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AO, dia 3: o karma de Kyrgios, sustos de Kerber e Murray, tombo de Cilic
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Alexandre Cossenza

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Demorou, mas o terceiro dia do Australian Open teve seus momentos de emoção. Depois de uma sessão diurna sem grandes dramas – apenas Angelique Kerber sofreu com o sol – a noite chegou com um jogão de cinco sets entre Nick Kyrgios e Andreas Seppi, a eliminação de Marin Cilic e um pequeno susto de Andy Murray.

O resumaço de hoje comenta esses momentos e ainda avalia as apresentações de Federer, Nishikori, Wawrinka, Venus e Bouchard, além de registrar a única vitória brasileira do dia – que veio na chave de duplas. Então, se você não ficou acordado na madrugada, sem problema. É só rolar a página e se informar.

A zebra e a vingança

É um desses casos que a gente costuma classificar como “ironia do destino” pela simples falta de explicação melhor. Chamem de karma, vingança, retribuição, o que preferirem. Não acontece todo dia. Mas aconteceu dois anos atrás, na Hisense Arena. Andreas Seppi enfrentou Nick Kyrgios nas oitavas de final. O italiano, mais bem ranqueado dos dois, abriu 2 sets a 0, teve um match point, não conseguiu converter e acabou eliminado com o placar do quinto set mostrando 8/6 para Kyrgios.

E aconteceu nesta quarta-feira, de novo na Hisense Arena, no Australian Open. O jogo valia pela segunda rodada, e Kyrgios, o mais bem ranqueado em quadra, saiu na frente. Venceu os dois primeiros sets. Seppi reagiu e venceu os dois seguintes, mas foi o tenista da casa quem teve um match point desta vez. O italiano se salvou, enfiando uma direita arriscadíssima na paralela. Sem defesa. Dois games depois, Seppi comemorou. Completou a virada: 1/6, 6/7(1), 6/4, 6/2 e 10/8.

Aos 32 anos e #89 do mundo, Seppi disse ao fim do jogo que não sabe quantas partidas assim, com essa emoção e disputados no ambiente maravilhoso da Hisense, lhe restam na carreira. Pode até ser sua última grande vitória. No momento, pouco importa. Foi bonita, vibrante, gloriosa. E lhe valeu uma vaga na terceira rodada contra Steve Darcis, o que não é nada mau também, né?

Kyrgios, por sua vez, saiu vaiado da quadra e deu mais uma daquelas coletivas intrigantes. Admitiu que fez “coisas que não deveria” nas férias, como jogar basquete e lesionar o corpo, falou que jogou o torneio com problema nos joelhos, reclamou das vaias que levou e ironizou quando lhe perguntaram que tipo de dor ele sentia: “Não sei. Pergunte a Johnny Mac [John McEnroe]. Ele sabe tudo.”

Os sustos dos favoritos

Angelique Kerber passou por mais um susto antes de comemorar seu 29º aniversário na Rod Laver Arena (RLA) nesta quarta-feira. A #1 do mundo, que ainda não teve uma grande atuação em 2017, voltou a sofrer com a irregularidade e, desta vez, teve problemas para sacar com o sol na cara – especialmente no segundo set. A também alemã Carina Witthoeft, #89 e 21 anos, nem aproveitou tão bem assim os saques fraquíssimos da #1 (beirando os 110km/h), mas ganhou a segunda parcial e forçou o terceiro set. A desafiante até começou o set decisivo com uma quebra, mas não conseguiu manter a vantagem. Kerber encaixou uma sequência de games bons, virou o placar e fechou em 6/2, 6/7(3) e 6/2.

O copo meio cheio de Kerber é mais uma vitoria jogando mal. Também foi assim na primeira rodada, contra Lesia Tsurenko. É importante anotar triunfos em dias ruins. São esses jogos que permitem que ela cresça no torneio e chegue forte na segunda semana. O copo meio vazio, contudo, é que fica difícil imaginar a alemã avançando na segunda semana do torneio jogando assim. Kerber pode ter um duelo duro contra Eugenie Bouchard nas oitavas e outro contra Garbiñe Muguruza nas quartas. Nenhuma das duas perdoaria saques tão frágeis como os desta quarta.

