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Saque e Voleio

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Feijão: um passo atrás para voltar a vencer e acreditar em dias melhores

Alexandre Cossenza

18/11/2018 15h48

A ideia inicial era encerrar 2018 jogando a sequência de torneios da série Challenger – eventos com premiação de US$ 50 mil dólares espalhados pelo continente. João Souza tentou a sorte nos dois primeiros – Campinas e Santo Domingo (República Dominicana) – e não foi tão bem. No primeiro, passou pelo quali e caiu na primeira rodada da chave principal. No segundo, foi eliminado ainda no torneio classificatório. Perdeu dinheiro e não somou um pontinho sequer.

A solução para Feijão, ex-número 1 do Brasil que já ocupou o 69º posto no ranking mundial, foi dar um passo atrás. Com 30 anos e ocupando o 412º lugar na lista da ATP, optou por torneios da série Future, um escalão abaixo, com premiação de US$ 15 mil e todos no Brasil: Mogi das Cruzes, Curitiba, São Carlos, São Paulo e Ribeirão Preto. Era preciso ganhar ritmo de jogo, confiança e, principalmente, pontos e dinheiro. Deu certo.

Depois das quartas de final em Mogi e Curitiba, o paulista engrenou. Foi campeão em São Carlos, São Paulo e, neste domingo, conquistou também o título de Ribeirão Preto, onde estreou enfrentando problemas intestinais e até vomitou em quadra, e terminou superando Christian Lindell em uma decisão bem jogada e conturbada por um par de marcações contestáveis – em uma delas, Lindell chegou a pegar seu celular e fotografar a marca (veja em um dos vídeos abaixo). No final, o placar mostrou por 4/6, 6/4, 3/0 e abandono. Lindell, sueco nascido no Rio de Janeiro, sentiu dores nas costas e desistiu da partida.

Feijão agora soma 15 vitórias seguidas, a maior sequência de triunfos da carreira. Com isso, encerra a temporada em alta e com a esperança de voltar a jogar em Roland Garros já em maio. Conversei com Feijão depois de algumas de suas vitórias ao longo da semana aqui em Ribeirão Preto, onde estou a convite do Instituto Sports. Ele falou da decisão e de como fez bem – até para o ego – dar um passinho para trás.

No fim das contas, o quão acertada foi a decisão de não seguir nos Challengers, dar um passo para trás e jogar Futures? Acho que foi algo que te deu confiança e ritmo, duas coisas que você precisava.

Você já me conhece, né, velho? Não tenho medo de jogar os torneios grandes, mas estando 410 [do mundo], jogando o quali em 4-5-6 torneios duros… Você vê os qualis aí, estão duríssimos. Fui para Santo Domingo, fiz dois jogos duríssimos. Fui para a última e perdi do [Martín] Cuevas, não ganhei dinheiro. Só perdi dinheiro. Não ganhei hotel, não ganhei comida, não fiz um real, não fiz um ponto. Estando 410… Foi uma decisão nova pra mim ter que jogar torneios menores, mas foi uma decisão bem pensada. Alguns torneios me deram uma boa ajuda e… Para o meu ego também. Para mim, como pessoa, me senti bem, me senti querido, me senti quem eu sou realmente. E decidi este ano, realmente, dar um passo para trás para, ano que vem, meu objetivo é estar em Roland Garros em maio.

Você falou em "ego", que era justamente a palavra que eu ia usar nesta pergunta. Porque quando você dá um passo para trás, isso é algo que mexe com seu ego também, né? Você precisa engolir. Você é um cara que foi top 100, jogou grand slam e, de repente, está jogando um Future, tendo que pegar bolinha entre os pontos. Como foi esse processo no começo?

Meio doido, na verdade. Na Europa, eu já joguei uns torneios este ano, uns três ou quatro Futures lá que não tinham pegador [de bola]. É um torneio bem diferente dos que eu estou acostumado, né? Não querendo me achar o bom, mas eu joguei a vida inteira pelo menos Challenger. E tendo que jogar uma gira assim, é estranho. Às vezes, me custa um pouco parar o jogo com o saque na rede, tendo que pegar a bola, tem uma bola molhada… É totalmente diferente. Me custou, mas eu sabia. A minha decisão foi bem pensada quanto a isso. Eu sabia que nesses torneios as condições iam ser totalmente diferentes, os jogadores iam entrar com mais vontade de ganhar de mim, a responsabilidade ia ser maior, os torneios iam pagar menos, dar menos pontos, mas eu sabia que se me encaixasse, como eu me encaixei na terceira semana, em São Carlos, as coisas começariam a fluir. Eu sei bem o caminho das pedras, eu sei como funciona isso. Esses cinco torneios do final do ano aqui no Brasil estão sendo muito importantes para mim, para o meu ego, para a minha pessoa, João. E, financeiramente, nem se fala. Não estou gastando um real, sabe? Estou ganhando dinheiro mesmo jogando Future. Estou conseguindo guardar um dinheiro, não estou gastando. Agora com bebê, filhão, tem que ter leite em casa.

