Saque e Voleio

O talentoso e descomplicado Rafael Matos

Alexandre Cossenza

22/11/2017 10h15

A devolução do adversário ainda nem tinha quicado, mas a reação de Rafael Matos já era de campeão. Raquete na mão direita, dois braços esticados para trás, corpo arqueado e um grito para o alto que ecoou na quadra coberta do Tênis Clube. O gaúcho de 21 anos, atual #623 do mundo, conquistava ali o título de Future de Santos.

O berro da conquista era como um desabafo da emoções que o jovem segurava até aquele momento. Emoções que, aliás, o gaúcho mostra pouco tanto dentro quanto fora de quadra, a não ser quando está à vontade numa rodinha com os amigos de longa data, Marcelo Zormann e Orlando Luz.

A última entrevista que fiz em Santos, onde estive a convite do Instituto Sports, foi justamente com o tímido, mas simpático e sorridente Rafael Matos, após a cerimônia de premiação. Coversamos muito sobre tênis e sua maneira simples de ver as coisas. Sem analisar além da conta, o gaúcho falou bastante sobre seu comportamento caladão dentro de quadra, lembrou dos momentos em que não treinou com a intensidade necessária e relatou a dura viagem que terminou com um título saindo do quali.

E se você nunca viu Matos jogando (ou falando), a conversa abaixo dá uma boa noção de quem é o gaúcho – que já foi considerado o mais talentoso brasileiro de sua geração – e de onde ele quer chegar. E tudo isso sem superanalisar ou complicar qualquer coisa além do necessário. Rolem a página e entendam.

Esse jeito caladão é timidez ou você é um cara do tipo “só falo quando tenho algo produtivo pra dizer”?

Não, não. É timidez mesmo. Acho que também por ser mais observador mesmo. É de personalidade. Quando crio intimidade com a pessoa, ao longo dos anos, fico mais à vontade.

Vi alguns jogos seus durante a semana e você reage muito pouco durante as partidas.

Sim.

Hoje mesmo (domingo, na final), acho que o primeiro grito veio já no terceiro set, na quadra coberta.

Teve outros momentos aqui fora (o jogo contra Wilson Leite começou na quadra central, outdoor), mas mais contidos.

Isso é pensado? Do tipo “não vou demonstrar nada pro adversário”?

Não, não. É de mim mesmo, de não me estressar muito e pensar no próximo ponto, corrigir o que fiz de errado e não extravasar muito. É minha característica.

E aí vem outra coisa que eu fiquei curioso, que é o seguinte: como é seu processo entre o momento que acaba um ponto e começa o outro? Pergunto porque você é muito difícil de “ler” de fora da quadra.

Acho que eu analiso assim: vejo o que fiz no ponto para taticamente já melhorar para o próximo. Estou quieto, mas estou sempre pensando bastante comigo mesmo.

E esse “ser quieto” te ajuda a ganhar jogo?

Ah, acho que não é a chave. É muito de cada um.

Você não acha que te ajuda o fato de o adversário não saber que você está nervoso, ansioso ou puto com alguma coisa?

Não sei. Deixa eu ver quando eu jogo contra alguém que é assim também… (pausa para pensar) É, pode ser que atrapalhe um pouco o cara. “O que essa cara tá pensando?” Pode ser, pode ser que atrapalhe os outros sim, mas não é nada pensado.

Quem você conhece que joga parecido?

O Zormann também é mais quietão.

Eu fiz essa sequência de perguntas porque acho que demonstrar muito alguma coisa sempre dá uma vantagem pro adversário. Usando um exemplo prático, no seu jogo contra o Christian Lindell (quartas de final), ele já estava puto no segundo set. Não sei o quanto você ouviu, mas…

Não escutei nada. Os caras me falaram depois do jogo.

Ele dizia “esse jogo está horroroso”, “pior jogo da minha vida”… Quando você ouve algo assim, não joga a seu favor?

Ah, acho que sim. Quando o cara está nervoso, eu procuro errar menos e estressar cada vez mais o cara para ele me “dar” o jogo.