Fechando a sessão noturna na RLA, Andy Murray dominou o russo Andrey Rublev (19 anos, #152 do mundo) do começo ao fim. O único momento realmente tenso da partida veio no início do terceiro set, quando o #1 do mundo torceu o tornozelo direito e ficou caído na quadra por alguns instantes.

Por sorte, não foi nada grave, e Murray voltou logo ao jogo para completar a vitória por 6/3, 6/0 e 6/2. Embora sua chave tenha sido um pouco facilitada pelas quedas de Pouille e Isner (esperava-se que um dos dois enfrentasse o britânico nas oitavas), a próxima rodada não tem nada de fácil. O escocês vai duelar com Sam Querrey e, nas quadras rapidíssimas deste ano em Melbourne, qualquer sacador é um obstáculo ainda maior do que de costume.

Outros candidatos

Kei Nishikori abriu a programação na Hisense Arena (HA) e conseguiu uma vitória em três sets em um jogo que poderia ter sido mais complicado contra Jeremy Chardy. O curioso é que o japonês não chegou a empolgar. Cometeu mais erros do que winners (30 e 21, respectivamente) e perdeu o serviço três vezes. Só não teve mais dificuldades porque Chardy, que não estava em um dia animador, somou 53 erros não forçados. De qualquer modo, Nishikori está na terceira rodada e vai enfrentar Lukas Lacko, que passou por Dudi Sela por 2/6, 6/3, 6/2 e 6/4.

A sessão diurna continuou com vitórias sem drama algum. Stan Wawrinka fez 3 sets a 0 em cima de Steve Johnson, o que é um sinal positivo depois dos nervosos cinco sets contra Martin Klizan. Desta vez, o placar final foi de 6/3, 6/4 e 6/4. O duro caminho do #1 da Suíça continua contra Victor Troicki na terceira rodada.

Enquanto isso, Roger Federer encarava o qualifier Noah Rubin, 20 anos e #200 do ranking. O garotão deu trabalho no primeiro set, confirmando seus serviços e equilibrando a parcial. Só sucumbiu no 12º game, quando Federer parou de tentar trocar só pancadas e foi mais paciente. O triunfo por 7/5, 6/3 e 7/6(3) só veio depois de um inconsistente suíço salvar um set point no terceiro set. Não fossem os nervos de Rubin, a partida poderia ter se alongado mais do que o desejável para Federer.

No geral, não foi uma apresentação memorável, mas foi o bastante para avançar sem problemas. De positivo, seu serviço continua excelente, rendendo vários pontos de graça. Mesmo assim, Rubin conseguiu agredir com eficiência em alguns segundos saques. É de se esperar que Tomas Berdych, próximo adversário do ex-número 1, faço o mesmo – ou melhor.

Nesta quarta, o tcheco fez 6/3, 7/6(6) e 6/2 sobre Ryan Harrison. Avançou sem sustos, como era de se esperar. Mas e agora, será que Berdych consegue fazer mais do que nos últimos cinco jogos contra Federer? O suíço venceu todos e ganhou dez sets consecutivos.

Entre as mulheres, Venus Williams sempre corre por fora e vale ficar de olho na ex-número 1 porque sua chave ficou bem mais acessível depois das eliminações de Simona Halep e Kiki Bertens. Nesta quarta, a americana fez o seu. Bateu Stefanie Voegele por 6/3 e 6/2 marcou um encontro com Ying-Ying Duan (#87), que eliminou Varvara Lepchenko (#88) por 6/3, 3/6 e 10/8.

