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Arquivo : público

Em 7 motivos, por que a quadra central do Rio Open não enche
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Alexandre Cossenza

Não importa o que aconteça. Nem para o badalado Bellucci x Nishikori, a quadra Guga Kuerten, principal arena do Rio Open, ficou totalmente cheia. O público até foi bom na terça-feira, mas ainda havia vários assentos vazios. Na quinta, em outro jogo aguardado – Bellucci x Monteiro – foi pior. No melhor dos momentos, a ocupação deve ter ficado por volta dos 70%.

Mas por quê? Os ingressos estão caros? O calor é insuportável? Há atrações melhores fora da quadra? Os motivos são muitos, como já escrevi em um post anterior, e acho que agora vale a pena ir um pouco mais a fundo no assunto. Até porque não há um problema de venda de bilhetes. O torneio vendeu todos ingressos na terça e na quinta. A segunda-feira, que teve 60% das entradas compradas, foi a melhor da história do Rio Open. Na quarta, 75%.

Logo, não é um problema de público. É um problema de assentos ocupados. Mas por que esse povo todo não entra (e fica!) na quadra central?

1. Patrocinadores

O Rio Open dá muitos ingressos para patrocinadores. São eles que pagam a conta, afinal. E eles têm bastante culpa nesse não preenchimento de espaços. Conversei com dois amigos que receberam ingressos de patrocinadores diferentes. Uma empresa simplesmente distribui mal. Várias entradas ficam encalhadas. A outra tinha ingressos sobrando e procurava quem aceitasse. Em outros casos, os ingressos são dados a gente que não se importa com tênis. Dou um exemplo que aconteceu ao lado da área de imprensa, durante a partida entre Thiago Monteiro e Gastão Elias.

Um grupo de torcedoras usando viseiras da loja de móveis Breton entrou e ocupou cerca de 20 lugares. Junto delas, um fotógrafo. Ele fez imagens das mulheres, que passaram boa parte do tempo mexendo nos celulares e usando paus de selfie. cerca de meia hora depois, o grupo deixou a quadra e não voltou mais.

2. Corcovado Club

Também tem a ver com os patrocinadores, mas não só com eles. O Corcovado Club é a área VIP do Rio Open. É para convidados e tem capacidade para mil pessoas. Tem ar-condicionado, um bar da Stella Artois, monitores de TV, decoração da Breton e foi idealizado pelo cenógrafo Abel Gomes, da P&G Cenografia. É uma estrutura digna de área VIP. Muitos dos que vêm ao torneio optam por ficar lá em vez de encarar o calor (até de noite) da área externa.

E nem é só isso. O Corcovado Club é um daqueles espaços aonde as pessoas vão para verem e serem vistas. Faz parte. E também é precisou incluir aqui empresários e todo tipo de pessoa que vem ao evento para fazer contatos, dar asas a projetos, fechar negócios e coisas do gênero. Se faz bem ao tênis e à parte esportiva do torneio, é uma discussão diferente. O Rio Open parece satisfeito com o resultado.

3. Quadra 1

A quadra tem central tem capacidade para 6.200 pessoas. Na Quadra 1, cabem mil espectadores. Com os duplistas escalados sempre na quadra menor (isso foi acordado entre organização e atletas), é preciso levar isso em conta na matemática do público. Com Bruno Soares ou Marcelo Melo jogando, a central sempre perde boa parte desses espectadores – ainda que seja possível entrar na Quadra 1 o dia inteiro com qualquer ingresso (seja para a sessão diurna ou para a noturna).

Ainda assim, é bom ressaltar: nem durante Nishikori x Bellucci nem durante os momentos mais importantes de Bellucci x Monteiro, havia um brasileiro jogando na Quadra 1. Não dá para colocar as duplas na conta desses dois dias específicos.

4. Leblon Boulevard

O chamado “Leblon Boulevard” é a área de convivência do torneio. Tem restaurantes, lojas, bares e estandes com atrações diferentes. Dá para pilotar um simulador de Fórmula 1 em Interlagos na Pirelli, fazer a barba na Granado, encontrar Fernando Meligeni na loja da Fila, adquirir uma bolinha personalizada na Peugeot, jogar tênis virtual no Itaú e carregar o smartphone na Claro, entre outras coisas possibilidade. As opções são interessantes.

E tem, claro, fila. Quem sai da central no intervalo entre sets (a grande maioria), vai ter que ficar um tempinho lá para ir ao banheiro, comer ou tomar um sorvete. E, depois disso, há quem prefira ficar acompanhando os jogos sentado na praça de alimentação, que é coberta e protege do sol.

5. Falta de nomes grandes

A ausência de Rafael Nadal, que esteve nas três edições anteriores do Rio Open, pode não ter afetado significativamente a venda de ingressos, mas parece vir mostrando seu peso na quantidade de gente em quadra. Com um nome gigante, todo mundo quer estar na quadra central quando ele joga.

Ainda que estejam no top 10, Nishikori e Thiem não têm o peso de um Nadal (ou um Djokovic ou um Federer). Nesta sexta-feira, quando Thiem entrou na quadra às 16h45min para as quartas de final contra Diego Schwartzman, havia, se tanto, 500 pessoas na arena.

6. Quadras externas

Também tem isso. Há quem prefira ver treinos. Se Nishikori está em uma quadra externa batendo bola, há quem prefira ficar ali na grade, à espera de uma foto ou um autógrafo, a entrar na quadra central para ver, digamos, Ruud x Carballés Baena. Embora a quantidade de gente nas beiras das quadras este ano seja muito menor do que nas três edições anteriores e isso não sirva como parâmetro para analisar o público dos jogos noturnos, ainda é preciso levar em conta esse fator. O tênis, no fim das contas, compete contra ele mesmo.

