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Saque e Voleio

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Andy Murray: a mais longa escalada e um digníssimo número 1

Alexandre Cossenza

06/11/2016 15h39

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Rankings e títulos são absolutos. O primeiro do ranking é o melhor de um período específico. No caso do tênis, 52 semanas. O campeão foi o melhor daquele evento. O único que não perdeu. Talvez até por isso a gente goste dos clichês dos melhores que não foram.

O melhor a não vencer um Slam, rótulo frequentemente associado a David Nalbandian e uma meia dúzia de outros nomes. O melhor a não ser número 1 do mundo. O melhor a não vencer Wimbledon. O melhor a não ganhar Cincinnati. O melhor a não derrotar um canhoto francês que usa óculos. O melhor que nunca faz alguma coisa. Qualquer coisa. Mesmo.

Andy Murray deve ter sido tudo isso junto em algum momento. Era o melhor dos sem-Slam até 2012. Era o melhor sem Wimbledon até 2013. O melhor a não ser número 1 desde 2011. Há quem diga que o escocês era o melhor tenista da história a não alcançar o topo. Certamente, foi o mais completo não-número 1 que eu vi jogar. Foi. Pretérito perfeito. Tudo isso, todos os rótulos e clichês, entrará para um passado distante e descartável nesta segunda-feira, quando Andy Murray será oficializado como novo número 1 do mundo.

O enorme feito coroa o momento fantástico do britânico, que encerrou 2015 conquistando a Copa Davis (na hercúlea campanha, jogando todas partidas e suportando com ombros largos uma nação sem um segundo simplista confiável) e continuou em 2016 com três finais de Slam, um título de Wimbledon, uma medalha de ouro olímpica, três conquistas em Masters 1.000, uma sequência de 22 vitórias e outra de 19 (por enquanto).

A ascensão de Murray interrompe outra série incrível: Djokovic, em seu terceiro reinado, permaneceu no topo por 122 semanas e chegou a ter oito mil pontos de vantagem sobre o segundo colocado. São quatro Slams de diferença. O sérvio dominou rivais desde 2014 e colocou 2015 no debate das temporadas mais espetaculares da história do tênis.

Esgotamento de um, ascensão de outro

Em 2016, Nole finalmente alcançou a meta em Roland Garros. Depois disso, o que se viu foram sinais seguidos de esgotamento. Falta de motivação, irritação e derrotas que não aconteceriam em outro momento. Sintomas normais em alguém que manteve tanta concentração e dedicação por tanto tempo.

Murray estava lá para dar o bote. Quando viu a chance e a matemática se mostrou favorável, conquistou Viena e chegou a Paris com a linha de chegada à vista. Quase tropeçou na saída, mas se recompôs e contou com uma forcinha de Marin Cilic, que despachou Djokovic. Faltavam ao escocês duas vitórias.

A primeira veio contra Berdych, que ainda brigava por uma vaga no ATP Finals. Mas quem precisa tanto vencer não pode jogar fora um 6/1 de frente num tie-break. O tcheco fez isso, e Murray avançou. Restava ainda um triunfo contra Milos Raonic, mas o rival dominado na final de Wimbledon nem entrou em quadra. Sofreu uma lesão no quadríceps e abandonou.

A ausência de Raonic impediu, obviamente, a empolgação de Murray se tornar número 1 com uma vitória dentro de quadra. Mas que ninguém se engane: não tirou nem um pinguinho de mérito. O escocês chega ao topo porque foi o melhor do planeta nas últimas 52 semanas. Não há o que discutir. E o título, que veio em cima de John Isner, "apenas" fechou a semana perfeita.

O último do Big Four

Murray é apenas o quarto tenista diferente a chegar ao topo nos últimos 13 anos. Entre os quatro (grupo apelidado de Big Four quase uma década atrás), o escocês foi quem mais demorou entre chegar ao segundo lugar do ranking e dar o salto para a liderança. Curiosamente, ele esteve muito mais perto de Federer em 2009, quando o suíço era número 1 com menos de dois mil pontos de vantagem, do que de Djokovic, em outubro do ano passado, quando Murray tomou de vez a vice-liderança. Naquele momento, estava mais de sete mil pontos atrás do sérvio.

Por que essa demora toda para chegar ao topo? Consigo pensar em três motivos óbvios: 1. Djokovic. 2. Nadal. 3. Federer. Na quase sempre injusta comparação entre tenistas de gerações diferentes, é fácil analisar o tênis de Andy Murray e ver que o britânico é mais completo do que boa parte da lista (vide tweet abaixo) de nomes que lideraram o ranking desde o ano 2000. Mas todo esporte tem atletas memoráveis que carregaram o fardo de nascer em gerações de gênios. A maioria, no entanto, esbarra em só um desses privilegiados. Murray precisou encarar três. Somou vitórias aqui e ali (várias), mas nunca o suficiente para dar o salto ao topo. Agora, em 2016, chegou a hora.

Obstáculos e inspiração

Não dá para não considerar aqui o fato de que Murray foi quem mais teve de ultrapassar barreiras para chegar ao topo. Desde a infância e o Massacre de Dunblane, quando ele e Jamie nem pensavam e se tornar tenistas do calibre atual, incluindo o enorme peso de se tornar o principal nome britânico e esperança de uma nação sedenta pelo fim do jejum de mais de 70 anos em Wimbledon, enfrentando também as menções preconceituosas sobre o britânico-que-vence e o escocês-que-perde vindo de uma imprensa que mal respeita sua privacidade, e ainda tendo de entrar em quadra contra monstros do nível de Federer, Nadal e Djokovic. Não bastasse tudo isso, passou por uma delicada cirurgia nas costas quando vivia o melhor momento de seu tênis e viu Ivan Lendl, técnico com quem conquistou o primeiro Slam, pedir demissão para passar mais tempo em casa.

Murray lidou com tudo isso sem mudar seu jeito de ser. Jamais forçou sorrisos para câmeras, nunca tentou ser quem não é. Aceitou que nunca teria o carisma de um Federer e viveu em paz com isso, construindo uma carreira brilhante (já são três Slams, dois ouros olímpicos em simples e 43 títulos) e tomando as decisões que acreditava serem as melhores em determinados momentos. Aos poucos, foi alcançando seus objetivos. Um ouro, um Slam, uma Davis, e o sonho de ser número 1 nunca deixou de existir. Ele agora é real. Andy Murray alcançou o topo e nos deixou ainda mais uma lição.

If….

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No Instagram, o escocês postou o poema "If", de Rudyard Kipling, o mesmo que tem versos em uma parede do All England Club, em Wimbledon. O texto fala de lidar com adversidades, de tratar vitórias e derrotas de forma semelhante, de manter os valores em qualquer situação, de amadurecer. A escolha não poderia ter sido melhor. Murray é enorme com forehands e backhands, mas um gigante nas entrevistas, nos gestos e nos valores que escolheu para tocar uma carreira e uma vida. O tênis masculino continua muito bem de número 1.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.