Quem segue impressionando é Eugenie Bouchard, que voltou a jogar bem e está sem problemas físicos. Nesta quarta, despachou Shuai Peng (#83) por 7/6(5) e 6/2, tomando a iniciativa na maioria dos pontos e jogando com precisão. Ex-top 5 e solta na chave (ocupa o 47º posto hoje), a canadense enfrentará Coco Vandeweghe, que passou por Pauline Parmentier por 6/4 e 7/6(5), na terceira rodada em busca de um possível duelo com Kerber nas oitavas. Será?

Por fim, abrindo a sessão noturna da Rod Laver Arena, Garbiñe Muguruza derrotou Samantha Crawford por 7/5 e 6/4. Não foi lá uma jornada impecável da espanhola, que desperdiçou duas quebras de vantagem na primeira parcial, mas foi o bastante para evitar um terceiro set. Ela agora enfrenta Anastasija Sevastova, cabeça de chave número 32, em busca de um lugar nas oitavas.

Mais cabeças que rolaram

Cabeça de chave #19, John Isner entrou em quadra como favorito contra Mischa Zverev. Aumentou seu favoritismo depois de abrir 2 sets a 0. Só que o alemão, irmão mais velho do “prodígio” Alexander, equilibrou a partida. Venceu um, dois e forçou o quinto set. Isner, que não tem lá um retrospecto tão bom assim em melhor de cinco sets, até salvou um match point com sorte…

O americano, no entanto, acabou sucumbindo depois de não conseguir converter dois match points no quarto set: 6/7(4), 6/7(4), 6/4, 7/6(7) e 9/7. A maior consequência do resultado é deixar, no papel, a chave menos complicada para Andy Murray, que enfrentaria Isner (ou Pouille) nas oitavas. Zverev, por sua vez, avança para encarar Jaziri em busca de um lugar nessas oitavas que possivelmente serão contra o número 1 do mundo.

No fim do dia, foi a vez de Marin Cilic ser o primeiro top 10 a dar adeus a Melbourne, o que confirmou um péssimo início de temporada, que já incluía uma derrota para o eslovaco Jozef Kovalik (#117 do mundo) no ATP de Chennai e um susto diante de Jerzy Janowicz na primeira rodada em Melbourne. Nesta quarta, o algoz do croata foi o britânico Dan Evans, que fez 3/6, 7/5, 6/3 e 6/3.

A chave feminina também teve um punhado de cabeças de chave que rolaram, como Shuai Zhang, eliminada por Alison Riske, e Irina-Camelia Begu, que caiu diante de Kristina Pliskova. As quedas mais relevantes foram a de Carla Suárez Navarro, cabeça 10, que foi superada por Sorana Cirstea (sim, aquela!), e Mónica Puig, a campeã olímpica, que não passou pela alemã Mona Barthel.

Os brasileiros

Já eliminado nas simples, Thomaz Bellucci voltou a Melbourne Park para tentar a sorte nas duplas. Ele o argentino Máximo González, no entanto, não passaram da estreia e perderam para Pablo Cuevas e Rohan Bopanna: 6/4 e 7/6(4). Assim, o #1 do Brasil e #62 do mundo encerra sua passagem pela Ásia com três derrotam. Em Sydney, apenas nas simples, foi derrotado por Nicolas Mahut na estreia.

Marcelo Demoliner fez melhor e avançou. Ele e o neozelandês Marcus Daniell derrotaram o argentino Guillermo Duran e o português João Sousa por 7/6(2) e 6/4. Bruno Soares, que joga ao lado de Jamie Murray; Marcelo Melo, que faz parceria com Lukasz Kubot; e André Sá, que atua com o indiano Leander Paes, ainda não estrearam no torneio.


Kyrgios: arrogante ou super confiante?
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Alexandre Cossenza

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Ele tem 1,93m de altura, um “penteado” só para a sobrancelha e leva para a quadra um cordão nada discreto, pendurado no pescoço e caindo, propositalmente, fora da camisa. É difícil passar perto e não reconhecer Nick Kyrgios, 19 anos, número 53 do mundo. É igualmente improvável, ainda que sentado à mesa do café e dando garfadas em um muffin de framboesa, não notar algo de especial quando o garotão está na TV. O australiano de sobrenome grego gesticula, grita e chama a torcida. E seu tênis fala tão alto quanto seu visual.

