Saque e Voleio

Arquivo : rio 2016

O que falta para o Centro Olímpico ser mesmo do tênis brasileiro?
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Alexandre Cossenza

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No último fim de semana, a CBV realizou, em parceria com a TV Globo, um evento de vôlei de praia no Centro Olímpico de Tênis. Cerca de 280 toneladas de areia foram colocadas na quadra central, transformando o palco da final entre Andy Murray e Juan Martín del Potro em uma praia tropical, com direito a pequenas palmeiras e tudo mais.

Visualmente, ficou tudo muito bonito – como mostra a foto acima. Mas a imagem também levanta uma série de perguntas:

– Por que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) está usando as instalações do tênis, enquanto a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), que tanto falou em usar o local como sua casa, acaba de levar sua sede de São Paulo para Florianópolis?

– Por que a Asics, que tanto investiu no tênis recentemente, optou por não renovar os contratos de quase todos seus tenistas (só Bruno Soares foi renovado) e levar seu dinheiro para o vôlei?

Seria porque a CBV tem um CEO profissional? Ou porque tem um CT organizado e bem estruturado? Ou porque tem um trabalho de base eficiente, que gera novos talentos a cada ano? Ou porque organiza uma bela liga profissional? Ou porque simplesmente conquista resultados em nível mundial? Ou porque seu presidente não é réu em um processo na Justiça Federal?

Nos últimos dias, procurei CBT, CBV, Asics e Ministério do Esporte. Também consultei pessoas do meio que falaram em condição de anonimato. As respostas, infelizmente, trazem poucas novidades. A CBT continua falando em “intenções”, com nenhum resultado prático. O Ministério do Esporte ainda trabalha para estabelecer procedimentos. De prático mesmo, só as ações e o evento da CBV. Vejam quem disse o quê:

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Gigantes da Praia

Por que a CBV teve direito a usar a quadra central para seu evento? Porque foi competente e reconheceu no espaço uma oportunidade. Procurou o Ministério do Esporte, fez uma proposta e teve sucesso. Em vez de gastar mais de R$ 1 milhão de reais em um evento na praia, fez tudo com um orçamento de aproximadamente R$ 500 mil no Centro Olímpico. No espaço do tênis, a CBV deixou de gastar com montagem de estrutura e com taxas pagas à União pelo uso do espaço na praia. No fim das contas, uma economia estimada em mais de 50%.

Em troca pelo uso do local, a CBV se comprometeu a instalar alguns guarda-corpos, a fazer a limpeza do Centro Olímpico de Tênis e a dar retoques de pintura na instalação. A entidade que comanda o vôlei também prometeu tomar todos cuidados para não danificar a quadra de tênis. Usou três camadas de lona de alta resistência para cobrir o espaço que recebeu a areia, evitando contato direto; instalou um tablado no percurso onde a mini carregadeira passava levando areia; e vedou o sistema de escoamento com mantas impermeáveis para evitar que chuva ou vento levassem areia aos dutos.

A operação de montagem da arena de vôlei de praia contou com 11 pessoas e durou quatro dias. Números e informações foram passadas ao autor deste blog pela própria CBV.

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CBT: ainda só na intenção

Se há uma possibilidade de usar o Centro Olímpico como casa do tênis, por que a CBT se apressou tanto ao levar sua sede de São Paulo para Santa Catarina no fim do ano passado? Será mesmo que a entidade quer se basear no Rio? Há tempos, o presidente da CBT, Jorge Lacerda, fala em aproveitar o Centro Olímpico. No entanto, não se viu nada de prático até hoje. Enviei perguntas à CBT e obtive as respostas abaixo – assinadas por Lacerda.

A CBT ainda tem interesse de usar o COT como sede da entidade?
A CBT foi a primeira Confederação a buscar o diálogo com as entidades então responsáveis, demonstrando total interesse desde sempre.

Que medidas a entidade tomou junto ao Ministério?
Tivemos uma conversa produtiva hoje (segunda-feira, dia 6 de fevereiro) com o ministro Leonardo Picciani e vamos buscar avançar na parceria e viabilidade de absorção do legado olímpico de tênis.

O que falta para que o COT venha a ser, de fato, a sede da CBT?
O Ministério assumiu no dia 23/12/16 a administração do Parque Olímpico. Embora recente, o ME já está buscando conversar com as Confederações, inclusive a CBT para, em conjunto, encontrar a melhor solução de forma que o parque olímpico do tênis seja dirigido pela CBT.

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Ministério: fase de estudos

O Ministério do Esporte, que passou a ser o responsável pelo Parque Olímpico em dezembro, ainda não definiu um conjunto de procedimentos para o uso das instalações. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, que enviou as respostas abaixo (reproduzidas na íntegra), tudo ainda está em fase de estudos.

Qual o procedimento para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Havendo interesse de alguma entidade/órgão em utilizar qualquer uma das arenas sob responsabilidade do Ministério do Esporte, deverá enviar um ofício manifestando interesse e data do evento.

Qual o custo por dia?
Ainda não há definição de custo. O Ministério está elaborando uma proposta de custos por meio de estudos da legislação específica. Os eventos testes servem para ajustar os parâmetros de cobrança a serem estabelecidos.

Qualquer empresa (pública ou privada) pode alugar o local?
Nas áreas de propriedade da União a permissão de uso é aberta para todos (empresa pública ou privada). No caso do Parque Olímpico, em posse do Ministério do Esporte, os estudos avançam para a utilização dos mesmos parâmetros das áreas de propriedade da União.

Que requisitos são necessários preencher para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Consideramos que estamos na fase de estudos para definição de critérios objetivos, estamos realizando eventos testes exclusivamente com entidades do desporto.

A CBT já procurou o Ministério para negociar o uso do Centro Olímpico de Tênis como sede da entidade?
Positivo, inclusive a CBT na data de hoje [segunda-feira, 6 de fevereiro] formalizou sua intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis. A negociação ainda está em andamento.

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Banana Bowl: é possível?

É inevitável mencionar o Banana Bowl, importante evento juvenil realizado pela CBT e que mudou de sede novamente este ano – foi levado para Criciúma e Caxias do Sul, onde está sendo realizado nesta semana. Seria fantástico – e simbólico inclusive – se um evento desse porte fosse realizado no Centro Olímpico. Seria o maior dos legados. Uma instalação herança dos Jogos Olímpicos sendo usada para o benefício de jovens atletas.

É óbvio que não é simples assim. As quadras do Centro Olímpico são de piso duro, e o Banana Bowl é jogado em saibro – inclusive está encaixado em uma parte do calendário internacional que prioriza a terra batida. Mas será que um dia poderíamos ver algo assim acontecendo? Seguem respostas de Jorge Lacerda sobre o assunto:

Por que o Banana Bowl foi levado para Caxias e Criciúma?
O Banana Bowl não tem sede fixa. É um torneio que possui um caderno de encargos robusto, e que exige a necessidade que a CBT busque parceiros para a realização do mesmo. As Federações gaúcha e catarinense, juntamente com os clubes e governos locais, que estão recebendo as categorias 14/16 (Recreio da Juventude/Caxias) e 18 anos (Sociedade Recreativa Mampituba/Criciúma), estão engajadas nesse processo e viabilizando parceiros locais, mantendo a qualidade do evento e minimizando os custos.

O que seria necessário caso a CBT desejasse realizar o Banana Bowl no Centro Olímpico de Tênis? Quais seriam as formalidades junto à ITF?
A CBT sempre vai buscar equacionar as questões financeiras com a melhor entrega do evento para os tenistas, técnicos e espectadores. Para encontrar a fórmula ideal, é necessária a participação das entidades regionais, inclusive os Governos Estaduais e/ou Municipais. Não há dúvidas de que uma vez tendo estas questões dirimidas, o Centro Olímpico de Tênis tem todas as condições de receber o Banana Bowl. De qualquer forma, a CBT nunca falou em fazer o Banana Bowl neste ano no COT, pois a decisão teve que ser tomada no ano passado, época em que o COT ainda estava sobre posse da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, sem definição de quando poderia ser utilizado.

É viável financeiramente fazer o Banana no COT?
É viável, mas são necessárias as parcerias citadas anteriormente. O Banana Bowl demanda, por regra, oferecer hospedagem, alimentação e transporte para todos os técnicos e jogadores, em hotel padrão 4 estrelas, só para citar um dos exemplos de custos que se tornam elevados para a promoção do mesmo.

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Asics: os números e a opção pelo vôlei

O grande elefante na sala é a Asics, fabricante de material esportivo que deixou o tênis no fim de 2016 para investir pesado no vôlei. O porquê da mudança? Algum porta-voz da empresa poderia ter escolhido um dos motivos que listei no quinto parágrafo deste texto. No entanto, a assessoria de imprensa da Asics informou que a marca não se pronunciaria sobre o assunto.

Sem uma posição oficial, recorri a contatos com bom trânsito no meio e que tiveram acesso a detalhes de conversas contratuais. Segundo essas pessoas, que falaram em condição de anonimato, a decisão foi tomada unicamente pelo atual presidente da Asics Brasil, Gumercindo Moraes Neto, que assumiu o cargo em agosto de 2015. Na época, os contratos do tênis estavam em curso. Ao fim de 2016, quase nenhum compromisso foi renovado na modalidade (Bruno Soares é exceção).

Gumercindo Moraes Neto é visto no meio como uma pessoa “de números” e com pouca intimidade com o esporte. Com essa visão, é fácil entender o investimento em um esporte com mais visibilidade em TV aberta, que traz medalhas e todo tipo de resultados e que, segundo todas pesquisas, é a segunda modalidade mais praticada no país. Mas será que a volta ao vôlei precisava significar a saída quase total do tênis?

Coisas que eu acho que acho:

– Pode ser paranoia ou pessimismo (e meu pessimismo não é segredo nenhum), mas me preocupa o fato de a CBT insistir em dizer que tem interesse em usar o Centro Olímpico como sua sede, mas o Ministério do Esporte responder que a CBT fala “na intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis”. Mas se você é otimista, a ausência da palavra “sede” na resposta do Ministério não deve indicar nada.

– Com a CBV deixando bastante claro o quanto se economiza ao aproveitar as instalações prontas do Centro Olímpico de Tênis, fica mais difícil para a CBT justificar, no futuro, a realização de um confronto de Copa Davis fora do Rio de Janeiro. Digo “mais difícil”, não “impossível”. Afinal, já ouvimos explicações, digamos, “criativas” durante a gestão de Jorge Lacerda.

