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ITF radicaliza para tentar tornar circuito profissional sustentável
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Alexandre Cossenza

A Federação Internacional de Tênis (ITF) anunciou, nesta quinta-feira, uma série de grandes mudanças no circuito profissional e no sistema de transição pós-juvenil. A intenção da entidade é reduzir o número de tenistas profissionais a um “grupo verdadeiramente profissional” de cerca de 750 homens e 750 mulheres. Hoje, segundo estimativas da ITF, há por volta de 14 mil tenistas competindo em torneios profissionais, e quase metade desse número é composta por gente que não recebe prêmio em dinheiro.

Como isso vai funcionar? Segundo o comunicado da ITF, os atuais torneios de US$ 15 mil serão reposicionados e deixarão de fazer parte do circuito profissional. Eles passarão a integrar uma “Transition Tour” – turnê/tour de transição — e não distribuirão dinheiro, mas darão pontos de entrada na ITF. Só quem tiver esses pontos de entrada vai poder jogar o circuito profissional. A ITF ainda enfatiza que esses torneio de transição serão realizados em espécies de pequenos circuitos regionais, o que vai diminuir custos para tenistas e organizadores.

Segundo a entidade, essa nova estrutura vai “introduzir um caminho profissional mais claro e eficiente e garantir que o prêmio em dinheiro no circuito profissional da ITF [o atual nível Future da ATP] seja mais bem direcionado para garantir que mais jogadores possam viver do esporte profissional.”

Na prática, a ITF está criando um funil para reduzir também o número de eventos profissionais (leia-se “que distribuem dinheiro”). A consequência mais desejada do processo é fazer com que o prêmio em dinheiro que existe atualmente no circuito seja suficiente para manter esse “grupo verdadeiramente profissional” de jogadores em atividade – mesmo que exista outro efeito cruel, que é tornar o tênis competitivo um esporte de acesso ainda mais complicado.

A ITF diz ter chegado a essas conclusões após um longo processo de análise do tênis que incluiu dados de 2001 a 2013 e entrevistas com mais de 60 mil pessoas no meio do tênis (jogadores, federações, técnicos e promotores). O novo presidente da entidade, David Haggerty, diz que “foi o maior estudo do tênis profissional já feito e que ressaltou os ‘desafios’ (em corporativês, desafio é sinônimo de problemas e defeitos) consideráveis na base de nosso esporte. Mais de 14 mil tenistas competiram no nível profissional no ano passado, e isso é simplesmente demais. Mudanças radicais são necessárias para tratar das questões de transição entre o tênis juvenil e o profissional, viabilidade financeira e custos de torneios.”

Números de 2013 a considerar:

– Segundo o estudo, um tenista homem gastava, em média, US$ 38 mil por ano, enquanto uma mulher precisava gastar US$ 40.180. Esse número inclui voos, hospedagem, comida, encordoamento, lavanderia, roupas, equipamento e transporte, mas não leva em conta gastos com treinadores.

– O chamado “break even point” (quando o tenista pelo menos não perde dinheiro para se manter jogando) era o 336º posto no ranking da ATP. Na WTA, o mesmo era o 253º lugar.

– Um total de 3.896 tenistas homens disputaram torneios profissionais e não receberam prêmio em dinheiro nenhum; no circuito feminino, 2.212 atletas jogaram e não ganharam nada.

– Apenas 1% dos tenistas homens abocanhou 60% (US$ 97.448.106) do total do prêmio em dinheiro (cerca de US$ 162 milhões). Entre as mulheres, o mesmo 1% da elite levou 51% da premiação total (cerca de US$ 120 milhões).

Coisas que eu acho que acho:

– Talvez mais importante do que a ITF tomar medidas para mudar o tênis tenha sido a postura de abrir o jogo, citando números e sem esconder o tamanho da desigualdade no esporte e o quão difícil é sobreviver jogando em torneios pequenos. Os relatórios citam várias estatísticas, ilustradas com gráficos e planilhas de todo tipo. Quem quiser se aprofundar pode ler sobre o circuito profissional aqui e sobre o circuito juvenil aqui. O relatório com as entrevistas dos jogadores está neste link, e as entrevistas com não-tenistas estão aqui.

– Uma dos pontos que achei interessante nas pesquisas de opinião é que 70% dos não-tenistas concordaram que havia uma necessidade de mudar a distribuição do prize money. Entre essas mesmas pessoas, a maioria era favorável a aumentar o dinheiro nas primeira rodadas e reduzir nas fases finais. E a opção menos popular foi eliminar as chaves de duplas.


Homens x mulheres: machismo e mercado no tênis
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Alexandre Cossenza

A polêmica do fim de semana foi das grandes. Em uma roda de café da manhã com jornalistas, o CEO de Indian Wells, Raymond Moore, soltou frases nada elogiosas ao circuito feminino de hoje. Em seguida, indagado sobre o assunto, Novak Djokovic reacendeu a sempre debatida questão da igualdade na premiação de homens e mulheres.

