Saque e Voleio

Sussurrando sobre as duplas

Alexandre Cossenza

15/03/2014 06h30

Peya_Soares_IW_sf_afp_blog

Bruno Soares e Alexander Peya, dupla número 2 do mundo, derrotaram Roger Federer e Stanislas Wawrinka por 6/4 e 6/1. A partida desta sexta-feira valeu pelas semifinais do Masters 1.000 de Indian Wells. Convém, no entanto, falar baixinho sobre o jogo. Sussurrar mesmo. Afinal, ninguém viu o jogo. Não houve transmissão, apesar de envolver um ex-número 1 do mundo e o atual campeão (de simples) do Australian Open. Assim sendo, não espalhemos a notícia. Aparentemente, parece que o tênis não está muito interessado em divulgar a existência das duplas.

Quando digo “o tênis”, falo da ATP, que é quem manda no circuito masculino (e a WTA não é nada diferente, mas não é o caso aqui). A associação que mudou o regulamento para encurtar partidas (vide o no-ad e o match tie-break) e faz o possível para facilitar a entrada de simplistas nas chaves de duplas é a mesma que não faz um pingo de esforço para exibir partidas importantes (hoje era semifinal!) envolvendo nomes gigantes (Federer e Wawrinka!). Foi o que aconteceu, afinal, nesta sexta. E pouco faz diferença, analisando a situação em um panorama mais amplo, de quem foi a decisão de não mostrar o jogo. A grande falha é da ATP, que não exige – nem parece fazer força para – que isto aconteça.

Por definição, não sou contra a “invasão” dos simplistas em chaves de duplas. Quase nunca acontece, afinal. Mas sempre rola em Indian Wells, onde também entra aquela caixinha para alguns tenistas. É uma espécie de one-night stand dos simplistas com aquela nerd que usa óculos e roupas comportadas, mas soltou o cabelo, mostrou um decote e se produziu toda para aquela festinha que só acontece uma vez por ano.

O resultado é que alguns duplistas “de ofício” ficam fora da chave (os amiguinhos das nerds não são jogados para escanteio também?). Robert Farah e Juan Sebastian Cabal, campeões no ATP 500 do Rio, são os primeiros nomes que me vêm à mente. Mas se é para trocar Cabal e Farah (e mais alguns) por Federer, Wawrinka, Murray e Djokovic, acho bacana. É melhor para o público e, no fim das contas, dá mais exposição ao jogo de duplas, que sempre fica escondidinho na maior parte dos torneios (a Aliny discutiu isso mais a fundo – leiam aqui).

Peya_Soares_IW_sf_get2_blog

Antes que você comece a interpretar este texto como chororô (ou mimimi ou recalque, palavras que estão na moda no mundo internético) de um brasileiro que quer ver seus tenistas, digo logo que não é o caso. Sim, estou aproveitando o dia de um jogo envolvendo Bruno Soares, mas o ponto aqui é levantar a questão do que a ATP realmente pensa para o futuro do jogo de duplas. Ou melhor: a ATP sequer pensa em um futuro para o jogo de duplas? Se a entidade realmente se interessa minimamente em fazer a modalidade crescer, por que não criar mecanismos para garantir que a modalidade seja exibida ao menos via internet?

Por uma série de motivos – homogeneização de pisos e estilos de jogo são os principais, ao meu ver -, o tênis de hoje é comercializado com base em um punhado de nomes grandes: Nadal, Djokovic, Federer e, dependendo do lugar, Murray. Se um torneio tem um desses quatro nomes, vai ter casa cheia. Caso contrário, só com algum tenista da casa indo bem ou em uma cidade com público de tênis fiel (e não são tantos lugares assim).

As duplas ficam em segundo terceiro quarto quinto plano. Salvo raras exceções, os jogos ficam em quadras pequenas, em horários nada favoráveis e, não raramente, coincidindo com partidas badaladas de simples. O prêmio em dinheiro, então, é uma porcentagem ínfima. Em Indian Wells, o campeão de simples embolsa exatamente US$ 1 milhão. A dupla vencedora leva US$ 258 mil (US$ 129 mil para casa tenista, o equivalente a 12,9% do prêmio de simples). E sejamos sinceros: no cenário de hoje, o prize money dos duplistas é até proporcionalmente maior do que a atenção dada à modalidades – em comparação com as simples, claro.