– O Centro Olímpico também poderia ser palco do torneio WTA que a CBT realizou em Florianópolis nos últimos anos. Após uma primeira edição promissora, a entidade não conseguiu atrair nomes e transformou um evento internacional em um torneio minúsculo, com apelo apenas regional. O último, realizado na semana anterior aos Jogos Olímpicos, beirou a insignificância. O evento foi vendido pela CBT e será realizado em outro país.

– A nota triste do fim de semana fica por conta do furto de uma câmera e uma lente do fotógrafo Alexandre Loureiro, que trabalhou no Gigantes da Praia, no Centro Olímpico de Tênis. São deles, inclusive, as primeiras imagens deste post.

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Quadra 18: S02E11
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Alexandre Cossenza

Os Jogos Olímpicos Rio 2016 mal acabaram, e o US Open já está aí batendo à porta, sem deixar ninguém descansar e mantendo lá no alto a temperatura do mundo do tênis. Por isso, o episódio desta semana do podcast Quadra 18 é uma pizza metade Rio 2016, metade US Open. Quer dizer, sendo bem sincero mesmo, a divisão ficou 2/3 Errejota, 1/3 Nova York, o que é muito justo já que o torneio olímpico de tênis foi melhor do que muito Slam.

Neste episódio, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu lembramos dos melhores momentos dos Jogos Rio 2016 e compartilhamos episódios emocionantes e curiosos vividos na Cidade Maravilhosa, mas não deixamos de lembrar como está desenhado o cenário pré-US Open. Quer ouvir? É só clicar neste link. Se preferir baixar e ouvir depois, clique com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Cossenza apresenta os temas
1’55” – O torneio olímpico de tênis foi tão marcante quanto um Slam?
5’31” – Os duplistas mineiros no torneio olímpico
7’38” – A boa chance de medalha para Melo e Soares
10’00” – A chave que se abriu sem Herbert/Mahut e Cabal/Farah
13’00” – A medalha que escapou de Daniel Nestor
13’40” – O nível altíssimo de André Sá nos Jogos Olímpicos
15’20” – A inesperada campanha de Thomaz Bellucci até as quartas
17’44” – Del Potro x Djokovic foi o melhor jogo do torneio?
21’15” – A inteligência do jogo agressivo e do slice de Del Potro
23’13” – Djokovic: a sintonia com o público brasileiro, as lágrimas, o que significou a derrota e o que pode vir a acontecer em Tóquio 2020
26’02” – O mistério sobre a lesão de Djokovic antes do US Open
27’30” – Nadal: a maratona, a medalha, as reclamações e o comprometimento
31’50” – Murray: o favoritismo, a obrigação e os (muitos) dramas
34’03” – Mónica Puig e a medalha de ouro na chave feminina
38’10” – As derrotas de Serena e Muguruza, maiores surpresas do torneio
39’09” – O pódio feminino e o “espírito de Fed Cup”
41’05” – O ouro olímpico seria o começo de uma arrancada de Mónica Puig?
44’05” – A loucura do estádio olímpico vibrando com Kirsten Flipkens
44’55” – Serena e Venus decepcionaram?
47’10” – Os resultados de Teliana e Paula Gonçalves no Rio
48’48” – A bolada de Martina Hingis em Andrea Hlavackova
51’30” – O ouro das “brunetes” Makarova e Vesnina
52’58” – O momento de Cossenza com Leander Paes
57’06” – A pergunta mais importante: quem pegou zika?
58’13” – Música em homenagem a Mónica Puig
58’50” – O comportamento da torcida: brasileiros acertam quando vaiam?
66’25” – Os encontros olímpicos de Aliny Calejon com Marin Cilic e Horia Tecau
73’10” – Os encontros de Cossenza e Sheila com Robin Soderling
74’00” – Outros esportes que vimos nos Jogos Rio 2016
77’21” – O drama de Sheila para ver Usain Bolt
82’21” – Engenhão à meia-noite: Cossenza “recomenda”
84’20” – Por que os episódios do podcast Quadra 18 são tão longos?
86’37” – Empire State of Mind (Jay Z featuring Alicia Keys)
87’11” – O US Open e suas novidades como o teto retrátil e a Grandstand
87’50” – Chave masculina está mais indefinida do que nos últimos Slams?
90’51” – A briga entre Serena e Kerber pelo posto de #1 do mundo
92’00” – Recordes que Serena pode bater nas próximas semanas
95’45” – O que esperar dos brasileiros nas duplas?
99’25” – As chances de Marcelo Melo voltar ao topo do ranking após o US Open
102’37” – Carry Me (Kygo featuring Julia Michaels)


Meus 11 momentos inesquecíveis do tênis nos Jogos Olímpicos Rio 2016
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Alexandre Cossenza

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Quando o último slice de Juan Martín del Potro ficou na rede, já entrando na noite de domingo, o cenário estava claro há muito tempo. Todo mundo sabia quem quem veio ao Rio por amor e quem deixou de estar nos Jogos Olímpicos porque preferiu sair em busca de pontos e cachês. E quem esteve no Parque Olímpico nos últimos nove dias viu e entendeu que as ausências não diminuíram em nada o torneio olímpico de tênis. Exemplos não faltaram. Os que me marcaram estão aqui.

Kirsten Flipkens, maior aqui do que na Bélgica

Soou estranho para a imprensa estrangeira, que demorou um pouco para entender que o público da quadra central gritava “Flipkens, Flipkens” empurrando a tenista rumo à primeira zebra do torneio. A belga, que eliminou Venus Williams na primeira noite do evento, disse que nunca ouviu isso – nem no seu país. Traçou uma relação com dez anos atrás, quando a Bélgica jogou a final da Fed Cup. Disse ter saído arrepiada da quadra carioca.

A noite inesquecível de André Sá

Aos 39 anos e possivelmente em sua última participação olímpica (ganhou convites em Londres e no Rio), André Sá teve uma vitória à altura de sua carreira. Carregou Thomaz Bellucci nas costas, levantou o público, fez jogadas maravilhosas e eliminou a dupla cabeça 2, formada pelos irmãos Andy e Jamie Murray: 7/6(6) e 7/6(14). Sá e Bellucci perderam na sequência para Fognini e Seppi (até porque a combinação saque de Sá + Bellucci na rede é difícil de sustentar), mas o mineiro nos deu uma lembrança para o resto da vida.

O caso de amor com Novak Djokovic

No mesmo dia e no mesmo horário, na quadra central, Novak Djokovic enfrentava Juan Martín del Potro. Um jogaço de dois tie-breaks com um público espetacular se dividindo entre os barulhentos e incansáveis argentinos e os brasileiros fãs de Djokovic. O sérvio foi eliminado e saiu de quadra às lágrimas, o que evidenciou o tamanho do seu desejo de conquistar um ouro olímpico. Aliás, o caso de amor do #1 com a torcida local foi outro ponto alto do torneio. Até na chave de duplas, enfrentando Bruno Soares e Marcelo Melo, Djokovic foi ovacionado e deixou a quadra aplaudido de pé. Sim, teve relação com o ótimo trabalho de sua imagem no Brasil, mas também teve muito a ver com sua entrega nos Jogos Olímpicos.

O embalo de Thomaz Bellucci

O #1 do Brasil contou com uma enorme dose de sorte – para azar de Dustin Brown, que estava a poucos games de eliminar Bellucci quando sofreu uma violenta torção no tornozelo. O paulista aproveitou e, diante da torcida, passou por Pablo Cuevas e David Goffin. Duas partidas emocionantes em que o público manteve o tenista da casa motivado, mesmo com suas habituais inconstâncias. Bellucci ainda jogaria um primeiro set mágico contra Rafael Nadal antes de as 12 badaladas soarem e transformarem sua carruagem em abóbora. As vitórias não valeram pontos, mas serviram para alimentar a esperança de que o número 1 do Brasil ainda possa vir a ser o tenista que todo mundo sempre quis acreditar que ele seria.

O sacrifício de Rafael Nadal

Ele deixou de jogar em Wimbledon e nunca escondeu que ainda estaria em repouso se não fosse a possibilidade de estar nos Jogos Olímpicos. Nadal, que não esteve em Londres 2012, usou tudo que tinha no tanque no Rio de Janeiro. Foi campeão de duplas ao lado do amigo Marc López e talvez tivesse ido mais longe nas simples se tivesse de onde tirar energia. Jogou com o punho esquerdo incomodando, disputou 15 sets em quatro dias (e 26 no total) e carregou a bandeira do país na cerimônia de abertura. Tudo isso por estar nos Jogos, hospedado na vila dos atletas, sem mordomia e sem ganhar um centavinho.

O beijo de Juan Martín Del Potro

Depois de seguidas cirurgias e longos períodos de recuperação com pouco sucesso, estar nos Jogos Olímpicos era uma vitória por si só para o argentino. Mas ele derrubou Djokovic e Nadal antes de sucumbir a Andy Murray na final. Foi, de longe, a história mais bonita do torneio. Desde o longo abraço no sérvio na segunda noite do torneio, incluindo um beijo nos aros olímpicos pintados na quadra até carinho com o escocês após a final.

A emoção de Leander Paes

Aconteceu longe das TVs. A participação de Leander Paes em seus sétimos Jogos Olímpicos durou pouco. Ele e o parceiro Rohan Bopanna (que nunca quis a parceria) caíram na primeira rodada. Paes passou um bom tempo na zona mista. Quando todos foram embora, ficamos só nós dois. Ele chorou falando da relação com seu pai e da conversa que tiveram durante a abertura. Eu quase chorei lembrando do meu. Ele, então, lembrou da emoção de Atlanta 1996, quando ganhou o bronze. Disse coisas lindas sobre Fernando Meligeni, seu adversário naquele dia. Falou de Pelé, lembrou que algumas pessoas viam semelhança física entre ele (Paes) e Romário, disse que atletas de países como Brasil e Índia entendem melhor o que é competir pela bandeira. Foi um papo curto, coisa de cinco minutos, mas que pareceu durar meia hora. Pessoalmente, foi a maior emoção que vivi nos Jogos até agora. Qualquer dia, transcrevo a conversa aqui.