O assunto é delicado – como os dois senhores acima deixaram claro – e há questões que precisam ser lembradas para ajudar a contextualizar-sem-defender os dois cavalheiros. Este é um texto opinativo, então peço que leiam até o fim e, depois, comentem à vontade. Vamos, primeiro, às declarações.

“Na minha próxima vida, quando voltar, quero ser alguém na WTA (risos) porque elas pegam carona nos homens. Elas não tomam decisão alguma e são sortudas. Elas têm muita, muita sorte. Se eu fosse uma jogadora, me ajoelharia toda noite e agradeceria a Deus por Roger Federer e Rafael Nadal terem nascido porque eles têm carregado este esporte.”

A frase acima é a primeira frase polêmica de Moore. Ele ainda se atrapalhou ao dizer que a WTA tem “um punhado de promessas atraentes/atrativas que podem assumir o manto (de Serena). Vocês sabem, Muguruza, Genie Bouchard. Eles têm um monte de jogadoras atraentes/atrativas E o padrão do tênis das moças aumentou inacreditavelmente.”

“Attractive”, a palavra original, em inglês, pode significar atrativo ou atraente em português. Para nossa sorte, um jornalista insistiu no assunto e perguntou se Moore estava se referindo aos méritos estéticos ou competitivos das moças. A isto, Moore respondeu que falava de ambos, o que não ajudou exatamente sua causa.

Mais tarde, depois de derrotar um combalido Milos Raonic em uma final sonolenta, Novak Djokovic foi questionado sobre as declarações do CEO de Indian Wells. Sua declarações navegam entre o corajoso, o machista e o impróprio. A íntegra da coletiva está aqui. As partes mais importantes estão abaixo.

“Igualdade de premiação foi o principal assunto no tênis nos últimos sete, oito anos. Passei por esse processo também, então entendo quanta força e energia a WTA e todos que advogam por premiação igual investiram para alcançar isso. Eu as aplaudo por isso. Honestamente. Elas lutaram pelo que merecem e conseguiram. Por outro lado, acho que nosso mundo do tênis masculino, o mundo da ATP, deveria lutar por mais porque as estatísticas mostram que temos mais espectadores nas partidas masculinas. Acho que essa é uma das razões pelas quais deveríamos receber mais. Mas não podemos reclamar porque também temos ótimos prêmios em dinheiro no tênis masculino.”

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Djokovic aparentemente caiu numa contradição ao aplaudir as mulheres e, logo em seguida, dizer que os homens merecem mais. Digo aparentemente porque ele se explica (ou tenta se explicar) na resposta seguinte, quando lhe perguntam se a premiação não deveria ser igual.

“Minha resposta não é ‘sim e não’. É ‘mulheres devem lutar pelo que acham que merecem e nós devemos lutar pelo que acreditamos que merecemos.’ Acho que enquanto for assim e houver dados e estatísticas disponíveis sobre quem atrai mais atenção, espectadores, quem vende mais ingressos e coisas assim, é preciso que seja distribuído justamente com base nisso.”

E, logo na sequência, o número 1 do mundo responde com “absolutamente”, que mulheres deveriam ganhar mais do que homens se as estatísticas mostrarem que elas atraem mais atenção (e dinheiro, claro) do que homens. Depois disso, Nole ainda se atrapalha ao tentar mostrar respeito pelas mulheres, dizendo que “seus corpos são muito diferentes” e “elas precisam passar por muitas coisas diferentes que nós (homens) não precisamos. Vocês sabem, hormônios e coisas diferentes, não precisamos entrar em detalhes.”

Mulheres não decidem

Moore acabou pedindo demissão na segunda-feira, pouco mais de 24 horas depois de suas declarações atabalhoadas. No comunicado oficial divulgado pelo torneio, Larry Ellison, dono do evento, citou Billie Jean King e sua “campanha histórica” pela igualdade no tênis. “O que se seguiu foi um movimento progressivo, de várias gerações e em andamento para tratar mulheres e homens igualmente no esporte.” O bilionário também lembrou que Indian Wells paga o mesmo a homens e mulheres há uma década. A íntegra do comunicado está aqui.

A saída de Moore parece uma resolução adequada para um caso embaraçoso e que poderia, quem sabe, provocar um boicote feminino ao torneio em 2017. Um torneio desse porte, que já ficou tanto tempo sem as irmãs Williams, e que inclusive cogita estar em um patamar ainda maior, não se pode dar ao luxo de permitir outro cenário que prejudique sua imagem.

Dito tudo isto, há dois pontos que ajudam a entender – pelo menos parcialmente – a origem da queixa de alguns homens por prêmios maiores. O primeiro: a última grande negociação por aumento de premiação nos Slams foi liderada pelos integrantes da ATP (com direito a ameaça de boicote). O segundo: tenistas e dirigentes ouviram de executivos dos Slams que seria possível até aumentar a premiação um pouco mais (do que já foi elevado), só que os torneios se viam de mãos atadas porque precisavam igualar as quantias pagas às mulheres.

