Saque e Voleio

Arquivo : replay

Um árbitro cego e uma preposição mal traduzida
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Alexandre Cossenza

Não precisa muito para uma discussão nonsense quando as três pessoas envolvidas são falantes nativos de idiomas diferentes e se veem em uma situação onde a tradução de uma preposição faz toda diferença do mundo. Foi assim que Andy Murray, Novak Djokovic e o árbitro argentino Damian Steiner, que cometeu uma falha absurda ao não enxergar o lance. Vejam, primeiro, o vídeo:

O erro do árbitro fica claro no replay. Djokovic “invade” e rebate enquanto a bola ainda está do outro lado da rede. A regra nem é complicada. Se o tenista fizer contato enquanto a bola estiver do seu lado da quadra, ele pode levar a raquete até o outro lado da rede. É parte da continuação do movimento, e foi isso que o árbitro, de maneira atabalhoada, tentou explicar. Não foi isso, entretanto, que aconteceu. Djokovic tocou na bola enquanto esta ainda estava do lado de Murray.

Antes do ponto seguinte, o campeão de Wimbledon viu o replay no telão da quadra central de Miami e foi questionar Steiner. Djokovic também se dirigiu ao centro da quadra, e foi aí que houve a discórdia. O sérvio afirma que rebateu a bola “over the net”, e o britânico vira-se para o árbitro dizendo isso. O argentino, por sua vez, diz que “over the net” não tem problema e que Djokovic só não poderia rebater a bola do outro lado da rede. O problema, contudo, é que “over the net” e “do outro lado da rede” são, em inglês, sinônimos. A mesma coisa.

Por isso, Murray se vê numa situação surreal, tentando argumentar em inglês algo que o árbitro não entende no idioma. Os comentaristas do TennisTV, inclusive, comentam a situação, falando sobre o quão frustrante é debater com alguém que não é falante nativo do mesmo idioma. Como o cenário se desenhou, Steiner errou duas vezes. Uma quando não enxergou um lance óbvio, sentado na melhor posição do universo para aquele tipo de lance, e outra quando tropeçou no inglês para justificar sua decisão junto a Andy Murray. O que Steiner queria dizer, provavelmente, é que Djokovic fez contato com a bola exatamente acima da fita (o que é permitido) e que, depois, a raquete passou para o outro lado da rede.

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Coisas que eu acho que acho:

– O jogo foi disputado em altíssimo nível desde o começo, e não dá para dizer, com 100% de isenção, que o erro do árbitro foi responsável pela derrota de Murray. É claro que atrapalhou, ainda mais vindo naquele momento, o 12º game do primeiro set. O britânico, no entanto, teve uma quebra de vantagem no segundo set e não aproveitou. Importante lembrar também que Murray teve um break point na primeira parcial, quando Djokovic fazia um péssimo game. O campeão de Wimbledon, entretanto, cometeu um erro nada forçado. No fim das contas, o número 2 do mundo oscilou menos – técnica e mentalmente – e venceu com méritos.

– Vale lembrar de uma cena parecidíssima no Masters de Indian Wells, coincidentemente envolvendo Andy Murray e em um momento bastante delicado da partida. Vejam aqui o que aconteceu.

– No Twitter, já li algumas mensagens de pessoas contestando a postura de Djokovic no incidente. Ficam no ar, contudo, algumas questões. O sérvio a Murray disse que rebateu “over the net”, mas será que ele sabe o significado exato da expressão em inglês? Além disso, será que é fácil para um tenista perceber exatamente em que ponto acima da rede ele fez contato com a bola? O debate, antes de chegar na discussão sobre o caráter do número 2 do mundo, precisa passar por essas duas questõezinhas.

– Só existe uma hipótese em que a regra permite que um tenista toque na bola com ela do outro lado da rede: nos casos raríssimos em que a bola, cheia de efeito, quica na quadra de um tenista e volta, por cima da rede, para o outro lado. Vejam neste vídeo, que a Aliny Calejon encontrou.