As “brunetes”

Chegar ao Rio já foi difícil. Elena Vesnina e Ekaterina Makarova foram campeãs em Montreal, perderam a conexão rumo ao Brasil e tiveram problemas para encontrar um voo. Tiveram de abrir mão de seus bilhetes de classe executiva e entraram nos dois últimos assentos de um avião salvador. Chegaram prontas para tudo. Não reclamaram da vila nem da comida. Apareceram, jogaram e esbanjaram simpatia. Enquanto Vesnina falava, Makarova, que não tem inglês tão fluente quanto o da parceira, sorria. O ouro foi uma recompensa e tanto, e ouvir o hino russo no tênis foi mais especial ainda por causa de toda turbulência que colocou uma bigorna de desconfiança nas costas de quase todos atletas do país.

A conquista de Monica Puig

Há quem prefira decisões entre dois nomes de peso e diga que a final feminina não foi lá das melhores. Não sou tão radical. Adoro roteiros que incluem estrelas em ascensão, e Mónica Puig é uma delas. A porto-riquenha é um talento inegável. Entrou no top 50 três anos atrás, mas teve dificuldades para jogar todo seu tênis de forma consistente. No Rio, tudo funcionou. Puig atacou, defendeu e bateu Garbiñe Muguruza, Petra Kvitova e Angelique Kerber. Conquistou o primeiro ouro de seu país e vai voltar ao circuito com a confiança transbordando.

A derrota da dupla

Como escrevi no post anterior, a eliminação de Bruno Soares e Marcelo Melo nas quartas de final foi um grande baque. Não pelo resultado. Perder para Florin Mergea e Horia Tecau – medalhistas de prata – é completamente compreensível. O revés machucou mesmo porque o ambiente era bonito, com torcida empurrando e os mineiros jogando. E sempre havia a esperança de que algo mágico poderia acontecer. Não rolou. Jogadores e jornalistas pareciam abatidos na zona mista. Foi uma das entrevistas pós-jogo mais duras que vi.

O título de Andy Murray

Com as seguidas participações do bicampeão de Wimbledon na Copa Davis, ninguém pode questionar a dedicação de Andy Murray à Grã-Bretanha. No Rio, ele tentou encarar as três modalidades. Perdeu um jogo duríssimo nas duplas e não foi longe nas mistas, mas terminou a semana com a medalha de ouro de simples no peito. Não foi uma semana de tênis espetacular, mas o escocês conseguiu sair de situações delicadas.

Esteve perdendo por 3/0 no terceiro set diante de Fabio Fognini ainda nas oitavas de final. Venceu seis games seguidos e se salvou. Depois, nas quartas, esteve uma quebra atrás no terceiro set contra Steve Johnson. Devolveu a quebra e avançou no tie-break. Por fim, bolou um plano tático inteligente e o aplicou com paciência na final contra Del Potro. O primeiro bicampeão olímpico em simples. Enorme.

Coisas que eu acho que acho:

– A falta de um critério claro estabelecido pela CBT teve seu preço. Até a véspera da inscrição, ninguém sabia quem jogaria nas duplas mistas com Marcelo Melo. Houve problemas e discussões internas até que Teliana Pereira fosse escalada. Ela e Marcelo até venceram uma rodada na chave.

– A convocação de Paula Gonçalves nunca foi explicada (talvez porque os capitães e técnicos da CBT achem que não devem explicação a ninguém). Se Paula foi convocada só para as duplas, que critério foi utilizado? Ninguém falou, mas acredito que foi o chamado “critério técnico”, já que a duplista número 1 do país é (e era na época da convocação) Gabriela Cé.

– É pura questão de opinião, mas achei extremamente ruim a postura de Paula, que ria em quadra nos últimos momentos da derrota na chave de duplas. Não tinha ranking nem resultado para estar ali. Entrou pela cota de país-sede. Foi lá e se divertiu, sem se incomodar nem um pouco com a derrota.

– Mudando de assunto, Venus Williams conquistou sua quinta medalha olímpica. Foi prata nas duplas mistas ao lado de Rajeev Ram. Nas simples e nas duplas, caiu cedo. Não apareceu para entrevistas quando foi eliminada por Flipkens. Quando perdeu nas duplas, apareceu falar. Ouviu uma pergunta, respondeu outra coisa e foi embora. Serena fez o mesmo quando perdeu nas simples. São atletas com feitos enormes e são exemplo em muitos sentidos para mulheres do mundo todo. Mas ninguém vê Federer, Djokovic ou Nadal evitando entrevistas depois de derrotas. Esses são gigantes.

– O ambiente do tênis nos Jogos Olímpicos foi espetacular mesmo quando não havia um atleta da casa competindo. Não gosto nem um pouco de dizer isso, mas a atmosfera no Rio me faz acreditar que, pelo menos no Grupo Mundial, é possível ter sucesso em uma decisão de Copa Davis em sede neutra. Mas que não mexam nos zonais, por favor!


Quando o sonho acaba e é preciso dizer ‘segue o baile’
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Alexandre Cossenza

A noite de terça-feira foi especialmente dura para o tênis brasileiro. Sim, Thomaz Bellucci derrotou Pablo Cuevas e passou para a terceira rodada na chave de simples, mas a maior chance de medalha do país na modalidade acabou. Bruno Soares e Marcelo Melo foram eliminados nas quartas de final pelos romenos Florin Mergea e Horia Tecau.

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Faltava uma vitória para que os mineiros jogassem por uma medalha. Faltou, no fim das contas, um set. Foi um golpe e tanto. Foi um baque na torcida, que encheu a Quadra 1 e deu show nos três jogos de Soares e Melo em uma sintonia rara de ver; foi duro para a imprensa, que acompanhou a trajetória bacana de dois campeões de Grand Slam; e, claro, foi devastador para Bruno e Marcelo.

Machucou porque foi em casa, porque coincidiu de os Jogos Olímpicos acontecerem no Brasil e justamente durante o auge da carreira de ambos. Doeu porque os dois queriam muito. Bruno disse durante a semana que nunca viveu o tênis tão intensamente quanto nestes dias. Nunca curtiu tanto ir dormir pensando no jogo do dia seguinte. Abalou porque era possível. Quase palpável. Tecau e Mergea são uma ótima dupla, mas não são um Phelps. “Só” jogaram como se fossem. Ainda assim, duas bolas aqui, outras duas ali, e o jogo teria outro fim.

Só que o que dá o sabor tão especial ao Jogos Olímpicos é o mesmo ingrediente da crueldade. Não há margem para erro. A próxima chance vem só daqui a quatro anos e será longe de casa, em Tóquio, trocando o dia pela noite. Marcelo terá 36 anos. Bruno, 38. É possível que ambos já não estejam jogando seu melhor tênis. E isso faz doer mais ainda. Talvez a melhor chance – não a única – tenha passado.

Bruno e Marcelo não fazem parte de nenhuma minoria social ou étnica. Não foram criados na favela, não são nordestinos nem negros. São homens criados em famílias que nunca passaram fome. Não precisaram lidar com preconceitos. Nem por isso são menos brasileiros ou merecedores que outros. Encararam o mais duro dos esportes individuais, abraçando uma vida em que não há clubes bancando treinadores nem viagens. É cada um por si, e os patrocinadores são escassos.

A dupla mineira nunca se escondeu atrás de assessores de imprensa e jamais fugiu de uma entrevista depois de uma derrota. Bruno e Marcelo não são de desculpas. Reconhecem suas falhas, dão mérito aos rivais. Uma medalha coroaria duas carreiras fantásticas, mas mais do que isso: duas pessoas fantásticas.

Uma entrevista pós-derrota quase sempre inclui um “segue o baile” vindo de Bruno. Não é minimizar o revés. É aceitar o que aconteceu e olhar para a frente. Foi assim que ele fez a vida inteira. Marcelo também. Sempre deu certo. E pode ser que em menos de um mês um deles esteja comemorando outro título de Slam. Acabam os Jogos Olímpicos. É difícil engolir e aceitar que o sonho acabou. Talvez nunca tenha sido tão difícil pedir ao DJ ou voltar à pista, mas não tem jeito. “Segue o baile.”


Sem Federer, tênis masculino terá grande teste de popularidade
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Alexandre Cossenza

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Milos Raonic, Tomas Berdych, Dominic Thiem, Richard Gasquet… Até aí, tudo bem. A gente podia fingir que a lista de ausências, fossem por zika, lesão ou outros intere$$es, era insignificante. No fundo, não era. São nomes com potencial. Na pior das hipóteses, deixariam as quartas de final mais animadas. Mas tudo bem, os quatro grandes ainda estavam confirmados nos Jogos Olímpicos Rio 2016. E aí veio a bomba: Roger Federer está fora. Com um só golpe, os Jogos do Rio levaram três socos no estômago. Sem Federer. Sem Federer/Hingis. Sem Federer/Wawrinka.

Em sua página no Facebook, o suíço avisou que só voltará às quadras em 2017. Ainda precisa tratar o joelho operado em fevereiro. Segundo os médicos, ele precisa dar tempo para que o joelho e o corpo se recuperem. Só assim vai conseguir jogam sem dor por mais alguns anos.

É um grande baque para o tênis, que não verá o suíço no US Open nem no ATP Finals. Federer sairá do top 10 pela primeira vez desde julho de 2002. O nome que mais atrai público no mundo (não por acaso, tem o maior cachê) não venderá ingressos até o fim do ano. O tênis masculino, que tem um Novak Djokovic dominante, um Andy Murray vitorioso mas pouco carismático, e um Rafael Nadal ainda brigando com lesões, viverá seu primeiro grande teste de popularidade desde que a rivalidade entre suíço e espanhol levou a modalidade às alturas.

É também uma ótima chance a mais para a ATP promover sua onipresente hashtag #NextGen, usada para rotular nomes talentosos da nova geração como Dominic Thiem e Alexander Zverev. Não que não haja riscos. Com metade do eterno Big Four baqueada pela maior parte de 2016, vai chegando o momento em que os Kyrgios e Corics da vida precisam mostrar serviço e capacidade de ir ainda mais longe e sustentar o valor de mercado do produto. Será que há bala na agulha?