Resumindo: parte da ATP guarda essa, digamos, mágoa de não ver sua premiação tão alta por causa do circuito feminino. Essa explicação, afinal, foi dada pelos próprios torneios. Não, não justifica o comportamento de Moore, que foi preconceituoso e atabalhoado tanto no que disse quando na maneira como se colocou. No entanto, tendo em vista essa recente negociação, ele não está totalmente equivocado quando diz que as mulheres não decidem.

O mercado livre de Djokovic

Antes de mais nada, é preciso esclarecer um ponto que foi meio distorcido por aí sobre o que declarou o número 1 do mundo. Djokovic não disse pura e simplesmente que “homens devem ganhar mais do que mulheres”. Para o sérvio, não é uma questão de sexo, mas uma relação de mercado, de oferta e demanda. Ele diz se basear em números que provam que o circuito masculino hoje é mais atrativo e, consequentemente, faz mais dinheiro circular. Mas também afirma que se os números fossem inversos, as mulheres deveriam receber mais.

É um mar perigoso para Djokovic navegar e é preciso admirar, nem que por um breve instante, sua coragem de tirar o iate milionário do cais de Monte Carlo e encarar essas ondas traiçoeiras. Gosto da tese do sérvio – enquanto tese. Quem tem mais procura deve cobrar mais. Usando um exemplo assexuado, quem deve cobrar mais pelos direitos de transmissão: a Champions League ou a Libertadores? A melhor competição, com mais mercado, deve cobrar mais. Simples assim.

O comunicado oficial da ATP sobre a polêmica (vide tuíte acima) deixa claro que a entidade adota a mesma linha de pensamento do sérvio. Por isso, ressalta que “operamos no negócio de esporte e entretenimento” e que “respeita o direito dos torneios de tomarem suas próprias decisões em relação à premiação em dinheiro para o tênis feminino, que é um circuito separado.”

Digo dois parágrafos acima que gosto da ideia de mercado livre “enquanto tese” porque essa teoria não funciona na prática quando comparamos gêneros diferentes na mesma modalidade. Nossa sociedade, de modo geral, não consegue fazer isso. A maioria, infelizmente, ainda vê o esporte masculino como superior, mais desenvolvido, mais atrativo.

Há aspectos históricos e culturais que contribuem para isso. Muito dessa visão centralizada no esporte masculino vem de preconceitos que se arrastam desde um passado ainda mais machista, de quando reinavam noções de que tal esporte não é para moças de bem, que mulher não sabe dirigir, que tal atividade física é exigente demais para a biologia do corpo feminino e outros velhos “argumentos”.

Experimente, caro leitor, dizer a um amigo que você prefere curling feminino ao masculino.Depois volte aqui na caixinha de comentários e diga quanto tempo levou para ouvir uma piada sobre vassoura. São preconceitos como esses que fazem com que modalidades como futebol, automobilismo e basquete, tão populares entre os homens, sejam pouco procuradas, por exemplo, no Brasil. E não só isso. Esse machismo histórico também afasta investimentos. Homens, aliás, são maioria entre executivos responsáveis por direcionar verbas de patrocínio.

A teoria de Djokovic, se aplicada com 100% de justiça e eficácia, seria o reflexo de um planeta perfeito, de uma sociedade sem preconceitos. Mas alguém aí imagina isso acontecendo no mundo de hoje? Eu, não.

Slams: ingressos x premiação

O número 1 do mundo diz ter visto estatísticas. Não é difícil imaginar, de fato, que a ATP de Roger Federer e Rafael Nadal seja mais valiosa do que a WTA de hoje, mesmo com Serena Williams e Maria Sharapova sempre ocupando manchetes. Suíço e espanhol deram uma visibilidade monstruosa ao tênis masculino, conquistando e mantendo legiões de fanáticos. Sempre atuando em níveis absurdos, quebrando todos tipos de recordes.

Em sua coletiva após a final contra Azarenka (íntegra aqui), Serena lembrou que os ingressos para a final feminina do US Open do ano passado esgotaram antes dos bilhetes para a decisão masculina. Não me convence como argumento, embora a número 1 tenha razão ao recordar o legado de Billie Jean King e do efeito negativo que os comentários de Moore podem ter sobre mulheres atletas em todo mundo.

A questão dos ingressos do US Open ressalta o potencial das mulheres, mas o problema de citar uma única final (que, ainda por cima, teve a característica excepcional da possibilidade de uma tenista da casa completar o Grand Slam de fato) é se sujeitar ao contra-argumento de que, talvez, nos últimos cinco anos, as outras 19 finais masculinas esgotaram antes e tinham entradas mais caras.

Dito isto, há outra questão que pesa um bocado contra os homens nos Slams. Com exceção das finais, os ingressos são vendidos com antecedência e sem garantia de programação. Quem compra pode ver homens e mulheres de forma (quase sempre) igual. Além disso, há uma série de variáveis que afetam a quantidade de espectadores em uma determinada partida. Uma delas é o horário, algo estipulado pela organização do torneio. É quase impossível medir a diferença de interesse baseado nisso.

