Saque e Voleio

Arquivo : saibro

Sinais positivos de Djokovic
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Desde o segundo semestre do ano passado, parece que alguém baixou um decreto exigindo que toda conversa sobre um certo sérvio passasse pela questão “o que acontece com Novak Djokovic?” Afinal, o cidadão que dominou o circuito por mais de dois anos e venceu os quatro slams em sequência perdeu a liderança do ranking, a aura de invencibilidade e ainda ouviu críticas do ex-técnico Boris Becker por causa de suas novas prioridades na vida.

O 2017 do sérvio também não empolgou até agora. Depois de começar o ano com título em cima de Andy Murray em Doha, Nole tombou diante de Istomin no Australian Open, perdeu para Kyrgios em Acapulco e Indian Wells e não jogou em Miami por causa de uma lesão no cotovelo direito. Fora a zebra em Melbourne, nada trágico. Seu domínio nos anos anteriores, porém, provocou expectativas super-humanas. Como se precisasse estar acontecendo algo de muito errado na vida do sérvio para causar os tais resultados “decepcionantes”.

Uma entrevista em especial repercutiu bastante. Djokovic afirmou que o tênis não era a prioridade número 1 em sua vida. A frase foi vista quase como um crime por alguns. Como se Andy Murray, casado, pai e número 1 do mundo, fosse dizer algo diferente. O britânico, aliás, chegou a afirmar que largaria um slam se fosse necessário para ver o nascimento da filha. Como se muitos outros tenistas tivessem prioridades diferentes. O fato é que a tal frase, aliada às críticas de Becker, foi um prato cheio para quem queria questionar Djokovic. Mas eu divago.

Pois o sérvio voltou ao circuito da ATP esta semana, mais de um mês depois de Indian Wells – embora tenha feito um jogo de Copa Davis no fim de semana. Um ingrato retorno, diga-se, diante de um afiado Gilles Simon. O francês foi sólido ao extremo e exigiu um bocado de Djokovic. Aprofundou bolas, alongou ralis, subiu bem à rede. Foi tanto uma prova técnica quanto um teste para a paciência e a força de vontade do atual número 2 do mundo.

Nem foi a mais brilhante das atuações de Nole, mas é aí que entra seu maior mérito do dia e que serve como bom indício de que ele está com a cabeça no lugar e disposto a brigar por vitórias. Simon teve quebras de vantagem no terceiro set. Primeiro, abriu 3/2. Djokovic devolveu imediatamente. Depois, o francês sacou em 5/4. Valia a vitória. Outro game impecável do sérvio. Outra quebra. E Djokovic embalou, venceu três games seguidos e avançou às oitavas de final do torneio monegasco por 6/3, 3/6 e 7/5.

É cedo? Claro que é. Mas Djokovic foi tão exigido em tantos ralis que um tenista menos concentrado ou faminto teria cedido. Não seria vergonha alguma tombar diante do Simon que esteve em quadra nesta terça-feira. O sérvio ficou na briga e saiu vencedor. Como fez tantas e tantas vezes na careira e, numa chave com Carreño Busta, Thiem e Nadal, provavelmente precisará fazer novamente em Monte Carlo, nesta semana. Os próximos dias darão um panorama melhor sobre que Djokovic vamos ver na temporada de saibro europeia, mas esta terça já trouxe sinais positivos.


RG, dia 2: drama de Murray, susto de Wawrinka e derrotas brasileiras
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

A chuva voltou a atrasou mais uma vez a programação em Roland Garros, mas desta vez teve tênis e sobrou emoção. Primeiro, com Wawrinka e Muguruza vivendo momentos de tensão. Depois, com Andy Murray andando na corda bamba e os brasileiros – Thomaz Bellucci e Rogério Dutra Silva – enfrentando franceses em ótima forma. O resumaço do segundo dia fala sobre tudo isso, lembra das cabeças que rolaram e inclui até uma ação publicitária de Marcelo Melo.

Murray_RG16_1r_get_blog

Os favoritos

O maior drama do dia, seguramente, foi vivido pelo Andy Murray. Cabeça de chave 2, #2 do mundo, vindo de um título em Roma em cima de Novak Djokovic, o britânico chegou pela primeira vez a Roland Garros como sério candidato ao título. Tudo isso quase foi jogado pela janela nesta segunda-feira, diante de Radek Stepanek. O experiente tcheco, cheio de variações e evitando dar ritmo a Murray, abriu 2 sets a 0, fazendo 6/3 e 6/3 e deixando o mundo inteiro em alerta.

O escocês reagiu a tempo de evitar um fiasco. Fez 6/0 na terceira parcial, chegou a nove games seguidos e parecia navegar tranquilo para forçar o quinto set quando a partida foi paralisada por falta de luz natural. Quando os dois tenistas voltarem à quadra na terça-feira, o placar mostrará Stepanek liderando por 2 sets a 1, mas com Murray à frente por 4/2 no quarto set.

Embora não tenha fechado a parcial enquanto o momento lhe era favorável, Murray se deu bem com a interrupção. Diante de um tenista perigoso como Stepanek, é sempre arriscado entrar em quadra frio para jogar apenas um set. Do jeito que aconteceu, o britânico terá o fim do quarto set para calibrar golpes, aquecer e entrar com força total na parcial decisiva. O irmão, vide tweet abaixo, concorda.

Simona Halep, por sua vez, quase não teve problemas. Vice-campeã de Roland Garros e atual cabeça 6, a romena fez 6/2 e 6/0 sobre a japonesa Nao Hibino e avançou. Ela enfrentará na sequência a cazaque Zarina Diyas

Os brasileiros

Rogerinho (#85) fez uma ótima apresentação na Quadra Suzanne Lenglen, diante do sempre constante Gilles Simon (#18). O jogo, disputado com quadra bastante pesada e dois jogadores que não fogem de ralis, foi bastante longo e refletiu as características de ambos. Trocas longas, muitas quebras e equilíbrio. O primeiro set, decidido no tie-break, durou mais de 1h10min. O segundo, quase uma hora.

O brasileiro teve chances. Começou o jogo com 3/0 e duas quebras de frente. Na segunda parcial, abriu 4/2. Simon, no entanto, foi sempre mais consistente, dando menos pontos de graça e exigindo bastante de Rogerinho. No fim, o tenista da casa saiu vencedor por 7/6(5), 6/4 e 6/2.

Thomaz Bellucci também enfrentou um adversário respeitável, mas fez muito pouco diante de Richard Gasquet (#9). O francês começou a partida vencendo os primeiro cinco games e nunca deixou o brasileiro à vontade em quadra. Bellucci, que chegou a ter 15 games perdidos em sequência (comando os dez contra Delbonis em Genebra), até teve bons momentos no jogo, mas os 32 erros não forçados nos dois primeiros sets (em 16 games) facilitaram a vida do oponente.

Gasquet acabou vencendo por 6/1, 6/3 e 6/4, sem sustos. Bellucci, que cometeu 46 erros não forçados ao todo (contra 19 de Gasquet), agora soma oito vitórias e 15 derrotas na temporada. Depois de começar a temporada como 37º do mundo e entrar no top 30 em fevereiro, Bellucci vem em queda e já deixou o top 50. Nesta semana, é o #57 e pode cair mais ao fim do torneio francês.

As cabeças que rolaram

Entre os homens, Marin Cilic, cabeça 10, provavelmente foi a vítima da maior zebra do dia. O croata, que vinha de disputar a final do ATP de Genebra no sábado, tombou espetacularmente diante do argentino Marco Trungelliti (#166), que vinha do qualifying: 7/6(4), 3/6, 6/4 e 6/2.

O revés significa uma bela chance desperdiçada para Cilic, que estava numa chave em que enfrentaria Troicki na terceira rodada e, talvez, Raonic nas oitavas. Não era nada impossível imaginá-lo nas quartas contra Wawrinka – sim, o mesmo Stan que oscilou e quase também deu adeus nesta segunda-feira.

Na chave feminina, Sara Errani, cabeça 16, e Karolina Pliskova, cabeça 17, foram as primeiras a dar adeus. A italiana encerrou uma péssima passagem pelo saibro europeu com derrota por 6/3 e 6/2 para a búlgara Tsvetana Pironkova, enquanto a tcheca foi eliminada de virada pela americana Shelby Rogers: 3/6, 6/4 e 6/3.

A maior pré-classificada a dar adeus foi Roberta Vinci, cabeça 7, que foi rapidamente eliminada por Kateryna Bondarenko (#62) : 6/1 e 6/3. É o fim de uma péssima sequência para a vice-campeã do US Open, que sofreu quedas na estreia também em Madri e Roma.

Vinci estava numa seção bastante acessível da chave, sem grandes especialistas em saibro. Ela lá que estava também Karolina Pliskova. Agora, a “favorita” para alcançar as oitavas é Petra Kvitova, cabeça 10, mas tão imprevisível que requer sempre o uso de aspas para a palavra favorita.

Os sustos

O maior susto do dia veio logo no primeiro jogo da Quadra Philippe Chatrier, com Stan Wawrinka correndo o risco de se tornar o primeiro campeão de Roland Garros na história a ser eliminado na estreia no ano seguinte.

A estratégia kamikaze de Lukas Rosol, combinada com os momentos de inconstância do suíço, deixaram o jogo equlibrado. Quando o tcheco abriu 2 sets a 1, acabou a margem de erro para o campeão, que reagiu bem, vencendo as parciais seguintes. Stan até salvou um break point no começo do quinto set, mas não teve outros sustos na parcial, fechando o jogo por 4/6, 6/1, 3/6, 6/3 e 6/4.

A espanhola Garbiñe Muguruza (#4) também deu susto em seus fãs. Perdeu a primeira parcial para Anna Karolina Schmiedlova (#37) e, por um momento, parecia destinada a dar adeus atacando e errando do começo ao fim do jogo. Schmiedlova, no entanto, perdeu nove break points no primeiro game do segundo set, e Muguruza quebrou na sequência, mantendo a vantagem até o fim da parcial.

No set decisivo, Muguruza quase perdeu uma enorme frente. Sacou em 4/1, mas foi quebrada no sexto game e precisou salvar um break point no oitavo para evitar o empate da rival. No fim, confirmou o favoritismo e fechou em 3/6, 6/3 e 6/3.

Correndo por fora

Kei Nishikori foi o primeiro dos grandes candidatos ao título a entrar em quadra. No domingo, porém, a chuva impediu o término de seu jogo, então o japonês precisou fazer uma aparição rápida nesta segunda. E foi rápida mesmo. Apenas o suficiente para completar o triunfo sobre Simone Bolelli: 6/1, 7/5 e 6/3.

Cabeça de chave 2, Agnieszka Radwanska raramente é colocada entre as favoritas ao título. Seu histórico no saibro não justificaria mesmo. Sua estreia, porém, foi tranquila, fazendo 6/0 e 6/2 sobre Bojana Jovanovski.

Quem também corre por fora e triunfou nesta segunda foi Milos Raonic, que bateu Janko Tipsarevic (lembram dele?) por 6/3, 6/2 e 7/6(5).

Os adiamentos

Por causa da chuva – sim, ela de novo – a rodada começou com 2h30min de atraso. Quando os primeiros tenistas entraram em quadra, a organização já tinha decidido transferir 12 partidas: Cornet x Flipkens, Ivanovic x Dodin, Svitolina x Cirstea, Suárez Navarro x Siniakova, Jankovic x Maria, Rodionova x Konjuh, Zheng c Xibulkova, Cuevas x Kamke, Townsend x Hesse, Nara x Allertova, Wang x Andrianjafitrimo e Chung x Halys.