Os Jogos do Rio

É uma ausência gigante, mas não acho que seja um desastre. Londres 2012 foi um ótimo torneio sem Rafael Nadal, e Rio 2016 pode ser igualmente interessante. Histórias não vão faltar. Meu torneio olímpico preferido continua sendo Atenas 2004, com Nicolás Massú e Fernando González avançando em simples e duplas, com partidas longas e conquistando duas medalhas cada.

Sobre Federer

A parte copo-meio-cheio de seu anúncio é que fala na vontade de voltar a jogar por alguns anos. Ou seja, não parece – pelo menos por enquanto – um prenúncio de aposentadoria, ainda que fique mais claro a cada dia que Federer entra na reta final de sua carreira. O lado copo-meio-vazio é que o tempo de inatividade pode fazer o suíço e sua família apreciarem um pouco mais o período em casa. Não é nada impossível que, com o passar do tempo, Federer decida que o esforço não vale a pena e que será melhor encerrar de vez a carreira.

De qualquer modo, tudo fica no reino da especulação por enquanto. Do mesmo jeito que Federer evitou falar no problema no joelho desde que voltou às competições, não seria do seu feitio chegar agora e admitir estar considerando uma aposentadoria. Só aumentaria a especulação, algo que o ex-número 1 do mundo sempre tenta evitar.

Federer comemoraria seu 35º aniversário no Rio de Janeiro e terá 38 anos durante os Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Com lesões mais frequentes, não parece muito provável hoje em dia que o suíço vá ter mais uma chance para conquistar a medalha de ouro em simples, única lacuna em seu currículo. Mas é bom ter em mente: Federer já realizou tantos improváveis na carreira que não convém duvidar…


Quadra 18: S02E06
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Alexandre Cossenza

O podcast Quadra 18 completa um ano de vida e traz um episódio especial e descontraído, cheio de participações especiais. Marcelo Melo, Fernando Meligeni, Sylvio Bastos, Fernando Nardini, Mário Sérgio Cruz, João Victor Araripe enviaram perguntas para os apresentadores. Os ouvintes Anelise Stampfer, Carol Tan e Johnny Garbin também fizeram participações especiais.

É claro que o Quadra 18 não deixou de falar dos resultados da semana. Comentamos o título de Rafael Nadal em Monte Carlo, a derrota precoce de Novak Djokovic, as boas campanhas de Bruno Soares e Marcelo Melo, e também registramos os resultados da Fed Cup e a semi de Paula Gonçalves em Bogotá.

Quer ouvir? É só clicar no player acima. Se preferir baixar para ouvir mais tarde, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Tema de abertura.
0’30” – Trio lembra do aniversário de 1 ano do podcast.
1’50” – Johnny Garbin pergunta: “O que foi surpreendente e vocês aprenderam nesse ano de podcast?”
5’25” – Carol Tan pergunta: “Se vocês pudessem cobrir só um torneio in loco durante o ano, qual seria?”
7’50” – Sylvio Bastos pergunta: “Quanto tempo a gente vai levar para que as pessoas que gostam de tênis no Brasil tenham mais noção do que é o tênis?”
13’42” – João Victor Araripe pergunta: “Qual o momento mais vergonha alheia que vocês já passaram num torneio de tênis?”
14’25” – Aliny conta caso sobre “surdos” no Rio Open.
15’35” – Sheila lembra de histórias envolvendo Bellucci e Fognini.
17’40” – Cossenza fala de caso sobre João Sousa e João Victor.
19’55” – Anelise Stampfer pergunta: “O que é pior: dar uma verdascada, uma goffinhada ou uma cagada kohlschreiberiana?”
22’25” – Sheila lembra de traumas com “djokovicadas” anos atrás.
23’30” – Fernando Meligeni diz: “Digam um cara bom e outro cara não tão bom para o tênis brasileiro!”
24’55” – Sheila responde.
24’56” – Cossenza tem acesso de riso.
27’25” – Mário Sérgio pergunta: “Como vocês acham que vai ser a despedida de Roger Federer?”
31’50” – “Para quem vocês estão torcendo para ganhar medalhas nas Olimpíadas?”
37’00” – “O que vocês acham da campanha #NextGen da ATP?”
40’40” – Fernando Nardini pergunta para Aliny: “Qual é seu duplista preferido?”
42’00” – Marcelo Melo envia duas perguntas para Aliny. Uma delas é “Qual duplista você levaria para uma ilha deserta?”
44’25” – Música de aniversário.
44’55” – A derrota de Novak Djokovic em Monte Carlo.
45’55” – A chave deliciosa de Gael Monfils.
46’50” – Nadal voltou?
49’30” – Cotações para Roland Garros nas casas de apostas.
51’15” – Monfils já entra na lista de favoritos para RG?
54’50” – Aliny fala de Herbert e Mahut, campeões em IW, Miami e MC.
55’30” – As ótimas campanhas de Bruno Soares e Marcelo Melo.
58’50” – Resultados de Charleston e Bogotá.
59’20” – A subida de Paula Gonçalves e a queda de Teliana Pereira.
62’10” – Os resultados da Fed Cup, com a República Tcheca em outra final.
66’20” – André Sá toca guitarra com os irmãos Bryan


AO, dia 9: em dia de favoritos, Bruno Soares vai à semi como o mais cotado
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Alexandre Cossenza

Não brotaram aces improváveis de raquetes inférteis e os erros não forçados, tão abundantes 48 horas atrás, minguaram para quem eles habitualmente são esparsos. Logo, nesta terça-feira, primeiro dia das quartas de final do Australian Open 2016, Serena Williams bateu Maria Sharapova pela 18ª vez consecutiva, Roger Federer somou sua 16ª vitória em 22 confrontos contra Tomas Berdych, e Novak Djokovic despachou Kei Nishikori.

Nas duplas, a história foi outra. Os cabeças de chave número 1, Horia Tecau e Jean Julien Rojer, deram adeus ao torneio. Agora, os principais pré-classifcados são o brasileiro Bruno Soares e o britânico Jamie Murray, que venceram mais uma e estão nas semifinais. Este resumaço do dia ainda tem vídeos curiosos de boladas e de Carlos Bernardes vivendo seu momento bullet time na Rod Laver Arena (ou, quem sabe, ele estava na Matrix e ninguém percebeu).

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O brasileiro

Pela primeira em quatro partidas no torneio, Bruno Soares e Jamie Murray jogaram um terceiro set e, mais ainda, um tie-break-de-terceiro-set, aquela entidade com vida própria em que qualquer minuto de desatenção custar mais do que a gasolina em Fernando de Noronha. A notícia boa é que brasileiro e escocês não cederam nenhum break point na parcial decisiva e abriram o game de desempate fazendo 4/1. Sem drama além do intrínseco para o momento.

O triunfo por 6/7(7), 6/4 e 7/6(3) foi sobre Raven Klaasen e Rajeem Rav, que haviam eliminado os irmãos Bryan na segunda-feira, e colocou Bruno e Jamie nas semifinais do Australian Open. E mais: os dois agora são os principais cabeças vivos em Melbourne, já que Horia Tecau e Jean Julien Rojer deram adeus, eliminados pelos franceses Adrian Mannarino e Lucas Pouille, que acumulam mais cabeças cortadas do que uma guilhotina da Revolução Francesa. A campanha de Mannarino e Pouille tem vitórias em sequência sobre Bolelli e Fognini (cabeças 5), Cabal e Farah (12) e Roger e Tecau (1).

Bruno e Jamie, agora, são os favoritos das casas de apostas e enfrentarão os franceses na semi. A outra vaga na final sairá do jogo de Daniel Nestor e Radek Stepanek contra Pablo Cuevas e Marcel Granollers (cabeças 16).

Para Marcelo Melo, a eliminação de Rojer e Tecau foi providencial. Sem o holandês-de-Curaçao e o romeno na chave, o mineiro garante sua continuidade na liderança do ranking de duplas. Melo corria risco, já que foi às semifinais no ano passado e perderia pontos. Ele seria ultrapassado se o título ficasse com Rojer/Tecau ou com os irmãos Bob e Mike Bryan.

As simples, tão simples

Tomas Berdych conseguiu equilibrar seus duelos com Roger Federer por algum tempo, o que foi um feito e tanto para o tcheco (e o seria para qualquer um). De Miami/2010 até o início de 2013, foram oito confrontos, com cinco vitórias de Berdych. Resumindo rasamente o drama suíço, o tcheco atacava os segundos serviços do suíço o suficiente para conseguir o controle dos ralis e, nos dias bons, mandar na partida.

Coincidência ou não, essa série acabou quando Federer começou a trabalhar com Stefan Edberg. Nos últimos anos, o suíço inclusive melhorou consideravelmente o aproveitamento de seu saque, o que fez uma diferença gigante contra Berdych (e todos os outros, claro). E, de 2014 até agora, são cinco triunfos consecutivos do ex-número 1, incluindo o desta terça-feira, que veio por 7/6(4), 6/2 e 6/4.

E foi, ressaltemos, uma ótima atuação de Berdych. O tcheco esteve na frente no primeiro e no terceiro sets, mas pecou por não aproveitar as vantagens. Federer também escapou de break points com excelentes saques e fez um espetacular (e espetacularmente necessário) tie-break na primeira parcial. Além disso, tão essencial quanto os saques foi a capacidade de Federer de vencer ralis, o que nem sempre é fácil quando os forehands de Berdych estão calibrados – e eles estavam.

No fim, o suíço chegou a uma ótima vitória, e “ótima” não só porque lhe valeu uma vaga nas semifinais, mas porque veio em três sets, descomplicando um duelo que esteve longe de ser simples durante a maior parte do tempo.

Bullet time Bernardes

O árbitro brasileiro Carlos Bernardes, coincidentemente-ou-não usando óculos à la Keanu Reeves em Matrix, desviou rapidamente de uma bola espirrada na partida entre Roger Federer e Tomas Berdych. Atenção para a destreza de Bernardes no lance em câmera lenta!

Fora da Matrix

Nem todo mundo tem a sagacidade do árbitro brasileiro. Um juiz de linha, por exemplo, tentou desviar de um saque de Tomas Berdych, mas movimentou-se para o lado errado e acabou levando uma bolada bem na “região da virilha”, também conhecida como aquela parte sensível do corpo que fica ali perto da virilha, mas definitivamente não é a virilha.