Nessa sequência, qual foi o momento em que você sentiu "tô voltando"?

Ah, em São Carlos ali. No segundo jogo, contra o argentino [Fermin Tenti] ali, eu ganhei jogando muito bem dele. Fui para a quadra, treinei mais uns 40 minutos depois e foi quando eu comecei a sentir um feeling de quando você está ali e fala "nossa, estou sentindo a bola de novo." Estou me sentindo leve. Mas assim… Sentindo a bola, eu já venho há alguns meses. Faltava, acho, o clique mental, na verdade. O estar leve, mais lúcido vendo o jogo. Acho que foi ali que deu um cliquezinho a mais. Obviamente que depois eu comecei a ganhar, e a confiança vem vindo, mas ali foi um dos momentos. Bater bem na bola eu já venho há algum tempo. Mas ali [São Carlos] foi um plus. "Estou no caminho", entendeu? "Estou voltando."

É a maior sequência da sua carreira. Mesmo sendo em Futures, que não é o seu nível normal, imagino que signifique algo importante, não?

Nossa, cara… Significa muita coisa, né, Alê? Significa que meu ranking de transição está bom (risos), significa que pelo menos nos Challengers eu vou entrar. Não vou precisar jogar quali, esse era um dos meus objetivos. Significa que eu joguei bem, né? Alguns jogos eu joguei muito bem. Outros, nem tanto. Em alguns, eu competi muito bem. Obviamente, foi o que você falou: são torneios Futures, né? Esse não é o meu foco nem o meu objetivo, mas é o que eu tinha para este momento. Fechar o ano assim é bom, né, cara? São 15 jogos sem perder! Financeiramente, mentalmente, para o meu ranking também. Em 2019, começo de uma maneira que não estava nem esperando. Se não tivesse optado por jogar esses Futures, se tivesse optado pelos Challengers, de repente estaria na mesma, tendo que ter que começar 2019 jogando o tour de transição. Mas agora já cortei caminho. Joguei meio que com as regras embaixo do braço, vamos dizer assim. E estou muito feliz. Hoje foi uma superação. Estava muito difícil. Estava muito cansado. O jogo começou a ficar tenso, e ele estava melhor do que eu o jogo inteiro, teve muito mais chances, ele estava realmente jogando melhor. Semana passada, não foi assim [Feijão bateu Lindell também na final do Future de São Paulo]. Eu joguei o tempo inteiro em cima dele. Hoje, foi ao revés. Eu tirei um coelho da cartola. Saquei 3/4 e 0/30, para ele quebrar e sacar para o jogo. Então hoje foi um nível mental que é onde eu quero chegar. Só que aí, no terceiro set, já saí quebrando ele. Ele me entregou um game meio que do nada. Vi que ele também cansou. Foi meio que sorte, um presente pra mim, tipo "você está trabalhando, você merece também ganhar um jogo entregue assim." Tênis é assim mesmo. Cheguei no nível mental onde quero chegar. Agora falta melhorar tenisticamente para voltar lá para cima mesmo.

Qual é o próximo passo agora?

Na Austrália, obviamente, eu não entro. Tem um Challenger que começa 31 de dezembro, acho que em Cleveland. Provavelmente, eu jogue esse. Aí tem que ver no calendário novo, nessa regra nova [o circuito de transição da ITF] é meio que um tiro no escuro, ninguém sabe o que vai acontecer. Meu ranking ATP deve ficar 300, 300 e pouquinho, o que é bom para o que eu estava. É um bom salto. Agora é descansar uns 12 dias. Vou ver neve pela primeira vez na vida. Primeira vez que vou viajar sem raquete…

Vai para onde?

Para o Colorado. Inclusive o Christian [Lindell] vai com a mulher dele. A gente está indo terça-feira. Vou ver neve e minha mulher vai desmamar. A gente vai sem a filha. Já está há um ano e três meses aí só mamando, então vai ser uma viagem para a gente desmamar também. E descansar, né, cara?! Foi um ano bem atípico ou… Sei lá o que foi este ano. De muito aprendizado, de muita mudança, mas de muito amadurecimento. E fechar com chave de ouro assim, cara… O trabalho duro paga, não tem jeito! Quando você faz as coisas bem, mais cedo ou mais tarde, uma hora vai chegar. Acho que estou no caminho de novo, estou nos trilhos ali.

Numa das entrevistas aqui, você disse que o objetivo era Roland Garros. É isso mesmo, né?

É isso, com certeza. Vai saber se não encaixo um puta de um torneio grande não pinta uma chave [entrar direto na chave principal]? Mas, a princípio, é o quali, obviamente. De repente, jogo um ATP… Sei lá, velho. Você vai ganhando, a cabeça começa a acreditar mais, então por que não sonhar mais alto? Meu principal objetivo agora é esse. Tenho cinco meses aí para chegar lá.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.