Dominika Cibulkova, aparentemente, aproveitou bem a folga.

Ao fim do dia, outros jogos interrompidos: Pouille vencia Benneteau por 2 sets a 1, Isner e Millman empatavam após dois tie-breaks, Doi liderava o segundo set contra Stosur após a australiana vencer a primeira parcial, Voskoboeva e Zhang ainda estavam em 5/5 no primeiro set, e Ekaterina Makarova liderava por 4/1 e saque o terceiro set contra Varvara Lepchenko.

Lances bacanas

A imagem não ajuda, mas fica o registro do impressionante backhand de Rogerinho, defendendo um smash cruzado de Simon e atacando na paralela para conseguir uma quebra de saque.

Leitura recomendada

Do blog de Diana Gabanyi, ex-assessora de Gustavo Kuerten, chefe de operações de imprensa do Rio Open e que está todos os anos em Roland Garros. No texto de hoje, ela fala sobre como o Slam do saibro vai ficando para trás em comparação com os outros três grandes.

Fanfarronices publicitárias

Em ação publicitária da Centauro chamada “Coisas que só o Marcelo Melo faz”, o número 1 do mundo faz truques com a raquete e a bolinha dentro de uma das lojas. Ótima iniciativa da rede de artigos esportivos.


Roland Garros 2016: o guia (versão feminina)
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Serena_Roma_trophy_get_blog

Foram três torneios grandes com três campeãs diferentes – e nenhuma empolgou. Angelique Kerber venceu na chave esburacada de Stuttgart, Simona Halep triunfou no imprevisível torneio de Madri, e Serena Williams passou mal e, assim mesmo, foi campeã em Roma sem derrotar nenhum nome de peso.

Assim sendo, sem ninguém se impor como favorito, é de se esperar certo equilíbrio e uma das edições mais imprevisíveis de Roland Garros nos últimos anos. Vale a ressalva, claro, de que quando há equilíbrio no papel, o favoritismo é da número 1 do mundo e atual campeã, Serena Williams.

No podcast Quadra 18, Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu debatemos a (quase nenhuma) importância dos três grandes torneios femininos que antecedem o Slam do saibro. Agora chega a hora de ver aqui no guiazão o quanto o sorteio da chave feminina afetou as chances das tenistas em Roland Garros.

As favoritas / Quem se deu bem

Se ninguém se destacou do pelotão, o favoritismo default é de Serena Williams, que não precisaria fazer nada especial para ocupar esse posto. E o sorteio, embora não tenha sido o melhor possível para a americana, não lhe colocou diante de ninguém que venha jogando espetacularmente. Sim, é bem verdade que seu quarto da chave é rico em nomes de peso como Ivanovic, Cibulkova e Azarenka, mas nenhuma mostrou tênis recentemente para derrubar a americana.

No papel, o grande jogo aqui seria nas quartas de final contra Vika, mas a bielorrussa vem de um WO em Madri (enfrentaria Louisa Chirico) por causa de dores nas costas e de uma derrota para Irina Camela Begu em Roma. Não é o mais empolgante dos retrospectos antes de um Slam, certo? Ivanovic, por sua vez, não ganhou dois jogos seguidos no saibro este ano. Seus reveses no piso vieram diante de Karolina Pliskova, Chirico (sim, ela de novo) e McHale.

O outro quarto nessa metade da chave é encabeçado por Angelique Kerber, a cabeça 3 do torneio. A alemã parecia iniciar uma arrancada quando ganhou Stuttgart, mas perdeu duas estreias em Madri (Strycova) e Roma (Bouchard) e viu o vento desaparecer de suas velas. Historicamente, Roland Garros não lhe traz grandes resultados (nunca passou das quartas)

A chave de Kerber não é tão difícil assim, mas tem cascas de banana pelo caminho. A começar pela estreia contra Kiki Bertens, que vem de título em Nuremberg, e por uma possível segunda rodada contra a imprevisível Camila Giorgi (tão imprevisível que pode perder para a local Alizé Lim na estreia). Caso avance, Kerber pode enfrentar Konta ou Keys nas oitavas e, nas quartas, a vencedora da seção que tem Venus, Jankovic, Niculescu e Bacsinszky. Dito tudo isto, Serena é a grande favorita na metade de cima da chave.

A metade de baixo da chave é encabeçada por Agnieszka Radwanska, cabeça 2, mas quase ninguém coloca a polonesa como principal nome por ali. Em seu mesmo quadrante está Simona Halep, vice-campeã de Roland Garros em 2014 e campeã do maluco torneio de Madri deste ano. Aga só alcançou as quartas uma vez em Paris e, mesmo assim, perdeu para Sara Errani. Este ano, chega a Paris nadando contra a maré após derrotas para Siegemund (Stuttgart) e Cibulkova (Madri). Não é difícil imaginá-la perdendo para Strycova na terceira rodada ou mesmo Errani/Stephens nas oitavas.

Halep, por sua vez, enfrentaria provavelmente Ostapenko nas oitavas e Stosur ou Safarova nas quartas. Então, na semi, teria pela frente quem avançar na seção de Radwanska. A romena, ainda que venha de uma eliminação diante de Gavrilova na estreia em Roma, parece a aposta mais segura aqui. Safarova, Stephens, Errani, Strycova e, quem sabe, Stosur correm por fora.

Por fim, o quadrante de Muguruza, que parece o mais equilibrado do torneio. Além da espanhola, cabeça 4, estão por aqui Vinci (na outra ponta da seção), Begu, Pliskova, Kvitova, Kuznetsova, Pavlyuchenkova e Makarova. Difícil fazer previsões, mas Muguruza ainda parece o nome mais consistente – ou menos irregular – por aqui. Em uma semana boa, porém, qualquer dos nomes acima pode avançar. Inclusive Petra Kvitova, que bateu Muguruza em Stuttgart, mas pouco fez em Roma e Madri – volto a falar sobre isso mais abaixo.

A brasileira

Teliana Pereira não deu lá muita sorte. Nem tanto pela estreia, que será contra a tcheca Kristyna Pliskova (#110), a Pliskova menos famosa e que não venceu nenhum jogo no saibro em chave principais de eventos de nível WTA. É bem possível que Teliana, mesmo longe de viver um grande momento (são três vitórias e 13 derrotas em 2016), passe pela tcheca. O problema vem na sequência, em um possível confronto com Serena Williams na segunda rodada.

As ausências

Caroline Wozniacki e Belinda Bencic são grandes desfalques para o torneio, mas a ausência mais sentida será mesmo a de Maria Sharapova. Ainda sem uma sentença definitiva para seu caso de doping, a russa ex-número 1 do mundo teria grandes chances se chegasse em forma a Paris. Não só pelo seu histórico recente, com os títulos de 2012 e 2014 (além do vice de 2013), mas porque poderia aproveitar este momento sem ninguém se destacando no circuito. Seria um nome fortíssimo e, quem sabe, a principal favorita ao título.

Os melhores jogos nos primeiros dias

Há bons jogos para prestar atenção já na primeira rodada este ano. Olhando de cima para baixo na chave, é possível destacar logo de cara Schiavone x Mladenovic, uma campeã veterana tirando o máximo de seus últimos dias no circuito contra uma tenista da casa em ascensão; Svitolina x Cirstea, uma cabeça de chave diante de uma ex-top 30 que vem do qualifying; e Kerber x Bertens, com a campeã do Australian Open diante de uma adversária perigosa e em belo momento, vindo de um título de nível WTA.

Vale prestar atenção também em Dodin x Ivanovic, com a wild card francesa tentando derrubar uma campeã do torneio – e até porque qualquer partida envolvendo Ivanovic tem potencial de zebra. Meu jogo preferido, porém, é Petkovic x Robson, onde deve sobrar carisma e, infelizmente, faltar tênis.

A tenista mais perigosa que ninguém está olhando

Normalmente, Petra Kvitova é aquele nome candidato a qualquer título, mas que nós, jornalistas e fãs, acompanhamos atentamente para saber quando será a zebra que derrubará a ex-número 2 do mundo. Desta vez, em Paris, o panorama é um pouco diferente. Kvitova é apenas a cabeça de chave 10 e não vem conseguindo resultados que a credenciem para a lista das principais favoritas.

Ainda assim, a tcheca tem um tênis que, quando encaixa, é imbatível. Se isso acontecer em uma chave bastante acessível, Kvitova pode se ver, de repente, nas quartas de final contra Muguruza e, por que não, nas semifinais. Para isso, teria que possivelmente passar por Karolina Pliskova na terceira rodada e bater quem vier do grupo de Vinci e Begu nas oitavas. Em condições normais, são resultados perfeitamente possíveis – sim, mesmo no saibro. Vale ficar de olho.

Onde ver

A transmissão é do Bandsports, que diz, em suas notícias, que mostrará o evento em “canal e site”. O hotsite do canal para o torneio, no entanto, ainda contém apenas as notícias do ano passado.

Nas casas de apostas

Na bet365, o nome de Serena Williams lidera, mas sua cotação, 3,25/1, indica um favoritismo moderado. O valor significa que quem apostar um dólar na americana receberá de volta 3,25 dólares se ela for campeã. É um favoritismo bem menor do que o de Djokovic, que paga 1,80.

Atrás de Serena vêm Halep (7/1), Azarenka (7,5/1), Muguruza (11/1), Kerber (19/1), Kvitova (26/1), Keys (34/1), Suárez Navarro (34/1), Bacsinzky (34/1) e Safarova (41/1). Teliana Pereira paga 501/1.


Semana 19: Andy, Serena e as cartas embaralhadas antes de Roland Garros
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Murray_Roma_trophy_atp_blog

O aniversariante Andy Murray foi campeão em um grandíssimo Masters 1.000 de Roma, Serena Williams voltou a levantar um troféu e brasileiros como Thomaz Bellucci, Teliana Pereira e Rogerinho viveram bons momentos na última semana.

Este resumaço dos últimos dias no circuito inclui Serena Williams experimentando comida para cachorro, a linda homenagem a Flavia Pennetta, (mais) um anúncio de Juan Martín del Potro, uma discussão entre Stan Wawrinka e Carlos Bernardes, a chave do qualifying masculino de Roland Garros e alguns dos lances mais bacanas do período.

O campeão

Aniversariante do dia, vindo de um vice em Madri e com uma chave fraquíssima em Roma, Andy Murray aproveitou a janela que se abriu. O escocês completou 29 anos e comemorou duplamente após derrotar Novak Djokovic por duplo 6/3 na final do torneio italiano.

O resultado quebrou uma sequência de 17 triunfos do número 1 do mundo contra top 10 e deixou tudo meio que embaralhado no circuito masculino antes de Roland Garros. Afinal, em Monte Carlo, Murray perdeu de Nadal, que em Madri perdeu de Djokovic, que perdeu de Murray em Roma. No papel, o favorito segue sendo o sérvio, mas seria irresponsável não admitir que espanhol e britânico estão fortes na briga.

O título pouco afetou porque, na prática, Murray voltou para a vice-liderança do ranking quando Roger Federer foi derrubado por Dominic Thiem. Agora, no entanto, é oficial: o escocês soma 8.435 pontos no ranking e tem boa vantagem sobre o suíço, #3, que acumula 7.015.

Aliás, ainda paira dúvida sobre a participação de Federer no Slam do saibro. Depois de desistir de Madri e não se mostrar totalmente recuperado em Roma, o ex-número 1 pode precisar escolher e decidir que estar em Roland Garros prejudicará sua preparação para Wimbledon. É na grama do All England Club, afinal, que o suíço tem mais chances de voltar a triunfar em um Major.

