro para treinar. Eles estão adaptando o calendário. Quem não fica feliz é o pessoal da ATP e da WTA? Quem está se favorecendo são os empresários das exibições.

Mas causa muito desgaste para quem joga?

O risco de lesão é iminente a temporada toda. Não seria a exibição que aumentaria sozinha esse risco. A minha maior questão é como é tratada a temporada como um todo. Se você me fala “o cara não jogou o ATP Finals no fim do ano” e teve uma pausa de duas, três semanas, aí treinou uma semana e meia, duas, foi para exibição e volta para dar continuidade em mais duas, três semanas de preparação… Na verdade, é um bom plano. Não é um plano que vai por tanto em risco em risco a integridade dele. Ou o cara joga o ATP Finals, tira duas semanas de descanso, vai jogar a liga ainda no ritmo que ele teve do ano. Passa a liga, tira três semanas de preparação, joga Melbourne e aí descansa mais umas duas semanas, se prepara em fevereiro e vai jogar Indian Wells… Não é um mau plano. É só um plano que talvez a gente não esteja tão acostumado. A gente estava mais vinculado àquele “termina em novembro, descansa umas semanas em dezembro, prepara e joga no começo do ano.”

Tudo é questão de planejamento, então…

Exato. Pra mim, é complicado se a exibição chega sem muito aviso prévio e você está sobrecarregando o atleta. Aí, sim, eu acho que põe em risco. Eu peguei ela [Bouchard] já no começo da pré-temporada, mas já se tinha em mente que existia a possibilidade dela jogar a Ásia [IPTL], então já havia um plano para aquilo. Ela já sabia, sei lá, desde julho/agosto. Não é algo que foi forçado no calendário dela. Já estava planejado.

Falando mais especificamente sobre a Genie, então… Vocês começaram a trabalhar quando?

Nós começamos a pré-temporada na segunda semana de dezembro de 2016. Em 2015, eu a ajudei por uma semana, enquanto ela estava numa transição de preparadores físicos, e ela foi treinar na IMG. treinamos ela por uma semana, mas ela deu sequência com a equipe dela. Aí agora a gente começou oficialmente na pré-temporada.

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E esta parceria de agora veio por causa daquele trabalho de 2015?

É. O Thomas Högstedt, treinador dela… A gente se conhecia da IMG, ele tem duas afilhadas que jogam juniores e elas treinam na IMG. Eu as treinava, aí a gente começou a conversar, estabelecer uma relação, etc., e quando ele treinou a Genie em dezembro de 2015 até março de 2016, sempre falou no interesse de trabalhar junto comigo. Quando eu disse para ele que não tinha mais interesse de continuar no Strykers [Fort Lauderdale Strykers, time de futebol], ele ainda estava com a Madison Keys, que tinha seu próprio preparador físico. E quando ele fechou contrato com a Genie, ele lançou a ideia, ela foi positiva e surgiu a oportunidade.

Como foi a primeira conversa de vocês? Ela já tinha algo em mente sobre o que queria fisicamente?

Foi engraçado porque um pouco do que ela sentia eu, de vê-la jogando, já compartilhava a ideia. A gente só refinou essa ideia. Nossos três pontos principais são os seguintes: o primeiro – isso aí é um pouco regra geral – é deixar ela saudável o suficiente para não ter lesão na temporada. Ela teve em 2015 e 2016 umas pequenas lesões que incomodaram, que não deixaram ela jogar no top dela. O segundo é aumentar um pouco a massa muscular dela. Para não dizer que ela só quer ficar grande, não é bem isso. Ela se sente mais confortável jogando com o peso um pouco acima do que ela estava no começo da pré-temporada. Ela se sente mais forte e, na linha do treinamento físico, a gente sabe que a força é um grande componente da potência, que vai auxiliar os jogadores a não terem lesão, e às vezes, para desenvolver a força, existe um pequeno aumento de massa muscular. Nada grande, nada que vai transformar ela numa Serena Williams. As coisas não acontecem assim. Mas ela vai aumentar uns dois, três quilos de peso total corporal. Visualmente, vai haver uma diferença. Sei que muitas das pessoas do tênis dizem que ela vai ficar mais pesada, é mais massa para carregar. Também não é verdade. Os corredores de 100 metros, que são os mais velozes do mundo, são caras com boa estrutura física. Tudo isso é coordenado. Ganho de massa, tonificação… Não é que a gente está só aumentando o peso dela, mas é algo com o que ela se senta mais confortável jogando. E o terceiro ponto, que eu dialoguei mais com o Thomas e ela concordou, é que nós achamos que existem alguns pontos do footwork que ainda existem chance de melhora, e vai ser outro ponto que a gente vai atacar. Não é que não seja bom, mas a gente quer deixar em um nível ainda mais alto. Ela é uma menina rápida, então dá para explorar isso bastante.