Desde que conquistou o Australian Open juvenil, em 2013, Kyrgios soma um cartel de vitórias respeitável para alguém de sua idade. A maior delas foi sobre Rafael Nadal, em Wimbledon, onde alcançou as quartas de final no ano passado. Naquele torneio, o australiano também bateu Richard Gasquet. Mais tarde, no US Open, passou por Andreas Seppi e Mikhail Youzhny. Agora, em Melbourne, derrotou Federico Delbonis, Ivo Karlovic e Malek Jaziri. Nada mau.

Ao mesmo tempo em que galga postos no ranking, Kyrgios ganha a merecida atenção como principal esperança (tchau, Tomic) de um país que entende, gosta e acompanha tênis. Só que uma – talvez a mais cruel – das consequências é passar, inexoravelmente, a viver sob o pente fino do público e da imprensa até o fim dos dias. E a moda hoje é rotular o adolescente como arrogante.

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Não é difícil entender de onde vem essa percepção. Kyrgios não é adepto do discurso pronto. Recentemente, disse numa entrevista que riu quando o croata Borna Coric se autodenominou o melhor de sua geração. O jovem aussie também já disse que entrou em Wimbledon achando que poderia derrotar Nadal. Junte algumas declarações com seu comportamento nada convencional dentro de quadra e você vai encontrar um punhado de gente incomodada – ainda mais em um esporte que mantém tradições e tem uma base de fãs um tanto conservadores.

Fosse na NBA ou a NFL, Kyrgios seria mais um. Ponto. Talvez, na melhor das hipóteses, seria festejado por seu swag à la Nick Young. Só que o mundo do tênis dos dias de hoje – o mesmo mundo que reclama da falta de “personalidades” e de declarações apimentadas – demora a aceitar e entender o diferente. E ainda condena sem direito a julgamento qualquer frase que não foi previamente ensaiada uma dúzia de vezes com assessores de imprensa. Caras novas são sempre bem-vindas, mas se o entrevistador pós-jogo pede uma viradinha para falar do vestido, já vira polêmica: gesto sexista ou inócuo?

Roger Federer já caiu nessa armadilha. Em 2007, quando ganhou o Australian Open sem perder nenhum set, o suíço foi indagado, na coletiva final, sobre sua genialidade. Respondeu que “podem me chamar de gênio porque estou superando muitos dos meus oponentes, meio que jogando de um jeito diferente, ganhando quando não estou jogando meu melhor. Tudo isto, talvez, signifique um pouco disso (genialidade).” No dia seguinte, veículos de todas latitudes e longitudes questionavam a arrogância da declaração. Mas eu divago.

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O ponto, aqui, é constatar quando a confiança se transforma em arrogância, algo tão fácil quanto localizar um dente no chão de uma arena de hóquei sobre o gelo. E, talvez, a mais resposta mais importante venha de outra pergunta: um tenista ganha ou perde mais jogos por causa de seu excesso de confiança? É bem possível que vejamos Kyrgios acumular uma pilha de reveses por ter pisado em quadra achando que nada lhe impediria de avançar. Mas o australiano teria derrotado Nadal se pensasse diferente?

Pouco antes deste Australian Open começar, Kyrgios deu entrevistas e tocou no assunto. Duas declarações, acho, valem destaque:

“Já fui criticado algumas vezes por ser um pouco confiante demais com as minhas palavras, mas todos atletas de sucesso do mundo têm uma dose extrema de confiança em si mesmos. Às vezes posso ser julgado como arrogante ou pretensioso, mas não me importo nem um pouco com a maneira que as pessoas me veem.”