Portanto, é difícil imaginar os Slams dando esse passo para trás e diferenciando as premiações de homens e mulheres. É de se considerar também, obviamente, a questão do “politicamente correto” e da imagem que os eventos querem passar. Parece muito mais plausível, então, que os homens incomodados com a premiação atual questionem a ATP e os valores pagos em seus próprios Masters 1.000 ou ATPs 500. Mas será que os promotores têm “caixa” para bancar tudo que os astros do tênis acreditam merecer? Será que o circuito se sustentaria? Será?


O gatilho salarial de uma ATP “holística”
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Alexandre Cossenza

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Demorou, mas veio. E não é muito, mas é alguma coisa. Depois de anunciar um aumento na premiação dos Masters 1.000 e ATPs 250 e depois também de ver a ITF planejar mais dinheiro nos Futures e torneios torneios “de entrada” no circuito, a ATP finalmente garantiu um pagamento melhor nos torneios mais básicos da série Challenger. Até 2017, todos Challengers de premiação mínima (atualmente, US$ 40 mil mais hospedagem) ganharão reajuste de US$ 10 mil e subirão para US$ 50 mil, com hospedagem incluída a todos jogadores da chave principal.

Como os torneios terão dois anos para fazer o ajuste na premiação, a ATP também prometeu compensar de seu próprio bolso, já a partir de 2015, a diferença. Ou seja, os torneios que teriam premiação de US$ 40 mil passarão a pagar US$ 50 mil, com esses US$ 10 mil a mais saindo diretamente dos cofres da entidade.

No comunicado de anúncio, a ATP se orgulha de estar garantindo um aumento de 100% em um período de dez anos. Em 2007, a premiação mínima era de US$ 25 mil. Em 2017, será de US$ 50 mil. Considerando a inflação acumulada e o aumento em certos gastos, a medida me parece mais um gatilho salarial (obrigado, Plano Cruzado) do que um bônus no poder de compra dos atletas.

Ainda assim, o anúncio mostra um certo interesse da ATP com a base do tênis mundial, o que é sempre bom. Até porque o comunicado diz ainda que a entidade está de olho em “calendário, serviços médicos e desenvolvimento de jogadores” e vai fornecer árbitros, fisioterapeutas e equipes de relacionamento de jogadores adicionais a um número de torneios.

“Precisamos ter os Challengers certos nas semanas certas, reduzindo os gastos com viagens e melhorando serviços médicos, educação, arbitragem e marketing nesses eventos. Estamos adotando uma postura holística porque buscamos fazer com que o tempo gasto pelos jogadores no nível Challenger seja mais sustentável”, disse o chefão da ATP, Chris Kermode.

No discurso, é bonito – e eu “adoro” quando um chefão corporativo usa “holístico” num discurso. Resta ver se os tenistas vão ver, na prática, essas melhorias todas. Fiquemos de olho.


ITF aponta: mais de 80% dos tenistas pagam para jogar
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Alexandre Cossenza

Zampieri_SP2014_JoaoPires_blog

O número assusta, mas é isso mesmo: no circuito masculino, que tem 2.168 tenistas ranqueados, apenas os 336 primeiros não perdem dinheiro. A estatística faz parte de um estudo da Federação Internacional de Tênis (ITF), que anda preocupada com o desequilíbrio financeiro em seu esporte. O próximo objetivo da entidade agora é conseguir aumentar a premiação em dinheiro nos torneios “de entrada” do circuito mundial. É o que relata uma reportagem do “New York Times”.

O anúncio da ITF vem poucos dias depois de a ATP prometer um grande reajuste em seus torneios (vide o post anterior deste blog). Ainda segundo a reportagem, a pesquisa promovida pela ITF levou em conta mais de sete mil jogadores e analisou números dos últimos 14 anos para avaliar as diferenças nos gastos dos jogadores de diferentes faixas de ranking. O levantamento também considerou questões geográficas (onde moram e jogam os atletas), etárias e o decrescente (e preocupante) nível de sucesso entre jogadores em transição. Segundo a ITF, hoje em dia há mais gente competindo no juvenil, mas uma porcentagem muito menor desse grupo consegue alcançar um ranking profissional.

A ITF constatou que apenas 1% (ou seja, o top 50) dos tenistas que disputam o circuito masculino ficam com 60% da premiação em dinheiro que é distribuída por todos torneios ao longo do ano. No circuito feminino, os números não são muito diferentes. Lá, o 1% do topo embolsa 51% do dinheiro.

A ideia da entidade que regula o tênis mundial é aumentar o prêmio em dinheiro em todos os níveis de seus torneios. No circuito masculino, a ITF é responsável pelos Futures, que têm premiação de US$ 10 mil e US$ 15 mil. No circuito feminino, a entidade controla torneios que vão de US$ 10 mil a US$ 100 mil (a diferença básica é que a ATP regula os Challengers, eventos que dão de US$ 35 a US$ 125 mil, enquanto a WTA deixa esse mesmo nível de torneios a cargo da ITF).