Mudando um pouco de assunto… Nessa geração sua, durante um tempo você foi considerando o mais talentoso. Ali nos 14, 16 anos. Como era viver isso na época? Tinha muito mais atenção em você na época do que agora?

Atenção, assim, eu não sei dizer por esse lado, mas eu me destacava bastante pelo talento, sim, mas às vezes pequei pela falta de… de treino. De dar duro na quadra. É algo que está bem melhor nesses últimos anos.

Quando que você percebeu que deveria ter treinado mais?

Não digo treinar mais de “hoje não estou a fim de ir treinar”, mas de quando estou na quadra, muitas vezes eu não era intenso o suficiente. Eu não dava tudo que eu tinha. Mas não conscientemente. Eu estava errando e me afundava assim. Queria fazer melhor, mas não saía do buraco.

E quando que você decidiu “tenho que mudar isso”?

Ah, acho que vem vindo. Vem vindo. Com idade, experiência, maturidade. Acho que morar fora de casa me ajudou bastante também.

Você saiu de casa com quantos anos?

Com 19. Foi quando eu fui lá para Itajaí. Acho que me fez crescer um pouco. Fico de segunda a sexta lá, e no fim de semana vou para casa. Nem fico tanto sozinho assim. Só uso a cama pra dormir e a sala pra ver TV.

O Zormann me disse que você gosta muito de séries. Quais?

Gosto bastante. Suits, pra mim, é a melhor. Disparado.

Não comecei a ver ainda. Um amigo meu adora.

É, essa aí, pra mim, é a melhor de todas. Game of Thrones é sensacional. How To Get Away With Murder é boa pra caralho. Eu gosto muito de série. Quando eu tenho tempo livre eu vejo.

Agora me conta um pouquinho da sua viagem pra Europa…

A primeira?

Você fez duas viagens para lá, né? Eu estava falando da que você ganhou Vic (Matos foi campeão do Future de Vic, na Espanha). Que você jogou quali em todos torneios, não furou nenhum, e no primeiro que você passou, foi campeão.

É. Foram sete semanas. Eu estava em todas no quali e nas seis primeiras eu perdi todas na final do quali. Em dois torneios em entrei de lucky loser, mas já estava assim… qualquer coisa, e perdi. Na sexta semana, eu perdi, mas já fiz um baita jogo com um espanhol de 18 anos, que jogava bem (Andres Fernandez Canovas venceu por 6/4 no terceiro set). E ali já começou a mudar o filme. Treinei bem a semana e, na semana seguinte, a sétima, eu furei o quali. A final do quali foi 6/1 e 6/0, mas foi um jogo muito nervoso, acho que por eu não ter quebrado aquela barreira. Aí a primeira rodada eu joguei bem, a segunda rodada, com o Marc Giner, foi um jogo incrível. Com o Dani (Daniel Dutra Silva), nas quartas, joguei bem. Na final, um jogo muito nervoso, eu consegui ir me soltando, e o cara se lesionou e acabou se retirando (o argentino Pedro Cachin abandonou quando perdia o terceiro set por 1/0).

Vai acumulando quando você começa a bater na última do quali, na última do quali, na última do quali…

Ah, com certeza. Pesa muito a cabeça. Pesa muito. Tanto que eu te falei que ali na sétima semana, que eu estive para ganhar… Foi um jogo fácil, mas muito nervoso. Muito nervoso mesmo.

E como isso se reflete na quadra? É pressão em si mesmo? É impaciência com os erros?

Acho que, no meu lado, o corpo fica mais tenso, e o golpe prende. Principalmente o meu backhand. Começa a ficar encolhido e eu começo a ficar só me defendendo, só correndo. Sem controlar os pontos.

Este é o melhor ano da sua carreira. Você chegou aqui 623, que também é o melhor ranking da carreira, e ganhou o título. O que vem evoluindo no seu jogo?