A campeã

No Premier 5 de Madri, Serena Williams voltou a vencer um torneio. Foi a 70ª vez em sua carreira, mas é bom lembrar que veio em uma chave esburacada. No caminha até o título, a número 1 superou Friedsam, McHale, Kuznetsova, Begu e Keys. Angelique Kerber, cabeça 2, perdeu na estreia para Eugenie Bouchard, que, por sua vez, perdeu para Strycova na rodada seguinte. Não por acaso, foi campeã sem perder nenhum set.

Just won title number 70 today in Rome… 70 never felt better

A photo posted by Serena Williams (@serenawilliams) on

Apesar do eterno favoritismo de Serena, o circuito feminino também é uma incógnita. Victoria Azarenka saiu de Roma com dores nas costas, e ninguém mais mostrou consistência suficiente para se colocar acima do pelotão-pós-Serena. Do grupo que tem Kerber, Halep, Muguruza, Kvitova, Radwanska e Pliskova (será que ela merece lugar aqui?), tudo pode acontecer.

A número 1 no banheiro

Serena Williams contou a história via Snapchat. Pediu o cardápio de comidas para seu cachorro, achou a comida com uma cara boa e decidiu provar. No fim das contas, foi parar no banheiro achando que ia desmaiar. A coletânea de “snaps” foi parar no YouTube.

Pelo menos a número 1 do mundo entrou em quadra bem de saúde o suficiente para derrotar a compatriota Christina McHale por 7/6(5) e 6/1.

A briga pelo número 1

A disputa pela liderança do ranking de duplas está quentíssima. Marcelo Melo resiste na frente, mas terá a dura tarefa de defender o título de Roland Garros nas próximas semanas. Logo atrás dele estão Nicolas Mahut, Jamie Murray e Horia Tecau. Quem será que sairá de Paris no topo?

Os brasileiros

O grande nome da semana foi Thomaz Bellucci, que deu sorte na chave e, enfim, aproveitou chances. Primeiro, ao derrotar um Gael Monfils em um dia pavoroso. Depois, batendo Nicolas Mahut, que vinha de aprontar uma zebra sobre Pablo Cuevas. E, por último, em uma bela apresentação contra Novak Djokovic. Bellucci aplicou um pneu no set inicial (o sérvio não sofria um 6/0 desde Cincinnati/2012, diante de Federer) e não venceu porque o número 1, um tanto errático na primeira parcial, se aprumou a tempo. No fim, Djokovic fez 0/6, 6/3 e 6/2.

Teliana Pereira voltou a ganhar uma partida e, mais uma vez, sobre Annika Beck. A alemã foi a vítima de duas das três vitórias da brasileira em 2016. Em seguida, valendo vaga nas oitavas de final, Teliana foi superada em dois sets pela espanhola Carla Suárez Navarro, #11, por 6/1 e 7/5. De positivo, a brasileira leva os pontos e uma bela reação na segunda parcial, na qual chegou a estar atrás por 5/1. Depois de começar a semana no 90º posto, Teliana aparece agora em 81º.

No circuito Challenger, Rogerinho foi campeão em Bordeaux (US$ 100 mil) ao bater o americano Bjorn Fratangelo por 6/3 e 6/1 na final. Os 100 pontos conquistados jogam o paulista para o alto, subindo nove posições no ranking e indo parar no 85º lugar. O post deixa Rogerinho perto da zona de classificação para os Jogos Olímpicos Rio 2016. Roland Garros será a última chance para somar pontos e se colocar entre os 56 primeiros do ranking olímpico (que respeita o limite de quatro atletas por país e exige participação na Copa Davis). Levando em conta os nomes que já anunciaram que não vão ao Rio de Janeiro, a chance de Rogerinho nem é tão pequena assim…

Thiago Monteiro, André Ghem e Feijão também estavam em Bordeaux. Feijão não passou do quali, Monteiro perdeu nas oitavas e Ghem caiu nas quartas.

No mundo dos ITFs femininos, Paula Gonçalves e BIa Haddad disputaram o torneio de Saint-Gaudens, na França. Bia furou o quali, mas caiu na estreia. Paula foi mais longe e só parou nas semifinais, superada pela grega Maria Sakkari, cabeça de chave 2 do evento. A russa Irina Kromacheva foi campeã.

Por fim, no ITF de La Marsa (US$ 25 mil), Laura Pigossi furou o qualifying sem jogar (era cabeça 1 numa chave de 16 com 15 participantes e oito vagas na chave), e foi eliminada por uma tenista que jogo o quali. A algoz foi a cazaque Galina Voskoboeva, que aplicou 6/1 e 6/4.

A separação

A grande notícia da semana foi a separação de Andy Murray e sua (ex) técnica, Amélie Mauresmo. O anúncio veio logo na segunda-feira, sem dizer de quem tinha sido a decisão. Pouco depois, o Daily Mail publicou as primeiras frases do tenista sobre o assunto. O escocês disse que não estava dando certo porque os dois vinham passando pouco tempo juntos (Mauresmo teve filho recentemente). Leia aqui, em inglês.

A homenagem que faltava

Quando disputou seu último jogo oficial, no fim do ano passado, Flavia Pennetta pegou a raqueteira e deixou a quadra. Sem cerimônia, sem vídeo no telão, sem muito obrigado… Nada. O torneio de Roma não deixou passar e fez a homenagem que a campeã do US Open merecia. A WTA publicou um vídeo com 28 minutos do que aconteceu na terça-feira, na capital italiana.

O mal-entendido

Mais uma polêmica envolvendo um tenista top e o árbitro brasileiro Carlos Bernardes. O juizão aplicou uma advertência no tenista suíço por “obscenidade audível”, mas Stan ficou furioso. Segundo o campeão de Roland Garros, a frase que Bernardes pensou conter um “fuck” foi, na verdade, “why do we practice so much?”. Wawrinka ainda perguntou “você quer ver a câmera e ouvir?” e “como você pode me dar uma advertência por isso?”

Bernardes disse que ouviria a gravação e que, se estivesse errado, pediria desculpas e Wawrinka não seria multado. O suíço, que havia perdido o primeiro set, só perdeu mais dois games depois da discussão e derrotou o francês Benoit Paire por 5/7, 6/2 e 6/1, avançando às oitavas de final.

Sem Roland Garros

Juan Martín del Potro não disputará o Slam do saibro. Em mensagem aos fãs, o argentino disse que “por causa da evolução mostrada nas últimas semanas”, conseguirá pela primeira vez jogar um grupo de torneios em sequência. Por isso, começará logo os treinos na grama. Delpo não confirmou os torneios, mas disse que espera terminar a série juntando-se ao time da Copa Davis.

Soa um tanto estranho quando um tenista diz que houve “evolução” em uma condição física e que vai poder fazer uma sequência de torneios, mas, ao mesmo tempo, acha melhor desistir de um evento tão importante. Resta torcer para que Del Potro esteja falando a verdade e que, no futuro, não precise mais deixar de competir em um Slam.

Lances bacanas

Era só um treino, mas Gael Monfils consegue transformar tênis no concurso de enterradas da NBA…

Na curiosa partida entre David Ferrer e Filippo Volandri, aconteceu este ponto maluco que nem tento descrever. Veja abaixo.

Volandri, que começou a semana como #203 e precisou passar pelo qualifying em Roma, não jogava uma chave principal de nível ATP desde Gstaad/2014. Aos 34 anos, o italiano não vence um jogo neste nível desde Buenos Aires/2014, quando bateu o qualifier Christian Garin. Já são 13 derrotas consecutivas, incluindo o revés diante de Ferrer, #9, por 4/6, 7/5 e 6/1.

As opções eram muitas no jogaço de quartas de final entre Djokovic e Nadal, mas que tal lembrar do ponto que decidiu o primeiro set?

A melhor história

Não é a melhor, mas talvez seja a mais curiosa. A revista americana Sports Illustrated perguntou a tenistas, técnicos, blogueiros e todo tipo de gente envolvida com o tênis se não seria melhor um sistema diferente de pontuação. A publicação sugere uma contagem em que cada set seria até 24 pontos, mais ou menos como em um enorme tie-break. A ideia é se desfazer do sistema de games. Você pode ler a repostagem aqui, em inglês.

A maioria não foi a favor, mas muitos ficaram intrigados com as mudanças que um novo sistema de pontuação provocaria no tênis. É, também o meu caso, embora eu ache os argumentos usados pela Sports Illustrated fraquíssimos.

Os posts da semana

Dois momentos marcantes do Masters 1.000 de Roma foram o pneu aplicado por Bellucci sobre Djokovic e o jogaço entre o número 1 do mundo e Rafael Nadal. Sobre o brasileiro, escrevi sobre o que chamo de sua “luta interna” neste post. Quando à suposta final antecipada (para alguns), escrevi sobre o significado daquele duelo para sérvio e espanhol neste texto aqui.

O qualifying francês

Enquanto alguns tenistas disputam os últimos ATPs antes de Roland Garros, a turma do qualifying entra em quadra já nesta semana. Entre eles estão Feijão, Ghem, Monteiro e Clezar. Veja a chave inteira aqui.

Tênis por WhatsApp

O UOL agora envia notícias de tênis por WhatsApp. Para se cadastrar, adicione à agenda de seu celular o número +55 11 99007-1706 e envie para esse número uma mensagem contendo o texto guga97. Você vai passar a receber, de graça, as notícias. Saiba mais aqui.


O pneu e a luta interna de Thomaz Bellucci
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Bellucci_get_blog

No fim das contas, não teve valor prático. Thomaz Bellucci fez 6/0 sobre Novak Djokovic no primeiro set do duelo nas oitavas de final do Masters 1.000 de Roma, mas foi o número 1 do mundo que se classificou à fase seguinte, triunfando por 0/6, 6/3 e 6/2. É justo dizer que a atuação deu certa confiança ao número 1 do Brasil. Não é todo dia que o sérvio perde seis games seguidos. Por outro lado, também é justo dizer que Bellucci deixaria a quadra com a mesma dose de ânimo se tivesse perdido por 6/7, 6/3 e 6/2, desde que mostrasse um bom nível de tênis – como fez na quinta-feira, na capital italiana.

Há, no entanto, o que tirar daquele primeiro set, que durou pouco, mas apontou alguns caminhos que Bellucci já se recusou a tomar em momentos anteriores de sua carreira. Nos 25 minutos que duraram aqueles seis games, o brasileiro executou apenas duas bolas vencedoras, mas mostrou consistência e bolas profundas enquanto Djokovic cometia erro após erro. A questão é que o número 1 do mundo não perdeu o set sozinho. Foram muitas falhas, é verdade, mas elas vieram em boa parte porque Djokovic não teve muitas opções para atacar sem correr riscos e, principalmente, porque Bellucci não forçou o jogo além do necessário contra um rival de peso.

E aí está um ponto que deveria ser mais levantado por quem acompanha o paulista. Toda vez que enfrenta um rival de nível reconhecidamente superior, Bellucci arrisca menos, aceita trocas de bola mais longas e ataca com mais inteligência, dando pouquíssimos pontos de graça. É diferente de quando Bellucci se vê diante de oponentes de menor calibre. Em muitos desses jogos, o brasileiro não mostra a paciência necessária para alongar trocas e esperar um momento melhor para atacar. Quando joga contra um rival com menos peso de bola, Bellucci força o jogo, muda a direção com mais frequência e corre mais riscos, buscando definir os pontos em momentos que não são necessariamente os mais adequados. Logo, erra mais, dá pontos de graça e estimula a tática que muitos no circuito adotam contra ele: longas trocas à espera de erros não forçados. É muito por isso – também – que Bellucci soma no currículo tantas derrotas diante de adversários de nível inferior.