Se a proposta for aprovada pela diretoria, os aumentos valerão a partir de 2016. Os torneios de US$ 10 mil passarão a valer US$ 15 mil; os atuais eventos de US$ 15 mil saltarão para US$ 25 mil; os de US$ 50 mil passarão a distribuir US$ 60 mil; os de US$ 75 mil pularão para US$ 90 mil; e os de US$ 100 mil vão a US$ 125 mil.

Em porcentagens, o reajuste é considerável: são 50% de aumento nos torneios de US$ 10 mil e 66% nos eventos de US$ 15 mil. Não vai solucionar de vez o problema, mas é um começo. Até porque o número que cito no começo do post preocupa: levando em conta gastos mínimos, um tenista, em média, deixa de perder dinheiro quando chega ao ranking de número 336 (254 entre as mulheres). Ou seja, dos 2.168 tenistas ranqueados 84,5% perdem dinheiro (e essa porcentagem seria mais alta de incluísse um bocado de gente que vem tentando a sorte no circuito, mas sem conseguir pontuar). Alguém consegue pensar em outra profissão com tanta gente pagando para trabalhar?


ATP aumenta prêmios: uns mais iguais que os outros
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Alexandre Cossenza

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Cheia de pompa e orgulhosa de si, a ATP fez o anúncio na última sexta-feira: a premiação em dinheiro aumentará nos Masters 1.000 e ATPs 250 de 2015 a 2018. Assim, a premiação total ao longo ano ultrapassará os US$ 100 milhões na próxima temporada e alcançará US$ 135 milhões em 2018. E tudo lindo no mundo maravilhoso do tênis profissional, certo? Errado. Muito errado.

A conta não é difícil de fazer. Os Masters 1.000, frequentados normalmente por um grupo que envolve os 60-70 mais bem ranqueados, aumentarão seus prêmios em 14% anualmente até 2018. Os ATPs 250, torneios menores, em que atletas fora do top 100 conseguem ocasionalmente entrar sem qualifying, terão aumento de apenas 3% anuais. Parece justo. Os torneios com mais visibilidade e patrocinadores de mais peso devem pagar ainda mais, certo? Errado.

A questão é que colocar mais dinheiro em jogo nos torneios maiores só aumenta o problema da distribuição de renda no tênis. Hoje, enquanto um quadrifinalista de Grand Slam recebe cerca de US$ 350 mil (foram US$ 370 mil no US Open), quem perde na primeira rodada leva para casa mais ou menos um décimo disso: US$ 35 mil era o valor pago no último US Open. Assim, ano após ano, a elite torna-se mais elite, enquanto o povo que ocupa a faixa entre 80-120 passa aperto o ano inteiro. Há quem possa viajar com estafe completo (técnico, preparador físico, psicólogo), mas também há quem precise de ajuda de sua confederação para conseguir pagar as contas e viajar o circuito o ano inteiro.

O panorama é mais complexo do que parece. Os tenistas passaram alguns anos reivindicando aumento nas premiações dos Grand Slams. Os quatro torneios repassavam aos atletas uma porcentagem ínfima de seus ganhos. Houve até uma ameaça velada de boicote, que não saiu das salas de reunião porque os Slams cederam. O reajuste veio, e com porcentagem maior para as primeiras rodadas. Era, afinal, uma maneira de compensar os míseros prêmios dos ATPs 250 e do Circuito Challenger. Para muitos dessa turma, US$ 35 mil significa o maior prêmio em dinheiro de toda a temporada.

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O renovado prize money dos Slams, no entanto, não resolveu o problema da “desigualdade social”. Suponhamos que os perdedores de primeira rodada, que ganhavam cerca de US$ 20 mil até pouco tempo atrás, recebessem aumento de 100%. Passariam a ganhar US$ 40 mil. Suponhamos também que os campeões, com prêmio de US$ 2 milhões, recebessem “só” 10% de reajuste. A recompensa pelo título subiria em US$ 200 mil. Uma diferença e tanto, não?

Não existe solução simples. O abismo de remuneração entre os tenistas do top 20 e aqueles que oscilam entre 70-80 e 150 só tende a assustar ainda mais com esse reajuste comemorado pela ATP. E, como se não bastasse, os torneios da série Challenger (onde está a maioria dos tenistas que tentam um lugar ao sol) seguem sem uma luz no fim do túnel. O que mudou nos últimos dez anos foi a premiação mínima, que saltou de US$ 25 mil para US$ 35 mil (a serem distribuídos entre todos participantes). No entanto, a premiação máxima segue estacionada em US$ 125 mil, mesmo valor máximo do circuito em 1994!

Aliás, essa é outra conta fácil – e interessante – de fazer. Enquanto a série Challenger paga o mesmo de 20 anos atrás (embora algumas temporadas tenham visto um par de torneios de US$ 150 mil, abolida pela ATP), a premiação dos Masters 1.000 quase triplicou. Monte Carlo, por exemplo, distribuía US$ 1,47 milhão em 1994. Hoje, paga US$ 3,6. Logo, 20 anos atrás, um Challenger equivalia a cerca de 8,5% de um Masters 1.000. Hoje, vale 3,47%.

