Saque e Voleio

Cossenza Responde #2

Alexandre Cossenza

19/09/2017 11h21

Acabou a temporada de grand slams, acabou a Copa Davis para o Brasil, mas a gente sabe que o tênis não para, e os assuntos nunca acabam. Eis aqui, então, a segunda edição do Cossenza Responde, a nova versão do antigo “P&R”. Desta vez, falo sobre Live Hawk-Eye, o uso de replay no saibro, técnicos em quadra, massificação de uma modalidade nada popular, os primeiros meses da gestão Westrupp e outros assuntos.

Quem quiser participar do próximo Cossenza Responde, só precisa enviar um tweet com a hashtag #CossenzaResponde. Eu vou juntando os assuntos mais interessantes e publico quando houver um número razoável de temas.

Tarcisio e Rogério, é difícil falar sem ver o funcionamento. Eu sou um tradicionalista e, de forma geral, não gosto de mudanças nas regras do tênis. Este caso é um pouco diferente. Não é mudança de regra, é só um avanço de tecnologia. Quero ver na prática. De cara, eu consigo pensar em um risco grande: quando der pau ou parar de funcionar, vai suspender a partida? Porque não faz sentido contratar juiz de linha apenas por precaução. Fora isso, vejo com bons olhos todo avanço no sentido de minimizar erros.

O outro lado da moeda é o atual contingente de juízes de linha. Essa turma toda vai ficar desempregada automaticamente se um sistema assim for adotado em todos torneios grandes? Vale lembrar que torneios juvenis e Futures não usam juízes de linha. Até Challengers podem ter equipe de arbitragem reduzida. Ou seja, juízes de linha basicamente trabalham em torneios de nível ATP/WTA para cima. Não há torneios pequenos suficientes para dar emprego a essa gente toda.

Não se menos atentos. Certamente, menos atuantes. O número de overules hoje em dia é bem menor comparado ao pré-Hawk-Eye. Parece que a postura-padrão hoje em dia é só corrigir os erros muito graves. Nas bolas mais próximas, o tenista que use o desafio.

Quanto ao saibro, sou contra. Criaria ainda mais confusão. Segundo o vice-presidente de regras e competições da ATP, Gayle Bradshaw, a marca da bola no saibro varia de acordo com as condições do dia. Segundo ele explica nesta reportagem do New York Times, quando a quadra tem mais pó, por exemplo, a a bola deixa uma marca maior do que seu contato real com o solo. Por outro lado, quando há pouco pó, a marca da bola é menor do que seu contato com o solo. Imagine o Hawk-Eye mostrando no telão uma marca diferente da real, que está lá na quadra, para o jogador ver. Não seria um caos?

Além disso, existe a margem de erro do Hawk-Eye e outro fator que pouca gente sabe: no mesmo texto do New York Times, o diretor de tênis da Hawk-Eye, Peter Irwin, explica que o sistema é calibrado medindo a quadra e as ondulações do solo. Como o chão está mudando sempre numa quadra de saibro (mais pó/menos pó), o Hawk-Eye precisaria ser calibrado e recalibrado constantemente ao longo de um dia de jogos. Levaria meia hora após cada jogo, sem contar que em partidas longas o sistema não estaria 100% calibrado durante o jogo inteiro. Agora pensemos bem: quem vai se arriscar a colocar isso tudo junto num liquidificador pra ver o que acontece?

Eu já escrevi sobre isso algumas vezes aqui no blog. Para não ser tão repetitivo, aqui vai uma versão resumida: sou muito contra. Acho que permitir tempos técnicos vai de encontro a uma das grandes essências do tênis, que é deixar que o atleta desenvolva a capacidade de resolver seus problemas sozinhos. Não ter uma babá para ler o jogo e dizer o que é preciso fazer é parte integral do que separa os grandes de ótimos tenistas.

De forma geral, técnicos (é claro) são a favor da regra. Um caso de exceção é Paul Annacone, ex-treinador de Pete Sampras. Em reportagem recente publicada no New York Times, Annacone indaga se “vale a pena excluir algo que devemos celebrar no tênis: Pete, Roger, Rafa ou Serena entendendo [o que acontece em quadra]? Encontrar uma solução com seis milhões de pessoas vendo você jogar na Quadra Central de Wimbledon. Para mim, é uma parte enorme do que faz um dos grandes da história. Como lidar com esse momento de estresse por conta própria? É um formador de caráter, mas mais importante ainda, um grande revelador de caráter.”