Um trio de trapalhadas
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Alexandre Cossenza

Não que fosse esta a intenção, mas a arbitragem anda falhando tanto em Indian Wells que os últimos dias acabaram criando uma espécie de Semana da Perseguição aos Árbitros aqui no blog. Desta vez, quem falhou (e feio!) foi o conceituado árbitro Mohamed Lahyani. O simpático sueco cometeu três erros na partida entre o britânico Andy Murray e o tcheco Jiri Vesely. Veja no vídeo:

 

No primeiro ponto, o juiz de linha aponta bola dentro de Vesely, mas Lahyani chama bola fora. O tcheco, então, pede o replay, que mostra a bola quicando em cima da linha. Ponto para Vesely. No lance imediatamente (!) seguinte, o juizão erra de novo. Murray manda um backhand na paralela, e o juiz de linha grita bola fora. Lahyani, rapidamente, grita “correção, a bola foi boa”. Vesely nem pisca e pede o Hawk-Eye outra vez. Novamente, o replay comprova o erro do árbitro.

A falha mais grave, contudo, veio no tie-break do primeiro set. Com o placar em 2/1 para o adversário, Murray joga uma bola para o alto, e Vesely não espera a bola passar pela rede para rebatê-la. A câmera no meio da quadra mostra nitidamente que o tcheco cometeu a infração, e Lahyani não viu. O campeão de Wimbledon questionou, mas não é possível usar o replay para lances deste tipo. Murray perdeu o tie-break, mas venceu de virada: 6/7(2), 6/4 e 6/4.

E não foi só Andy Murray que teve problemas com a arbitragem na última rodada. Maria Sharapova teve um desafio “roubado”. Ao levantar os braços para reclamar de um grito que veio de fora da quadra, a russa teve seu gesto interpretado como um pedido de replay. A portuguesa Mariana Alves, árbitra de cadeira da partida, acionou o Hawk-Eye sem que esta fosse a intenção de Sharapova.

A ex-número 1 do mundo, no entanto, só queria reclamar de uma chamada de bola fora que veio, aparentemente, do box onde estava a equipe de sua adversária, a italiana Camila Giorgi. Alguém ali gritou bola fora antes do juiz de linha. Como a bola saiu de fato, não fez diferença e, portanto, a queixa de Sharapova não lhe daria o ponto de volta. Ela, no entanto, ficou sem o replay. Veja no vídeo acima.

Em um jogo com muitas quebras de saque, Giorgi surpreendeu e eliminou Sharapova em três sets:6/3, 4/6 e 7/5

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Coisas que eu acho que acho:

– Andy Murray teve outro daqueles dias em que pouca coisa dá certo, mas escapou da eliminação porque Vesely cometeu muitos erros bobos sempre que esteve perto de fechar o jogo. Entre essas falhas, uma meia dúzia de smashes nada complicados. O britânico, contudo, não deixou seus fãs muito animados. Seu próximo desafio, nas oitavas de final, será contra o canadense Milos Raonic.

– Enquanto isso, Roger Federer precisou de dois tie-breaks para eliminar o russo Dmitry Tursunov: 7/6(7) e 7/6(2). Apesar do placar apertado, jamais tive a sensação de que o suíço não esteve no controle das ações. Federer vem jogando um belíssimo tênis desde Melbourne e já acumula vitórias sobre Djokovic, Murray e Berdych em 2014. Um começo de ano muito superior ao de 2013.

– Rafael Nadal não escapou da zebra e tombou diante de Alexandr Dolgopolov em três sets: 6/3, 3/6 e 7/6(5). O número 1 do mundo não joga um tênis eficiente com consistência desde o Australian Open – e nem em Melbourne encantou seus fãs, a não ser nas vitórias sobre Monfils e Federer. No saibro do Rio, foi pouco exigido e, ainda assim, precisou salvar match points contra Pablo Andújar. Em Indian Wells, penou na estreia contra Radek Stepanek e pagou o preço de sua inconsistência contra Dolgopolov. E o ucraniano ainda deu chances, vacilando quanto sacou em 5/3 no terceiro set. No tie-break, Nadal abriu 4/2 e, mais tarde, errou uma bola nada complicada no 5/5. Dolgo avança para encarar Fognini.

– Importante notar: em 2013, Nadal somou 1.900 pontos até o fim de Indian Wells. Este ano, acumulou 1.995. Caminhos diferentes, números parecidos. Este ano, o espanhol ainda disputará o Masters de Miami, algo que não fez no ano passado. Assim, deve terminar o mês de março com mais pontos do que na temporada anterior. Resta saber o que Djokovic, com caminho livre em Indian Wells, somará este ano. Em 2013, o sérvio somou 2.860 até o fim do torneio californiano. Este ano,
tem 540 e pode chegar a 1.540.


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