A consequência máxima é que saltar de nível ficou muito mais difícil. Como competir em igualdade de condições se o adversário acima vem ganhando mais dinheiro e, portanto, treinando, viajando e se alimentando em condições mais favoráveis? O tênis nunca foi tão desnivelado quanto hoje, e nada indica que exista uma placa de retorno nos próximos quilômetros dessa estrada.

Coisas que eu acho que acho:

– O mundo dos Challengers ainda tem “obstáculos” inesperados. Quem jogou o Aberto de São Paulo este ano (o torneio da foto acima) está sem receber a premiação até hoje.

– Os Masters 1.000 não estão nada felizes com o aumento que terão de dar nas próximas quatro temporadas. Escrevo sobre o assunto com mais detalhes amanhã.


Bruno Soares, milionário entre aspas
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Alexandre Cossenza

Quando terminou sua participação no Australian Open, Bruno Soares ultrapassou a marca de US$ 2 milhões em prêmios conquistados na carreira. Quem acompanha tênis sabe que o esse número, que aparece na página do jogador no site da ATP é enganoso. São poucos tenistas, contudo, que topam falar aberta e extensivamente sobre o assunto. Pois o mineiro, atual número 3 do mundo nas duplas e que estreia no Brasil Open nesta quarta-feira, passou um bom tempo conversando comigo sobre dinheiro.

Quanto se paga de imposto, quanto se gasta, quanto é possível guardar… Bruno contou casos pessoais e riu da época em que passou sufoco para pagar seu apartamento. O mineiro também falou sobre seus gastos, investimentos – alguns nada lucrativos – e sobre o receio de ver sua carreira interrompida repentinamente. Foi um ótimo e longo papo. Leiam!

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Quanto se paga de imposto, em média, nos torneios?
Gira em torno de 25%. Em alguns lugares, mais. Em outros, menos.

Então, desses US$ 2 milhões que você ganhou…
Já tira quinhentos. Já caiu pra um milhão e meio. Muita gente comenta isso, mas a realidade desse dinheiro é muito diferente para cada jogador. Uma coisa é eu, com 20 anos, ter dois milhões em prize money. Isso quer dizer que eu consegui juntar muita coisa. Outra coisa é eu, com 31 anos, ter dois milhões. A gente tem que ver o tanto que eu gastei até começar a sair positivo. Não posso reclamar dos últimos três anos, quando eu consegui juntar uma coisinha. Mas até eu conseguir juntar… Esse é o balanço que cada jogador tem que fazer. Quantos anos ele jogou, quais foram os anos bons, o que ele conseguiu capitalizar em cada ano, aí você tem uma ideia boa de quanto ele conseguiu juntar na carreira.

Qual foi seu primeiro ano positivo?
Positivo? (para e pensa) Meu primeiro ano positivo foi 2008. Foi o ano de Roland Garros (Soares chegou às semifinais de duplas). Foi um ano que eu ganhei um bom dinheiro e foi um ano low cost. Foi esse o principal motivo. Até eu me machucar, em 2005, eu investi demais na minha carreira. Naquela época, eu saía bastante negativo. Além de eu não ganhar dinheiro, eu ainda viajava com preparador físico e treinador full time em quase todas as semanas, morava fora de Belo Horizonte, então eu tinha muito gasto.

E como você se sustentava? A família bancava?
Família ajudou muito. Na época de juvenil, fui bancado principalmente pelo Minas Tênis Clube. Na época de profissional, meu pai tinha condição. Eu consegui alguns pequenos contratos porque fui um bom juvenil e tudo, o que me ajudou. O que eu ganhava era investimento para a minha carreira. Muita sorte de eu ter pais com condição de me apoiar.

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Você tem ideia de quanto gastava por ano?
Nos meus primeiros anos de profissional, o gasto era muito porque eu viajei de 2001 até 2004 com treinador full time. Na época do Fernandão (Fernando Roese) era mais fácil porque dividia. Isso é ideal para quem está começando. Eu dividia a maior parte do tempo. Mas nessa época, ao mesmo tempo, eu tinha o custo de morar em Porto Alegre, que eu assumia. Depois acabei ficando três anos com o Rodrigo Laender, o que facilitou na parte de morar em Belo Horizonte, mas piorava porque eu viajava com ele sozinho. É difícil, tem que parar para fazer uma conta. Trinta semanas, são mais ou menos seis ou sete viagens internacionais de ida e volta, trechos internos aqui e ali, salário do treinador, despesas de alimentação… Cara, vou falar que um ano full time de um bom jogador custa mais ou menos US$ 75 mil a US$ 100 mil. Isso naquela época, entrando no circuito e jogando Future. E vou tirar aí porcentagem, porque todos treinadores trabalham com porcentagem. Isso é completamente variável, dependendo do jogador. E se você tiver um treinador como o Brad Gilbert, com certeza você vai gastar um pouquinho a mais (risos) do que US$ 100 mil.