Não sei se foi impressão minha, talvez pelo que ela vestiu em Sydney e Melbourne, mas eu já achei ela mais forte neste começo de ano. Pelo menos o bíceps foi algo que me chamou atenção. Isso já é resultado desse trabalho ou foi só impressão?

Já é. É até um ponto legal porque ela viu uma das fotos dela… Eu e o Thomas já falávamos para ela. “Sua perna já está mais forte”, mas ela dizia que olhava algumas fotos e não percebia. Aí ela viu a primeira foto do primeiro jogo no Australian Open e falou “caramba, não tinha essa impressão”. É mais ou menos o que o pessoal vai vendo. Não vai fugir muito daquilo. Uma coisa que nós percebemos é que em Sydney ela fez semifinal e perdeu um pouquinho de peso na semana. Aí a gente conseguiu recuperar. Em Melbourne, ela também perdeu um pouquinho de peso, então a gente só vai fazer um controle para que aquela imagem do primeiro jogo seja bem similar à do último jogo.

A bebida que ela toma durante os jogos foi desenvolvida também por você, não? Como foi esse processo? O que você pode contar sem revelar o segredo?

A maior preocupação que a gente tem nos EUA, principalmente, é que os atletas tendem a sofrer muito na umidade. Muitos chegando a ter cãibra de corpo inteiro ou síndrome de exaustão ao calor. A Genie nunca teve, mas como outras jogadoras, é uma condição que ela não joga tão confortável. Sendo um pouquinho científico para entender, uma das propriedades que uma bebida precisa é facilitar a entrada das substâncias que ela carrega na passagem pelo estômago, indo para o intestino. Isso depende de um conceito chamado osmolaridade, que é uma troca de pressão entre as moléculas de uma substância. Resumindo: a gente precisa de algo que empurre as coisas para dentro do estômago – ou que facilite isso. A bebida que foi desenvolvida aqui nos EUA, curiosamente, por um grupo de argentinos, tem a osmolaridade diferenciada. Isso ajuda a hidratação. Quando comparada com outras bebidas – que eu não vou citar o nome – ela tem um melhor resultado na hidratação geral. Então a gente adaptou uma outra bebida conhecida para hidratação de crianças, a gente adaptou para o nível de esporte. A gente testou com ela, testou com o [Vasek] Pospisil, e ele é uma pessoa que eu treinei bastante aqui e tinha o interesse de testar. Tivemos bons resultados. Eu levei isso para o futebol, tivemos bons resultados no Strykers. E aí ela [Genie] se interessou em tomar. É uma bebida que, sozinha, não vai fazer todo o segredo. A gente mistura com outras coisas. No caso dela, que é uma atleta patrocinada pela Coca-Cola, a gente mistura com Powerade, então fica tudo organizado.

Quando você fala de hidratação, não consigo não pensar no Thomaz [Bellucci], que é um cara que tem muito problema quando joga em lugar úmido. Já havia essa situação quando vocês trabalharam juntos?

Não. Infelizmente, até a linha de estudo que estava sendo conduzida, o Thomaz seguiu por um tempo e foi muito bom, era uma linha voltada para déficit vitamínico e etc. O grande mérito aí é do Dr. Ronaldo Abud, que ajudou. Por um tempo, surtiu grande efeito. Depois, eu já não estava com ele na equipe, não sei que aconteceu depois, mas uma vez a gente bateu um papo e ele disse “as vitaminas já não são suficientes”, mas eu também não tinha nem muito conceito sobre isso.

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Voltando à Genie, o Daniel [Costa e Silva, assessor de imprensa de Cassiano], me contou que ela paga excesso de bagagem para você levar uma mala com seus equipamentos. O que tem de especial nessa mala?

Tem tudo, cara. Primeiro, tem o convencional, que todo jogador de tênis leva ou deveria levar. Corda para pular, borracha elástica para fazer exercício, uma medicine ball leve para usar no aquecimento, uma escadinha… Aí eu levo algumas particularidades. A gente tem umas luzes chamadas fit light, que trabalham reação visual e coordenação óculo manual. Numa característica mais próxima do tênis, eu consigo controlar o tempo, então viajo com isso. A gente tem outros dois sistemas. Um que numa peça sozinha eu consigo fazer vários movimentos feitos numa academia, com maior fundamento para o tênis, para trabalhar aceleração e desaceleração. E, por fim, eu tenho um aparato biomecânico para avaliar se os movimentos dela estão corretos. Fica uma mala extra porque se eu fosse misturar na minha, não ia nem caber, e ela tem muito interesse, então falou “não tem problema, vamos levai isso aonde nós formos.”