O jogo mais esperado

Bem já dizia Patrick Mouratoglou, técnico de Serena Williams, duvidando da capacidade de Maria Sharapova (#5) de repetir o desempenho excelente que teve com o saque nas quartas de final, quando fez 21 aces contra Belinda Bencic. Diante da número 1 do mundo, provavelmente a melhor devolução do tênis feminino, Sharapova fracassou mais uma vez. Não só porque fez apenas três aces e sete duplas faltas, mas porque venceu apenas cinco games.

Serena, que começou o jogo perdendo o serviço, triunfou por 6/4 e 6/1 em 1h33min, somando sua 19ª vitória em 21 confrontos com a russa. Agora, são sete encontros sem que a russa tenha vencido um set sequer.

Na semifinal, a número 1 do mundo vai encarar Agnieszka Radwanska (#4), que passou pela espanhola Carla Suárez Navarro (#11) por 6/1 e 6/3 em 1h24min (e eu não canso de achar graça nesse vídeo abaixo).

Polêmica à vista

Após o duelo, Sharapova adotou o discurso politicamente correto, dizendo que Serena está em outro nível, que faz o resto do circuito trabalhar mais duro e que é uma inspiração para as outras. Dona Maria também disse que pretende ir a Moscou fazer parte do time russo na Fed Cup, mas ressaltou que não deve jogar porque precisa tratar o antebraço.

Pouco depois dessa declaração, o presidente da federação russa, Shamil Tarpischev, afirmou à agência de notícias TASS que Sharapova “precisa precisa jogar pelo time nacional se quiser participar dos Jogos Olímpicos.”

Ainda é cedo, mas a chance de uma polêmica no futura deve ser considerada. A Federação Internacional de Tênis dá grandes poderes às associações nacionais, que podem se recusar a nomear este ou aquele tenista (vide Alemanha em Londres/2012), mesmo que o atleta defenda o país na Copa Davis ou na Fed Cup.

Tarpischev, vale lembrar, é uma figura polêmica, um misto de gênio e vilão. Do mesmo modo que deu títulos à Rússia com escalações contestáveis, é alvo de críticas por seus comentários nada politicamente corretos. Ele, inclusive, foi suspenso do circuito por um ano após fazer uma piada, referindo-se a Venus e Serena como “os irmãos Williams” em um programa de TV russo.

E o número 1?

Novak Djokovic voltou ao normal, ou seja, cortou o número de erros por mais da metade. Em vez dos 100 acumulados ao longo de cinco sets contra Gilles Simon (em média, 20 erros por set), cometeu apenas 27 contra Kei Nishikori (nove por set) e venceu por 6/3, 6/2 e 6/4.

Quem falhou muito foi o japonês (54 erros, 18 por set), mas é o que costuma acontecer quando Djokovic está de volta a seu habitual nível de consistência. Nishikori ainda teve a dianteira duas vezes no começo do terceiro set, quando abriu 2/0 e, depois, 3/1, mas nunca confirmou o serviço para consolidar a dianteira.

Fica agora a expectativa pela semifinal com Roger Federer, que, aos olhos de muita gente, tem cara de decisão. Não só porque os dois decidiram os últimos Slams (Wimbledon e US Open), mas também porque Andy Murray tem a eterna desconfiança de boa parte de fãs e críticos.

O boleiro fisioterapeuta

O jogo nem estava tão difícil assim, mas Novak Djokovic pediu uma ajudinha ao boleiro após uma virada de lado.

A chave masculina:

[1] Novak Djokovic x [3] Roger Federer
Gael Monfils [23] / [13] Milos Raonic x [8] David Ferrer / Andy Murray [2]

A chave feminina:

[1] Serena Williams x [4] Agnieszka Radwanska
[7] Angelique Kerber / [14] Victoria Azarenka x Johanna Konta x Shuai Zhang

Os melhores lances

A capacidade defensiva de Djokovic não é novidade nenhuma, mas ninguém deve se cansar de ver lances assim:

Que tal a habilidade de Federer junto à rede?

O que vem por aí no dia 10

A programação de quarta-feira, em Melbourne, tem a partida mais esperada logo no primeiro horário: Angelique Kerber x Victoria Azarenka. Em seguida, Johanna Konta enfrenta Shuai Zhang pelo posto de maior zebra do torneio. A sessão diurna da Rod Laver Arena termina com David Ferrer x Andy Murray. O único jogo de simples da noite tem Gael Monfils x Milos Raonic, mas foi bacana do torneio escalar Martina Hingis e Sania Mirza para fecharem a programação. Elas enfrentam Julia Goerges e Karoline Pliskova por uma vaga na final de duplas.

Já classificado para as semifinais de duplas masculinas, Bruno Soares tenta o mesmo as mistas. Nesta terça, ele e a russa Elena Vesnina fazem o terceiro jogo do dia na Quadra 2. Seus adversários são o britânico Jamie Murray (sim, o parceiro de Bruno) e a eslovena Katarina Srebotnik.

Veja aqui os horários e a programação completa.


O que testa um evento-teste?
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Alexandre Cossenza

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Uma arena bonita para as câmeras, mas inacabada nos bastidores; um mini-torneio para cerca de dois mil convidados, sem assentos marcados; nenhum check de segurança nos pontos de acesso; placas de sinalização precárias e riscadas a mão; e uma sala de imprensa modesta e mal preparada para receber uma coletiva. Foi o que eu vi no segundo dia do evento-teste de tênis para os Jogos Olímpicos Rio 2016 – o primeiro dia aberto à imprensa.

Se faltava tanta coisa, que diabos testa um evento-teste, afinal de contas? Foi essa a intenção da minha ida ao Centro Olímpico de Tênis na sexta-feira. Quem me ofereceu uma resposta foi Gustavo Nascimento, gerente de arquitetura de instalações esportivas do comitê organizador. A explicação foi a seguinte:

“A gente não quer fazer dois Jogos Olímpicos. Toda instalação é focada no sistema de resultados e na área de competição. O voluntário que vai pegar a bola, a arbitragem, o calendário de competição, o look que vai na quadra no painel ali atrás do fundo de quadra, o equipamento esportivo, a rotina de chegada do atleta, check de vestiário, salas de chamada, pessoal de apresentação do esporte, DJ, locutor, músicas que vêm no intervalo dos jogos… Tudo isso. A gente não faz marketing nenhum. Isso aqui tem um objetivo principal, que é um teste operacional focado no esporte, na gestão da área de competição, no sistema de resultado. Temos o nosso parceiro de resultado do COI aqui, fazendo todo o ensaio de tecnologia com o mesmo aparato dos Jogos. E os testes que são um pouco mais subjetivos: engajamento da equipe, todo mundo que vai estar trabalhando nos jogos. Muitos serão contratados, mas os que já estão contratados dedicados a essa instalação estão aqui dando suporte… O que você chama de improviso (eu afirmei que a sala de imprensa era improvisada e pequena, longe de nível olímpico), na verdade, a gente chama de ‘ajustar à necessidade do evento’ porque não temos pretensão nenhuma de fazer nada dimensionado no tamanho do evento porque não é ‘o’ evento. A gente entende que um teste não necessariamente precisa ser idêntico àquilo que a gente vai realizar nos jogos.”

Fiz uma segunda pergunta, relativa à segurança, que é uma preocupação mundial em qualquer evento esportivo – ainda mais nessa escala olímpica -, e Nascimento explicou que a segurança dos Jogos é da Secretaria Especial de Grandes Eventos Esportivos (e não do Comitê Rio 2016), dentro do Ministério da Justiça. “Eles são os donos do planejamento de segurança”, disse o arquiteto. O Comitê fará três eventos-teste maiores em 2016 (um de ginástica, um de saltos ornamentais e outro de atletismo paralímpico), mas ficará a cargo a Sege a dimensão desse teste no quesito de segurança. Fica registrada, então, a explicação do Comitê Rio 2016.

Quem ganha?

O Comitê pode dizer que não faz marketing, mas o prefeito do Rio, Eduardo Paes, faz. Foi à arena na noite de quinta-feira, tirou fotos e mostrou o espaço “inaugurado”, ainda que haja um bom trabalho a ser feito internamente, como as imagens abaixo mostram, e que a entrega já esteja atrasada. Apesar disso, o prefeitão apareceu, bateu uma bolinha e fez as fotos para divulgação da imprensa.

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Ganha também a CBT, a “dona” dos atletas. O evento-teste só existiu, afinal, porque a Confederação topou levar para o Rio de Janeiro seu evento de fim de ano, com os melhores tenistas do país jogando para convidados que, em sua maioria, estão ali bancados pela CBT e seu patrocinador.

Mas não foi só isso. Além de levar seus convidados ilustres para a estreia da arena olímpica, a CBT viu seus atletas – todos apoiados pelos Correios (vide foto abaixo com o presidente da entidade, Jorge Lacerda, na cabeceira) – discursarem incessantemente sobre a necessidade de o tênis brasileiro ter uma “casa”. Vale lembrar que até agora não há definição sobre o destino do Centro Olímpico de Tênis após os Jogos do Rio. Não se sabe quem administrará o espaço. A CBT, que faz lobby para isso há alguns anos, certamente ganhou exposição nessa causa durante o evento-teste.

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Ainda sobre o tema, vale ler a reportagem que a Sheila Vieira fez para o Tenisbrasil, com as frases mais relevantes dos tenistas.

A primeira queixa

Entrando no aspecto esportivo da coisa, uma das primeiras curiosidades de todo mundo era saber como ficou o piso. Segundo a maioria dos profissionais que jogaram na sexta-feira, a quadra dura está mais para lenta (bem áspera), com a bola quicando bem alto.

A queixa ficou por conta do painel verde-limão colocado no fundo de quadra. Ele faz parte de uma decoração que usa tons diferentes de verde, mas enxergar a bolinha com aquele painel no fundo não é tão fácil assim. Com o devido cuidado para não criticar o evento, quase todos tenistas falaram sobre isso. Feijão foi quem melhor resumiu: “Já que é evento de teste, por que não falar?”

A cor do painel não deve ser mantida para os Jogos, já que não há torneios com o fundo de quadra em cor clara – justamente para que haja contraste com a cor da bola. E se a cor do fundo de quadra foi um problema, a cor do piso foi outro. O verde claro também dificultou a vida de quem estava vendo pela TV. Os tweets da Aliny Calejon mostram.