7. Calor

Sem o torneio feminino, o Rio Open pôde começar as rodadas mais tarde, às 16h30min, quando o calor não é tanto e já há sombras na quadra central. Ainda assim, o Rio de Janeiro é quente e úmido até nos dias “amenos” em fevereiro. A loja da Fila empresta guarda-chuvas que o povo usa para se proteger do sol, mas nem todos sabem disso. E nem todo mundo aguenta passar tanto tempo no calor.

Coisas que eu acho que acho:

– Como eu escrevi em um post anterior, cada item acima tem peso maior e menor dependendo de uma porção de fatores. O que é inegável é que todos tiveram alguma influência durante a semana.

– Há quem acredite que o Carnaval tem grande parte da culpa. É muito bloco na cidade, a hospedagem é mais cara, as passagens aéreas também. É um argumento bastante questionável porque, como já foi dito lá no alto do post, não é um problema de ingressos vendidos ou de comparecimento de pessoas. O povo comprou entradas e esteve no Jockey. Só não ficou na quadra central.

– Talvez a grande pergunta a se fazer é se o Rio Open deveria repensar sua política de distribuição de ingressos – especialmente a patrocinadores. Só que os vazios na quadra central são recorrentes. Eles estão lá todo ano. É claro que a IMM já observou e discutiu isso. E se continua assim, é porque a organização não parece tão preocupada assim com os buracos na arquibancada.


Uma luz para Thomaz Bellucci
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Alexandre Cossenza

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Vaias na derrota diante de Juan Ignacio Chela na Costa do Sauípe. Vaias na derrota diante de Filippo Volandri em São Paulo. Vaias na derrota diante de Filippo Volandri em São Paulo (aconteceu duas vezes, em 2012 e 2013). É justo dizer que Thomaz Bellucci não tinha boas lembranças de suas últimas três eliminações em solo brasileiro. No Rio, contudo, foi bem diferente. O melhor simplista do país, derrotado por David Ferrer, deixou a Quadra Central do Rio Open aplaudido e ouvindo seu nome gritado por alguns milhares de pessoas.

O tratamento dos fãs, acredito, tem menos a ver com a cidade (sem bairrismo, por favor) do que com a postura e o tênis do próprio Bellucci. O paulista chegou ao Rio de Janeiro em fase nada boa. Veio de problemas físicos no Australian Open e no ATP 250 de Buenos Aires, além de uma derrota para o número 226 do mundo em Viña del Mar. Na Cidade Maravilhosa, porém, seu tênis fluiu melhor. Conseguiu uma bela virada sobre Santiago Giraldo (contra quem tem retrospecto negativo) e aproveitou para repetir a dose sobre Juan Mónaco, que vive péssimo momento.

E foi diante de David Ferrer, nas quartas de final, que o brasileiro fez seu melhor set no torneio. Consciente de que não deveria entrar em longas trocas de bola, Bellucci entrou em quadra atacando e acertando. Fez estrago com seu forehand na paralela enquanto o número 4 do mundo cometia erros incomuns. Venceu a primeira parcial e encantou a torcida, que parecia um tanto incrédula. O paulista até teve suas chances no começo do segundo set, mas o espanhol encontrou seu tênis a tempo.

Nem o apagão, que veio logo depois de Bellucci ser quebrado e pedir atendimento médico no terceiro set, atrapalhou o espanhol. Após quase duas horas de interrupção, Ferrer foi impecável. Sem ceder nenhum break point, manteve a dianteira e marcou uma interessante semifinal contra o ucraniano Alexandr Dolgopolov nas semifinais. Resultado nada surpreendente. Surpresa, para mim, foi ouvir os gritos de “Bellucci, Bellucci” enquanto o tenista saía de quadra. Um bom sinal, de um bom público, que não lotou a Quadra Central, mas reconheceu o esforço e o bom tênis de um bom tenista. Que Bellucci leve a “luz” do Rio de Janeiro para o Brasil Open, em São Paulo.

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Sem ir na toalha:

– Rafael Nadal segue sem problemas no Rio. Na noite de sexta, aplicou 6/1 e 6/0 em cima do português João Sousa e avançou às semifinais. Seu adversário será Pablo Andújar, que também conquistou uma vitória fácil – surpreendentemente fácil: duplo 6/1 sobre Tommy Robredo.

– Com os pontos conquistados no Rio, Bellucci, atual número 130 do mundo, deve aparecer entre os 110 na próxima semana. Ele também voltará a ser o brasileiro mais bem ranqueado, posto ocupado hoje por João Souza, o Feijão.

Coisas que eu acho que acho:

– As curtinhas foras de hora e mal executadas ainda estão lá, e Bellucci volta e meia comete um par de erros bobos, mas é justificável o otimismo. Além de conseguir duas viradas no Rio, o paulista fez mais uma boa análise tática depois da partida contra Ferrer. Que a tendência continue e que todos fiquemos sabendo os porquês das escolhas do brasileiro dentro de quadra. O Brasil Open, com uma chave fraca, é uma chance de ouro para Bellucci somar pontos e voltar ao top 100.

– Pura ironia. Um dia antes, Marcelo Melo comparou-se ao Atlético Mineiro ao falar de sua preferência por jogar na Quadra 1, uma espécie de estádio Independência – um caldeirãozinho – do Rio Open. E aí rola um apagão na Central…

– Sobre o apagão, é preciso admirar a enorme coincidência (se é que você, leitor, acredita em coincidências). A queda de luz na Quadra Central veio logo quando Bellucci (agenciado pela IMX, promotora do torneio) havia sido quebrado no começo do terceiro set e pedia atendimento médico. Pegou mal, muito mal para o Rio Open. Ferrer não saiu nada feliz da quadra.


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