Não sei se isso pode acontecer. Eu, certamente, nunca vi nada parecido no mundo. Não me lembro de ter visto uma federação ou confederação “massificar” esporte, e isso não acontece por questões que começam com a cultura de uma nação. Você simplesmente não consegue em cinco ou, sei lá, 10 anos fazer um país se apaixonar por tênis dessa maneira. O Brasil se envolveu emocionalmente com Guga, mas foi o que hoje se chama de “modinha”. No fim da década de 2010, o movimento nos clubes já havia diminuído. Não seria uma geração boa de tenistas que manteria isso vivo.

Dito isto, é sempre possível fazer mais do que é feito no Brasil, seja com federações estaduais estimulando a prática do esporte localmente, realizando torneios e capacitando professores em clubes e academias. A CBT, hoje, se orgulha um bocado de seu trabalho de capacitação, mas ele é terceirizado (o dinheiro de inscrições entra direto na conta de Cesar Kist e não passa pela CBT) e tem um custo alto para os professores interessados. Por que a entidade, mesmo quando teve muito dinheiro entrando, nunca subsidiou esses cursos? Afinal, se é pra pensar grande, a capacitação de cada um desses professores e treinadores faz bem ao esporte no país, certo? E uma entidade nacional não pode fazer isso para lucrar.

Rodrigo, eu discordo de você, viu? Não acho que seja indiferença. Acho que pelo menos aqui no Brasil a cobertura é proporcional ao interesse do público, que por sua vez é proporcional ao tamanho do evento. Um Challenger é como se fosse uma segunda divisão do tênis, considerando que ATPs e Slams sejam o escalão principal. E se você pensar bem, quantos veículos no Brasil (ou no mundo) cobrem divisões menores de vôlei, basquete, judô, vela, hipismo, etc.?

Eu já estive em vários Challengers, mas nunca bancado pelas empresas em que trabalhei. Sempre fui com a hospedagem paga pelos promotores. A Try e a Koch Tavares costumavam convidar veículos importantes da imprensa, pagando hospedagem e, em alguns casos, passagem aérea. Era uma maneira de garantir que o evento deles teria alguma cobertura nacional.

Mas era outra época, né? Havia mais Challengers, havia mais tenistas de nome jogando no país e havia mais dinheiro. Hoje, quase ninguém da imprensa é convidado a cobrir esse tipo de evento. E que veículo grande, no meio de uma crise gigante da imprensa no país, vai destacar um repórter durante uma semana inteira, para acompanhar um evento sobre o qual há pouco interesse do público? Eu mesmo adoraria ir a todos os Challengers do país. São eventos menores, com atletas (em tese) mais acessíveis, e dá para conseguir histórias interessantes. Mas não posso me dar o luxo de tirar do meu bolso para fazer isso.

Sabe tudo que rolou na Copa Davis, João? Aquilo foi um microcosmo da gestão Westrupp. O atual presidente da CBT, colocado na entidade pelo antigo presidente Jorge Lacerda (um cidadão que enriqueceu em 10 anos na presidência e foi morar em Paris), adota o “finge que não aconteceu” para muita coisa. Westrupp se aproxima de ex-tenistas como Koch e Meligeni “esquecendo” que ele mesmo foi contra premiar ambos com o Commitment Award da ITF três anos atrás; ele apaga tweets ofensivos sem dar satisfação; ele adota presidentes de federação na equipe da Copa Davis sem ver problema moral nenhum; ele “esquece” que a CBT sempre quis ter sua sede Centro Olímpico de Tênis em nome de continuar trabalhando em sua Florianópolis… Enfim, a lista é longa. A impressão que tenho é que Westrupp age como dirigente de clube amador e não-remunerado. Na CBT, ele ganha mais de R$ 20 mil por mês (segundo informação da Folha) para ser um gestor profissional de uma entidade nacional. Precisa começar a agir como tal.