Depois de ler alguns comentários sobre isso no Twitter, vi a reprise de um jogo no SporTV3 e tive a mesma impressão. Enxergar a bolinha não é tão fácil em alguns momentos. Resta saber o que o Comitê vai fazer a respeito.

Duas dúvidas

Na coletiva de pouco mais de 40 minutos organizada (inteligentemente, como já citei acima) pela CBT, pouco deu para aproveitar de conteúdo. No entanto, como Bruno Soares afirmou na entrevista ao blog, não há um critério para definir quem formará a dupla mista ao lado de Teliana Pereira. Com dois duplistas na mesa, João Zwetsch, capitão brasileiro na Copa Davis, ficou meio sem jeito com a pergunta e respondeu que por enquanto a questão vai ficar “de banho-maria” e que tudo vai ser resolvido “mais para a frente”.

E qual seria o critério mais justo, hein? Ranking de duplas (Melo)? Ranking de simples (Bellucci)? Ou histórico em duplas mistas (Soares)?

A outra dúvida diz respeito ao futuro do WTA de Florianópolis. Após boatos de que o evento estaria prestes a ser comprado pela Federação Suíça, a Sheila conversou com Jorge Lacerda, que disse que o negócio ainda não foi fechado. Pelo texto, a impressão que tive é que o dirigente não foi tão enfático assim no que diz respeito a manter o evento após 2016. Leiam aqui e digam se tiveram a mesma impressão.

Coisa que eu acho que acho:

Nada a ver com o fato de ser evento-teste, mas sempre me incomodou a CBT realizar seu “Masters” longe do público, em evento para presidentes de federação, acompanhantes e convidados. Ainda que amistoso, um torneio com Marcelo Melo, Thomaz Bellucci, Bruno Soares, Feijão, Teliana Pereira e Bia Haddad seria uma chance enorme de aproximar do público os melhores tenistas do Brasil, que passam a maior parte do ano viajando e jogando torneio pelo mundo.


Bruno Soares: sobre autoanálise, otimismo e uma grande revelação
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Alexandre Cossenza

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A agenda de Bruno Soares é cheia, e a conversa rola durante o almoço, entre compromissos e treinos mineiro de 33 anos. Quando ele começa a falar, porém, não há pressa. O papo é sobre sua pior temporada nos últimos cinco anos. Top 10 de junho de 2013 até o começo de 2015 e número 3 do mundo por quase um ano inteiro, Soares é agora “apenas” o 22º do ranking de duplas. E, como é típico de um tenista que quase foi forçado a encerrar a carreira por lesão, sem drama.

Na conversa, o mineiro revelou um sério problema extraquadra que afetou o rendimento de sua dupla com o austríaco Alexander Peya, mostrou-se frustrado com a falta de resultados e falou das derrotas que mais machucaram em 2015. Não faltou, porém, otimismo. Com seu nível de tênis, o recente título no ATP 500 da Basileia e a futura parceria com o britânico Jamie Murray.

Soares também falou sobre o momento das duplas no Brasil, com Marcelo Melo ocupando o topo do ranking, e no mundo, com os gêmeos Bob e Mike Bryan perdendo a hegemonia do circuito. Ah, e quem será que vai jogar duplas mistas com Teliana Pereira nos Jogos Olímpicos, hein? A íntegra da (longa e esclarecedora) conversa está abaixo. Leiam!

Vamos começar do começo de 2015. A última vez que a gente conversou foi no Rio Open e você disse que estava sem aquela confiança que ganha jogo. A coisa melhorou depois dali, mas não o bastante pra te satisfazer, né?

Não. A sensação deste ano é que em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente teve bons momentos, que a gente jogou um tênis muito bom, ganhamos jogos muito bons, mas em nenhum momento a gente conseguiu embalar. A gente acabou sempre esbarrando em alguma coisa. Uma coisa que a gente esbarrou muito este ano foi o super tie-break, que custou muito caro. Nossa campanha eu nem olhei nem quero olhar, quero esquecer, mas deve ter sido horrível, né? Isso, no formato que a gente joga, pesa demais. Super tie-break é uma coisa muito de momento e confiança. Quanto melhor seu momento, melhor você consegue jogar ali. Foi o grande problema deste ano. O mais legal foi depois que decidimos que a gente ia separar, que foi um momento muito triste porque a gente é muito amigo, foi ter conquistado o título da Basileia e ter mostrado para a gente que foi um ano complicado, mas quando a gente joga bem, pode ganhar de qualquer um. A gente ganhou de quatro duplas que foram para o ATP Finals (Bopanna/Mergea, Matkowski/Zimonjic, Rojer/Tecau e Murray/Peers), então foi bom nesse sentido de afirmação. Não tivemos um ano bom, a gente sabe disso. Teve muita coisa que não saiu do jeito que a gente queria, mas quando a gente joga bem, a gente sabe do nosso potencial.

Eu estava guardando essa pergunta para o final, mas você já…

(interrompendo) Já te f… de início, né?

(risos de ambos) Mas você citou Basileia, as quatro duplas que vocês derrotaram e… Como é ver Rojer e Tecau ganhando tanto e terminando o ano como número 1 do mundo? Porque você e o Alex têm retrospecto bem favorável contra os dois… O quanto mexe com a cabeça você estar num ano ruim e pensar “eu ganho desses caras?”

Tem os dois lados da moeda. Este ano, a gente não conseguiu render o nosso melhor. A gente tem isso claro. Mas chegou um momento que era meio mostrar para nós mesmos que a gente, junto, ainda podia jogar bem tênis. E este ano foi complicado de alguns problemas da parte do Alex, que não vêm ao caso e não vale a pena dizer. Ele teve alguns problemas extraquadra que ele passou uma barra muito maior. Acabou influenciando em algumas coisas e foi um ano bem complicado para ele. Mas é legal chegar num momento desses, no fim do ano, que é mostrar que a gente pode ganhar de qualquer um. Mas foi um ano difícil nesse aspecto. Você pega o próprio Marcelo e o Ivan, que tiveram um grande ano. Nosso head to head com eles era 5 a 0. Este ano, nós perdemos três. Então é uma coisa de momento. Nos últimos dois anos, nosso momento era melhor que o deles, e a gente ganhava. Aí você fala “por quê?” Não sei. Este ano, a coisa inverteu. Murray e Peers ganharam duas da gente. No fim do ano, a gente até conseguiu “pegar” eles uma vez, mas era uma dupla que a gente tinha 6 a 0 nos confrontos. Rojer e Tecau, a mesma coisa. Mas o que me deixa bem tranquilo é saber que na maior parte do ano, eu estava jogando um tênis de alto nível, apesar de as coisas não estarem acontecendo da forma que eu queria. Isso me deixa tranquilo de saber que ano que vem eu continuo jogando um tênis de alto nível e se continuar nessa linha, vou conquistar algo legal e voltar para o ranking que eu acho que deveria estar, que é melhor do que isso aí.

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Você nunca foi chegado a teorias apocalípticas, e com o formato das duplas hoje, uma sequência de três, quatro, cinco derrotas não significa necessariamente um péssimo momento. Mas em alguma parte desta temporada soou um alarme do tipo “tem que mudar alguma coisa”? E não digo nem só de mudar de parceiro…

É… Soou médio. Como foi um ano complicado, principalmente da parte do Alex – extraquadra – a gente tinha muito bem claro na cabeça o porquê de certas coisas, de alguns momentos ruins, de a coisa não estar andando muito bem…

(interrompendo) Essa questão do Alex que você acabou de mencionar eu acho que ninguém sabe…

Ninguém sabe! E ninguém vai saber. Na verdade, são problemas dele e todo mundo sabe que houve problemas. São coisas que influenciaram nos resultados. Então tinha um pouco de a gente saber o porquê disso tudo, mas chega um momento que pinta uma dúvida. Você fala “pô, não é possível, toda hora chegando e batendo na trave.” Chegou um momento na temporada de saibro que a gente perdeu muita coisa chegando muito perto. Chegamos na semifinal de Barcelona, ganhamos dois bons jogos, perdemos dos caras que foram campeões (Draganja e Kontinen) com quatro match points. Isso é aquele negócio: de repente, se a gente ganha aquele jogo, fazia a final contra Murray e Peers, ganhava e são 500 pontos. A coisa poderia mudar de figura. Ao longo do ano, faz muita diferença. O próprio ATP Finals, que ficou parelho no fim do ano… Todos essas pontos fariam diferença, e a gente já estaria classificado. Com esse tipo de coisa, começa a pintar uma dúvida na cabeça. Mas esse é o momento de ter tranquilidade e saber onde você está. Eu senti que estava jogando bem. Agora é questão de ter paciência e continuar insistindo.

Os problemas do Alex jogam uma luz que ninguém tinha na história dessa temporada. Eu, por exemplo, te perguntaria se quando as coisas começaram a dar errado, você pensou na questão da idade (33 anos), se é o começo do fim, se fisicamente tem alguma coisa errada, se os reflexos estão indo embora…

Exatamente. Isso é uma coisa que o atleta tem que olhar. Principalmente hoje em dia, que todo mundo joga até mais tarde. É uma pergunta que a pessoa se faz. “Peraí, vamos ver esse vídeo, conversar com o treinador… Tô mais lento?” Eu faço essa pergunta pro Alex, pro Scottie (Scott Davidoff, técnico da dupla) muitas vezes. “Mas aquela bola… Você acha que eu estava lento, que deveria ter chegado? Eu cobri errado?” E aí muitas vezes você enxerga alguma coisa que de repente não estava vendo. Mas tenho muito bem claro que não foi por nada disso que os resultados não apareceram. Não é porque estou jogando pior, ficando mais velho, mais lento ou não estou aguentando mais a batida. Pelo contrário. Eu me sinto melhor fisicamente, mais maduro e mais preparado para conquistar coisas maiores. Não é o começo do fim, não é o início da descida da ladeira. Acho que tenho alguns anos ainda para subir antes de começar a descer. Vou entrar ano que vem sabendo do nível que eu estou jogando.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que a IPTL (liga de exibições disputada em dezembro) te atrapalhou.

A IPTL tem os dois lados. Ela pode, sim, atrapalhar. É difícil eu te falar. Nem eu consigo dizer se ajudou ou atrapalhou. Eu não sei. Foi uma grande experiência para mim, foi muito legar ter participado, principalmente por ser o primeiro ano.