A questão é que a ATP não parece estar fazendo muito para mudar o panorama. A exigência física do tênis atual afastou os melhores atletas do circuito de duplas, e a entidade parece viver um dilema eterno, sem saber o que fazer. Por enquanto, age como a diretoria da escola que prefere deixar o grupinho pouco popular se isolar do resto da classe. É difícil mudar a sociedade, não dá para comprar roupas de grife nem colocar os gordinhos de dieta, então é mais prático fechar os olhos e deixar aquela panelinha ali quieta, isolada. Ninguém está vendo mesmo…

Não, a ATP não vai acabar com o circuito de duplas. Criaria um exército de desempregados (incluindo aí árbitros de cadeira, juízes de linha e mais um punhado de gente) e seria um desastre de relações públicas. A impressão que fica, contudo, é que o no-ad e o match tie-break eram a última (e única) cartada da entidade. As mudanças não resolveram o problema, e agora ninguém sabe mais o que fazer. E enquanto a coisa não muda, a gente fala de duplas como se fôssemos uma sociedade secreta, um clubinho fechado com acesso exclusivo a alguma coisa. A diferença é que não temos acesso (quase) nenhum…

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Coisas que eu acho que acho:

– Vocês não vão ver muitos duplistas fazendo campanha pública por mais visibilidade. Embora a ATP esteja num beco sem saída aparente, não é culpa da entidade se o tênis caminhou para ser o que é hoje, com todos sendo fisicamente exigidos de forma inacreditável. Assim, os principais nomes ficam só nas simples, o que inevitavelmente tira a atenção das duplas.

– Além disso, duplistas não têm poder de barganha. Já imaginaram se ameaçarem um boicote só de duplas? É capaz de muito torneio por aí vai achar bom. É duro escrever isto, mas é verdade. Na cabeça de muita gente, a modalidade só existe para atrasar e dificultar a programação dos jogos de simples.

– Claro que ajudaria se a ATP tomasse medidas para que mais fãs tivessem acesso às duplas. Isso passaria obrigatoriamente por um número muito maior de partidas transmitidas, ainda que só na internet. Não acredito, porém, que seja uma solução nem a médio nem a longo prazo.

– Ajudaria também um regulamento que exigisse dos torneios alguma porcentagem de jogos de duplas em quadras centrais. Do jeito que estão escritas as regras hoje, cheias de exceções, os torneios não são obrigados a nada. Tudo passa pelos interesses do canal que compra os direitos de transmissão. E aí entra a discussão interminável sobre o ovo e a galinha.

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– Expandindo sobre o parágrafo anterior, conversei recentemente sobre as transmissões de duplas com um funcionário de um canal (não convém citar seu nome aqui) que detém direitos de alguns torneios. Sua resposta foi simples: “dupla não dá audiência.” Por isso, o canal quase não mostra a modalidade. Se mostrasse, apresentaria os duplistas ao público e, com o tempo, criaria uma audiência. O canal, entretanto, opta pela saída mais prática (preguiçosa).

Sem ir na toalha (para ler entre viradas de lado no match tie-break):

– Bruno Soares e Alexander Peya vão enfrentar Bob e Mike Bryan na final de Indian Wells. O jogo está marcado para começar não antes das 21h30min (de Brasília) e terá transmissão do TennisTV. Não há informação no site do SporTV.

– Se você quer pedir mais cobertura de duplas para a ATP, participe desse abaixo-assinado aqui.

– Para não deixar dúvidas (porque sempre alguém quer encontrar entrelinha onde não tem): não houve transmissão nenhuma da partida entre Peya/Soares e Federer/Wawrinka. Nem na internet nem na TV local, muito menos no Brasil. O máximo que alguns bravos puderam fazer foi acompanhar o jogo pela rádio do torneio.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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