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Saque e Voleio

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Ferrer deixa sua bandana no saibro: o fim da linda história de amor com Buenos Aires

Alexandre Cossenza

15/02/2019 09h28

Foi um gesto simples, feito já na saída de quadra, quando havia pouca gente olhando (e já eram poucas mesmo as pessoas na arquibancada no ATP de Buenos Aires, que tem público fraquíssimo até agora). Tão discreto que só podia mesmo vir de David Ferrer. Após perder para Albert Ramos e receber as homenagens em quadra, o espanhol foi até o "T" e deixou lá sua bandana. O gladiador dá adeus à armadura.

Mais do que qualquer outra coisa, foi um ato de carinho e respeito de Ferrer, que tem uma história linda em Buenos Aires. Foi campeão três vezes seguidas (2012, 2013 e 2014), derrotando gente de peso como Nalbandian (2x), Almagro (2x), Fognini (2x), Robredo e Wawrinka. Sua humildade e seu tênis operário conquistaram o público argentino – o que mais acompanha e entende do esporte no continente. Foi uma bela história de amor em Buenos Aires. Sorte nossa de poder acompanhá-la.

Além da recepção cheia de estrelas na terça-feira, Ferrer recebeu prêmios nesta quinta, depois de ser eliminado do torneio por Albert Ramos em um duelo apertado. O ex-top 5 teve dois match points no segundo set, mas não conseguiu fechar e perdeu por 3/6, 7/6(9) e 6/3. Restam agora os ATPs de Acapulco, Barcelona e Madrid para Ferrer nesta temporada de despedida.

Mas sim, sobre os prêmios: Ferrer recebeu em Buenos Aires um quadro com imagens de seus três títulos, uma réplica do troféu que levantou em 2012, 2013 e 2014, e ainda ganhou o Prêmio Charlie Gattiker, uma homenagem por seu esforço e desempenho dentro de quadra. Não é pouca coisa.

É claro que o torneio faria homenagens, não só porque foi especial ter David Ferrer mais uma vez em Buenos Aires, mas porque trata-se de um tricampeão do evento. Só que existem tributos e tributos. Ferru não viu mensagens num telão. Ganhou abraços de uma constelação de tenistas dentro de quadra, antes de jogar. Não recebeu aquele trofeuzinho protocolar de adeus, mas uma réplica do troféu de campeão e outros dois prêmios. Esse tipo de respeito não se conquista só ganhando jogos, sorrindo nas ações de publicidade do evento ou entupindo de selfies uma conta de Instagram.

Não, Ferrer não é midiático. Não é o cara que procura aparecer e mostrar que faz ou acontece. Ferrer apenas faz. Adquiriu a admiração e o respeito do circuito no dia a dia, com ética, trabalho, mais ética e mais trabalho. E vitórias, claro. Nunca foi diva, nunca exigiu luxos e mimos dos torneios, mesmo tendo ranking e status para isso. Todo mundo que viu, viveu e conviveu com o espanhol no circuito sabe disso. Por mais Ferrers e menos… menos… dos outros.

Coisas que eu acho que acho:

– Tirando o público pífio do torneio nas duas partidas de Ferrer, só vi gestos bacanas. O corredor de craques (com Sabatini!) que recebeu o espanhol na terça-feira foi espetacular. As frases de agradecimento de Ferrer também foram lindas. O pós-jogo desta quinta foi maravilhoso.

– Não dá para ressaltar o suficiente: que a carreira de Ferrer seja reconhecida assim por quem conhece tênis de verdade não é surpreendente, mas é sempre legal de ver. E que isso aconteça fora de seu país é ainda mais admirável. Nisso, os organizadores do ATP de Buenos Aires estão de parabéns.

– Sim, pode haver uma overdose de Ferrer nos próximos meses aqui no blog.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.