Lembro de você me dizer na época coisas do tipo “hoje treinei com o Agassi com a Serena na beira a quadra!”

Exatamente. Foi uma experiência fantástica. Mas tem isso… Você vem de cinco, seis, sete anos fazendo a mesma coisa. O seu corpo está acostumado com aquele momento não ser de competir. Você está tirando suas férias. De repente, parece que tem dois anos seguidos (de competições). E realmente é extremamente desgastante. Foi positivo ou negativo para o ano? Isso eu não sei te falar. É muito do “e se”. É difícil falar. Se eu tivesse ido para a IPTL, me machucado e perdido três meses, que foi o que aconteceu com o (Marin) Cilic, eu poderia ter falado que me sobrecarregou, mas não foi o meu caso. Pode ter influenciado? Pode, mas não sei te dizer quanto a isso. Foi uma experiência enriquecedora, vivi coisas incríveis para mim e agora é o seguinte: passou, analisou o que deu certo e deu errado, o que eu posso fazer para melhorar e toca o barco. Não adianta ficar remoendo.

Vamos para uma pergunta mais fácil então (risos). Qual foi a vitória mais legal do ano? Foi mesmo na Basileia?

Foi disparado. O grande lance da Basileia veio muito da parte emocional nossa, minha e do Alex. Porque a gente ficou triste com a separação, só que em nenhum momento nós brigamos. Somos grandes amigos. O Alex é um cara que virou um irmão para mim. E foi o que eu falei: pinta aquele negocinho de a gente saber que Rojer e Tecau estão lá, Murray e Peers estão lá, Marcelo e Ivan… E a gente não estava conseguindo render. E a Basileia serviu para dar essa tranquilidade para a gente. Tivemos três anos e meio fantásticos, não vamos terminar pensando neste último ano. Vamos pensar em tudo que a gente fez. Foram 11 títulos juntos, né? Tanta coisa boa… E a Basileia deu isso para a gente. “Quando a gente consegue jogar nosso melhor, é isso que a gente consegue fazer.” A decisão já estava tomada, não tinha como voltar atrás, nem era uma possibilidade, então foi muito importante não só pelo caneco, mas por esse lado emocional nosso.

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E a derrota que doeu mais?

(pensativo) Cara… (pensando mais) Vou pensar um pouquinho para não falar besteira. Foram duas. (outra pausa para pensar) Não, vamos voltar. Você perguntou uma, vou falar só uma. Não doeu porque não tenho muito isso de ficar remoendo derrota, mas me incomodou bastante a semifinal do Rio Open. Era um torneio bem duro e, no momento que a gente entrou para jogar a semifinal, os colombianos (Robert Farah e Juan Sebastian Cabal) tinham acabado de perder, que foi uma surpresa, para o (Philipp) Oswald e o (Martin) Klizan. E a gente estava na semi contra o (Oliver) Marach e o (Pablo) Andújar. Ou seja, se você desenhasse a oportunidade de ganhar um ATP 500, e sendo no Rio, em casa, que é obviamente diferente… Não podia ter uma trajetória menos complicada. E essa derrota me incomodou demais. A gente era bem favorito naquele cenário e acabou perdendo a oportunidade de ser campeão no Rio. Essa derrota não me incomodaria tanto se fosse em outro lugar, outro ATP 500.

Agora eu fiquei curioso. Você falou em duas… Qual foi a outra derrota?

Não, a outra que me incomodou um pouco foi a Copa Davis. Até porque perder em Copa Davis envolve muito mais do que a própria derrota. Influencia no time e em muito mais coisa. Realmente, ela incomodou. Tirou uma invencibilidade nossa, mas isso é uma coisa que eu não penso. Uma hora ia acabar. Mas incomodou pelo fato do time, de a gente ter dificultado as coisas para o time do Brasil.

E a parceria com o Jamie? O que te faz acreditar que pode dar certo?

Cara, o Jamie é um cara que os pontos fortes dele potencializam os meus pontos fortes. Ele joga muito bem na rede, então entra muito bem naquela combinação: eu devolvendo e ele fechando a rede. Mas não só isso. O Jamie evoluiu demais nos últimos dois anos. Ele é um grande jogador, muito mais maduro. Acho que a Copa Davis vai fazer um bem enorme para ele. Os caras foram campeões. E ele, coitado, tem uma pressão enorme pelo fato de carregar o nome do Andy em tudo que ele faz. Querendo ou não, o Jamie conquista isso, e sempre tem aquela perguntinha sobre o irmão do Andy. Querendo ou não, deve incomodar o cara. E tem essa pressão de jogar a Davis ao lado do Andy. Ele vai trazer muita coisa positiva nesse sentido. E tem esse lance de estar preparado para conquistar coisa grande.

Depois de dois vices em Slam, é essa a hora dele?

Hoje, é moldar o nosso jogo, ver qual vai ser nossa forma de jogar, o que a gente poder fazer, mas acho que o mais importante é perguntar: “esses jogadores estão prontos para ganhar um Grand Slam?” Eu acredito que sim. Eu acho, e isso é achismo meu porque não conversei com o Jamie e não sei, mas acho que ele tinha essa sensação com o Peers. Que ele é um grande jogador, mas eles bateram na trave na maioria das coisas. Acho que isso é uma das coisas que fez o Jamie me chamar. O Peers chegou agora, tem menos experiência nesse aspecto. Acho que o Jamie vê isso em mim. Ele vai conseguir manter o nível que vinha jogando com o Peers, mas agora com um cara mais experiente e acostumado a jogar esses momentos. Isso, para mim, faz diferença. Aconteceu com o Marcelo este ano. Você vê a maturidade. Quando chegou numa final de Grand Slam, de Masters 1.000, já era uma coisa natural para ele. Alguns anos atrás, era uma novidade. Quanto mais acostumado, mais fácil é você jogar o seu melhor.

(leia aqui entrevista exclusiva com Jamie Murray)

Ter um brasileiro número 1 do mundo muda muito alguma coisa? Seja exposição, mais gente se interessando ou qualquer outro elemento do cenário no Brasil?

Acho que muda. O tanto que vai mudar nós vamos ficar sabendo agora. A gente conseguiu transformar isso aí nos últimos anos e trazer as pessoas para o mundo das duplas. Muita gente se interessou mais, a TV mostrou mais, a turma passou a conhecer e torcer pela gente. A gente está mostrando um caminho diferente. O lance, para mim, é que o Marcelo chegar a número 1 do mundo é um feito enorme, absurdo, todo mundo sabe. Acho que é diferente do caso do Guga porque é o seguinte: a gente vem há um tempo jogando no mais alto nível. Em 2013, eu fui número 3 do mundo, mas já era top 10. Tem cinco anos que a gente vem jogando assim. Isso foi sendo moldado aos poucos. O Marcelo alcançou o número 1 do mundo, mas o pessoal já estava acostumado com aquelas coisas. Ele não fez nada de diferente do que ele já vinha fazendo. A grande diferença foi sair de 3 para 1, que é um feito enorme.

Soares_Melo_Davis_Andujar3_blog

Enquanto o Guga, quando venceu Roland Garros, ninguém conhecia.

Nada. Exatamente. O lance do Marcelo é muito disso. Essa mudança a gente começou há muito tempo. Então não dá para dizer “o Marcelo está número 1 do mundo e não mudou nada.” Peraí, já vem mudando há muito tempo. Hoje, a atenção é muito maior. Os nossos patrocinadores, a nossa visibilidade, a quantidade de horas na TV… Isso já é muito maior. Então o lance de o Marcelo ser número 1 vai contribuir ainda mais.

E o quanto esse efeito (pensando) … Não tenho um nome pra isso…

(interrompendo) Efeito Pão de Queijo!

Gostei disso. Você inventou agora?

Eu estudo marketing na Estácio, né, cara? Então estou preparado! (risos)

(risos) Então tá: o quanto esse Efeito Pão de Queijo “rouba” tenistas para as duplas?

Eu acho que zero. Ninguém. Toda pessoa vai sempre começar com o foco nas simples.

Mas não acelera o processo?

Eu acho que racionaliza o processo. O cara vai sempre começar nas simples. É que duplas não era uma opção antes. A turma não pensava. Agora o cara já tem um banco de dados. “Fulano foi dessa forma, Siclano foi dessa forma…” Antes, o cara que ficava tentando até os 29, 30, naquele negócio… Hoje, vai encurtar a distância. Tem o Demo! (Marcelo Demoliner) O cara tem 24, 25, 26, diz “estou 200 em simples e achei que nessa época os caras que começaram comigo já estão top 100. Dupla eu tenho potencial maior, conquistei mais coisa.” Então racionaliza o processo. Vamos tirar zero das simples. Apenas vamos abrir o leque de possibilidades para os jogadores.

Falando de Rio 2016, quem vai jogar dupla mista com a Teliana?

Isso é uma boa pergunta. Não sei. Acho que a primeira coisa a ser feita, que não foi conversado, é criar um critério. E aí quem alcançar esse critério vai jogar. Vai ser por ranking? Vai ser por histórico de dupla mista? Vai ser par ou ímpar? Vamos escolher o critério, que é o mais correto. Aí você tira todo tipo de chance de as pessoas falarem que teve alguma influência de alguma outra coisa que não seja justo com o jogador.

Última pergunta: como você está vendo a situação dos Bryans?

É uma pergunta que hoje não sei te responder e para mim vai ser o grande ponto de interrogação para o ano que vem. Este ano foi a primeira vez desde que eu acompanho que vi eles realmente perdendo o controle da situação. Em 2009, quando Nestor e Zimonjic terminaram como número 1, os Bryans não dominaram tanto, mas você via que eles estavam jogando bem. Tinha aquela sintonia dos Bryans. Este ano foi a primeira vez que vi eles meio perdidos, sem um plano de jogo, sem saber o que fazer. As coisas que eles fazem não estavam dando certo e estavam meio perdidos nessa busca de como jogar. E no fim do ano isso potencializou um pouco. Acho que a derrota no US Open (para Steve Johnson e Sam Querrey na primeira rodada) abalou demais a confiança deles. Eles vinham jogando muito bem, e o US Open deu uma martelada neles. O fim de ano foi a pior época dos Bryans. Isso, para mim, é a grande dúvida para o ano que vem. Se você perguntar para mim “os caras estão ladeira abaixo, decadentes?”, eu acho que longe disso. Eles jogaram no piloto automático por muito tempo por serem muito bons e muito melhores. Eles perderam um pouco disso aí e precisam se reencontrar. Agora depende do tanto que eles querem. Pelo que eu conheço, eles vão estar mordidos. Esses caras adoram competir e ganhar. Se eles vão conseguir executar, é outra coisa.