Por estar no meio dessa elite, você vê que gente como Federer e Djokovic faz algo especial em preparação física ou só o fato de terem mais dinheiro já ajuda o bastante, com a possibilidade de preparadores físicos e equipes maiores?

Tem vários pontos. O primeiro que você levantou é muito bom. O fato de ter condição de investir num time faz uma diferença tremenda. Por exemplo, não é todo mundo que tem a conveniência de pagar cem ou duzentos dólares numa mala para viajar o mundo inteiro. “Mas só 100, 200?” Quando você multiplica por todas semanas, vira um número grande. É um exemplo chulo, mas é verdade. Então, sim, essa turma tem condição de se preparar melhor já pela logística. Segundo e que eu vejo como característica tremenda que vejo neles, é o nível de profissionalismo e seriedade que eles têm com as coisas. Não que outros não tenham, mas o deles é acima da média. O cara entende o benefício que as coisas vão trazer para ele, e ele vai fazer no seu máximo. Vejo muitos atletas que reclamam “ah, mas não consigo”, “ah, mas o dinheiro” e quando você vê a aplicação da pessoas em todos os aspectos, falhou aqui, falhou ali e justifica. Outra coisa: eles têm uma energia mental muito boa. Alguns deles trabalhando meditação, mental coaching ou algo natural como o Nadal. Mas uma característica similar a todos eles é uma estabilidade e uma força mental, uma capacidade de reagir. Para mim, sendo sincero, em nível técnico tenho a impressão de que Federer e Djokovic desenvolvem um pouco mais do que a maioria, mas a força mental e, depois, a força física é onde vejo que as coisas fazem uma diferença tremenda.

Verdade.

Eu tive a oportunidade de ver o Federer aquecendo para o segundo jogo dele em Melbourne, e você vê que o cara está bem relaxado, conversando com o pessoal, vendo os outros jogos e tranquilo. Aí o técnico fala “vamos lá, vamos aquecer”, e o cara “bum”, se fecha no momento dele, com muita confiança, muita concentração. Acho que nisso a grande maioria ainda está longe. A força mental desses caras é de outro mundo.

Eu acabei esquecendo de perguntar lá no começo, mas você saiu do futebol para o mundo do tênis em 2006, a convite do Raí. E como foi essa transição? Qual foi a maior dificuldade?

Eu tive muita sorte de ter o [Flávio] Saretta como primeiro atleta por vários motivos. Um dele foi ele ser um cara que estava num nível altíssimo e teve a paciência de me ensinar o esporte corretamente. Eu não tinha jogado tênis. Eu não tinha noção de grip, tensão de corda, nada. E são coisas que, no futuro, você vê quanta diferença faz. Mas eu fui ler muito a respeito, perguntei para muita gente, mas quem me ensinou muito foi o Saretta. Ele via que eu fazia uma coisa errada, aí ele vinha e dizia “presta atenção nisso daqui, você tem que saber isso daqui. Eu sei que no futebol é assim, mas no tênis é daquele jeito.” Depois, quando o Jaime Oncins integrou a equipe dele, foi outra pessoa a quem eu devo muito. Esses dois caras foram muito pacientes em me ajudar na transição. Só para você ter uma ideia, o primeiro jogo do Saretta que eu fui ver foi o Aberto de São Paulo. O árbitro chamou uma bola ruim, e eu reagi que nem futebol. Ele e o Jamie me olharam e falaram “calma, calma, o ambiente aqui é diferente.” (risos) Mas é um esporte bárbaro, hoje é minha verdadeira paixão, gosto mais do que de futebol – espero que meus amigos do futebol não leiam isso (risos). É incrível porque reune muitas ações de coordenação, muita agilidade, muito timing, poder de concentração. Você tem que estar atento à forma que o cara joga, a forma que ele segura a raquete… A mínima mudança no serviço pode trazer um monte para o corpo dele, então você tem que estar no topo disso e reagir junto com o atleta. Mas foi um período engraçado (risos). O primeiro mês foi um desastroso feliz. Acho que errei muita coisa, mas o Saretta relevou e mostrou o caminho. Foi um período engraçado. Outro dia, estava lendo uma planilha de treino de 2006 e falei “caramba, que loucura!” Como, graças a deus, eu evoluí.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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