Foram poucos os momentos na carreira em que Bellucci resolveu colocar todas fichas em sua consistência. Era assim que Larri Passos desejava que seu então pupilo atuasse e foi assim que o paulista derrotu Andy Murray e Tomas Berdych para alcançar as semifinais do Masters 1.000 de Madri em 2011. Foi naquele ano e jogando assim, lembremos, que o brasileiro esteve perto de eliminar Novak Djokovic, que vinha invicto na temporada. Bellucci acredita que a parceria com Larri e o estilo de jogo mais paciente – ou “pagando para ver”, como o próprio atleta descreve – não trouxe resultados consistentes. Em nossa conversa no início deste ano, afirmou que “não foi um ano” bom aquele vivido com o ex-técnico de Gustavo Kuerten. Por isso, decidiu mudar.

Trocando em miúdos, Thomaz Bellucci não acredita que essa tática lhe dê resultados. Querer que ele jogue sempre assim, com mais paciência, é pedir para que o número 1 do Brasil viva um conflito interno a cada ponto. É como se a cada giro da bolinha vindo da quadra adversária a matemática trocasse sopapos com a vontade louca de disparar um winner. Uma luta louca como WWE, com um vencedor diferente a cada minuto e que resulta em atuações e resultados inconsistentes. Um combate equilibrado como Rocky vs Apollo e, aparentemente, igualmente eterno.


Derrota de Djokovic levanta dúvidas e faz bem
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Djokovic_MC16_R2get_blog

Dúvida faz bem no esporte. A linha entre o tesão de ver um atleta espetacular e o tédio de saber o resultado final é nem sempre é fácil de enxergar, mas anda (ou andou?) bem visível no tênis ultimamente. Novak Djokovic ganhou quatro dos últimos cinco Slams, levantou 15 troféus nos últimos 14 meses, disputou 11 finais seguidas em Masters 1.000 e acumulou mais do que o dobro de pontos de Andy Murray, atual vice-líder do ranking mundial.

Logo, quando Jiri Vesely, 22 anos, 55º do mundo, derrubou o número 1 por 6/4, 2/6 e 6/4 na segunda rodada do Masters 1.000 de Monte Carlo, primeiro torneio grande da série de saibro na Europa, é fácil compreender por que muita gente abriu sorrisos pelo mundo. Um pouco porque será um Masters diferente, o primeiro do ano sem o sérvio campeão, mas especialmente porque levanta dúvidas que ficarão no ar por pelo menos duas semanas. E isso, hoje, faz muito bem ao tênis.

A partida foi interessante porque não foi uma atuação pavorosa de Djokovic como naquele primeiro set contra Bjorn Fratangelo em Indian Wells. Okay, não foi a melhor atuação do sérvio em 2016 – longe disso -, mas Vesely teve seus méritos. Primeiro por tentar tomar a iniciativa dos pontos com frequência. Segundo, pela execução do plano de jogo. Terceiro, pelas curtinhas. Não lembro de ter visto alguém usar tantos drop shots e com tanta eficiência diante de Djokovic. Foi, realmente, admirável por parte do jovem tcheco.

O número 1, por sua vez, esteve pouco inspirado. Não foi possível ver um plano de jogo claro em momento algum. Além disso, o sérvio foi passivo na maior parte do tempo. Nem mesmo quando esteve nas cordas, com Vesely sacando para o jogo. Por isso, pagou o preço com sua eliminação.

Depois do jogo, Djokovic disse que treinou bastante, mas que nunca sentiu seu corpo descansado o suficiente. Admitiu que jogou mal, disse que Vesely esteve muito bem em quadra e prometeu “descanso total”. À jornalista Carole Bouchard (a mesma do tuíte abaixo), afirmou ainda estar confiante e disse que “tudo acontece por um motivo”.

Até o Masters 1.000 de Madri, com início marcado para 1º de maio, o mundo seguirá imaginando o que esperar de Djokovic neste tour do saibro. Com duas semanas de intervalo, o número 1 aparecerá na Espanha na melhor forma? E o período de descanso forçado desta semana ajudará lá na frente, em Roland Garros, o único Slam que lhe falta?

E como será que o resto do circuito verá essa derrota em Monte Carlo? Como um sinal de vulnerabilidade ou apenas um caso isolado? E quem aproveitará a brecha no principado para conquistar os mil pontos? Quem ganha mais com isso? Hoje, são dúvidas que fazem muito bem ao tênis.

Coisas que eu acho que acho:

– Sobre o tamanho da vitória de Vesely, vale lembrar que ele quebrou três sequências importantes de Djokovic: 11 Masters 1.000 chegando em finais, 22 vitórias em Masters 1.000, e 14 triunfos no circuito.

– Com a eliminação precoce, Djokovic deixará de ter mais do que o dobro dos pontos de Andy Murray. Coitado, não?


Rio Open, dia 1: o naufrágio da Quadra Guga Kuerten e uma lição olímpica
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

20160215_193714_Pano_blog

A segunda-feira que começou quente, com céu limpo e previsão de temperaturas acima dos 40 graus, mas acabou molhado e com meia dúzia de jogos cancelados. A chuva veio forte e rápido, deixando a Quadra Guga Kuerten sob um palmo de água, o que causou um atraso gigante na programação. O estado submerso da arena inclusive que fosse realizada a homenagem ao tricampeão de Roland Garros, que empresta seu nome à quadra (que tem estrutura provisória) a partir deste ano.

O temporal fez com que o torneio cancelasse a partida de Fabio Fognini e, depois, o encontro entre Thomaz Bellucci e Alexandr Dolgopolov de volta para o hotel. John Isner e Guido Pella, que tiveram o jogo interrompido por volta das 18h, só voltaram a disputar um ponto às 22h. Americano e argentino, aliás, só haviam disputado 46 minutos de jogo, e a continuidade de sua partida foi especialmente conveniente para a organização do torneio, que precisaria devolver os ingressos – ou efetuar trocas para outras sessões – no caso de menos de uma hora de tênis.

Treino na chuva

Entre as cenas curiosas do dia, vale ressaltar que Rafael Nadal e David Ferrer treinaram na chuva – pelo menos enquanto foi possível.

Vale lembrar que, durante a pequena tempestade, a Quadra Central não foi coberta com uma lona. A justificativa de Lui Carvalho, diretor do torneio, foi de que a chuva caiu muito forte e muito rápido. Por isso, com o volume de água que molhou o saibro, já não se poderia mais fazer uso da lona – que cobriria a água. Talvez valha apontar aqui que a lona não estava na beira da quadra (como fica em Roland Garros, por exemplo) na hora que a chuva veio.

Também é importante registrar que as quadras externas sofreram bem menos com a quantidade de água. A Quadra 5, por exemplo, estava em condições bem melhores no mesmo horário, vide imagem abaixo. Embora a luz indique outra coisa, a foto da Quadra 5 foi feita depois da imagem da Central que está no alto deste post (o que aconteceu por volta das 19h30min).

O diretor, porém, ressaltou que a drenagem da Quadra Guga Kuerten é ótima. O problema desta segunda, ele revelou, foi causado por dois ralos que entupiram e impediram que a água escoasse devidamente. “Quando conseguimos desentupir, teve jogo meia hora depois.”

Quadra5_Rio16_cos_blog

As brasileiras

No início do dia, enquanto o clima colaborou, Ana Bogdan eliminou Gabriela Cé por 6/2 e 6/3. Foi a única brasileira que teve uma partida de simples encerrada antes da chuva. Bia Haddad teve sua partida interrompida quando perdia para Sorana Cirstea por 6/2 e 2/0. A interrupção não ajudou tampouco ajudou. A romena, que havia quebrado o serviço da brasileira em todas cinco oportunidades antes da chuva, quebrou mais uma vez na sequência e fechou por 6/2 e 6/1.

O sofrimento no saibro

John Isner saiu derrotado por Guido Pella por 7/6(5), 5/7 e 7/6(8). O americano, contudo, mostrou enorme esforço para vencer no saibro carioca, mais do que justificando o cachê que recebeu. Fez mais de 30 aces, salvou três match points (um deles com um espetacular ace de segundo saque), virou um tie-break complicado e, não fosse por cãibras e um voleio desastroso (talvez uma coisa tenha levado à outra), teria esticado sua passagem pela América do Sul. Diante das circunstâncias desta segunda-feira – quadra pesadíssima e adversário perigoso no saibro, parece injusto classificar o resultado como desastroso.

A programação

A quantidade de partidas canceladas na segunda-feira causou um engarrafamento na programação de terça, e o Rio Open precisou voltar aos horários do ano passado, quando as rodadas começavam às 11h. A solução foi encaixar e distribuir nomes de peso em quadras pequenas.

Feijão, David Ferrer e Nicolás Almagro jogarão na Quadra 1, com capacidade para 1.200 pessoas. Dominic Thiem, campeão do ATP 250 de Buenos Aires, estará na Quadra 4, onde cabem pouco mais de 50 pessoas. Jack Sock enfrentará Federico Delbonis no mesmo local. Juan Mónaco também jogará lá.

A Quadra Guga Kuerten ficou com Paula Gonçalves x Julia Glushko, Teliana Pereira x Petra Martic, Thomaz Bellucci x Alexandr Dolgopolov, Thiago Monteiro x Jo-WIlfried Tsonga e Rafael Nadal x Pablo Carreño Busta. Veja a programação completa aqui.

Nadal_Rio16_get2_blog

O vírus

Fora de quadra, as entrevistas deram assunto para os jornalistas (e salvaram o dia, sejamos sinceros). Um dos temas recorrentes da segunda-feira foi a ameaça do vírus zika, que ganhou manchetes no mundo inteiro. Curiosamente, as perguntas vieram de jornalistas estrangeiros – não vi os jornalistas brasileiros (eu inclusive) muito preocupados com o assunto. Quanto aos tenistas, Ferrer, que deu a primeira coletiva do dia, e Nadal evitaram fazer drama sobre o assunto.

Os dois adotaram um discurso bem parecido, inclusive, dizendo que o torneio havia tomado medidas para evitar mosquitos e que não havia muito mais a fazer. Nadal foi mais enfático, afirmando que viu o povo normalmente nas ruas, indo às praias e aos restaurantes. “Se o povo está vivendo normalmente, imagino que não seja tão grave. Estou saindo à noite, estou feliz aqui, não estou preocupado.”

Bellucci, o valor dos brasileiros e a lição olímpica

A entrevista de Gustavo Kuerten também foi interessante. Entre outras coisas, o tricampeão de Roland Garros, que será homenageado e dará nome à quadra (provisória) central do Rio Open, ressaltou a importância de valorizar os feitos dos tenistas brasileiros. Guga falou em especial de Thomaz Bellucci, que se mantém entre “20, 30, 40 do mundo por cinco anos.” Para o catarinense, “Bellucci recebe muito pouco valor pelo que faz.”

O ex-número 1 também falou sobre as chances de Marcelo Melo e Bruno Soares nos Jogos Olímpicos. Guga ressaltou que a chance de medalha é “claríssima”, mas lembrou que o torneio de duplas é muito acirrado e que o povo brasileiro precisa aprender a valorizar seu atleta independentemente de resultado. “As Olimpíadas vão deixar uma lição importante para a gente aprender. Os maiores atletas do planeta vão estar aqui, e a maioria vai sair derrotada.” Para o ex-número 1, é essencial saber que o esporte vai “além da chance de medalha.”