Hoje, sua realidade é outra. As viagens são diferentes, imagino que com trechos mais longos…
(interrompendo) As viagens até que são parecidas. O que acontece? Eu fiquei à base do low cost por muito tempo. Quando voltei (em 2007), não queria pedir mais ajuda dos meus pais, então usei o que eu tinha. Eu tinha trabalhado uma época, juntado dinheiro, então investi essa grana minha para voltar.

Esse era o dinheiro de pôquer e da academia (Bruno teve uma franquia da rede Curves por algum tempo)?
Da academia, muito mais. De pôquer, um pouco. Na academia, tive dois bons anos. Na metade de 2007 e 2008, fiquei bem low cost. Em 2008, foi a grande mudança na minha vida porque a gente fez a equipe Centauro. Eu tive a felicidade de entrar. Eu, Marcelo (Melo) e André (Sá), com o Daniel (Melo) de coach, então a Centauro me dava uma grana. Era baseado no ranking, um contrato muito legal de bônus. Isso já me deu um alívio para esquecer despesas e pensar no tênis. De lá para cá, foi quando… A Centauro nos apoiou por três anos. Hoje, eu tenho BMG, Correios, Asics, Estácio… (para e repete) BMG, MRV, Asics, Correios e Estácio…

(interrompendo) Se está ficando difícil para lembrar, é bom! (risos)
É, exatamente. É porque eu sempre falo (os nomes) na mesma ordem. E aí eu consegui ter a tranquilidade pra apenas jogar tênis e juntar o que eu ganhava.

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Você sabe quanto gastou ano passado?
Não sei, não sei. Eu nunca, na verdade, fui de ficar anotando. Sempre sei, no final, o que sobrou. Esse ano deu X positivo, X negativo, zero a zero… É mais pela minha conta, que eu controlo, que eu pago minhas despesas. Ali tem aquele dinheiro que era para o ano. Se no fim, tem um pouquinho a mais… Mas não muda muito, não.

Vamos supor que você tivesse uma camisa limpa, sem patrocinadores. O lucro não seria….
(interrompendo) Se eu tivesse uma camisa limpa, sem nenhum patrocínio, sem apoio da Confederação (CBT), que ajuda bastante, olha… Para você ter ideia, eu e Alex (Peya) trabalhamos com o (técnico) Scotty (Davidoff), que vai para todos Masters 1.000, todos Grand Slams e mais alguns torneios. Apesar de a gente dividir o custo com outros jogadores, vai gasto. Tem o salário dele, tem tudo. As viagens são sempre internacionais.

Você já viaja sempre de executiva?
Não. É raro eu pagar. Tem algumas viagens… Por exemplo, para a Austrália este ano eu fui de executiva porque eu fui jogar Doha e eu ia viajar muito. Esse é um investimento que, para o corpo, faz muita diferença no longo prazo. Vale a pena. Mas eu me armei muito bem. Eu viajo sempre pela mesma empresa, pela mesma aliança, então consigo viajar muito de executiva porque eu tenho o esquema da American (Airlines), uso milha, procuro pegar as passagens que eu consiga, no longo prazo, ir de executiva. Mas a vida inteira que eu banquei foi de econômica. A diferença é muito grande. Se não tivesse nada na camiseta, a conta seria outra.

Mas ainda ficaria no positivo…
Ficava, ficava. Nos últimos quatro anos, ficava, com certeza. Conseguiria juntar. Ano passado foi um ano excepcional. Acho que o mais importante… Eu tenho muita noção do que no dia que eu parar de jogar, não é que eu vou diminuir o que eu ganho mensalmente. Eu vou para zero! Vou ter que começar alguma coisa de novo, então sou muito ciente do lance de investir, juntar muito bem o dinheirinho que eu sei que foi suado para começar a ganhar.

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Muita gente acha que tenista é milionário?
A realidade é muito diferente. As pessoas falam “Nadal faturou 60 milhões.” Beleza. Nadal ganha dinheiro para cacete, todo mundo sabe. O Federer também, o Djokovic também. Mas a realidade da turma de baixo é muito diferente. Tem muita gente que fala “pô, fulano de tal tem três milhões de prize money.” Beleza, mas o cara jogou 15 anos, viajando full time com coach e, se bobear, ele está negativo. São 20% de imposto na fonte, disso aí ninguém foge, a não ser que você jogue o ano inteiro em Dubai. É legal o pessoal ter essa consciência, até para as empresas que estão investindo, do tanto que é caro ser um jogador de tênis. E vale lembrar que eu tive a felicidade de ter o Minas Tênis Clube, mas tem muita gente que começa aos 14 anos se bancando, treina em academia particular. Na época do juvenil, eu não pagava treinamento, viagem, nada. Tem gente que entra no profissional com saldo de menos trezentos mil porque está se bancando.