“Acho que jogo meu melhor tênis quando encontro aquela linha tênue entre estar realmente positivo e estar calmo. Não quero me empolgar demais. Acho que vou amadurecer com a idade. Vou descobrir o que me ajuda mais em quadra. Obviamente, não vou ser um robô, sem mostrar emoção ou esse tipo de coisa. Acho que isso (a empolgação) definitivamente ajuda.”

São frases que casam com o que Kyrgios mostrou neste domingo, em Melbourne, na vitória em cinco sets contra Andreas Seppi. O australiano perdeu as duas primeiras parciais para um tenista que vinha de um triunfo memorável sobre Roger Federer. Ainda assim, seguiu acreditando. Depois do jogo, disse que pensou em Wimbledon, quando viu Gasquet abrir 2 a 0 e também virou. No fim, bateu o italiano por 5/7, 4/6, 6/3, 7/6(5) e 8/6 – com direito a um match point salvo no quarto set.

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Sim, Kyrgios teve suas oscilações. A mais perigosa delas veio no quinto set, quando saiu na frente e passou a acelerar o jogo mais do que devia. Acabou perdendo o serviço e precisando correr atrás de novo. Pareceu, contudo, mais afobação – normal para alguém da sua idade, ainda mais no cenário deste sábado, com tudo que envolve jogar oitavas de final de um Grand Slam em casa.

Arrogante ou super confiante? Qualquer que seja a resposta, é inegável que a postura do garotão não vem atrapalhando sua carreira – não até agora, pelo menos. Com 19 anos e 280 dias de vida, Kyrgios é o mais jovem quadrfinalista do Australian Open desde 1990 (Andrey Cherkasov, 19 anos e 208 dias). Também é apenas o nono adolescente a chegar às quartas do torneio na Era Aberta. E, mais do isso tudo: Kyrgios tornou-se hoje o primeiro adolescente a disputar duas quartas de finais de Grand Slam desde Roger Federer (Roland Garros e Wimbledon em 2001).

A próxima parada para o bonde do Kyrgão sem freio (porque Kyrgios poderia também ser jogador de futebol ou passista de escola de samba) será a Rod Laver Arena contra Andy Murray. O australiano será azarão, claro. Mas duvido que pise em quadra pensando que vai perder.


A versão Sabesp de Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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Você entra no box, abre a torneira e… nada! Não tem água, aquele elemento básico e essencial do planeta, da vida. Não tem mais. Alguém, em algum lugar, decidiu, por mérito ou incompetência, que você não vai ter água. Não tem para tomar banho, para escovar os dentes, para beber. Acabou e ninguém sabe dizer até quando. A sensação, que mistura raiva, frustração, impaciência e quase sempre acaba em resignação, não pode ter sido muito diferente do que passou Roger Federer em Melbourne nesta sexta-feira.

Não acho que tenha sido uma partida fantástica de Andreas Seppi. Não mesmo. E faz-se necessária um explicação que seria nota de rodapé se blogs tivessem rodapés. Não é tirar mérito. O italiano fez um ótimo jogo, de verdade. Mas do ótimo ao fantástico há uma longa rota que Seppi não percorreu nesta sexta-feira – até porque não precisou. Sacou bem, manteve a calma o jogo inteiro e não perdeu a cabeça nem quando uma bola na fita quebrou seu saque no segundo set. Fez tudo de forma competente. Não há o que questionar. Mas eu, mais uma vez, divago.

Foi uma tarde ruim de Roger Federer. Ruim, não. Péssima. O suíço abriu a torneira, fechou e abriu de novo. Não adiantou. Por mais que resmungasse, corresse e gritasse, alguma força superior impediu que Federer usasse os elementos mais básicos de seu jogo. O saque não entrou com consistência, os forehands estavam descalibrados, os slices não incomodaram (Seppi não deixou) e muitas das subidas à rede foram precipitadas – mais na tentativa de “assustar” Seppi do que como resultado da construção de um ponto.