Acho que com a semana de Vic eu ganhei bastante confiança para jogar. Isso me botou bem para cima. Eu vinha treinando bem depois da lesão que tive em 2015. Fiquei quase um ano remando ali para me recuperar e vinha treinando bem, treinando bem, mas não conseguia passar para a quadra. Eu não era agressivo. Eu ficava mais me defendendo, esperando um pouco mais. Agora, a agressividade está me dando mais resultado.

Que tipo de lesão foi?

Na lombar. Fiquei três meses sem jogar, só que mais uns seis, oito meses duvidando, não me sentindo bem na quadra.

Chegaram a pensar em operar?

O primeiro médico que eu fui, o cara queria marcar no mesmo dia para operar. Peraí, né? (risos) Eu fui mais em vários médicos e não… Recomendaram mais pilates, alongamentos, e foi o que me ajudou mesmo.

Oito meses é um período longo para quem está numa fase de desenvolvimento…

Sim. Foi quando eu terminei o juvenil. Eu tinha feito uma final de um US$ 15 mil na época, e aí no ano seguinte, jogando bem, mas nada de resultado. Batia na trave, batia na trave, batia na trave. Fui para a Europa, fiz uma gira ruim e, no final, machuquei.

E o que você quer evoluir mais agora?

Acho que saque. Neste torneio, eu acho que saquei mais já. Mais agressivo, mais incisivo com o saque, em vez ficar mais no kick para começar o ponto. E confiar no meu back. Quando estou mais perto da linha, ele me abre muita oportunidade por fore, que é onde eu comando mais o jogo. E é isso, continuar trabalhando a intensidade.

Que golpe que você gostaria de ter e não tem?

Eu teria o backhand do Djokovic, por exemplo. Iria completar bem o meu jogo (risos). Acho que sempre foi um furo no meu jogo. Quando estou confiante com o backhand, ele me ajuda muito para jogar. E confiança vem de ganhar jogo mesmo. Tem que treinar, mas você vai se sentir confortável e se soltar ganhando jogo mesmo.

Uma pergunta que eu já fiz pro Zormann e pro Orlandinho: por que você acha que o brasileiro e o sul-americano, de modo geral, demoram mais para estourar. Digo chegar nos 100. Você é da mesma geração de Zverev, Rublev…

Os caras se meteram muito rápido. (pausa para pensar) É uma bela pergunta, né?

Não é um caso de ter a verdade definitiva porque cada um tem uma teoria sobre isso, mas eu queria saber sua visão da coisa, sua teoria.

Acho que é muito da cultura do europeu, mais frio, assim, de jogar e pegar e dar pau na bola.

É mais difícil para o brasileiro fazer isso?

Ah, acho que é. Acho que muito pela cultura. Pelo jeito que eles são criados. E outra coisa é estar na Europa. A localização. Estar lá ajuda muito, é muito mais fácil.

Tem a questão financeira, que faz muita diferença…

Com certeza. Falei até com o Orlandinho, quando ele foi pegar o prize money, que foi uma baita semana, mas pô, tu consegue lucrar jogando no Brasil. E lá (na Europa) você já sai de 4 mil de passagem pra trás. Já sai devendo muito alto.

Quem dos caras da sua geração te surpreendeu, de subir mais rápido?

O Zverev… Eu achava que ele ia jogar, mas foi muito rápido. Foi para 3 do mundo com 20 anos, ganhando dois Masters 1.000. Muito rápido. Dava para ver que ele ia chegar, mas não tão rápido.

Para terminar, fala da sua campanha aqui em Santos.

Foi uma ótima semana. Nos primeiros dois jogos, eu busquei ficar bem sólido, assim, sem inventar muita coisa. Era procurar não errar muito mesmo para ir crescendo no torneio. A partir das quartas, comecei a ser agressivo com meu forehand para mandar nos pontos, acho que foi essa agressividade que me fez sair com esse resultado. Dá confiança e uma motivação extra para as próximas semanas, os últimos torneios do ano. É sempre cansativo o fim de temporada porque vem acumulando bastante tempo de quadra já, mas esse título dá mais vontade ainda de fazer uma boa pré-temporada depois das férias e já começar o ano que vem com tudo.

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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