Thiem e a nova geração

Outro momento que vale destaque foi a resposta de Rafael Nadal, questionado por uma jornalista alemã sobre Dominic Thiem. O espanhol elogiou o jovem austríaco, disse que é um dos melhores nomes da geração e afirmou que esta geração atual, que surge com nomes como Thiem, Zverev e Fritz, é a que provavelmente vai causar a mudança de gerações da qual se fala na ATP há anos. Nadal lembrou, inclusive, que o assunto é recorrente há algum tempo, mas que o circuito continua dominado pelo mesmo grupo de antes.

Correção

Alterei um trecho do primeiro parágrafo nesta terça. O texto dizia “quadra provisória” e dava a entender que tudo era temporário. Na verdade, a quadra de saibro é permanente. As arquibancadas e toda estrutura montada para o Rio Open é que são temporários.


Bouchard no Rio: todo mundo ganha
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Como o importante ontem era publicar a notícia de Eugenie Bouchard confirmada no Rio Open, deixei os comentários e opiniões para o post de hoje. Então vamos nessa. É ponto pacífico que um nome como o de Eugenie Bouchard agrega ao torneio carioca. Vejamos então os porquês.

Bouchard vende. Essa é a primeira questão e talvez a mais importante do ponto de vista da organização do torneio. Do ponto de vista dos promotores, tenistas com essa característica são tão ou mais importantes do que, digamos, um David Ferrer. Sim, é essencial que o evento tenha alto nível esportivo, mas de nada adiantaria se não vendesse ingressos e não desse retorno de mídia. Bouchard, assim, como Tsonga, atrai mais público mais do que um Ferrer ou um Fognini.

O caso da canadense ainda é mais evidente porque Bouchard, 21 anos, bonita e vencedora, foi eleita pela SportsPro Media como a atleta com maior apelo comercial do mundo. Seus parceiros publicitários incluem as gigantes Nike e Coca-Cola, entre outros. Sua lista de fãs inclui o polêmico “Genie Army”, atraído talvez mais pela beleza do que pelo tênis da jovem. Tudo isso forma um pacote atraente para quem consegue Bouchard em seu torneio.

Okay, é verdade que a publicação da SportsPro aconteceu antes de Genie se envolver na polêmica do “não handshake” da Fed Cup, de sofrer uma dúzia de derrotas incompatíveis com seu ranking e de sofrer a estranha concussão em um vestiário do US Open. É possível que o desastroso (e desastrado?) 2015 tenha abalado seu potencial de marketing, mas não seu potencial tenístico. Bouchard tem tempo de sobra para reencontrar as vitórias e voltar a brigar por títulos.

E por que Bouchard vem ao Rio Open, um torneio isolado na América do Sul, disputado no saibro, piso em que jogou cinco vezes e perdeu quatro em 2015? A terra batida talvez não seja o maior dos problemas. Genie, afinal, foi semifinalista de Roland Garros em 2014. Além disso, a canadense nunca fugiu do saibro. Em 2013, quando ainda nem tinha entrado no top 100, fez um “tour” Cáli-Bogotá-Acapulco em busca de pontos em chaves mais acessíveis. Aliás, foi no saibro de Charleston, também em 2013, que Bouchard conseguiu, depois de furar o quali e alcançar as quartas, os pontos necessários para entrar no top 100.

Mas tem mais: o calendário, que sempre foi um empecilho para o Rio Open atrair nomes de peso, desta vez ajudou. Com (quase) todas grandes tenistas em Doha e Dubai jogando torneios que pagam mais de US$ 2 milhões, Bouchard, que caiu de top 5 para #49, não tem ranking para entrar nos dois torneios. Logo, o Rio de Janeiro tornou-se uma ótima opção – ainda mais oferecendo um cachê que certamente compensa o prize money de apenas US$ 250 mil.

A favor da canadense joga também a chave modesta do Rio de Janeiro. Pelo ranking atual, as outras sete cabeças de chave seriam Teliana Pereira (#46), Karin Knapp (#51), Johanna Larsson (#56), Danka Kovinic (#57), Christina McHale (#63), Polona Hercog (#73) e Tatjana Maria (#74). Bouchard será, com sobras, a tenista mais talentosa do torneio. Se estiver em forma, é favoritíssima para um título que pode lhe dar um novo e importante impulso na carreira.

Coisas que eu acho que acho:

– Nada é 100% certo nesse mundo do tênis, então convém torcer para que não haja lesões ou complicações fora de hora. Se todas presenças forem confirmadas, o Rio Open terá seu melhor “elenco” da histórias (tudo bem, são só três anos de torneio): Nadal, Ferrer, Tsonga, Isner e Bouchard serão as principais atrações, mas os coadjuvantes também serão nomes de respeito.

– Vale observar como o público se comportará diante de Bouchard no Rio de Janeiro. Haverá uma versão local do Genie Army? Haverá pedidos de casamento? E a canadense, aparecerá de bom humor e aceitará bem eventuais brincadeiras? Esperemos ansiosamente até o Rio Open, que começa dia 15 de fevereiro.

– Eu tinha preparado uma lista de “top 5” para publicar na última semana de 2015, mas meu pós-Natal teve algumas complicações inesperadas e acabei não postando nada. Peço desculpas a quem me ajudou a fazer as listinhas (estavam bem divertidas, aliás). Leitores, Sheila, Aliny e, principalmente, Mário Sérgio, fico devendo essa para vocês, viu? Mil desculpas!


Deus salve Andy Murray
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Nunca um tenista fez tanto na história do Grupo Mundial da Copa Davis. E não é só isso: nunca um tenista precisou fazer tanto para conquistar o título. Em quatro fins de semana, Andy Murray entrou em quadra 11 vezes. Saiu vencedor em todas, sem exceção. Principal integrante de uma nação que não gerou outro simplista de peso desde Tim Henman, o britânico carregou o Reino Unido nas costas na quadra dura, na grama e no saibro; na Escócia, na Inglaterra e na Bélgica. E, ao derrotar David Goffin por 6/3, 7/5 e 6/3 neste domingo, completou uma das campanhas mais espetaculares da história da competição.

É o primeiro título da Grã-Bretanha na Copa Davis desde 1936, quando Fred Perry deu o quinto e decisivo ponto a seu time. O mesmo Perry que era lembrado anualmente enquanto o jejum de títulos britânicos em Wimbledon aumentava. E foi Andy Murray que, 77 anos depois, deu um título ao país no mais importante e cobiçado torneio do planeta.

Feito atrás de feito, Murray vai escrevendo seu nome nas listas mais relevantes da modalidade. Uma medalha de ouro nas simples (em Wimbledon, derrotando Roger Federer em sets diretos na final), títulos de Grand Slam e, agora, a Copa Davis. Tudo isso precisando lidar com a incômoda imprensa britânica, a eterna e sensível relação Escócia-Inglaterra e uma delicadíssima cirurgia nas costas que interrompeu seu melhor momento no circuito mundial (lembremos do massacre de Dunblane também).

Murray encerra assim a melhor temporada de sua carreira até agora. Dono da Copa Davis e número 2 do mundo mesmo colocando a competição por equipes acima de torneios individuais em sua lista de prioridades. Afinal, quantos tenistas já sacrificaram campanhas no ATP Finals em nome da final da Davis? Essa é só uma das muitas características espetaculares de um atleta que encara de frente todas adversidades extras e uma geração fantástica de oponentes que a vida lhe impôs. E, mesmo diante disso tudo, segue alcançando feitos gigantes.

O confronto

Quando o confronto começou, parecia que Murray nem precisaria desse 11º jogo. Um pouco pelos nervos de Goffin, um pouco pelo talento de Kyle Edmund e mais um pouco pela “inconsciência” do garotão britânico de 20 anos, que fazia sua estreia em Copa Davis logo em uma final e não parecia sentir/entender o peso do momento, parecia que os britânicos levariam o improvável primeiro ponto.

Enquanto Goffin brigava contra a tensão, Edmund soltou o braço, acertou quase tudo e abriu 6/3 e 6/1. Seria um baque enorme para o time da casa, não fosse a recuperação de seu número 1. Goffin entrou nos eixos e, como quase sempre acontece no tênis, a ascensão de um significa a queda de outro. O britânico nascido na África do Sul viu sua carruagem virar abóbora. Depois de fechar o segundo set, venceu apenas três games. Bélgica 1 x 0 Grã-Bretanha: 3/6, 1/6, 6/2, 6/1 e 6/0.

Chegou, então, a hora da estreia do herói do fim de semana. Favoritíssimo contra Ruben Bemelmans, #108, Murray não decepcionou. Teve alguns momentos de oscilação, especialmente quando a torcida cresceu no segundo set. Uma de suas crises nervosas lhe rendeu até um point penalty, mas nada que lhe tirasse da dianteira. No fim, fez 6/3, 6/2 e 7/5, tranquilizando o Reino Unido e mostrando que quem carregou o peso de uma nação inteira nas costas até ganhar seu primeiro Slam não sofreria com a tamanho de uma final de Copa Davis.

O sábado chegou com o momento crítico do jogo de duplas. Uma vitória belga significaria que Murray poderia vencer no domingo e, ainda assim, o time da casa teria uma chance considerável de vitória. Um triunfo britânico deixaria o destino do duelo na raquete de Murray.

Johan van Herck, o capitão belga, talvez visse a vitória no sábado como a única chance real de um triunfo. Por isso, em vez do inicialmente escalado Kimmer Coppejans (21 anos, #128 de simples), quem entrou em quadra foi David Goffin ao lado de Steve Darcis. Uma manobra arriscada, já que Goffin perderia a única vantagem óbvia que teria sobre Andy: chegar menos cansado no domingo.

Diante de um Jamie Murray errático, a dupla belga foi superior durante a maior parte dos dois sets iniciais. Na primeira parcial, Darcis, melhor belga em quadra, teve o primeiro break point do jogo no nono game, mas jogou uma devolução na rede. No game seguinte, o mesmo Darcis jogou um smash para fora, cedendo um set point. O time britânico aproveitou e saiu na frente: 6/4.

No segundo set, uma quebra no terceiro game deixou a Bélgica à frente. Os donos da casa mantiveram a frente, fecharam a parcial e continuaram melhores. Darcis e Goffin quebraram primeiro no terceiro set, mas não conseguiram deslanchar e jogar a pressão nos visitantes. Andy e Jamie quebraram de volta no game seguinte e cresceram no jogo. Fizeram 6/3 e tomaram a dianteira de vez.

O maior desafio para os britânicos era fazer Jamie subir à rede com eficiência, sem ficar exposto no fundo de quadra, onde Goffin e Darcis são mais consistentes, nem ser pego com um golpe violento na subida. No quarto set, os escoceses tiveram mais sucesso. Conseguiram uma quebra no terceiro game e sobreviveram a um longuíssimo quarto game, salvando sete break points e consolidando a vantagem. Depois disso, não olharam mais para trás. O placar no fim do dia mostrava Bélgica 1 x 2 Grã-Bretanha, com as parciais do dia em 6/4, 4/6, 6/3 e 6/2.

O domingo não poderia ser muito diferente. Depois de dez vitórias, a 11ª parecia questão de tempo. Goffin, justiça seja feita, fez uma tentativa digna. Esteve bem nas trocas do fundo de quadra e tentou sempre comandar os pontos. Pecou, porém, taticamente ao insistir com o segundo saque no backhand do britânico. Pagou o preço por isso no primeiro set e só não lhe custou tanto no segundo porque Murray errou mais devoluções do que de costume.