E o circuito vê isso como?

Esse ponto entra muito num lance muito parecido com o do Nadal. As pessoas começaram a acreditar muito mais que podem ganhar dos Bryans agora. Isso é um fator importantíssimo. Cansei de ver jogo nos últimos dez anos de eles ganharem com o nome. Até comigo já aconteceu! Obviamente, você nunca entra com o jogo perdido. De repente, você abaixa a guarda e… Depois da primeira quebra, você fala “é, realmente hoje não vai dar de novo.” E é ladeira abaixo para você. E eles sentem isso! Eles montam e é impressionante. Hoje, a galera está sentindo isso. “Eles estão sentindo a pressão na hora de fechar o jogo.” É que antes eles não te davam chance de respirar. Agora, não. A galera começou a ver que tem sempre uma luz no fim do túnel. E isso é um fator que eles vão ter que encarar. Jogar todo jogo até o final.


Rio Open terá chave forte, mas será que vale o dobro da final olímpica?
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Alexandre Cossenza

Coincidência ou não, durante a apresentação de 1h30min com patrocinadores, organizadores e políticos, ninguém tocou no assunto. Coincidência ou não, a tabela de preços dos ingressos do Rio Open 2016 só foi entregue aos jornalistas ao fim do evento – na saída, para ninguém pegar e voltar para perguntar. Coincidência ou não, quando indagada sobre ingressos e valores, a COO da IMM (Chief Operating Officer – em outras palavras, quem manda no evento), Márcia Casz, lembrou-se dos valores dos ingressos mais baratos, mas sobre alguns outros valores, resumiu-se a responder coisas como “tem que ver a lista” e “não estou com a lista aqui.”

A grande verdade é que havia um enorme elefante na sala e ninguém do torneio teve a coragem de tocar no assunto (ao mesmo tempo, nas redes sociais, fãs já reclamavam da pré-venda de ingressos), mas vamos a ele: os ingressos mais relevantes do Rio Open estão, em média, 30% mais caros do que no ano passado. E não só isso: os bilhetes mais baratos para a final do Rio Open custam quase o triplo das entradas para a final do torneio olímpico de tênis.

Talvez tenha sido este o motivo de evitar o assunto. É difícil justificar como o bilhete mais nobre do tênis olímpico, que vale para final masculina, final de duplas mistas e final de duplas femininas, custa R$ 220 enquanto a decisão do Rio Open custa R$ 580. Sim, é verdade que as entradas mais caras para o domingo olímpico custarão R$ 700 (contra R$ 640 do Rio Open), mas também é inegável que serão três partidas valendo medalha de ouro. Além disso, a chave masculina nos Jogos Rio 2016 terá todos os grandes jogadores do circuito.

Não que o Rio Open seja um torneio fraco. Pelo contrário. A edição 2016 deve ser a mais forte das três edições, com Nadal, Ferrer, Tsonga e Isner. São três top 10 e o atual número 11 do ranking. Não é pouco. Ao mesmo tempo, talvez seja pouco do lado do torneio olímpico. E talvez seja pouquíssimo se colocarmos na balança o nível das chaves e os preços dos bilhetes mais baratos.

Atualizado à 0h do dia 03/12/2015 com os quatro parágrafos abaixo em itálico:

Recebi duas ligações nesta quarta-feira. Uma da chefe da assessoria de imprensa do Rio Open, Diana Gabanyi, e outra do diretor do torneio, Lui Carvalho. Os dois me garantiram que não houve intenção por parte de ninguém da organização em esconder os preços dos ingressos do torneio no evento de apresentação.

Segundo Diana, a tabela só foi entregue ao fim do evento porque estavam juntos da informação de que John Isner estaria no torneio. O anúncio do tenista americano seria feito durante a apresentação, por isso os valores dos ingressos acabaram sendo não informados durante o evento.

Lui fez o mesmo comentário e inclusive concordou com alguns dos pontos que levantei neste post. Segundo ele, foi uma pena a questão dos ingressos não ter sido levantada no evento porque seria melhor para o torneio ter a chance de explicar os valores.

Minha crítica original, no entanto, segue válida. Um evento de apresentação com duração de 1h30min não poderia ter deixado  de mencionar os preços de ingressos, e a COO não poderia ter respondido coisas como “não estou com a lista aqui”. Na melhor das hipóteses, faltou vontade de buscar a lista e dar a devida resposta à pergunta da jornalista.

O que mais?

A coletiva de apresentação, que talvez seja mais justo chamar de “evento” do que de coletiva, foi um grande desfile de organizadores, políticos, patrocinadores e convidados. A maior parte do tempo foi preenchida com discursos corporativos e pouco elucidativos. Durou 1h30min (!!!) com quase nada de informação relevante e teve até desfile com Felipe Andreoli e Fiorella Matheis.

Demorou tanto que o representante da Prefeitura do Rio deixou o pódio no meio do evento, acompanhado pelo representante do Governo do Rio, que nem teve a chance de explicar, por exemplo, por que o Estado dá incentivos fiscais de R$ 10 milhões ao Rio Open e ainda deve a Novak Djokovic pela exibição que fez com Guga três anos atrás. Ainda assim, há alguns pontos interessantes a ressaltar sobre que rolou.

O novo horário

Tenisticamente falando, a novidade mais relevante do Rio Open é o horário de início dos jogos. Em vez de começar a rodada às 11h (em fevereiro, no Rio de Janeiro, quente e úmido), o evento terá as primeira partidas às 14h15min. São três horas a menos em condições desumanas para atletas.

Ninguém da organização admitiu que foi uma falha insistir no horário em 2015. Em vez disso, o discurso oficial foi de que, além do calor, a intenção é criar um “ambiente de Grand Slam”, com mais jogos acontecendo simultaneamente em mais quadras – e até mais tarde.

De certo modo, é interessante imaginar o que vai acontecer e como o torneio distribuirá tantos jogos pelas quadras externas. Outra questão importante é ver se o espaço comportará o número adicional de pessoas à noite – juntando a sessão diurna, que esticará até mais tarde, com a sessão noturna, que tem início às 17h. E se você está imaginando, a resposta é “sim”: sim, é estranho que um torneio tenha duas sessões diferentes iniciando num intervalo de apenas 2h45min.

A chave feminina e a aposta nas brasileiras

O Rio Open continua com problemas para atrair nomes de peso para sua chave feminina. Com um evento de isolado na América do Sul em fevereiro (e no saibro!) e com premiação de US$ 250 mil, é difícil competir com o WTA de Dubai, disputado na mesma semana, em quadras duras e com prêmio de US$ 2 milhões. A semana seguinte ainda tem o WTA de Doha, que distribui US$ 2,8 milhões. Logo, as melhores tenistas preferem ir ao Oriente Médio para duas semanas de eventos fortes a viajar até a América do Sul para um evento modesto.

Diretor do torneio, Lui Carvalho, não aceita falar em chave “fraca” para o feminino. Diz que o Rio fica mais ou menos na média dos torneios de série International (todos que pagam US$ 250 mil) e que a vantagem disso será mais chances para brasileiras como Teliana Pereira. Não é muito diferente do que aconteceu em Florianópolis, que teve a chave mais fraca do mundo em 2015. Teliana foi lá, aproveitou o saibro e saiu com o título.

Pode acontecer o mesmo no Rio. A vantagem do torneio carioca é que é um evento combinado com uma chave masculina que é forte e vende ingressos.

A forte chave masculina

Como já escrevi acima, tudo indica que será o ano mais interessante do Rio Open. Além de um revigorado e recalibrado Rafael Nadal e do atual campeão, David Ferrer, o evento terá Jo-Wilfried Tsonga e John Isner. Os dois, além de ótimos tenistas, dão um ar mais interessante ao torneio. São tenistas com estilos de jogo diferentes e que devem fazer partidas interessantes com os especialistas em saibro, que aparecem por aqui todos os anos.

Nos dois casos – Tsonga e Isner -, o Rio Open contou com a ajuda do ATP de Buenos Aires, que também correu atrás dos atletas. Os eventos carioca e portenho, então, fizeram um “pacote” e bancaram os cachês de ambos. Buenos Aires, por ser um ATP 250 (o Rio Open é um ATP 500) pagou uma porcentagem maior.

Sobre os brasileiros, Bellucci e Feijão estavam no evento. Bati um bom papo com Bellucci, que publicarei em breve aqui no blog. Também tinha uma conversa marcada com Feijão, mas o número 3 do Brasil vinha de São Paulo e teve um atraso grande na ponte aérea. Deveria ter chegado às 9h30min, mas só apareceu no Jockey Club Brasileiro por volta do meio-dia, justamente quando começou a apresentação (marcada para começar às 10h30min).

Os preços dos ingressos

Os valores deste ano estão no quadro acima. A pré-venda para clientes de Claro, NET e Embratel começou nesta terça e vai até 10 de dezembro. Os clientes têm direito a 20% de desconto e, segundo o Rio Open, receberão código por SMS para fazer suas compras. Sim, sei que muitos clientes não receberam código algum – e muitos já declararam sua insatisfação em mais de uma rede social. Honestamente, não sei sue procedimento sugerir. Eu mesmo sou cliente da NET e não recebi nada. Mas sendo bem sincero, alguém aí acha que todos clientes dessas empresas receberiam código promocional?

Para o público em geral, as vendas começam no dia 11, às 10h. E, para quem tiver a curiosidade de lembrar, vejam os preços de bilhetes do Rio Open em 2015. Atenção para as cadeiras laterais, que tiveram aumento de mais de 50% na sexta-feira e de quase 40% no sábado!

Coisas que eu acho que acho:

– Sim, Rio Open e Olimpíadas são dois eventos bem diferentes, disputados em arenas diferentes, com estruturas diferentes e chaves diferentes. Cada um tem seus objetivos próprios. Ainda assim, insisto: para o fã de tênis, é difícil justificar que um ingresso para três finais olímpicas custe R$ 220, enquanto a entrada para a decisão do Rio Open – um único jogo – custe R$ 580.


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