E isso é a grande maioria do circuito…
Você pega os argentinos, os caras que jogavam na minha época (de juvenil)… o (Carlos, número 50 do mundo) Berlocq é um. Hoje, ganha dinheiro. Mas ele ia para a Europa e ficava oito meses sem voltar para casa. Alugava uma casinha na Itália e ficava, meu amigo. Low cost! Esses caras têm um valor f… Hoje, está 40 do mundo, as pessoas falam que ganha dinheiro, mas ninguém lembra que ele saía da Argentina em fevereiro e voltava em novembro! Não via família, não via mulher, não via ninguém. Estava lá na raça. Ia para um país que tinha muito torneio, passava o ano inteiro jogando ali pertinho. Para isso aí, sim, você tem que tirar o chapéu. Ele fez isso três, quatro anos da vida dele. Agora merece ganhar seu dinheiro e merece juntar. Quando acabar, acabou-acabou. Não tem aposentadoria do governo. Tem que se virar e começar outra coisa.

A fama de mineiro se aplica? Você guarda bastante?
Vale um pouco. Falam que mineiro é difícil de soltar verba. Não é que eu sou difícil de soltar. Acho que eu solto a verba para as coisas que eu acho que valem a pena. Uma viagem com a minha esposa de férias, um bom jantar, um bom restaurante… Esse tipo de coisa vale. Minha mãe sempre disse: “Nunca economize com comida. É o seu combustível.” Obviamente, a gente não precisa ir no Fasano, mas não vamos comer cheeseburger no McDonald’s para jogar no outro dia. Isso é uma coisa importante. Eu sou um cara organizado. É a melhor maneira de definir.

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Você investe em quê?
Em tudo.

Imóvel, ação, tudo mesmo?
Imóvel, ação e renda fixa. São os principais.

Não perde nada?
Perco. Perdi. Pô, nos últimos dois anos, tomei uma manta em ação! Igual a todo mundo, eu acho. Mas eu invisto muito mais em fundos de ação. A maioria, no ano passado, foi negativo. Mas compensou… Tem alguma coisa de multimercado, alguma coisa de renda fixa. Vou controlando. Tenho consciência que ação tem mais risco e faz parte perder ou ganhar.

Você tem conta fora do país?
Tenho porque sou obrigado a ter. A gente recebe nosso dinheiro lá fora, então tem que ter uma conta internacional para receber seu prize money.

Pode receber em cash, se quiser?
Não. Você pode receber em cheque. Chega na sua casa, mas aí você vai tomar uma manta desgraçada para trocar no Brasil. A ATP tem parceria com o Merril Lynch e o BNP Paribas. A grande maioria dos jogadores tem contas nesses bancos. Os europeus têm contas nos seus próprios bancos porque é normal para eles esse tipo de transação. No Brasil, não é normal. Eles não conseguem depositar numa conta no Brasil. Tem que ter uma conta lá fora.

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E mudou muito seu estilo de vida desde 2008?
Mudei de carro e tal, mas acho que essa é a única coisa, o único gasto que eu tenho. Eu sei que minha carreira pode acabar amanhã! Eu quero jogar até 2020, mas ela pode acabar amanhã. Eu tenho plena consciência disso.

Você falou isso muito no automático. Isso está muito bem…
(interrompendo) Isso está nítido. Já aconteceu uma vez. Eu sei que pode acontecer. Hoje, acredito que se eu ficar dois anos parado de novo, não sei se tenho forças para voltar. Naquela época, eu tinha 23 anos. Hoje, estou com quase 32. Justamente por isso que não faço extravagâncias e nem vou fazer. Eu sei o tanto que foi difícil juntar esse dinheiro.

E mora no mesmo apartamento?
Moro. É uma história engraçada porque (na época da academia) eu queria comprar um apartamento, já estava pensando em casar com a Bruna (atual esposa), aí fiz as contas e entrei em um grupo de investimento. Falei “vai ser o maior negoção porque vai render bastante e é uma coisa que eu consigo pagar.” Aí eu fiz as contas, só que tinha uns seis meses que a academia estava dando a mesma coisa. Botei tudo no papel, bonitinho, e falei “só preciso a academia ficar assim pelos próximos três anos e tá beleza.” Era o tempo que construía o prédio. Cara, deu um ano e a academia despencou. Não tinha mais nada, aí voltei a jogar tênis. Falei “f…” O que eu tinha precisava botar no tênis. “Vou ter que vender a parada.” Foi na época de 2008, só que, sorte minha, já fiz aquela semi de Roland Garros, consegui botar um caixa, aí dei aquela segurada e fui pagando, pagando… Mas foi engraçado. Eu entrei no meu apartamento em julho de 2010. Do dia que eu fechei o negócio, que foi final de 2006, eu passei esses quatro anos sem nenhum real na minha conta. Tudo que entrava era para o apartamento. Lembro que nós entramos, eu sentei com a Bruna e falei “eu preciso de uma reserva.” Mas foi legal, foi a maior emoção, a realização de um sonho. É impressionante.


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