Goffin também bobeou no 11º game, quando tentou uma curtinha com Murray batido e errou. Em vez de abrir 30/0, deixou o placar em 15/15. O britânico acabou quebrando o serviço do belga no embalo e, depois, saiu de 0/30 para fechar a segunda parcial com um dos pontos mais espetaculares do dia.

O número 1 da Bélgica ainda teve uma pequena chance de reagir, quando conseguiu quebrar Murray no início do terceiro set. O britânico, no entanto, respondeu rápido, quebrando de volta no game seguinte. E seguiu no jogo, enquanto Goffin lutava bravamente. mas era pedir demais do tenista da casa, que já vinha com 11 sets nas costas a essa altura. Murray quebrou, abriu 4/3 e não olhou para trás. Fechou a partida com um lob top spin – marca registrada – em mais um ponto memorável e desabou em lágrimas com a bandeira britânica.

Coisas que eu acho que acho:

– Desde 2007, uma dupla formada por irmãos não jogava uma final de Copa Davis. Antes da grande ocasião, Andy e Jamie toparam a brincadeira que resultou no vídeo publicado pela federação britânica. Vale a pena ver:

– Desde a adoção do formato do Grupo Mundial, em 1981, John McEnroe tem o recorde de melhor campanha, com 12 vitórias e nenhuma derrota. Naquele ano, porém, o americano jogou três dead rubbers – partidas realizadas com o confronto já decidido. Andy Murray fez as 11 partidas válidas (live rubbers).

– Sobre a atuação de Jamie, é bem verdade que o Murray mais velho ficou abaixo do esperado, e foi Andy quem carregou o time durante a maior parte do tempo. Não vale a pena, contudo, entrar em pânico antecipado a respeito do futuro parceiro de Bruno Soares. Primeiro, é preciso considerar o tamanho da ocasião e tudo que havia em jogo. Depois, lembremos que o saibro não é lá o melhor piso para o jogo de Jamie, um tenista bem mais eficiente na rede do que no fundo. E não esqueçamos de como ele carregou John Peers a duas finais de Slam em 2015. É equivocado – ou, em alguns casos, burrice mesmo – julgar Jamie por uma partida.

– Em toda campanha britânica na Davis este ano, a única vitória de um tenista não chamado Murray aconteceu na primeira rodada, quando James Ward bateu John Isner por 15/13 no quinto set, em Glasgow. Foi esse resultado, aliás, que possibilitou o descanso para Andy no sábado. Jamie jogou ao lado de Dominic Inglot e foi derrotado pelos irmãos Bryan por 9/7 no quinto set.

– Aconteceu logo depois do match point. A equipe britânica invadiu a quadra e foi comemorar com Andy Murray, que estava estirado no saibro. Andy, então, levantou e deixou seu time ali enquanto correu para cumprimentar Goffin e o resto da delegação belga. Gesto lindíssimo de uma pessoa fantástica.

– A maior vitória do fim de semana foi, felizmente, da paz. Depois dos dias tensos na Bélgica – principalmente em Bruxelas -, com suspeitos presos, caçadas a terroristas e até uma ameaça de atentado, é um alívio ver a Copa Davis chegar ao fim sem incidentes do tipo. O planeta agradece.


Bellucci: #31 e nenhuma vitória espetacular
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Bellucci_Gstaad_div_blog

O ranking desta semana da ATP mostra Thomaz Bellucci como tenista número 31 do mundo. Nas últimas 52 semanas, o brasileiro somou 1.154 pontos em 27 torneios disputados. Em todo esse período, o paulista de 27 anos não somou nenhuma vitória espetacular. Nenhum top 10 derrubado, nenhuma grande zebra e apenas dois jogos vencidos contando os quatro Grand Slams juntos.

Isso tudo, juntinho e combinado, é ótimo. Calma, muita calma. Antes que o leitor reclame e aponte o óbvio paradoxo, eu explico (também usando o paradoxo em questão). O 31º posto, melhor ranking de Bellucci em mais de quatro anos, é resultado exclusivamente das vitórias esperadas. Traduzindo: ainda que as vitórias sobre top 10 não estejam vindo e que as campanhas em Slams ainda deixem a desejar, o número 1 do Brasil vem reduzindo seu número de “chances perdidas”.

Em números, fica ainda mais fácil entender o raciocínio. Os cinco torneios com maior pontuação de Bellucci são Genebra (campeão, 250 pontos), Roma (oitavas de final, 115), Valência (quartas, 110), Gstaad (semi, 90) e Quito (semi, 90). Genebra é um exemplo perfeito. Um torneio no saibro em que Bellucci enfrentou apenas um top 50 (João Sousa, #50). Campeão. Chance aproveitada. Check.

E o Masters de Roma talvez seja um exemplo ainda melhor. Bellucci furou o quali, derrotou Diego Schwartzman na primeira rodada da chave principal  e viu-se diante de Robert Bautista Agut, #19, na segunda fase. Adversário de ranking alto e derrotável (vide Davis). O brasileiro venceu e sucumbiu na rodada seguinte, depois de dar um bocado de trabalho a Novak Djokovic. Normal. Mais 115 pontos na conta. Chance aproveitada. Check.

Bellucci_Gstaad_div2_blog

Já ficou claro, não? Bellucci vem subindo não por resultados fantásticos, mas por campanhas perfeitamente condizentes com seu tênis – e seu potencial. Sim, uma ótima chance escapou no ATP de Bastad, quando a semi esteve muito próxima e Bellucci cedeu uma virada ao talentoso jovem Alexander Zverev (#123), mas é fácil constatar como momentos assim foram menos frequentes recentemente.

Thomaz Bellucci nunca fez uma temporada regular. Nem no seu melhor momento. Em 2010, melhor temporada da carreira, o paulista chegou a ocupar o 21º lugar na lista da ATP e chegou ao fim do ano em 31º. Ainda assim, somou reveses diante de Ricardo Mello (#135, Costa do Sauípe), Marco Chiudinelli (#63, Gstaad), Lukas Lacko (#72, New Haven), Somdev Devvarman (Copa Davis em Chennai, abandono com problemas físicos), James Blake (#135, Estocolmo) e Marcos Daniel (#152, Challenger de São Paulo). Ainda houve derrotas diante de Guillermo García-López (#49, Indian Wells), Leo Mayer (#59, Nice) e Andreas Seppi (#70, Hamburgo) – todos bons tenistas, mas que não atravessavam momentos nada especiais.

Será que a maturidade para fazer uma sequência maior chegou? Desde Miami, Bellucci apresenta um tênis mais constante (embora ainda não tão estável quanto muitos gostariam). Os resultados vieram. É inegável que a série no saibro, seu piso preferido, ajudou. Os eventos de agora até o fim do ano, em piso duro, deixarão o cenário um pouco mais claro (descontemos a derrota em Washington após o curtíssimo tempo de adaptação). Se Bellucci mantiver a consistência, é muito provável que seu ranking de fim de ano seja o melhor da carreira.

Coisas que eu acho que acho:

– Uma das perguntas que recebo frequentemente (via Twitter ou email) é sobre a influência de João Zwetsch no bom momento de Bellucci. Difícil dizer sem acompanhar o dia a dia de treinos. Aliás, seria difícil dizer ainda que algum jornalista visse todos os bate-bolas. Logo, convém não especular.

– Quem já ouviu o podcast Quadra 18 desta semana sabe que já abordei o assunto por lá. Mesmo assim, achei que valia a pena fazer um texto para o blog. Nem todo mundo que lê aqui escuta lá e vice-versa.

– Outra questão interessante – e recorrente – é a seguinte: Bellucci ainda pode evoluir a ponto de chegar ao top 10? Esse tema também foi debatido no Quadra 18, e é por isso que deixo aqui o link para que vocês escutem o programa e mais de uma opinião sobre o potencial do número 1 do Brasil. Ouçam!


Teliana, a especialista
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Teliana_Floripa_col_blog

As cenas da colagem acima, captadas pelo excelente fotógrafo Cristiano Andujar, são memoráveis. A comemoração logo após o match point, os beijos no troféu, os goles do champanhe derramado na taça, o emocionado e emocionante abraço na mãe… Teliana Pereira conquistou, em Florianópolis, seu segundo título de WTA e o primeiro de um brasileiro dentro do país desde Gustavo Kuerten na Costa do Sauípe em 2004 (sem contar Challengers e eventos menores, claro).

Há muitas coisas que podem ser ditas sobre os méritos de Teliana. Sua luta, seu preparo físico, sua humildade… Tudo isso tem peso grande na caminhada que lhe coloca entre as 50 tenistas mais bem ranqueadas do mundo. Mas há algo que talvez seja pouco observado e que acredito ser importante ressaltar neste post: a pernambucana de 27 anos agora se coloca como uma das poucas especialistas em saibro no circuito mundial.

Dona de um preparo físico privilegiado, Teliana trabalha os pontos como poucas tenistas hoje em dia. Sem um saque dominante ou um golpe de definição com muita potência, a brasileira compensa com paciência e estratégia, e seu estilo de jogo se mostra muito eficiente na terra batida – principalmente contra tenistas que gostam de parar na linha base e tentar resolver na base da pancadaria (ou seja, a maioria do circuito mundial).

Teliana aposta em bolas altas e fundas, e seu forehand com spin, quando aplicado com a profundidade certa, desequilibra. Nesse nível (o WTA catarinense não teve ninguém do top 60, e a pernambucana precisou enfrentar apenas uma top 100), não são muitas tenistas que conseguem potência e regularidade para combater o jogo de porcentagens da brasileira.

Não é por acaso que o duelo mais complicado foi o primeiro, contra a argentina Maria Irigoyen, que também fez um jogo de bolas altas e paciência (Teliana venceu por 6/7(3), 6/3 e 7/5). A final, contra a competente Annika Beck (68 do mundo), foi um exemplo perfeito de como o tênis de saibro de Teliana é eficaz. A alemã até conseguiu equilibrar o jogo em alguns momentos e venceu o segundo set porque encaixou uma boa série de golpes nos últimos três games.

Entretanto, a impressão que ficava, ao longo da partida, era que Beck vinha correndo muito mais riscos do que a brasileira – tática necessária para a alemã. Só que quando o terceiro set começou, depois de mais de duas horas de jogo, Beck já não conseguia a precisão necessária. Enquanto Teliana continuava paciente e trocando bolas, a alemã cometia uma série de erros. A parcial decisiva durou pouco. Por 6/4, 4/6 e 6/1, a especialista triunfou.

Teliana_Floripa_F_twitter_blog

Coisas que eu acho que acho:

– Não me parece justo dizer que Teliana Pereira foi campeã porque a chave estava fraca. Sim, a chave estava fraquíssima e já escrevi um bocado sobre isso no post anterior, mas me parece que o nome da brasileira já não pode ser descartado em nenhum torneio da série International (equivalente aos ATPs 250) no saibro. Dois títulos e um lugar no top 50 lhe dão esse direito.

– Vale lembrar: no tênis feminino, o último título vencido por uma brasileira em casa havia sido em 1987, quando Niege Dias foi campeã no Guarujá.

– Foi bacana ver a quadra central lotada para a final, disputada numa manhã de sábado, com entrada franca. Por outro lado, é uma pena constatar que um evento como esse, um WTA International, não oferecia sequer mil assentos. Muita gente viu o jogo de pé ou sentada em cadeiras improvisadas no barranco.