Moisés, minhas respostas são não e não, infelizmente. Basta olhar para o ranking. No top 500 (quinhentos), o Brasil tem cinco atletas com menos de 25 anos. O nome que era visto como maior promessa, Orlando Luz, vive uma temporada difícil, recheada de lesões, e acaba de deixar o centro de treinamento onde trabalhou nos últimos anos. Não é exagero afirmar que sua evolução não acontece como o esperado. Três anos atrás, em 2014, ele fez semifinal no torneio juvenil de Roland Garros contra o russo Andrey Rublev. Hoje, o gaúcho é o número 574 do mundo. Rublev, que tem os mesmos 19 anos do brasileiro, é o #37 do mundo e fez quartas de final do US Open. É claro que o russo é uma exceção e não é a comparação mais justa, mas o que justifica essa diferença tão grande na transição? Eu não sei a resposta para isso, mas talvez ela começa com o velho e acomodado bordão “cada tenista amadurece no seu próprio tempo”, que mais parece um mantra para técnicos manterem seus empregos enquanto os resultados não vêm. Fora isso, ainda sobre o tênis brasileiro, minha única grande esperança é Bia Haddad no momento.

Não, Eldon, ninguém é obrigado a guardar a outra bolinha. O tenista pode pegar uma para o saque e pedir outra do boleiro caso erre o primeiro serviço. Não é tão comum no circuito masculino, mas Thomaz Bellucci é um dos que fazem isso.

Não acho, Elder. Até porque eventualmente criaria uma distorção no ranking. Imagine que Rafael Nadal ganhou Roland Garros cinco vezes seguidas. Quanto de bônus ele ganharia pelo quinto troféu? Essa pontuação inflada permitiria que um atleta chegasse a um ranking muito mais alto do que atletas que ganhassem o mesmo número de pontos “limpos” (aqueles sem bônus). Existiria um risco de perpetuar os tops lá no alto.

O Adovaldo se referia à chave de Washington nessa pergunta. Nesse caso, a dupla cabeça 1 é a que jogou menos torneios da modalidade. Se persistir o empate, a prioridade será do time que tiver mais pontos no ranking. Se você quiser conferir, a informação está na página 103 do livro de regras da ATP.

Thiago, eu gosto dos que falam mais. Hoje, eu escolheria Andy Murray. Ele não dá as entrevistas mais polêmicas do mundo, mas é um cara sincero e sempre fala o que pensa. Sempre que lhe abordam de maneira inteligente, ele sai com respostas bem diferentes daquelas higienizadas por sessões de media training.

Também na ATP, Nick Kyrgios daria uma bom papo. Acho que ele já falou bastante e sobre muitos assuntos, mas é um cara que pode ser abordado por X maneiras diferentes e sempre vai dar sua opinião de maneira sincera. Assim como Murray, é um cara que rende quando abordado de uma maneira diferente.

Na WTA, eu gostaria muito de entrevistar Karolina Pliskova e Agnieszka Radwanska, por motivos diferentes. Pliskova é vista como uma tenista sem carisma, mas adoro como ela faz análises táticas e autocríticas complexas logo depois de partidas. Adoraria tirar meia hora com ela para conversar só sobre tênis, mecânica, estratégias e planos de jogo. Aga também tem muita capacidade para falar sobre tênis (muito mais do que a maioria da WTA), mas e dona de um senso de humor interessante. Acho que eu conseguiria boas coisas se eu conseguisse “conquistá-la” (chegar com um assunto que ela esteja bem disposta a abordar) na entrevista.

Olha, Fernando, a gente não é famoso assim pra meet and greet, né? Por favor! Se tem uma coisa que nós três do podcast temos em comum, é que ninguém é deslumbrado ou fica exagerando no currículo pra parecer ser maior do que é. Além disso, tem o problema logístico de eu não morar em São Paulo, caso contrário a gente marcaria um barzinho e quem quisesse aparecer pra bater papo poderia.

De qualquer maneira, nós três estamos juntos sempre durante o Rio Open e quase sempre no Brasil Open (este ano eu não fui porque estava de mudança). Quem quiser bater um papo é só avisar que a gente dá um jeito de encontrar. Sem frescura.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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