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Estatísticas nunca contam a história inteira, mas os erros não forçados do suíço dizem um bocado. Foram 55 deles. E vale uma ressalva: normalmente as estatísticas de falhas ganham versão super-size contra Nadal ou Djokovic, tenistas que defendem com a resiliência de um Scott Sterling. Contra Seppi, não. Muitas das bolas espirradas por Federer não tinham objetivo algum que não fosse a simples continuação do ponto.

A sequência final foi um microcosmo de tudo que esteve fora da ordem no planeta racionado de Federer. Com metade da quadra tomada pelo sol, o suíço fez uma dupla falta quando liderava o tie-break. E aqui não vale condená-lo, por favor. Um pouco mais cedo, na Hisense, Andy Murray espirrou um segundo saque nas mesmas condições: virado para o sol e com meia quadra na sombra. É duro sacar assim. Mas eu, inevitavelmente, tergiverso.

Com suas muitas qualidades racionadas, Federer não encontrou sequer volume morto. Sem confiança, chegou a, ainda no tie-break, executar um segundo saque a saraerraniescos 129 km/h – o normal seria algo na casa dos 165-170 km/h. Perdeu o ponto. E perdeu os dois seguintes. O último, uma mistura de golpe de vista com mesmo-que-eu-chegue-na-bola-vai-ser-difícil-de-acertar, o mandou de volta para casa a conferir de perto a valorização do franco suíço.

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Kyrgios se dá bem, Nadal nem tanto

E o que muda sem o número 2 do mundo no torneio? A notícia não deixa de ser boa para o garotão Nick Kyrgios, que tem de juventude o que tem de marra – o que não é necessariamente ruim (deixo esta explicação para outro post – assim me poupo de um terceiro devaneio). O campeão do Australian Open juvenil de 2013, hoje com 19 anos, encara Seppi nas oitavas com uma chance razoável de alcançar as quartas de um Slam pela segunda vez. Quem vencer este jogo vai encarar Andy Murray ou Grigor Dimitrov – outros dois beneficiados.

A chave só não muda mesmo é para Rafael Nadal, que não perde uma melhor de cinco para Federer desde 2007. Aliás, os fãs do espanhol, hoje em dia, devem temer mais Berdych e Murray do que qualquer outro antes da final. O número 3 do mundo fez duas grandes atuações – intercaladas com o episódio Tim Smyczek, que vai ganhar proporções mitológicas cedo ou tarde. Já li, inclusive, que ele vomitou em quadra. É o tipo de história que aumenta com o passar do tempo, na medida em que ninguém mais lembra exatamente o que aconteceu. Daqui a 15 anos, Nadal vai ter vomitado parte de seu apêndice.  Mas eu devaneio.

Voltando ao tema, meu ponto é que o tênis que Nadal joga hoje, mais agressivo e correndo mais riscos, é um tanto mais suscetível a dias ruins. Sem tanta margem para erro, o espanhol não pode se dar ao luxo de jogar contra Berdych o mesmo que mostrou, por exemplo, no terceiro set contra Dudi Sela. Aquele tênis fantástico do US Open de 2013 não acontece sempre na vida de um tenista. Vejo Anderson e Berdych com chances nada desprezíveis – bem maiores do que alguns anos atrás, me arrisco a dizer.

Coisas que eu acho que acho:

– Até agora, a chave não tem um jogo ruim nas oitavas. Eles são Berdych x Tomic, Anderson x Nadal, Murray x Dimitrov e Kyrgios x Seppi. Meu preferido é o duelo entre britânico e búlgaro. Falo sobre a metade de cima do quadro masculino depois dos confrontos deste sábado.

– O circuito mundial destes tempos é tão (im)previsível quanto Kim Jong-Un num filme de Seth Rogen. O favorito de hoje é candidato a sofrer um piripaque amanhã. Djokovic começou o torneio voltando de um problema estomacal, mas já apagou qualquer dúvida. Murray, a eterna incógnita, somou três atuações irretocáveis. Nadal, com poucas partidas nas costas, estreou bem, quase abandonou na sequência e, hoje, voltou a mostrar um ótimo tênis.


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