– Quase tão brilhante quanto a conquista de Teliana foi o texto de Fernando Meligeni sobre ela. Inclusive com o relato de que “alguns anos atrás [Teliana] foi contra um projeto olímpico capitaneado por Guga, Larri, Ministério do Esporte e CBT e bancou seu irmão como técnico e não aceitou mudar de sua cidade em vez de ser mais uma tenista dentro do projeto olímpico. Sua decisão causou problemas, boicote a ela e muita virada de cara. O mais triste foi o corte na Fed Cup em sua cidade por motivos ( técnicos) que todos sabemos que não foi por isso.” Leiam, por favor, o texto inteiro.

– O WTA de Florianópolis, como já previsto, voltará a ser disputado em quadras duras em 2016. Só não se sabe em que lugar da cidade. O diretor do torneio, Rafael Westrupp não deu garantias, dizendo apenas “provavelmente na Federação Catarinense”, mesma sede do evento em 2013 e 2014.


Wawrinka, um marawilhoso wilão
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Wawrinka_RG_F_trophy_get_blog

Woilà! À wossa vista, um humilde weterano do Waudewille, escalado
para os papéis de wítima e wilão pelas wicissitudes do destino.

Era para ser o ano de Novak Djokovic. Rafael Nadal wiweu seu pior momento no saibro e tombou antes da hora. Andy Murray, outro perigoso nome, traçawa caminho diferente. Cabia ao sérwio, número 1 do mundo, inwicto há 28 jogos e faworitíssimo desde o desenho das chawes, conquistar o que parecia seu de direito. Após seis reweses diante de Nadal e um nas mãos de Federer (talwez o mais doído), Nole parecia firme em sua missão de cumprir o destino e conquistar o Career Slam em 2015 – especialmente depois de derrubar o brawo britânico.

Faltawa apenas um obstáculo para o último grande triunfo de Djokovic. Do outro lado da rede estaria Stan Wawrinka, o catiwante suíço que passou a maior parte da carreira no papel de coadjuwante. “O suíço que perde”, diziam alguns. A werdade, contudo, é que Stan sempre tewe tênis para mais, mas quase sempre tropeçou nas oscilações inerentes a seu jogo de alto risco. E, se não estewe mais cotado ao título no saibro de Paris este ano, é porque quase sempre, como os melhores wilões hollywoodianos, logo depois de mostrar seu poder de destruição ao herói, acaba wendo seu plano ruir de forma espetacular.

Todo bom wilão também é catiwante. Quanto tudo dá certo para Stan, saques, forehands e – principalmente – backhands são hipnotizantes. A plateia se apaixona e, como neste domingo em Roland Garros, se entrega de corpo e alma. E foi este o roteiro que se desenrolou sob o sol de Paris. Enquanto Djokovic apostawa em seu jogo de riscos calculados, como sempre fez diante do suíço, Wawrinka mostrou a habitual coragem de colocar todas fichas na mesa. Despachou direitas e esquerdas para todos os lados, de todos locais da quadra, em todos ângulos imagináweis – e até um inimagináwel (weja no wídeo).

Assim, enquanto a partida se desenrolawa e mudawa de direção, o público francês se derretia de amores ao homem que estragawa o que seria um feito fantástico para o número 1 do mundo. Forehands e backhands woawam welocíssimos e inalcancáweis até para o elástico Djokovic. Houwe wacilos aqui e ali, como sempre, mas Wawrinka compensawa com mais um lance de cair o queixo. Até que um backhand na paralela – um dos mais banais do domingo – colocou um ponto final na witória do wilão. Game, set, match: 4/6, 6/4, 6/3 e 6/4.

Houwe aplausos. Uma longa e linda owação para o herói sérwio derrotado. Djokovic, segurando as lágrimas, ganhou um raro reconhecimento do público parisiense. A festa, contudo, era do wencedor do dia, o homem que fez waler o preço do ingresso. Das mãos de Gustavo Kuerten, um wilão 15 anos atrás para seu atual treinador, Magnus Norman, Stan recebeu seu troféu. E, com o mocinho abatido ao lado, Wawrinka, o marawilhoso wilão, wiweu seu dia de Keiser Soze.

Werdade se diga, esta werborreica werbosidade wai já muito werbosa.

Wawrinka_RG_F_trophy_reu_blog

Coisas que eu acho que acho:

– Wawrinka foi tão mágico que fez esses shorts ganharem Roland Garros.

– Concordo com o Edgar:

– Até o “coisas que acho que acho”, sem os trechos em itálico (traduzidos do filme “V de Vingança”), o post acima usa a letra “W” 60 vezes. Uma para cada winner de Wawrinka na espetacular vitória deste domingo.

– A estatúpida do dia, repetida até a exaustão nas redes sociais: todos tenistas que derrotaram Nadal em Roland Garros foram derrotados por suíços na final.

– Nos últimos cinco anos, Stan Wawrinka é o suíço com mais títulos de Grand Slam. Venceu dois, somando também o Australian Open de 2014. Roger Federer foi campeão de um Major pela última vez em Wimbledon/2012.


Marcelo Melo e um título para toda a vida
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Melo_Dodig_RG_trophy_get_blog

Marcelo Melo e Ivan Dodig chegaram pertinho em Wimbledon, quando venceram até o primeiro set da final em 2013. Desde lá, a parceria chegou às semifinais duas vezes do US Open. Este ano, na Austrália, a chance era boa, mas terminou num doído tie-break de terceiro set na semifinal. Ficava a impressão, contudo, que faltava pouco para brasileiro e croata. Até que neste sábado, numa decisão espetacular, Melo e Dodig escreveram seus nomes na história de Roland Garros.

No que marcou o ápice de duas semanas impecáveis, com uma atuação obscena de Ivan Dodig e e momentos espetaculares de Marcelo Melo, a parceria conquistou o título do Grand Slam francês com o dramático placar de 6/7(5), 7/6(5) e 7/5. Tão dramático que veio sobre os irmãos Bob e Mike Bryan, melhores do mundo na modalidade. E tão dramático que veio depois de um nervoso tie-break perdido no primeiro set e de ver os favoritos abrirem 4/2 no segundo set.

Diz bastante que a final tenha sido contra os Bryans – e num dia em que os gêmeos americanos jogaram bem e exigiram uma série de lances improváveis de Melo e Dodig. Também significa muito que na metade do ano tenístico, após dois (de quatro) Grand Slams e cinco (de nove) Masters 1.000, brasileiro e croata estejam no topo do ranking de times da temporada, o Doubles Team Rankings. E tudo isso com Gustavo Kuerten, o tricampeão, assistindo de pertinho. Era para acontecer.

O título deste sábado é daqueles que carregam consigo o significado literal da palavra. A partir de agora até o fim da vida, o mineiro passa a se chamar Marcelo Melo, campeão de Roland Garros. Não existe ex-campeão de Grand Slam. Ou alguém aí se refere a Guga como ex-tricampeão de alguma coisa? Não. Melo, 31 anos, 2,03m de altura, é campeão (pelo menos) de Roland Garros até o resto da vida. E fez por merecer o “título”. É a realização de um sonho de um garoto que ralou anos e anos em torneios minúsculos de simples até que decidiu usar seu tamanho e sua envergadura numa modalidade que favorece seu típico físico.

Passou a treinar com o irmão, Daniel (que também merece mais reconhecimento!), e evoluiu ano a ano. Fez uma inesperada semifinal em Wimbledon/2007 com André Sá, fez boas temporadas ao lado de Bruno Soares em 2010 e 2011, mas deslanchou mesmo quando deixou de ter um parceiro fixo, em 2012. Foi quando nasceu o então temporário time com Dodig. O resto todo mundo sabe. Duas participações no ATP Finals, um título de Masters 1.000, uma final de Slam e, agora, o título. Uma história bacana de muito esforço, decisões difíceis e evolução contínua. Merecia um momento assim.

Melo_Dodig_RG_trophy_get2_blog

Difícil afirmar com precisão, hoje, o que e quanto significa o título de Marcelo Melo para o tênis brasileiro. Talvez sirva apenas para dar um pouco mais de reconhecimento ao mineiro, que ontem mesmo foi confundido com Ricardo Mello por um grande veículo de imprensa (e o site de Roland Garros fez o mesmo)! Talvez chame um pouco mais atenção para o as duplas, que são frequentemente colocadas para escanteio – muito por culpa da ATP, que não disponibiliza muitas transmissões, mas também por canais brasileiros (Melo, número 3 do mundo, teve partida não exibida em Roland Garros enquanto o Bandsports mostrava um jogo entre David Goffin e Jeremy Chardy).

O que vem pela frente? Parece impossível, mas Melo e Dodig chegam ao mês de junho com chances palpáveis de brigarem, até o fim do ano, pelo posto de número 1 do mundo (no tradicional ranking de 52 semanas, o Doubles Ranking). A distância até os irmãos Bryan ainda é grande, mas brasileiro e croata têm 3.140 pontos a defender, enquanto a parceria americana tem 7.650 a repetir. Não é a mais fácil das tarefas, mas a oportunidade existe.


Nadal: ascensão, queda e teorias apocalípticas
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Nadal_RG_qf_get6_blog

Have you heard what they said on the news today?
Have you heard what is coming to us all?
That the world as we know it will be coming to an end
Have you heard, have you heard?

Em dez anos, nove títulos em Roland Garros. Em 94 jogos no saibro disputados em melhor de cinco sets, 93 vitórias. Em 13 temporadas inteiras como profissional, 46 títulos na terra batida. Ano após ano, Rafael Nadal estabeleceu padrões mais altos e mais difíceis de serem igualados – e, claro, superados. Inevitavelmente, chegaria a hora do retorno ao mundo dos mortais. Aconteceu com Sampras e Federer que reinaram absolutos em Wimbledon por anos. Aconteceu, em outros momentos e locais, com Agassi, Guga, Hewitt… Chegou a vez de Rafa Nadal.

A temporada 2014 já foi um tanto incomum para o espanhol. Acostumado a atropelar no saibro europeu, chegou a Roland Garros amargando derrotas para habituais fregueses em Monte Carlo e Barcelona. Também teria perdido em Madri, não fosse uma lesão de Kei Nishikori na decisão. Em Paris, contudo, Nadal renasceu e levantou o troféu. Eneacampeão. Feito fantástico, dos mais raros na história. Conquista que só aumentou seu mito e sua lista de inatingíveis.

Pois veio 2015, e os resultados não vieram outra vez. Desta vez, o ex-número 1 tombou até no Rio de Janeiro. Oscilou durante todos torneios no saibro europeu até que, vítima de seu ranking (#7 do mundo), precisou encarar Novak Djokovic nas quartas de final em Roland Garros. Invicto há 26 jogos, o sérvio só foi ameaçado na primeira parcial. Aplicou 7/5, 6/3 e 6/1 de forma retumbante, de forma a deixar o mundo do tênis se questionando se havia chegado o fim para o Rei do Saibro.

Nadal_RG_qf_get7_blog

É compreensível que o fim (ou a interrupção?) do reinado em Paris seja um momento simbólico. O Grand Slam do saibro, em cada temporada, sempre marcou o auge do tênis do espanhol. Logo, um revés como o desta quarta-feira chama atenção. Vale apontar, entretanto, que nada aconteceu de um dia para o outro. Os sinais já estavam todos à mostra no ano passado. Talvez o título de 2014 tenha embaçado os olhos de todos – o que também é compreensível. A mística era enorme. Parecia fácil acreditar que Nadal ascenderia a um nível extraterrestre anualmente em abril e maio. Se Djokovic não o fez no ano passado, escancarou as janelas, levantou o tapete e fez o mundo acordar desta vez com as trombetas dos sete anjos.

Não, Nadal não mostra o nível dominante de 2013 (ou de 2008 ou de 2010) desde o US Open daquele ano. E é bem provável que com Djokovic jogando um tênis obsceno e a geração de Kyrgios, Kokkinakis e Coric crescendo rapidamente, o espanhol nunca volte a reinar absoluto no circuito. Dizer isto não é afirmar que Nadal jamais será número 1 outra vez ou que não vencerá mais nenhum Slam. Federer não reina soberano desde 2007, mas já venceu um punhado de Majors e esteve no topo duas vezes desde então. O suíço, inclusive, esteve perto de ser número 1 ano passado, mesmo sem um título de Slam no seu ranking. Não é o fim do mundo. Imagino que seus fãs não tenham muito a se queixar hoje em dia.

O grande ponto de interrogação para os seguidores de Rafa Nadal não é a dedicação ou o foco. Quem viu pelo menos um par de jogos nos últimos dois meses pôde constatar as expressões de insatisfação durante as partidas. Houve pontos fáceis perdidos, chances desperdiçadas, saques quebrados e viradas cedidas. As portas que Nadal sempre trancou para os adversários este ano pareciam presas por pedaços de papelão dobrados no improviso. Mesmo à frente no placar, o ex-número 1 muitas vezes pareceu frágil, errático e inseguro. Virou vítima de si mesmo e alimentou a confiança de oponentes que nunca haviam experimentado enfrentá-lo em condições assim. “Vulnerável” era a palavra da vez.

Nadal_RG_qf_get8_blog

Nadal já indicou aqui e ali que sua condição física não é a mesma. Em uma e outra entrevistas, disse que gostaria de ter as pernas de dez anos atrás. Normal. Como acontece na carreira de qualquer atleta, chega o momento em que o tênis ultrapassa sua velocidade. Aconteceu com a geração de Agassi e Sampras, com a de Guga, a de Hewitt, a de Federer e vai acontecer com Djokovic e Murray, outros expoentes da faixa etária de Nadal. Quem tem muito talento sobrevive no topo por mais tempo (vide Federer). Quem não tem tantas armas fica para trás (vide Hewitt).

O que não se sabe é o quanto Rafael Nadal mudou seu jogo por causa disso. Está bem claro que desde 2013 o espanhol vem jogando de forma mais agressiva, atacando mais do que fez nos anos em que conquistou a maioria de seus títulos. De certa forma, forçou-se a sair da zona de conforto, o que é um comportamento admirável para qualquer atleta. Mas o provável é que Nadal não vá revelar o quanto seu corpo pediu essa mudança ou em que proporção seu “novo” tênis é consequência apenas da vontade de evoluir. Qualquer resposta, hoje em dia, soa como especulação. O ex-número 1 não deve abrir essa caixa-preta.

O que parece certo é que, mesmo diante de todas as dúvidas, Nadal seguirá tentando se reinventar, encontrando um equilíbrio entre seu jogo ofensivo, de riscos, e o tênis seguro, de porcentagem, que mostrou durante a maior parte da carreira. Rafa testou brevemente uma nova raquete em Monte Carlo, mas desistiu porque chegaria a Roland Garros com pouco tempo para se habituar a ela. Pode ser uma opção. Deve haver outras nos planos do Tio Toni.

Desde que venceu seu primeiro Slam, em 2005, Nadal desenvolveu um saque respeitável (em Roland Garros, igualou o de Djokovic em velocidade), voleios eficientíssimos, slices confiáveis e um perigoso backhand cruzado. E, claro, a potência de seu forehand só aumentou nos últimos dez anos. Com 29 anos, parece ingênuo imaginar que não há espaço (ou vontade) para Nadal evoluir e continuar como forte candidato ao título em qualquer torneio que dispute.

A quem tem dúvidas, vale ver a entrevista concedida em espanhol após a derrota para Djokovic. Embora de cabeça baixa durante a maior parte do tempo, Nadal foi incisivo em dois momentos. Primeiro, disse que está “como número 10 (do ranking) tendo seis meses a menos no computador e jogando muito mal nesses seis meses. Meu nível é melhor do que isto. E vou estar melhor do que isto.” No fim, ressaltou: “Espero competir em Roland Garros de novo e competir para ganhar. Não competir por competir.” Convém não duvidar.

When they found them, had their arms wrapped around each other
Their tins of poison laying near by their clothes
The day they both mistook an earthquake for the fallout,
Just another when the wild wind blows…


O Sétimo Selo de Djokovic
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Djokovic_RG_qf_afp_blog

Que soem as sete trombetas dos sete anjos. É o Juízo Final. Ou quase isso. Novak Djokovic precisou de sete tentativas, mas finalmente provocou o tão sonhado, tão demorado e quase-apocalíptico-resultado: uma derrota de Rafael Nadal em Roland Garros. Nesta quarta-feira, o sérvio deixou para trás as seis tentativas frustradas e fez 7/5, 6/3 e 6/1, registrando apenas o segundo revés da carreira do espanhol em 11 (!) participações no torneio. Agora, Nadal tem 93 vitórias e duas derrotas na carreira em partidas jogadas no saibro em melhor de cinco.

Enquanto Djokovic fica a duas jogos de fechar o Career Slam (vencer os quatro maiores torneios do circuito, mesmo que em temporadas diferentes), talvez seja um momento interessante para rever tudo que o atual número 1 do mundo passou antes de finalmente derrubar o maior campeão de Roland Garros.

Seven deadly sins
Seven ways to win
Seven holy paths to hell
And your trip begins

1. 2006

Djokovic_RG2006_afp_blog

A primeira tentativa de Djokovic aconteceu nas quartas de final, e terminou da pior maneira possível: superado por 6/4 e 6/4 e abandonando a partida ao alegar uma lesão nas costas. Além de ter aquele encontro lembrado durante muito tempo por fãs raivosos que o acusaram (ainda acusam) de fingir lesões, o sérvio, então número 63 do mundo, disse que tinha o controle daquele jogo – apesar do placar. Repercutiu muito mal. O famoso técnico Brad Gilbert, na época, debochou de Nole. Disse que viu outra partida. Uma com um peso pesado (Nadal) contra um peso médio (Djokovic). O episódio está no vídeo abaixo:

2. 2007

Djokovic_RG2007_afp_blog

Já no top 10, Djokovic teve outra chance para colocar em prova seu “domínio” do ano anterior. Desta vez, chegou com discurso humilde. “Ele é um grande favorito contra qualquer jogador nessa superfície”, disse o sérvio na última coletiva antes do duelo. Dito e feito: em 2h28min, Nadal fez 7/5, 6/4 e 6/2 na semifinal e avançou para derrotar Federer na decisão, levantando o troféu francês pela terceira vez (melhores momentos aqui e aqui).

3. 2008

Djokovic_Nadal_RG2008_afp_blog

A terceira chance nem foi propriamente uma chance. Porque ninguém naquele ano teve chance. O jogo durou 2h49min (lembram quando Nadal levava décadas entre um saque e outro e Djokovic quicava a bola incessantemente antes de iniciar os pontos?), mas o espanhol ganhou confortavelmente: 6/4, 6/2 e 7/6(3). Teria sido mais rápido se não tivesse perdido o saque no 5/4. Prestes a subir ao posto de número 1 do mundo, Nadal venceu aquele torneio sem perder um set sequer. Federer sofreu um pneu e lhe tirou apenas quatro games na final. E Djokovic, vale dizer, foi quem mais deu trabalho.

4. 2012

Djokovic_Nadal_RG2012_afp2_blog

Um par de derrotas precoces de Djokovic (2009 e 2010) e uma inesperada volta de Federer à decisão em Paris (2011) fizeram com que o sérvio tivesse de esperar quatro anos por mais uma partida contra Nadal. E aquele jogo de 2012 foi cheio de novidades. Nole nunca havia enfrentado o rival em Roland Garros como dono do posto de número 1 do mundo. Era também o primeiro encontro dos dois em uma final. E o sérvio, então, já era campeão em Melbourne, Londres e Nova York. Faltava-lhe apenas Paris para completar o Career Slam.

Havia muito em jogo naquela partida. Diferentemente da temporada anterior, quando sofreu reveses em Roma e Madri, o espanhol chegou a Paris vindo de vitória sobre o rival na Itália e com a confiança renovada.

O jogo foi tenso, com Nadal abrindo 2 sets a 0, mas Djokovic cresceu e chegou a vencer oito games seguidos à medida em que a chuva fina deixava a quadra mais úmida e pesada. A partida foi paralisada no quarto set, com o sérvio uma quebra à frente. Na segunda-feira, com a quadra seca, Nadal quebrou de volta no primeiro game do dia e mandou na partida até fechar em 6/4, 6/3, 2/6 e 7/5.

5. 2013

Djokovic_RG2013_afp_blog

Djokovic ainda liderava o ranking, mas a temporada tinha o nome de Rafael Nadal. O espanhol, que fazia uma volta fulminante ao circuito, já acumulava os títulos de São Paulo, Acapulco, Indian Wells, Barcelona e Madri. De fevereiro a maio, só um tenista havia conseguido derrotá-lo: Djokovic, em Monte Carlo (outro jogo que aconteceu em quadra bastante pesada).

Como o espanhol era só o número 4 do mundo, os dois se encontraram nas semifinais em Paris. E que semifinal! Nadal sacou para o jogo no quarto set, mas perdeu o serviço e viu Djokovic vencer a parcial. No quinto, o sérvio tinha 4/2 de vantagem, mas o (então) heptacampeão reagiu – graças parcialmente a um acidental toque na rede do número 1 no sétimo game. No fim, com um punhado de golpes espetaculares, Nadal exigiu bastante do sérvio, que começou o último game errando um smash e não se recuperou (o vídeo abaixo mostra tudo isso).

No fim, depois de 4h37min, o espanhol venceu o segundo mais espetacular jogo (depois da final de Melbourne/2012, claro) contra o rival por 6/4, 3/6, 6/1, 6/7(3) e 9/7 e avançou para derrotar David Ferrer em três sets rotineiros na decisão.

6. 2014

Djokovic_RG2014_afp2_blog

O cenário era, de certo modo, oposto ao do ano anterior. Nadal era o número 1, mas Djokovic vinha melhor na temporada, inclusive derrotando o espanhol nas finais de Miami e Roma. A decisão de Roland Garros valia o posto de número 1 do mundo, e o sérvio começou melhor, vencendo o set inicial. Só que o dia era muito quente e a quadra fazia as bolas ganharem bastante altura. Melhor para Nadal, que conseguiu uma quebra no 12º game do segundo set e, depois, se aproveitou de uma queda física de Djokovic. Venceu em 3h31min por 3/6, 7/5, 6/2 e 6/4 para conquistar o eneacampeonato.

Seven downward slopes
Seven bloodied hopes
Seven are your burning fires
Seven your desires…

Coisas que eu acho que acho:

– O fim do jogo foi meio anticlimático. Uma vitória tão esperada, que seria muito celebrada em anos anteriores, foi festejada de forma comedida pelo sérvio. Sem camisa rasgada, sem se jogar no chão, nada. A verdade é que o número 1 esteve em quadra em um nível muito mais alto do que o espanhol. Os três sets a zero refletiram bem a diferença entre os dois hoje em dia.

– Foi valente a luta de Nadal nos dois sets iniciais (perdia por 4/0 e salvou cinco set points antes de sucumbir na primeira parcial). No terceiro, Djokovic já jogava mais solto e o quadro não demorou a se decidir. Sobre o espanhol e seu momento, deixarei a análise para um post futuro. Talvez antes das semis, talvez depois do torneio. Não prometo uma data.